Passagens sobre SilĂȘncio

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As MĂŁes?

Fossem estes dias uma fonte que
brotasse.
Manchas de azul, um rasto de neve em pleno céu,
colmeias,
mel, uma exaltação de asas.

Mas Ă© assim:
metais que revestem a pele e as armaduras,
bronze, ferro, formas que perduram, malhas, ameaçados
tecidos que nos moldam —
quem borda ainda,
quem se atreve Ă  minĂșcia das rendas?

As mĂŁes?
elas vinham cedo, eram como um rumor de levadas,
atravessando as terras.
Eram as mesmas mĂŁos trabalhando sedas, afagos e
uma conspiração de cores e agulhas frias,
mĂŁes de silĂȘncio bordando a treva e o sono, a longa
noite dos filhos.

Herdei uma beleza amarga,
o temor das sombras, dos relĂąmpagos que embatiam
na infĂąncia,
no dorso das colinas,
no coração mais triste.

Um estrondo de muralhas, diques, batalhas que
deflagram,
uma ciĂȘncia aterradora:
não quero outra véspera de espadas, a coroação do
sangue,
patíbulos onde a cabeça se expande,
rolando como a poeira e os astros,
repercutindo como um sino no choro das mĂŁes.

NĂŁo quero um bordado de horas antigas,

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A sinceridade jamais pode ser a razĂŁo para magoar alguĂ©m. Ser sincero Ă© tambĂ©m saber escolher o que dizer e o que calar. NĂŁo devemos dizer tudo quanto pensamos, mais ainda se nĂŁo o tivermos pensado com honestidade e inteligĂȘncia. O silĂȘncio Ă© parte essencial da verdade e da sinceridade.

Todos os amores começam assim. No silĂȘncio de um olhar, no silĂȘncio de uma mĂŁo dependente da outra, de outra mĂŁo vadia a vaguear pela cidade nocturna do teu corpo, no silĂȘncio dos lĂĄbios trincados, trocados, massajados, abraçados e voltados a abraçar. Todos os amores sĂŁo silĂȘncio estendido.

gruas no cais descarregam mercadorias e eu amo-te

gruas no cais descarregam mercadorias e eu amo-te.
homens isolados caminham nas avenidas e eu amo-te.
silĂȘncios elĂ©ctricos faĂ­scam dentro das mĂĄquinas e eu amo-te.
destruição contra o caos, destruição contra o caos e eu amo-te.
reflexos de corpos desfiguram-se nas montras e eu amo-te.
envelhecem anos no esquecimento dos armazéns e eu amo-te.
toda a cidade se destina Ă  noite e eu amo-te.

Nocturno

Uma casa navega no tempo
como um barco subindo o rio
Por fim sem marinhagem por fim sem mastreação.
Por fim ancorada nas janelas exorbitadas
onde as luzes sĂŁo paisagens lunares
e o silĂȘncio tem um perfil negro.
Por fim ancorada nas abordagens sem presas.

Ancorada a vedes: abrigo de cĂŁes.

Obscuro DomĂ­nio

Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver o rumor das luzes
entre os teus lĂĄbios fendidos.

Deslizar pela vertente
da garganta, ser mĂșsica
onde o silĂȘncio aflui
e se concentra.

IrreprimĂ­vel queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo,
brancura dilacerada

Penetrar na doçura da areia
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul,

no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e navegĂĄvel
golfo do desejo,

onde o furor habita
crispado de agulhas,
onde faça sangrar
as tuas ĂĄguas nuas.

Ergo Meus Olhos

Ergo meus olhos vagos, na distĂąncia
Da sombra do meu Ser…
Pairam de mim alĂ©m, e a minha Ânsia
Cansa de me viver.

Meus olhos espectrais de comoção,
Olhos da alma, olhando-se a si,
Nimbam de luz a longa escuridĂŁo
Da vida que vivi.

Auréola de Dor, que finaliza
Na noite do abismo do meu nada;
SilĂȘncio, prece, comunhĂŁo sagrada,
Sombra de luz que em Ti me diviniza,
Tortura do meu fim,
Alma ungida
E perdida
Na grandeza de Si. E jĂĄ sem ver-me,
Maceração crepuscular de Mim,
Agonizo de Ser-me.

Adagas Cujas JĂłias Velhas Galas

Adagas cujas jĂłias velhas galas…
Opalesci amar-me entre mĂŁos raras,
E fluido a febres entre um lembrar de aras,
O convĂ©s sem ninguĂ©m cheio de malas…

O Ă­ntimo silĂȘncio das opalas
Conduz orientes até jóias caras,
E o meu anseio vai nas rotas claras
De um grande sonho cheio de Ăłcio e salas…

Passa o cortejo imperial, e ao longe
O povo só pelo cessar das lanças
Sabe que passa o seu tirano, e estruge

Sua ovação, e erguem as crianças
Mas o teclado as tuas mĂŁos pararam
E indefinidamente repousaram…

No muito falar hĂĄ muito desgaste. É preferĂ­vel guardar silĂȘncio

No muito falar hĂĄ muito desgaste. É preferĂ­vel guardar silĂȘncio.

Espero Curar-me em Tua Intenção

O que me eleva, o que em mim perdurarĂĄ, Ă© a felicidade de ser amado por ti. Veneza, o Grande Canal, a Piazzetta, a Praça de S. Marcos – um mundo desvanecido. Tudo se torna objectivo como uma obra de arte. Instalei-me num imenso palĂĄcio debruçado para o Grande Canal, de que neste momento sou o Ășnico habitante. Salas enormes, espaçosas, onde vagueio Ă  minha vontade. Tendo a minha instalação uma importĂąncia grande no aspecto tĂ©cnico e material do meu trabalho, nela ponho todo o meu cuidado. Escrevi logo para que me mandem o «Erard». SoarĂĄ admiravelmente nos salĂ”es do meu palĂĄcio. O singular silĂȘncio do Canal convĂ©m-me Ă s mil maravilhas. SĂł deixo a casa pelas cinco horas, para ir comer. Depois passeio pelo jardim pĂșblico; breve paragem na Praça de S. Marcos, de um tĂŁo teatral efeito, por entre uma multidĂŁo que me Ă© completamente estranha e apenas me distrai a imaginação. Pelas nove horas regresso de gĂŽndola, encontro o candeeiro aceso, e leio um pouco antes de adormecer…

Esta solidĂŁo, Ășnico alvo que procuro e que aqui se torna agradĂĄvel, anima-me. Sim, espero curar-me em tua intenção. Conservar-me para ti significa consagrar-me Ă  minha arte. Tornar-me tua consolação,

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O silĂȘncio sĂł Ă© necessĂĄrio quando nĂŁo se tem nada de vĂĄlido a dizer. Ele faz com que atĂ© os idiotas pareçam sĂĄbios por um minuto.

Aqueles que tĂȘm um grande autocontrole, ou que estĂŁo totalmente absortos no trabalho, falam pouco. Palavra e acção juntas nĂŁo andam bem. Repare na natureza: trabalha continuamente, mas em silĂȘncio.

A Avidez da Morte

Quem nos contarĂĄ
o que o morto sabia
mas nĂŁo disse?
Quem hĂĄ-de escrever as cartas
que o morto nĂŁo escreveu?
Qual de nĂłs poderĂĄ lembrar-se
de quem só o morto ainda tinha lembrança?
Quem amarĂĄ a mulher que apenas o morto amava?

Quem hĂĄ-de medir o vazio,
a herança de silĂȘncio
que a Morte nos deixou?

E como podes ver, ainda falo demasiadamente, e isto Ă© sinal de que nĂŁo sou sĂĄbia, porque a virtude se adquire no silĂȘncio.

Luar

Pelas esferas, nuvens peregrinas,
Brandas de toques, encaracoladas,
Passam de longe, tĂ­midas, nevadas,
Cruzando o azul sereno das colinas.

Sombras da tarde, sombras vespertinas
Como escumilhas leves, delicadas,
Caem da serra oblonga nas quebradas,
VĂŁo penumbrando as coisas cristalinas.

Rasga o silĂȘncio a nota chĂŁ, plangente,
Da Ave-Maria, — e entĂŁo, nervosamente,
Nuns inefĂĄveis, espontĂąneos jorros

Esbate o luar, de forma admirĂĄvel,
Claro, bondoso, elétrico, saudåvel,
Na curvilĂ­nea compridĂŁo dos mortos.

Sentir a Felicidade

EntĂŁo isso era a felicidade. E por assim dizer sem motivo. De inicio se sentiu vazia. Depois os olhos ficaram hĂșmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que Ă© que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que jĂĄ estĂĄ começando a me doer como uma angĂșstia, como um grande silĂȘncio? A quem dou minha felicidade, que jĂĄ estĂĄ começando a me rasgar um pouco e me assusta? NĂŁo, nĂŁo quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, milhares de pessoas nĂŁo tĂȘm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que Ă© sentir-se feliz, e preferem a mediocridade.

Eis-me

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mĂĄgicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silĂȘncio
Ante o silĂȘncio e o esplendor da tua face

Mas tu Ă©s de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mĂŁo me toca
O meu coração desce as escadas do tempo
[em que nĂŁo moras
E o teu encontro
SĂŁo planĂ­cies e planĂ­cies de silĂȘncio

Escura Ă© a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto estå para além do tempo opaco
E eu nĂŁo habito os jardins do teu silĂȘncio
Porque tu Ă©s de todos os ausentes o ausente