Passagens de Michel de Montaigne

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Somos para Nós mesmos Objecto de Descontentamento

Se os outros se observassem a si próprios atentamente como eu achar-se-iam, tal como eu, cheios de inanidade e tolice. Não posso livrar-me delas sem me livrar de mim mesmo. Estamos todos impregnados delas, mas os que têm consciência de tal saem-se, tanto quanto eu sei, um pouco melhor.
A ideia e a prática comuns de olhar para outros lados que não para nós mesmos de muito nos tem valido! Somos para nós mesmos objecto de descontentamento: em nós não vemos senão miséria e vaidade. Para não nos desanimar, a natureza muito a propósito nos orientou a visão para o exterior. Avançamos facilmente ao sabor da corrente, mas inverter a nossa marcha contra a corrente, rumo a nós próprios, é um penoso movimento: assim o mar se turva e remoinha quando em refluxo é impelido contra si mesmo.
Cada qual diz: ¬ęOlhai os movimentos do c√©u, olhai para o p√ļblico, olhai para a querela deste homem, para o puso daquele, para o testamento daqueloutro; em suma, olhai sempre para cima ou para baixo, ou para o lado, ou para a frente, ou para tr√°s de v√≥s.¬Ľ
O mandamento que na antiguidade nos preceituava aquele deus de Delfos ia contra esta opini√£o comum: ¬ęOlhai para dentro de v√≥s,

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Na verdadeira amizade, em que sou experimentado, dou-me mais ao meu amigo que o puxo para mim. Não só prefiro fazer-lhe bem a que ele mo faça mas ainda que ele o faça a si próprio a que mo faça.

Poupar a Vontade

Em compara√ß√£o com o comum dos homens, poucas coisas me atingem, ou, dizendo melhor, me prendem; pois √© razo√°vel que elas atinjam, contanto que n√£o nos possuam. Tenho grande zelo em aumentar pelo estudo e pela reflex√£o esse privil√©gio de insensibilidade, que em mim √© naturalmente muito saliente. Desposo – e consequentemente me apaixono por – poucas coisas. A minha vis√£o √© clara, mas detenho-a em poucos objectos; a sensibilidade, delicada e male√°vel. Mas a apreens√£o e aplica√ß√£o, tenho-a dura e surda: dificilmente me envolvo. Tanto quanto posso, emprego-me todo em mim; por√©m mesmo nesse objecto eu refrearia e suspenderia de bom grado a minha afei√ß√£o para que ela n√£o se entregasse por inteiro, pois √© um objecto que possuo por merc√™ de outr√©m e sobre o qual a fortuna tem mais direito do que eu. De maneira que at√© a sa√ļde, que tanto estimo, ser-me-ia preciso n√£o a desejar e n√£o me dedicar a ela t√£o desenfreadamente a ponto de achar insuport√°veis as doen√ßas. Devemos moderar-nos entre o √≥dio e o amor √† voluptuosidade; e Plat√£o receita um caminho mediano de vida entre ambos.
Mas √†s paix√Ķes que me distraem de mim e me prendem alhures, a essas certamente me oponho com todas as minhas for√ßas.

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Na verdade, o cuidado e a despesa dos nossos pais visam apenas enriquecer as nossas cabeças com ciência; quanto ao juízo e à virtude, as novidades são poucas.

A Justa Medida do Esforço do Prazer

Os s√°bios bem ensinam a nos precavermos contra a trai√ß√£o dos nossos apetities e a discernir entre os prazeres verdadeiros e integrais e os prazeres d√≠spares e mesclados com mais trabalhos. Pois a maioria dos prazeres, dizem eles, excitam e abra√ßam para nos estrangular (…). E, se a dor de cabe√ßa nos viesse antes da embriaguez, evitar√≠amos beber demais. Mas a vol√ļpia, para nos enganar, caminha √† frente e oculta-nos o seu s√©quito. Os livros s√£o apraz√≠veis; mas, se por frequent√°-los perdemos afinal a alegria e a sa√ļde, que s√£o as nossas melhores partes, abandonemo-los. Sou dos que julgam que o seu fruto n√£o pode contrabalan√ßar essa perda. Como os homens que h√° longo tempo se sentem enfraquecidos por alguma indisposi√ß√£o se entregam por fim √† merc√™ da medicina e deixam que lhes estabele√ßa artificialmente certas regras de viver para n√£o mais ultrapass√°-las, assim tamb√©m aquele que se isola, entediado e desgostoso da vida em comum, deve conformar esta √†s regras da raz√£o, deve organiz√°-la e orden√°-la com premedita√ß√£o e reflex√£o.
Deve dizer adeus a toda a esp√©cie de esfor√ßo, sob qualquer apar√™ncia que se apresente; e fugir em geral das paix√Ķes que impedem a tranquilidade do corpo e da alma,

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Temos na filosofia uma medicina muito agrad√°vel, pois, nas outras, sentimos o bem-estar apenas depois da cura; esta faz bem e cura ao mesmo tempo.

O Lucro de Um é Prejuízo de Outro

O ateniense Dêmades condenou um homem da sua cidade que tinha por ofício vender as coisas necessárias para os enterros, sob a alegação de que exigia um lucro excessivo e esse lucro não lhe podia vir sem a morte de muitas pessoas. Tal julgamento parece estar mal pronunciado, na medida em que não se obtém benefício algum a não ser com prejuízo de outrem, e que dessa maneira seria preciso condenar toda a espécie de ganho.
O mercador s√≥ faz bem os seus neg√≥cios por causa da devassid√£o dos jovens; o lavrador, pela carestia dos cereais; o arquitecto, pela ru√≠na das casas; os oficiais de justi√ßa, pelos processos e contendas dos homens; mesmo as honras e a actividade dos ministros da religi√£o prov√™m da nossa morte e dos nossos v√≠cios. Nenhum m√©dico se alegra com a sa√ļde mesmo dos seus amigos, diz o antigo c√≥mico grego, nem o soldado com a paz da sua cidade; e assim sucessivamente. E o que √© pior: cada um sonde dentro de si mesmo, e descobrir√° que a maioria dos nossos desejos √≠ntimos nascem e alimentam-se √†s expensas de outrem.
Considerando isso, veio-me à mente que nisso a natureza não contradiz a sua organização geral,

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O Inconveniente da Raz√£o

O filósofo Pírron, encontrando-se num barco num dia de grande tormenta, mostrava aos que via mais apavorados ao seu redor um porquinho que lá estava, nem um pouco preocupado com aquela tempestade, e encorajava-os com o seu exemplo.

A Instabilidade e Imprevisibilidade do Nosso Comportamento

N√£o deveis estranhar se hoje vedes poltr√£o aquele que ontem vistes t√£o intr√©pido: ou a c√≥lera, ou a necessidade, ou a companhia, ou o vinho, ou o som de uma trombeta, tinham-lhe incutido coragem. N√£o se trata de uma coragem que a raz√£o haja modelado; foram as circunst√Ęncias que lhe deram consist√™ncia; n√£o espanta, pois, que circunst√Ęncias contr√°rias a tenham transformado.
Esta t√£o flex√≠vel varia√ß√£o e estas contradi√ß√Ķes que em n√≥s se v√™em, fizeram com que alguns imaginassem termos duas almas, e que outros supusessem que dois poderes nos acompanham e agitam, cada qual √† sua maneira, um tendendo para o bem, o outro para o mal, j√° que t√£o brutal diversidade n√£o poderia atribuir-se a uma s√≥ entidade.
N√£o somente o vento dos acidentes me agita consoante a direc√ß√£o para que sopra, mas, ademais, eu agito-me e perturbo-me a mim pr√≥prio pela instabilidade da minha postura; e quem, antes do mais, se observar, nunca se achar√° duas vezes no mesmo estado. Confiro √† minha alma ora um rosto ora outro, conforme o lado sobre que a pousar. Se falo de mim de diferentes maneiras √© porque de maneiras diferentes me observo. Toda a sorte de contradi√ß√Ķes se podem encontrar em mim sob algum ponto de vista e sob alguma forma.

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A Estranheza dá Crédito

O verdadeiro campo e assunto da impostura s√£o as coisas desconhecidas. Isso porque em primeiro lugar a pr√≥pria estranheza d√° cr√©dito; e depois, n√£o estando sujeitas √†s nossas reflex√Ķes habituais, elas tiram-nos os meios de as combater. Por causa disso, diz Plat√£o, √© muito mais f√°cil satisfazer ao falar da natureza dos deuses do que da natureza dos homens, porque a ignor√Ęncia dos ouvintes abre um belo e amplo caminho e toda a liberdade para o manejo de uma mat√©ria secreta.
Advém daí que nada é aceite tão firmemente como aquilo que menos se sabe, nem há pessoas tão seguras como as que nos contam fábulas, como alquimistas, prognotiscadores, astrólogos, quiromantes, médicos, toda a gente dessa espécie (Horácio). A eles eu acrescentaria de bom grado, se ousasse, um bando de pessoas, intérpretes e controladores habituais dos desígnios de Deus, que têm a pretensão de descobrir as causas de cada acontecimento e de ver nos segredos da vontade divina os incompreensíveis motivos das suas obras; e, embora a variedade e a disparidade contínua dos factos os lance de um canto para o outro e do ocidente para o oriente, não deixam entretanto de persistir no que é seu e com o mesmo lápis pintar o preto e o branco.

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O ci√ļme √©, de todas as doen√ßas da mente, aquela a que mais coisas servem de alimento e menos coisas de rem√©dio.