Sonetos sobre Febre

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Sonetos de febre escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Aparição

Por uma estrada de astros e perfumes
A Santa Virgem veio ter comigo:
Doiravam-lhe o cabelo claros lumes
Do sacrossanto resplendor amigo.

Dos olhos divinais no doce abrigo
N√£o tinha laivos de Paix√Ķes e ci√ļmes:
Domadora do Mal e do perigo
Da montanha da Fe galgara os cumes.

Vestida na alva excelsa dos Profetas
Falou na ideal resignação de Ascetas,
Que a febre dos desejos aquebranta.

No entanto os olhos dela vacilavam,
Pelo mistério, pela dor flutuavam,
Vagos e tristes, apesar de Santa!

Vita Nuova

Se ao mesmo gozo antigo me convidas,
Com esses mesmos olhos abrasados,
Mata a recordação das horas idas,
Das horas que vivemos apartados!

N√£o me fales das l√°grimas perdidas,
N√£o me fales dos beijos dissipados!
H√° numa vida humana cem mil vidas,
Cabem num coração cem mil pecados!

Amo-te! A febre, que supunhas morta,
Revive. Esquece o meu passado, louca!
Que importa a vida que passou? que importa,

Se inda te amo, depois de amores tantos,
E inda tenho, nos olhos e na boca,
Novas fontes de beijos e de prantos?!

Vis√£o Da Morte

Olhos voltados para mim e abertos
Os braços brancos, os nervosos braços,
Vens d’espa√ßos estranhos, dos espa√ßos
Infinitos, int√©rminos, desertos…

Do teu perfil os tímidos, incertos
Traços indefinidos, vagos traços
Deixam, da luz nos ouros e nos aços,
Outra luz de que os céus ficam cobertos.

Deixam nos céus uma outra luz mortuária,
Uma outra luz de lívidos martírios,
De agonies, de m√°goa funer√°ria…

E causas febre e horror, frio, delírios,
√ď Noiva do Sepulcro, solit√°ria,
Branca e sinistra no clarão dos círios!

Mocidade

Ah! esta mocidade! — Quem √© mo√ßo
Sente vibrar a febre enlouquecida
Das ilus√Ķes, da cren√ßa mais florida
Na muscular art√©ria de Colosso…

Das incertezas nunca mede o po√ßo…
Asas abertas — na amplid√£o da vida,
P√°ramo a dentro — de cabe√ßa erguida,
V√™ do futuro o mais alegre esbo√ßo…

Chega a velhice, a neve das idades
E quem foi moço, volve, com saudades,
Do azul passado, o fulgido comp√™ndio…

Ai! esta mocidade palpitante,
Lembra um inseto de ouro, rutilante,
Em derredor das chamas de um incêndio!

Eu Planto no Teu Corpo

Como se arrasta no sol morno um verme
Por sobre a polpa de uma fruta, eu durmo
A tua carne e sinto o teu contorno
Entre os meus braços como um fruto morno.

E a minha boca sobre a pele, um verme,
Vai percorrendo o teu sorriso, e torno
Ao longo do nariz, depois contorno
Os teus olhos fechados por querer-me.

E desço o teu pescoço, feito um mono,
Para os teus seios mornos, como um verme
Por sobre os frutos prontos para o tombo.

Vertendo a unção da morte nos teus membros,
E estremecendo numa cruz de febre,
Eu planto no teu corpo a flor de um pombo.

Ar

Vivificante ar, pai da existência,
Assopro animador do Autor Divino,
Deste nosso subtil moto contino
Composto, onde um Deus p√īs sua ci√™ncia!

Tu tens, ó ar, a excelsa preeminência
De ser exalação do bafo Trino,
Tu susténs, sem cair, o home a pino:
Sem ti tem sempre pronta a decadência.

Tu as ardentes febres lhe mitigas
Nesta, do mundo, trabalhosa lida,
Nestas da Terra (sem cessar) fadigas.

Tu és o sustentáculo da vida,
Porém, quando do corpo te desligas,
Lhe d√°s, com dor, eterna despedida.

A Flor Do C√°rcere

Nascera ali – no limo viridente
Dos muros da pris√£o – como uma esmola
Da natureza a um cora√ß√£o que estiola –
Aquela flor imaculada e olente…

E ele que f√īra um bruto, e vil descrente,
Quanta vez, numa prece, ungido, cola
O l√°bio seco, na √ļmida corola
Daquela flor alv√≠ssima e silente!…

E – ele – que sofre e para a dor existe –
Quantas vezes no peito o pranto estanca!..
Quantas vezes na veia a febre acalma,

Fitando aquela flor t√£o pura e triste!…
– Aquela estrela perfumada e branca,
Que cintila na noite de sua alma…

Perdoa-Me Vis√£o Dos Meus Amores

Perdoa-me vis√£o dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando!…
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo a estação das flores!

De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais v√£o revelando
Que peno e morro de amorosas dores…

Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora…

Sem que √ļltima esperan√ßa me conforte,
Eu – que outrora vivia! – eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!

O Martírio Do Artista

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a idéa! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do √ļltimo momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!…
√Č como o paral√≠tico que, √† mingua
Da própria voz e na que ardente o lavra

Febre de em v√£o falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra!

Ocasos

Morrem no Azul saudades infinitas
Mist√©rios e segredos inef√°veis…
Ah! Vagas ilus√Ķes imponder√°veis,
Esperanças acerbas e benditas.

√ānsias das horas m√≠sticas e aflitas,
De horas amargas das intermin√°veis
Cogita√ß√Ķes e agruras insond√°veis
De febres tredas, tr√°gicas, malditas.

Cogita√ß√Ķes de horas de assombro e espanto
Quando das almas num relevo santo
Fulgem de outrora os sonhos apagados.

E os bracos brancos e tentaculosos
Da Morte, frios, √°lgidos, nervosos,
Abrem-se pare mim torporizados.

A M√°scara

Eu sei que há muito pranto na existência,
Dores que ferem cora√ß√Ķes de pedra,
E onde a vida borbulha e o sangue medra,
Aí existe a mágoa em sua essência.

No delírio, porém, da febre ardente
Da ventura fugaz e transitória
O peito rompe a capa tormentória
Para sorrindo palpitar contente.

Assim a turba inconsciente passa,
Muitos que esgotam do prazer a taça
Sentem no peito a dor indefinida.

E entre a m√°goa que masc’ra eterna apouca
A humanidade ri-se e ri-se louca
No carnaval intérmino da vida.

Vision√°rios

Armam batalhas pelo mundo adiante
Os que vagam no mundos vision√°rios,
Abrindo as √°ureas portas de sacr√°rios
Do Mistério soturno e palpitante.

O coração flameja a cada instante
Com brilho estranho, com fervores v√°rios,
Sente a febre dos bons mission√°rios
Da ardente catequese fecundante.

Os vision√°rios v√£o buscar frescura
De √°gua celeste na cisterna pura
Da Esperan√ßa, por horas nebulosas…

Buscam frescura, um outro novo encanto…
E livres, belos através do pranto,
Falam baixo com as almas misteriosas!

Nocturno

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu s√≥ entendes bem o meu tormento…

Como um canto longínquo Рtriste e lento-
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento…

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre vis√Ķes, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!

Era a Memória Ardente a Inclinar-se

Era a memória ardente a inclinar-se
à giesta do tempo por frescura
mas o que em seu espelho se figura
vê que está só e a mesma dor foi dar-se

noite e dia e silente de amargura
uma saudade em febre o viu queimar-se
at√© vir por um “sim” a consolar-se
e do perd√£o mudo hino lhe assegura

levando imagens e sinais de vez
O olhar liberto penetrou no assento
do alto luto onde da palidez

dos invernos se erguia outro rebento
de c√°lices que embalam as sementes
dando ao nome louvado descendentes.

Tradução de Vasco Graça Moura

Em Viagem

Pelo caminho estreito, aonde a custo
Se encontra uma só flor, ou ave, ou fonte,
Mas só bruta aridez de áspero monte
E os soes e a febre do areal adusto,

Pelo caminho estreito entrei sem susto
E sem susto encarei, vendo-os defronte,
Fantasmas que surgiam do horizonte
A acommeter meu cora√ß√£o robusto…

Quem sois vós, peregrinos singulares?
Dor, T√©dio, Desenganos e Pesares…
Atraz d’eles a Morte espreita ainda…

Conheço-vos. Meus guias derradeiros
Sereis vós. Silenciosos companheiros,
Bemvindos, pois, e tu, Morte, bemvinda!

Invulner√°vel

Quando dos carnavais da raça humana
Forem caindo as m√°scaras grotescas
E as atitudes mais funambulescas
Se desfizerem no feroz Nirvana;

Quando tudo ruir na febre insana,
Nas vertigens bizarras, pitorescas
De um mundo de emo√ß√Ķes carnavalescas
Que ri da Fé profunda e soberana,

Vendo passar a l√ļgubre, fun√©rea
Galeria sinistra da Miséria,
Com as m√°scaras do rosto descoladas,

Tu que és o deus, o deus invulnerável,
Reseiste a tudo e fica formid√°vel,
No Silêncio das nooites estreladas!

Fogo-F√°tuo

Cabelos brancos! dai-me, enfim, a calma
A esta tortura de homem e de artista:
Desdém pelo que encerra a minha palma,
E ambição pelo mais que não exista;

Esta febre, que o espírito me encalma
E logo me enregela; esta conquista
De idéias, ao nascer, morrendo na alma,
De mundos, ao raiar, murchando à vista:

Esta melancolia sem remédio,
Saudade sem razão, louca esperança
Ardendo em choros e findando em tédio;

Esta ansiedade absurda, esta corrida
Para fugir o que o meu sonho alcança,
Para querer o que n√£o h√° na vida!

A Alma Dos Vinte Anos

A alma dos meus vinte anos noutro dia
Senti volver-me ao peito, e pondo fora
A outra, a enferma, que l√° dentro mora,
Ria em meus l√°bios, em meus olhos ria.

Achava-me ao teu lado ent√£o, Luzia,
E da idade que tens na mesma aurora;
A tudo o que j√° fui, tornava agora,
Tudo o que ora n√£o sou, me renascia.

Ressenti da paix√£o primeira e ardente
A febre, ressurgiu-me o amor antigo
Com os seus desvarios e com os seus enganos…

Mas ah! quando te foste, novamente
A alma de hoje tornou a ser comigo,
E foi contigo a alma dos meus vinte anos.

Boca Imortal

Abre a boca mordaz num riso convulsivo
√ď fera sensual, luxuriosa fera!
Que essa boca nervosa, em riso de pantera,
Quando ri para mim lembra um capro lascivo.

Teu olhar d√°-me febre e d√°-me um brusco e vivo
Tremor as carnes, que eu, se ele em mim reverbera,
Fico aceso no horror da paix√£o que ele gera,
Inflamada, fatal, dum sangue rubro e ativo.

Mas a boca produz tais sensa√ß√Ķes de morte,
O teu riso, afinal, é tão profundo e forte
E tem de tanta dor tantas negras raízes;

Rigolboche do tom, ó flor pompadouresca!
Que és, para mim, no mundo, a trágica e dantesca
Imperatriz da Dor, entre as imperatrizes!

Sentimentos Carnais

Sentimentos carnais, esses que agitam
Todo o teu ser e o tornam convulsivo…
Sentimentos ind√īmitos que gritam
Na febre intensa de um desejo altivo.

√ānsias mortais, ang√ļstias que palpitam,
V√£s dilacera√ß√Ķes de um sonho esquivo,
Perdido, errante, pelos céus, que fitam
Do alto, nas almas, o tormento vivo.

V√£s dilacera√ß√Ķes de um Sonho estranho,
Errante, como ovelhas de um rebanho,
Na noite de h√≥stias de astros constelada…

Errante, errante, ao turbilh√£o dos ventos,
Sentimentos carnais, v√£os sentimentos
De chama pelos tempos apagada…