Sonetos sobre Poetas

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Sonetos de poetas escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Fosse Eu Apenas, N√£o Sei Onde Ou Como

Fosse eu apenas, n√£o sei onde ou como,
Uma coisa existente sem viver,
Noite de Vida sem amanhecer
Entre as sirtes do meu dourado assomo….

Fada maliciosa ou incerto gnomo
Fadado houvesse de n√£o pertencer
Meu intuito gloríola com Ter
A √°rvore do meu uso o √ļnico pomo…

Fosse eu uma met√°fora somente
Escrita nalgum livro insubsistente
Dum poeta antigo, de alma em outras gamas,

Mas doente, e , num crep√ļsculo de espadas,
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
Na √ļltima tarde de um imp√©rio em chamas…

San Gabriel II

Vem conduzir as naus, as caravelas,
Outra vez, pela noite, na ardentia,
Avivada das quilhas. Dir-se-ia
Irmos arando em um mont√£o de estrelas.

Outra vez vamos! C√īncavas as velas,
Cuja brancura, r√ļtila de dia,
O luar dulcifica. Feeria
Do luar não mais deixes de envolvê-las!

Vem guiar-nos, Arcanjo, à nebulosa
Que do além mar vapora, luminosa,
E à noite lactescendo, onde, quietas,

Fulgem as velhas almas namoradas…
– Almas tristes, severas, resignadas,
De guerreiros, de santos, de poetas.

Lembrança

Fui Essa que nas ruas esmolou
E fui a que habitou Paços Reais;
No m√°rmore de curvas ogivais
Fui Essa que as m√£os p√°lidas poisou…

Tanto poeta em versos me cantou!
Fiei o linho √† porta dos casais…
Fui descobrir a √ćndia e nunca mais
Voltei! Fui essa nau que n√£o voltou…

Tenho o perfil moreno, lusitano,
E os olhos verdes, cor do verde Oceano,
Sereia que nasceu de navegantes…

Tudo em cinzentas brumas se dilui…
Ah, quem me dera ser Essas que eu fui,
As que me lembro de ter sido… dantes!…

Gomes Leal

Sangra, sinistro, a alguns o astro baço.
Seus três anéis irreversíveis são
A desgraça, a tristeza, a solidão.
Oito luas fatais fitam no espaço.

Este, poeta, Apolo em seu regaço
A Saturno entregou. A pl√ļmbea m√£o
Lhe ergueu ao alto o aflito coração.
E, erguido, o apertou, sangrando lasso.

In√ļteis oito luas da loucura
Quando a cintura tríplice denota
Solidão e desgraça e amargura!

Mas da noite sem fim um rastro brota,
Vestígios de maligna formosura:
√Č a lua al√©m de Deus, √°lgida e ignota.

√Āfrica

Na partilha das s√°faras conquistas
Desta Líbia de mouros rancorosos,
O Deserto foi dado aos Poderosos
E o Oásis, florido e mínimo, aos Artistas.

E os felizes, quais s√£o? Os mil sofistas
Da Ventura, a pedir, de olhos gulosos,
Terra e mais terra? Ou o que limita os gozos
E em sete palmos acomoda as vistas?

Certo, não sereis vós, ó Donatários
Do alvo Deserto, que velais, em guerra,
A √°urea carga dos vossos dromed√°rios.

Mas, tu, ó Poeta, que, por onde fores,
Teus sete palmos h√°s de achar na terra
Abrindo em trigo, rebentado em flores!

Arrependo-me de a Meter num Romance

O poema tem mais pressa que o romance,
Asa de fogo para te levar:
Assim, pois, se houver lama que te lance
Ao corpo quente algum, hei-de chorar.

Deus fez o poeta por que n√£o descanse
No golfo do destino e amores no mar:
Vem um, de onda, cobri-la ‚ÄĒ e ela que dance!
Vem outro ‚ÄĒ e faz men√ß√£o de me enfeitar.

Os outros a conspurcam, mas é minha!
Chicoteá-la vou com a própria espinha,
Estreitam-me de amor seus braços mornos,

Transformo seus gemidos em meus uivos
E torno anéis dos seus cabelos ruivos
Na raspa canelada dos meus cornos.

Poz-te Deus Sobre a Fronte a M√£o Piedosa

Poz-te Deus sobre a fronte a m√£o piedosa:
O que fada o poeta e o soldado
Volveu a ti o olhar, de amor velado,
E disse-te: ¬ęvae, filha, s√™ formosa!¬Ľ

E tu, descendo na onda harmoniosa,
Pousaste n’este solo angustiado,
Estrela envolta n’um clar√£o sagrado,
Do teu limpido olhar na luz radiosa…

Mas eu… posso eu acaso merecer-te?
Deu-te o Senhor, mulher! o que é vedado,
Anjo! Deu-te o Senhor um mundo √° parte.

E a mim, a quem deu olhos para ver-te,
Sem poder mais… a mim o que me ha dado?
Voz, que te cante, e uma alma para amar-te!

O Mar

Que nostalgia vem das tuas vagas,
√ď velho mar, √≥ lutador Oceano!
Tu de saudades íntimas alagas
O mais profundo coração humano.

Sim! Do teu choro enorme e soberano,
Do teu gemer nas desoladas plagas
Sai o quer que é, rude sultão ufano,
Que abre nos peitos verdadeiras chagas.

√ď mar! √≥ mar! embora esse eletrismo,
Tu tens em ti o gérmen do lirismo,
√Čs um poeta l√≠rico demais.

E eu para rir com humor das tuas
Nevroses colossais, bastam-me as luas
Quando fazem luzir os seus metais…

√Āguas Da Saudade Para Dirson Costa Que O Musicou

Sou apenas um homem na paisagem
na tarde de silêncio e de mormaço.
Só o vento me anima na passagem
deixando no seu rosto o seu compasso.

Sou apenas um poeta na viagem
olhando pelo olhar dos olhos baços
a dist√Ęncia que abriga vaga margem
das √°guas da saudade nos meus passos.

Bem me quis esta vila que me habita,
e bem me dei de encantos nos seus becos.
Contudo, n√£o cantei sua desdita.

Dessa Manaus distante, restam crespas
pegadas, ch√£o de rugas; minha pista
banhada em banzeiros do Rio Negro.

Soneto 529 Extra-Expresso

Mandou aquele abraço para o Rio.
De Sampa enalteceu a Freguesia.
Levou compasso e régua da Bahia.
Em Londres troca o Trópico por frio.

Com Jorge, Rita e Marley antevi-o.
Com Berry, Cliff ou Wonder bem veria.
Com ele fez escola a ecologia
e a escola fez o samba em que folio.

Veado ou pica-pau, ele os compacta;
met√°fora, se abstrata, ele a concreta;
com síntese a internet ele retrata.

√Č √°gil, presto, esperto, pois poeta;
agílimo, da raça expressa a nata;
agudo, mas dulcíssimo: ultra-esteta!

A Anto!

Poeta da saudade, √≥ meu poeta qu¬īrido
Que a morte arrebatou em seu sorrir fatal,
Ao escrever o Só pensaste enternecido
Que era o mais triste livro deste Portugal,

Pensaste nos que liam esse teu missal,
Tua bíblia de dor, teu chorar sentido
Temeste que esse altar pudesse fazer mal
Aos que comungam nele a soluçar contigo!

√ď Anto! Eu adoro os teus estranhos versos,
Soluços que eu uni e que senti dispersos
Por todo o livro triste! Achei teu cora√ß√£o…

Amo-te como não te quis nunca ninguém,
Como se eu fosse, ó Anto, a tua própria mãe
Beijando-te j√° frio no fundo do caix√£o!

Soneto 573 Barbarizado

Já se disse: sete é conta de mentira e lenda.
Também dizem que de azar o treze é cifra certa.
Isso explica a redondilha como porta aberta
no cantar dos repentistas, na feroz contenda,

à bazófia descarada, onde é melhor a emenda
que o soneto decassílabo, no qual se enxerta
entre termos eruditos a fal√°cia esperta,
lei de todo bom poeta que seu peixe venda.

Outrossim, também se explica por que nunca é visto
um soneto alexandrino, mas de pé quebrado:
este, a cuja tentação do treze não resisto.

Vou cham√°-lo “aleijadinho”, pois, em vez de errado,
tem car√°ter de obra-prima, pelo menos nisto:
completar catorze versos sem ficar quadrado!

Meu Céu Interior

Se esses teus olhos, no meu livro, imersos,
encontrarem diversas emo√ß√Ķes,
– n√£o tentes decifrar… – mil cora√ß√Ķes
n√≥s os temos num s√≥, todos diversos…

Os meus poemas aqui, vivem dispersos,
como as estrelas… e as constela√ß√Ķes…
– no c√©u das minhas √≠ntimas vis√Ķes,
no”meu c√©u interior…”cheio de versos.

N√£o procures o poeta compreender…
– Os versos que umas cousas nos desnudam,
Outras cousas, ocultam, sem querer…

Uns, s√£o felizes… Outros, ao contr√°rio…
– No ros√°rio da vida, as contas mudam,
e os versos s√£o contas de um ros√°rio!…

Vencedor

Toma as espadas r√ļtilas, guerreiro,
E √° rutil√Ęncia das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração Рestranho carniceiro!

N√£o podes?! Chama ent√£o presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pode domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois de um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…
E não pude domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!

Psicologia Humana

A Santos Lostada

Por tr√°s de uns vidros d’√≥culos opacos
Muita vez um le√£o e um tigre rugem,
E como um surdo temporal estrugem
Os ódios dos covardes e dos fracos.

Partir pudesses, ó poeta, em cacos,
Vidros que ocultam almas de ferrugem,
Que espumam de ira, tenebrosas mugem,
Mugem como de dentro de uns buracos.

Que essas sombrias, d√ļbias almas foscas
Que parecem, no entanto, como moscas,
Inofensivas, babam como as lesmas.

Mas tu, em v√£o, tais vidros partirias,
Pois que no mundo, eternamente, as frias
Almas humanas ser√£o sempre as mesmas!

Soneto 434 A Néstor Perlongher

Na frente esteve e est√°, depois ou antes.
Poeta j√° portento de portenho,
em Néstor o barroco ganha engenho
e os verbos reverberam mais brilhantes.

Da Frente mítico entre os militantes,
aqui tem maior campo seu empenho.
Da causa negra um dado a depor tenho:
tratou mais que os tratados dos tratantes.

Aos putos imputou novo valor.
Da língua tinha humor sempre na ponta.
Das classes, luta e amor, é professor.

Mediu o que a estatística não conta.
Territorializou do corpo a cor.
Deu tom de santa a tanta tinta tonta!

Ser Poeta

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
√Č ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

√Č ter de mil desejos o esplendor
E n√£o saber sequer que se deseja!
√Č ter c√° dentro um astro que flameja,
√Č ter garras e asas de condor!

√Č ter fome, √© ter sede de Infinito!
Por elmo, as manh√£s de oiro e de cetim…
√Č condensar o mundo num s√≥ grito!

E √© amar-te, assim, perdidamente…
√Č seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!

Princesa Desalento

Minh’alma √© a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
√Č revoltada, tr√°gica, sombria,
Como galopes infernais de vento!

√Č fr√°gil como o sonho dum momento,
Soturna como preces de agonia,
Vive do riso duma boca fria!
Minh’alma √© a Princesa Desalento…

Altas horas da noite ela vagueia…
E ao luar suavíssimo, que anseia,
P√Ķe-se a falar de tanta coisa morta!

O luar ouve a minh’alma, ajoelhado,
E vai traçar, fantástico e gelado,
A sombra duma cruz √† tua porta…

Existo

Seu amor me fez real, e me deu sentido
da alegria de ser, total, completamente…
Fez de um pobre poeta em sonhos consumido
alguém que tem nas mãos um mundo! e sofre, e sente!

Seu amor foi a vida a irromper da semente
de um velho coração cansado e ressequido,
o verde que voltou ao ramo nu, pendente,
a imprevis√≠vel flor, o fruto inconcebido…

Seu amor foi milagre a cantar pelo ch√£o
como a √°gua, no agreste, a acenar ao viajante
a esperan√ßa, o prazer, a vida, a salva√ß√£o…

Passo a existir, quem sabe ? apenas porque amei…
E ela existe talvez, a partir deste instante
porque ela e o seu amor… em versos transformei!