Passagens sobre SilĂȘncio

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Eu sei criar silĂȘncio. É assim: ligo o rĂĄdio bem alto – entĂŁo de sĂșbito desligo. E assim capto o silĂȘncio. SilĂȘncio estelar. O silĂȘncio da lua muda. PĂĄra tudo: criei o silĂȘncio. (…) O silĂȘncio nĂŁo Ă© o vazio, Ă© a plenitude.

Nunca Te Intitules FilĂłsofo

Nunca te intitules FilĂłsofo nem fales demasiado sobre os PrincĂ­pios com os iletrados; faz, antes, o que deles decorre. Assim, num banquete, nĂŁo discutas como devem as pessoas comer, mas come como Ă© devido. Lembra que SĂłcrates evitava inteiramente a ostentação. As pessoas vinham a ele encaminhadas a filĂłsofos, e ele prĂłprio as encaminhava, tĂŁo bem suportava ser desdenhado. Da mesma maneira, se alguma conversa relativa a princĂ­pios ocorrer entre os iletrados, procura guardar silĂȘncio. Pois corres o risco de vomitar o que digeriste mal. E quando alguĂ©m te disser que nĂŁo sabes nada e tu nĂŁo te apoquentares com isso, podes estar certo que estĂĄs finalmente no bom caminho.

HĂĄ um grande silĂȘncio dentro de mim. E esse silĂȘncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silĂȘncio tem vindo o que Ă© mais precioso que tudo: o prĂłprio silĂȘncio.

DistĂąncia

NĂŁo vĂĄs para tĂŁo longe!
Vem sentar-te
Aqui na chaise-longue, ao pĂ© de mim…
Tenho o desejo doido de contar-te
Estas saudades que nĂŁo tinham fim.

NĂŁo vĂĄs para tĂŁo longe;
Quero ver
Se ainda sabes olhar-me como d’antes,
E se nas tuas mĂŁos acariciantes,
Inda existe o perfume de que eu gosto.

NĂŁo vĂĄs para tĂŁo longe!
Tenho medo
Do silĂȘncio pesado d’esta sala…
Como soluça o vento no arvoredo!
E a tua voz, amor, como se cala!

NĂŁo vĂĄs para tĂŁo longe!
Antigamente,
Era sempre demais o curto espaço
Que havia entre nĂłs dois…
Agora, um embaraço,
Hesitas e depois,
Com um gesto de tédio e de cansaço,
Achas inconveniente
O meu abraço.

NĂŁo vĂĄs para tĂŁo longe!
Fica. Inda Ă© tĂŁo cedo!
O vento continua a fustigar
Os ramos sofredores do arvoredo,
E eu ponho-me a pensar
E tenho medo!

NĂŁo vĂĄs para tĂŁo longe!
Na sombra impenetrada,
Como se agita e se debate o vento!…
Paira nas velhas ruĂ­nas do convento

Que além se avista,

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25 de Abril

Esta Ă© a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silĂȘncio
E livres habitamos a substĂąncia do tempo

Uma Casa Cheia de Livros

Os livros, esses animais sem pernas, mas com olhar, observam-nos mansos desde as prateleiras. NĂłs esquecemo-nos deles, habituamo-nos ao seu silĂȘncio, mas eles nĂŁo se esquecem de nĂłs, nĂŁo fazem uma pausa mĂ­nima na sua vigia, sentinelas atĂ© daquilo que nĂŁo se vĂȘ. Desde as estantes ou pousados sem ordem sobre a mesa, os livros conseguem distinguir o que somos sem qualquer expressĂŁo porque eles sabem, eles existem sobretudo nesse nĂ­vel transparente, nessa dimensĂŁo sussurrada. Os livros sabem mais do que nĂłs mas, sem defesa, estĂŁo Ă  nossa mercĂȘ. Podemos atirĂĄ-los Ă  parede, podemos atirĂĄ-los ao ar, folhas a restolhar, ar, ar, e vĂȘ-los cair, duros e sĂ©rios, no chĂŁo.

(…) Os livros, esses animais opacos por fora, essas donzelas. Os livros caem do cĂ©u, fazem grandes linhas rectas e, ao atingir o chĂŁo, explodem em silĂȘncio. Tudo neles Ă© absoluto, atĂ© as contradiçÔes em que tropeçam. E estĂŁo lĂĄ, aqui, a olhar-nos de todos os lados, a hipnotizar-nos por telepatia. Devemos-lhes tanto, atĂ© a loucura, atĂ© os pesadelos, atĂ© a esperança em todas as suas formas.

Quem ama encontra sempre uma forma de se fazer presente. Sempre. Sempre. O seu silĂȘncio Ă© vontade de acolher, Ă© cuidar, Ă© a entrega simples do que Ă© mais sublime. É amor.

Quando me viam, parado e recatado, no meu invisĂ­vel recanto, eu nĂŁo estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silĂȘncios.

Dignidade Perdida

A meditação perdeu toda a sua dignidade exterior; ridicularizou-se o cerimonial e a atitude solene daquele que reflecte; jĂĄ nĂŁo se poderia continuar a suportar um sages da velha escola. Pensamos demasiado depressa, e pelo caminho, em plena marcha, no meio de negĂłcios de toda a espĂ©cie, mesmo quando se trate das coisas mais graves; temos apenas necessidade de pouca preparação, e atĂ© de pouco silĂȘncio: tudo se passa como se tivĂ©ssemos na cabeça uma mĂĄquina que girasse incessantemente e que prosseguisse o seu trabalho, mesmo nas piores circunstĂąncias. Outrora, quando alguĂ©m se queria pĂŽr a pensar – era uma coisa excepcional! – era coisa que se notava imediatamente ; notava-se que queria tornar-se mais sĂĄbio e que se preparava para uma ideia: o seu rosto ganhava uma expressĂŁo como em oração; o homem detinha-se na sua marcha; ficava atĂ© imĂłvel durante horas na rua, apoiado numa perna ou nas duas, quando a ideia lhe «surgia». A coisa «valia» entĂŁo «esse trabalho».

A Mulher de Negro

Os sons da floresta, as ĂĄrvores, a bicicleta e, ao longe, o silĂȘncio imĂłvel de um vulto negro. Aproximei-me e era uma mulher vestida de negro. Um xaile negro sobre os ombros. Um lenço negro sobre a cabeça. O som dos pneus da bicicleta a pararem, o som de amassarem folhas hĂșmidas e de fazerem estalar ramos. Os meus pĂ©s a pousarem no chĂŁo. Os olhos da mulher entre o negro. Os olhos pequenos da mulher. O seu rosto branco. Vimo-nos como se nos encontrĂĄssemos, como se nos tivĂ©ssemos perdido havia muito tempo e nos encontrĂĄssemos. O tempo deixou de existir. O silĂȘncio deixou de existir. Pousei a bicicleta no chĂŁo para caminhar na direcção da mulher. Era atraĂ­do por segredos. Durante os meus passos, a mulher estendeu-me a mĂŁo. A sua mĂŁo era muito velha. A palma da sua mĂŁo tinha linhas que eram o mapa de uma vida inteira, uma vida com todos os seus enganos, com todos os seus erros, com todas as suas tentativas. Os seus olhos de pedra. Senti os ossos da sua mĂŁo a envolverem os meus dedos. NĂŁo me puxou, mas eu aproximei o meu corpo do seu. Senti a sua respiração no meu pescoço.

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Inominado Nome

Persigo-o no ininteligĂ­vel arbĂ­trio
dos astros, na clandestina linfa
que percorre os tĂșrgidos corredores
do indecifrĂĄvel, nos falsos indĂ­cios
que, de fogos fĂĄtuos, escurecem

a persistente incĂłgnita do nome.
Em persegui-lo persisto onde, bem
sei, nĂŁo lograrei achĂĄ-lo, que nunca
achado serå em tempo ou espaço
que excedam meu limite e dimensĂŁo.

Um nome, ainda obscuro, pressinto
no sal da boca amarga, Conheço-lhe
o rosto familiar, desfocado embora,
no halo do tempo e da distĂąncia.
É, creio, a face indefectível de tudo

quanto tenho de calar. Este nome
(este rosto) habita-me silente, contra
a recusa, a mentira, ou a calĂșnia.
Na epiderme, nos nervos e na carne,
sobre a lĂ­ngua e o palato, adivinho-lhe

forma, sabor e propósito. Ouço-o
dentro de mim, mau grado
o queira ou nĂŁo, que em mim
sĂł estĂĄ sofrĂȘ-lo porque em mim
vive e dura, enquanto eu dure e viva.

E nĂŁo por meu mal, que meu
mal seria, mais que perdĂȘ-lo,
sem ele viver.
Um rosto persigo,
um nome guardo no sal da boca

amarga,

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Vive o Instante que Passa

Vive o instante que passa. Vive-o intensamente atĂ© Ă  Ășltima gota de sangue. É um instante banal, nada hĂĄ nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele Ă© o Ășnico por ser irrepetĂ­vel e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele serĂĄ o mesmo nem tu que o estĂĄs vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele nĂŁo seja pois em vĂŁo no dar-se-te todo a ti. Olha o sol difĂ­cil entre as nuvens, respira Ă  profundidade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes longĂ­nquas de crianças, o ruĂ­do de um motor que passa na estrada, o silĂȘncio que isso envolve e que fica. E pensa-te a ti que disso te apercebes, sĂȘ vivo aĂ­, pensa-te vivo aĂ­, sente-te aĂ­. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que Ă©s. Assim o dom estĂșpido e miraculoso da vida nĂŁo serĂĄ a estupidez maior de o nĂŁo teres cumprido integralmente, de o teres desperdiçado numa vida que terĂĄ fim.