Passagens de Fernando Pessoa

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Esqueço-me das Horas Transviadas

PASSOS DA CRUZ

Esqueço-me das horas transviadas
o Outono mora m√°goas nos outeiros
E p√Ķe um roxo vago nos ribeiros…
H√≥stia de assombro a alma, e toda estradas…

Aconteceu-me esta paisagem, fadas
De sepulcros a org√≠aco… Trigueiros
Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas…

No claustro seq√ľestrando a lucidez
Um espasmo apagado em √≥dio √† √Ęnsia
P√Ķe dias de ilhas vistas do conv√©s

No meu cansaço perdido entre os gelos
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha disson√Ęncia…

Ignorado Ficasse O Meu Destino

Ignorado ficasse o meu destino
Entre pálios (e a ponte sempre à vista),
E anel concluso a chispas de ametista
A frase falha do meu p√≥stumo hino…

Florescesse em meu glabro desatino
O himeneu das escadas da conquista
Cuja preguiça, arrecadada, dista
Almas do meu impulso cristalino…

Meus ócios ricos assim fossem, vilas
Pelo campo romano, e a toga traça
No meu soslaio an√īnimas (desgra√ßa

A vida) curvas sob m√£os intranq√ľilas…
E tudo sem Cleópatra teria
Findado perto de onde raia o dia…

(dream)

Qualquer coisa de obscuro permanece
No centro do meu ser. Se me conheço,
√Č at√© onde, por fim mal, trope√ßo
No que de mim em mim de si se esquece.

Aranha absurda que uma teia tece
Feita de solidão e de começo
Fruste, meu ser anónimo confesso
Próprio e em mim mesmo a externa treva desce.

Mas, vinda dos vest√≠gios da dist√Ęncia
Ninguém trouxe ao meu pálio por ter gente
Sob ele, um rasgo de saudade ou √Ęnsia.

Remiu-se o pecador impenitente
√Ä sombra e cisma. Teve a eterna inf√Ęncia,
Em que comigo forma um mesmo ente.

Em Busca Da Beleza VI

O sono – Oh, ilus√£o! – o sono? Quem
Lograr√° esse v√°cuo ao qual aspira
A alma que de aspirar em v√£o delira
E já nem força para querer tem?

Que sono apetecemos? O d’algu√©m
Adormecido na feliz mentira
Da sonolência vaga que nos tira
Todo o sentir na qual a dor nos vem?

Ilus√£o tudo! Querer um sono eterno,
Um descanso, uma paz, não é senão
O √ļltimo anseio desesperado e v√£o.

Perdido, resta o derradeiro inferno
Do tédio intérmino, esse de já não
Nem aspirar a ter aspiração.

Egoísmo Relativo

Por mim, o meu ego√≠smo √© a superf√≠cie da minha dedica√ß√£o. O meu esp√≠rito vive constantemente no estudo e no cuidado da Verdade, e no escr√ļpulo de deixar, quando eu despir a veste que me liga a este mundo, uma obra que sirva o progresso e o bem da Humanidade.
Reconhe√ßo que o sentido intelectual que esse Servi√ßo da Humanidade toma em mim, em virtude do meu temperamento, me afasta, muitas vezes, das pequenas manifesta√ß√Ķes que em geral revelam o esp√≠rito humanit√°rio. Os actos de caridade, a dedica√ß√£o por assim dizer quotidiana s√£o cousas que raras vezes aparecem em mim, embora nada haja em mim que represente a nega√ß√£o delas.
Em todo o caso, reconheço, em justiça para comigo próprio, que não sou mais egoísta que a maioria dos indivíduos, e muito menos o sou que a maioria dos meus colegas nas artes e nas letras. Pareço egoísta àqueles que, por um egoísmo absorvente, exigem a dedicação dos outros como um tributo.

Contemplo o Lago Mudo

Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
N√£o sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.

O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
N√£o sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trêmulos vincos risonhos
Na √°gua adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha √ļnica vida?

A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objecto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro. Manufacturamos realidades.

Entre o Luar e a Folhagem

Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.

Tênue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
N√£o tem lugar, n√£o tem verdade.
Atrai e dói.

Segue-o meu ser em liberdade.

Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Nada é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.

A arte é, para mim, a expressão de um pensamento através de uma emoção, ou, em outras palavras, de uma verdade geral através de uma mentira particular.