Passagens de Fernando Pessoa

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Frases, pensamentos e outras passagens de Fernando Pessoa para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Sonhadores felizes são os pessimistas. Formam o mundo à sua imagem e assim sempre conseguem estar em casa.

A diferença entre Deus e nós deve ser não de atributos, mas da própria essência do ser. Ora tudo é o que é. Portanto Deus é não só o que é mas também o que não é. Confunde-nos de Si com isso.

A sociedade √© um sistema de ego√≠smos male√°veis, de concorr√™ncia intermitentes. Cada homem √©, ao mesmo tempo, um ente individual e um ente social. Como indiv√≠duo distingue-se de todos os outros homens; e, porque se distingue, op√Ķe-se-lhes. Como soci√°vel, parece-se com todos os outros homens; e, porque se parece, agrega-se-lhes.

Já não me importo Já não me importo Até com o que amo ou creio amar. Sou um navio que chegou a um porto E cujo movimento é ali estar. Nada me resta Do que

A Pressa Febril da Vida Moderna

A lentidão da nossa vida é tão grande que não nos consideramos velhos aos quarenta anos. A velocidade dos veículos retirou a velocidade às nossas almas. Vivemos muito devagar e é por isso que nos aborrecemos tão facilmente. A vida tornou-se para nós uma zona rural. Não trabalhamos o suficiente e fingimos trabalhar demasiado. Movemo-nos muito rapidamente de um ponto onde nada se faz para outro onde não há nada que fazer, e chamamos a isto a pressa febril da vida moderna. Não é a febre da pressa, mas sim a pressa da febre. A vida moderna é um lazer agitado, uma fuga ao movimento ordenado por meio da agitação.

Tenho o dever de me fechar em casa no meu espírito e trabalhar quanto possa e em tudo quanto possa, para o progresso da civilização e o alargamento da consciência da humanidade.

O Presente sem Passado nem Futuro

Vivo sempre no presente. O futuro, n√£o o conhe√ßo. O passado, j√° o n√£o tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. N√£o tenho esperan√ßas nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida at√© hoje – tantas vezes e em tanto o contr√°rio do que eu a desejara -, que posso presumir da minha vida de amanh√£ sen√£o que ser√° o que n√£o presumo, o que n√£o quero, o que me acontece de fora, at√© atrav√©s da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo in√ļtil de o repetir. Nunca fui sen√£o um vest√≠gio e um simulacro de mim.
O meu passado √© tudo quanto n√£o consegui ser. Nem as sensa√ß√Ķes de momentos idos me s√£o saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, h√° um virar de p√°gina e a hist√≥ria continua, mas n√£o o texto.

A actividade social chamada comércio, por mal vista que esteja pelos teoristas de sociedades impossíveis, é contudo um dos dois característicos distintivos das sociedades chamadas civilizadas. O outro característico distintivo é o que se denomina cultura.

A Variedade √© a √önica Desculpa da Abund√Ęncia

A variedade √© a √ļnica desculpa da abund√Ęncia. Ningu√©m deveria deixar vinte livros diferentes, a menos que seja capaz de escrever como vinte homens diferentes. As obras de Victor Hugo enchem cinquenta grossos volumes, mas cada volume, cada p√°gina quase, cont√©m todo o Victor Hugo. As outras p√°ginas somam-se como p√°ginas, n√£o como g√©nio. Nele n√£o existia produtividade, mas prolixidade. Desperdi√ßou o seu tempo como g√©nio, por pouco que o tivesse desperdi√ßado como escritor. A opini√£o de Goethe a seu respeito continua a ser suprema, apesar de ter sido precocmente emitida, e uma grande li√ß√£o para todos os artistas: ¬ęDeveria escrever menos e trabalhar mais¬Ľ, disse ele. Este parecer, na sua distin√ß√£o entre o trabalho a s√©rio, que n√£o se espraia, e o trabalho fict√≠cio, que ocupa espa√ßo (pois as p√°ginas nada mais s√£o do que espa√ßo), √© uma das grandes opini√Ķes cr√≠ticas do mundo.
Se conseguir escrever como vinte homens diferentes, é vinte homens diferentes, seja lá como for, e os seus vinte livros têm justificação.

Despreza tudo, mas de modo que o desprezar te n√£o incomode. N√£o te julgues superior ao desprezares. A arte do desprezo nobre est√° nisso.

O artista como artista sente menos do que os outros homens porque produz ao mesmo tempo que sente, e nesse caso há uma dualidade de espírito incompatível com o estar entregue a um sentimento.