Passagens de Martins Fontes

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Como √Č Bom Ser Bom

Tu, que vês tudo pelo coração,
Que perdoas e esqueces facilmente,
E és, para todos, sempre complacente,
Bendito sejas, venturoso irm√£o.

Possuis a graça como inspiração
Amas, divides, d√°s, vives contente,
E a bondade que espalhas, n√£o se sente,
Tão natural é a tua compaixão.

Como o p√°ssaro tem maviosidade,
Tua voz, a cantar, no mesmo tom,
Alivia, consola e persuade.

E assim, tal qual a flor contém o dom.
De concentrar no aroma a suavidade,
Da mesma forma, tu nasceste bom.

Soneto

Se eu fosse Deus seria a vida um sonho,
Nossa exist√™ncia um j√ļbilo perene!
Nenhum pesar que o espírito envenene
Empanaria a luz do céu risonho!

N√£o haveria mais: o adeus solene,
A vingança, a maldade, o ódio medonho,
E o maior mal, que a todos anteponho,
A sede, a fome da cobiça infrene!

Eu exterminaria a enfermidade,
Todas as dores da senilidade,
E os pecados mortais seriam dez…

A criação inteira alteraria,
Porém, se eu fosse Deus, te deixaria
Exatamente a mesma que tu és!

Desarmonia

Certas estrelas coloridas,
estrelas duplas s√£o chamadas,
parecem estarem confundidas,
mas resplandecem afastadas.

Assim, na terra, as nossas vidas,
nas horas mais apaixonadas,
d√£o a ilus√£o de estar unidas,
e est√£o, de fato, separadas.

O amor e as forças planetárias,
trocando as luzes e os abraços,
tentam fundi-las e prendê-las.

E eternamente solit√°rias,
dentro do tempo e dos espaços,
vivem as almas e as estrelas.

Crep√ļsculo

Alada, corta o espaço uma estrela cadente.
As folhas fremem. Sopra o vento. A sombra avança.
Paira no ar um languor de mística esperança
e de doc√ļra triste, inexprimivelmente.

À surdina da luz irrompe, de repente,
o coro vesperal das cigarras. E mansa,
E marmórea, no céu, curvo e claro, balança,
entre nuvens de opala, a concha do crescente.

Na alma, como na terra, a noite nasce. √Č quando,
da rec√īndita paz das horas esquecidas,
v√£o, ao luar da saudade, os sonhos acordando…

E, na torre do peito, em pl√°cidas batidas,
melancolicamente o coração chorando,
plange o r√©quiem de amor das ilus√Ķes perdidas.

Ser Paulista

Ser paulista! é ser grande no passado
E inda maior nas glórias do presente!
√Č ser a imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente.

Ser paulista! é morrer sacrificado
Por nossa terra e pela nossa gente!
√Č ter d√≥ das fraquezas do soldado
Tendo horror à filáucia do tenente.

Ser paulista! é rezar pelo Evangelho
De Rui Barbosa – o sacrossanto velho
Civilista imortal de nossa fé.

Ser paulistal em bras√£o e em pergaminho
√Č ser tra√≠do e pelejar sozinho,
√Č ser vencido, mas cair de p√©!

Minha M√£e

Beijo-te a m√£o, que sobre mim se espalma
Para me abençoar e proteger,
Teu puro amor o coração me acalma;
Provo a doçura do teu bem-querer.

Porque a m√£o te beijei, a minha palma
Olho, analiso, linha a linha, a ver
Se em mim descubro um traço de tua alma,
Se existe em mim a graça do teu ser.

E o M, gravado sobre a m√£o aberta,
Pela sua clareza, me desperta
Um grato enlevo, que jamais senti:

Quer dizer – M√£e! este M t√£o perfeito,
E, com certeza, em minha m√£o foi feito
Para, quando eu for bom, pensar em ti.

A √Āgua Toda Secou At√© Nos Olhos

‚ÄĒ Meu culto ao Cear√°, Cora√ß√£o do Brasil.

O rio vai morrer, sem que nada o socorra,
sem que ninguém, jamais, bendiga o moribundo.
Morre na solidão, no silêncio profundo,
e o malárico mal o mantém em modorra.

A enfermidade faz que da boca lhe escorra
o limo, feito fel, viscoso e nauseabundo.
E o terror se lhe vê das órbitas ao fundo.
Paralítico jaz na estreitez da masmorra.

Tu só, tu, meu Irmão, que a miséria não vence.
Que suportando a sede, a fome, a febre, o frio,
sem que prêmio nenhum teu martírio compense.

Poeta, herói, semideus, sabes o desvario,
a sobre-humana dor, a bravura, cearense,
de quem se suicidou, vendo morrer o rio.

Beijos Mortos

Amemos a mulher que n√£o ilude,
e que, ao saber que a temos enganado,
perdoa, por amor e por virtude,
pelo respeito ao menos ao passado.

Muitas vezes, na minha juventude,
evocando o romance de um noivado,
sinto que amei, outrora, quanto pude,
porém mais deveria ter amado.

Choro. O remorso os nervos me sacode.
e, ao relembrar o mal que ent√£o fazia,
meu desespero, inconsolado, explode.

E a causa desta horrível agonia,
é ter amado, quanto amar se pode,
sem ter amado, quanto amar devia.

Antes De Conhecer-Te, Eu J√° Te Amava

Antes de conhecer-te, eu j√° te amava.
Porque sempre te amei a vida inteira:
Eras a irm√£, a noiva, a companheira,
A alma gêmea da minha que eu sonhava.

Com o coração, à noite, ardendo em lava
Em meus versos vivias, de maneira
Que te contemplo a imagem verdadeira
E acho a mesma que outrora contemplava.

Amo-te. Sabes que me tens cativo.
Retribuis a afeição que em mim fulgura,
Transfigurada nos anseios da Arte.

Mas, se te quero assim, por que motivo
Tardaste tanto em vir, que hoje é loucura,
Mais que loucura, um crime desejar-te?

Otelo

Quem minha ang√ļstia suportar, prefira
a morte, redentora, à desventura
de n√£o poder, nas vascas da loucura,
distinguir a verdade da mentira.

Infrene d√ļvida, implac√°vel ira,
esta que me alucina e me tortura!
– Ter ci√ļmes da luz, formosa e pura,
do ch√£o, da sombra e do ar que se respira!

Invejo a veste que te esconde! a espuma
que, beijando teu corpo, linha a linha,
toda do teu aroma se perfuma!

Amo! E o delírio desta dor mesquinha,
faz que eu deseje ser tu mesma, em suma,
para ter a certeza de que és minha!

Incontentado

Quando em teus braços, meu amor, te beijo,
se me torno, de s√ļbito, tristonho,
é porque às vezes, com temor, prevejo
que esta alegria pode ser um sonho.

Olho os meus olhos nos teus olhos… Ponho,
tr√™mulo, as m√£os nas tuas m√£os… E vejo
que és tu mesma, que és tu! E ainda suponho
Ser enganado pelo meu desejo.

Quanto mais, desvairado de ansiedade,
do teu corpo, meu corpo se avizinha,
mais de ti, junto a ti, sinto saudade…

РE o meu suplício atroz não se adivinha,
quando, beijando-te, o pavor me invade
de que em meus braços tu não sejas minha!

Beijos No Ar

No silêncio da noite, alta e deserta,
inebriante, férvido sintoma,
uma fragr√Ęncia feminina assoma
e tentadoramente me desperta.

Entrou-me, em ondas, a janela aberta,
como se se quebrara uma redoma,
da qual fugira o delirante aroma,
que o mistério do amor assim me oferta.

De que dama-da-noite ou jasmineiro,
de que magnólia em flor, em fevereiro,
se exala esse c√°lido desejo?

Ela sonha comigo: esse perfume
vem da sua saudade, que presume,
embora em sonho, ter-me dado um beijo!

O Que Se Escuta Numa Velha Caixa De M√ļsica

Nunca roubei um beijo. O beijo d√°-se,
ou permuta-se, mas naturalmente.
Em seu sabor seria diferente
se, em vez de ser trocado, se furtasse.

Todo beijo de amor, longo ou fugace,
deve ser u prazer que a ambos contente.
Quando, encantado, o coração consente,
beija-se a boca, n√£o se beija a face.

N√£o toquemos na flor maravilhosa,
seja qual for a sedução do ensejo,
vendo-a ofertar-se, f√°cil e formosa.

Como os √°rabes, loucos de desejo,
amemos a roseira, olhando a rosa,
roubemos a mulher e n√£o o beijo.

Mais Forte Do Que A Morte

Chego trêmulo, pálido, indeciso.
Tentas fugir, se escutas meu andar.
E és atraída pelo meu sorriso,
e eu fascinado pelo teu olhar.

Louco, sem o querer, te martirizo.
Em meus braços começas a chorar.
– E unem-se as nossas bocas de improviso,
pelo poder de um fluido singular.

Amo-te. A febre da paix√£o te acalma.
Beijas-me. E eu sinto, em l√Ęnguido torpor,
a embriaguez do vinho da tu’alma.

E ambos vemos, felizes, sem temor,
que, aben√ßoada e l√ļbrica, se espalma
a asa da morte sobre o nosso amor!

Longus

√Č de manh√£, no outono. √Ä luz, o orvalho
doira os mirtais de trêmulas capelas.
e, sobre o solo, recobrindo o atalho,
h√° milhares de folhas amarelas…

A Filetas, ao pé de amplo carvalho,
ouvem as narra√ß√Ķes e pastorelas,
um rapaz, aindaingênuo e sem trabalho,
e a mais linda de todas as donzelas…

√Č a narrativa do florir dos prados,
que o mais doce dos velhos barbilongos
conta ao casal de jovens namorados…

Sil√™ncio… Ouvi-lhe o beijo dos ditongos,
os sil√°bicos sons, que musicados,
cantam na am√°vel pastoral de Longus…

S√£o Francisco E O Rouxinol

Um rouxinol cantava. Alegremente,
quis S√£o Francisco, no frutal sombrio,
acompanhar o p√°ssaro contente,
e começa a cantar, ao desafio.

E cantavam os dois, junto à corrente
do Arno sonoro, do lend√°rio rio.
Mas Sào Francisco, exausto, finalmente,
parou, tendo cantado horas a fio.

E o rouxinol l√° prosseguiu cantando,
redobrando as constantes cantilenas,
os trilados festivos redobrando.

E o santo assim reflete, satisfeito,
que feito foi para escutar, apenas,
e o rouxinol para cantar foi feito.