Passagens de Fernando Pessoa

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Matar o sonho √© matarmo-nos. √Č mutilar a nossa alma. O sonho √© o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.

Nunca amamos ningu√©m. Amamos, t√£o-somente, a ideia que fazemos de algu√©m. √Č a um conceito nosso – em suma, √© a n√≥s mesmos – que amamos. Isso √© verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por interm√©dio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por interm√©dio de uma ideia nossa.

Quando √© que eu serei da tua cor, Do teu pl√°cido e azul encanto, √ď claro dia exterior, √ď c√©u mais √ļtil que o meu pranto?

De Quem é o Olhar

De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem,
N√£o os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo ?

Às vezes, na penumbra
Do meu quarto, quando eu
Por mim próprio mesmo
Em alma mal existo,

Toma um outro sentido
Em mim o Universo ‚ÄĒ
√Č uma n√≥doa esbatida
De eu ser consciente sobre
Minha idéia das coisas.

Se acenderem as velas
E n√£o houver apenas
A vaga luz de fora ‚ÄĒ
N√£o sei que candeeiro
Aceso onde na rua ‚ÄĒ
Terei foscos desejos
De nunca haver mais nada
No Universo e na Vida
De que o obscuro momento
Que é minha vida agora!

Um momento afluente
Dum rio sempre a ir
Esquecer-se de ser,
Espaço misterioso
Entre espaços desertos
Cujo sentido é nulo
E sem ser nada a nada.
E assim a hora passa
Metafisicamente.

A √önica Realidade Social (2)

As qualidades puramente sociais que governam os homens s√£o o ego√≠smo, a socialidade e a vaidade. Por socialidade entendo o instinto greg√°rio; √© ela que ameniza e limita, sem nunca o eliminar nem essencialmente o alterar, o ego√≠smo, qualidade prim√°ria, que se deriva da pr√≥pria circunst√Ęncia de haver um ego. A vaidade √© a consequ√™ncia do ego√≠smo na sua limita√ß√£o pela sociedade; √© a qualidade social humana mais evidente. Todo o homem quer ser mais que outro, todo o homem quer brilhar. Variam, com as √≠ndoles e as aptid√Ķes, as maneiras em que o homem quer destacar-se, mas cada um tem a sua vaidade.
Seria imposs√≠vel a exist√™ncia da sociedade se nela se n√£o reproduzissem estes fen√≥menos da vida do indiv√≠duo. Por isso a sociedade se divide em na√ß√Ķes, e n√£o √© poss√≠vel ¬ęhumanidade¬Ľ em mat√©ria social. Assim como tem que haver um ego√≠smo individual, tem que haver um ego√≠smo colectivo – √© o que se chama o instinto patri√≥tico. Assim como h√° uma vaidade individual – tem que haver uma vaidade colectiva – √© o que se chama imperalismo.

A glória não é uma medalha, mas uma moeda: de um lado tem a Figura, do outro uma indicação de valor. Para os valores maiores não há moedas: são de papel, e esse valor é sempre pouco.

Toda a poesia Рe a canção é uma poesia ajudada Рreflecte o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste.

Porque eu desejo impossivelmente o poss√≠vel, porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, ou at√© se n√£o puder ser…

Tomamos a Vila depois de um Intenso Bombardeamento

A criança loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara est√° um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
‚ÄĒ Dos que b√≥iam nas banheiras ‚ÄĒ
À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A cria√ß√£o do futuro…

E o da criança loura?

Tenho Tanto Sentimento

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que n√£o senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a √ļnica vida que temos
√Č essa que √© dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saber√° explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
√Č a que tem que pensar.

O santo é do tipo dos Anjos, cujo mister é crer; o sábio é do tipo dos Arcanjos, cujo mister é compreender; o artista, porém, é do tipo dos Deuses, cujo mister é criar.

Quem é pobre pode julgar que, se deixasse de o ser, seria feliz. Quem é rico sabe que não há maneira de ser feliz.