Passagens de Vergílio Ferreira

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A Arte Est√° em Todo o Lado

N√≥s n√£o nos damos conta de como a arte nos trespassa de todo o lado. Anotar isso aos que vaticinam a morte da arte. Isto ao n√≠vel mais corriqueiro. Dispor os m√≥veis numa sala √© fazer arte. Ou olhar uma paisagem, p√īr uma flor na lapela, ou num vaso. Escolher uma gravata, uns sapatos. Provar um fato. Pentear-se. Fazer a barba ou apar√°-la quando comprida. Todas as coisas de cerim√≥nia t√™m que ver com a arte. E o corte das unhas.
Todo o jogo. Toda a verdade que releva da emo√ß√£o. √Äs vezes mesmo a escolha do papel higi√©nico. Mas mesmo a desordem. Bergson, creio, dizia que se tudo fosse desordenado, n√≥s acabar√≠amos por ler a√≠ uma ordem. E n√£o √© o que fazemos ao inventarmos as constela√ß√Ķes? Admitir a morte da arte √© admitir a morte do homem, que imp√Ķe essa arte a tudo o que v√™. Mas tenho de ir √† casa de banho. A ver se invento arte mesmo a√≠. (Mas quando disse ¬ęcasa de banho¬Ľ e n√£o ¬ęretrete¬Ľ, j√° a inventei.)

A maior tragédia para o homem é saber que tem de morrer. Mas a sua maior grandeza é justamente ter consciência. Assim a sua maior grandeza é a sua maior tragédia.

Em pol√≠tica, a ¬ęhonestidade¬Ľ n√£o conta nem como estrat√©gia nem como √≠ndice para avalia√ß√£o dos outros. Ser ¬ęhonesto¬Ľ em pol√≠tica actuante √© ser parvo.

A Hist√≥ria √© feita de m√°ximos que s√≥ o s√£o porque quando o foram n√£o calhou haver outro ou p√īde haver outro que os relativizasse.

Cai a Chuva Abandonada

Cai a chuva abandonada
à minha melancolia,
a melancolia do nada
que é tudo o que em nós se cria.

Memória estranha de outrora
n√£o a sei e est√° presente.
Em mim por si se demora
e nada em mim a consente

do que me fala à razão.
Mas a razão é limite
do que tem ocasi√£o

de negar o que me fite
de onde é a minha mansão
que é mansão no sem-limite.
Ao longe e ao alto é que estou
e só daí é que sou.

Quanto mais grave é uma doença, maior tem de ser a esperança. Porque a função da esperança é preencher o que nos falta.

Uma diferença entre uma grande obra de arte e uma obra medíocre é que a grande obra tende a tornar-se um lugar-comum e a medíocre não o consegue por já o ser.

A Acção Mais Degradada

A ac√ß√£o mais degradada √© a daquele que n√£o age e passa procura√ß√£o a outrem para agir – a dos frequentadores dos espect√°culos de luta e a dos consumidores da literatura de viol√™ncia. Ser her√≥i e atrav√©s de outrem, ser corajoso em imagina√ß√£o, √© o limite extremo da ac√ß√£o gratuita, do orgulho ou da vaidade que n√£o ousa. Corre-se o risco sem se correr, experi¬≠menta-se como se se experimentasse, colhe-se o prazer do triunfo sem nada arriscar. E √© por isso que os fIlmes de guerra, do hero√≠smo policial, de espionagem, t√™m de acabar bem. Por¬≠que o que a√≠ se procura √© justamente o sabor do triunfo e n√Ęo apenas do risco. O gosto do risco procura-o o her√≥i real, o jogador que pode perder. Mas o espectador da sua luta, degra¬≠dado na sedu√ß√£o da ac√ß√£o, acentua a sua mediocridade no n√£o poder aceitar a derrota, no fingir que corre o risco mesmo em fic√ß√£o, mas com a certeza pr√©via de que o risco √© vencido. O que ele procura √© a pequena lisonja √† sua vaidade pequena, a figura√ß√£o da coragem para a sua cobardia, e s√≥ a vit√≥ria do her√≥i a quem passou procura√ß√£o o pode lisonjear.
E se o herói morre em grandeza,

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A Pergunta Limita a Resposta

Quando se faz uma pergunta dissemos j√° que nos interessamos por uma determinada quest√£o, limitamos j√° o campo da resposta. Que eu te pergunte, disseste-me tu, ¬ęest√° frio?¬Ľ, e nada se poder√° dizer sen√£o referente ao frio. N√£o se poder√° responder por exemplo que a arte √© bela ou que a Terra √© redonda. √Č por isso que √© suspeito para um ateu que se pergunte se Deus existe; como seria ofensivo perguntar-se a algu√©m se a mulher o atrai√ßoa… Mesmo que a resposta dissesse ¬ęn√£o¬Ľ, a pergunta, s√≥ por si, j√° de algum modo tinha dito ¬ęsim¬Ľ.

Para se ver o que é pequeno é preciso ter um tamanho maior. Porque se o tamanho é o mesmo, o pequeno tem o tamanho máximo, por nada ser visível para lá dele.

Diz-se que nós, os portugueses, não somos romancistas ou filósofos. A razão deve ser essa Рa de sermos dispersivos, preguiçosos, avulsos. E é por essa razão que somos poetas líricos.

A Distração e a Categorização da Vida

Mas tu, meu amgo, onde est√°s? Sobre a tua sorte, quanta coisa fascinante e absurda imagin√°mos! No entanto, tudo isso que imagin√°mos, v√™ tu, quantas vezes o n√£o foi tanto como resposta para as nossas interroga√ß√Ķes, como um motivo para nos distrairmos mais ainda… Porque a distrac√ß√£o √© a parte mais rebelde e a mais insidiosa da nossa condi√ß√£o. Ela infilta-se-nos n√£o apenas no nosso consentimento, nas tr√©guas que nos damos, mas at√© mesmo no que √© uma conquista da nossa rara grandeza.

A arte, o hero√≠smo, a pr√≥pria evid√™ncia da vertigem, do milagre, os sonhos da reden√ß√£o e da nobreza, tudo o que √© da nossa profunda unidade, um nada o reabsorve em solidez, em moeda de compra-e-venda para a transaccionarmos com os outros no mercado da vaidade, do passatempo, na grande feira da vida. H√° uma dist√Ęncia infinita entre a apari√ß√£o da verdade, a imediata evid√™ncia de seja o que for, e at√© mesmo o seu reconhecimento: quando olhamos a evid√™ncia pela segunda vez, j√° ela est√° alinhada, classificada, endurecida entre as coisas que nos cercam. Eis porque n√≥s ignoramos ou esquecemos depressa a face do que h√° de estranho nos factos mais banais: no da vida,

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Quanta explica√ß√£o para a hist√≥ria do homem. Mas √© t√£o simples, afinal. A hist√≥ria do homem √© a hist√≥ria da import√Ęncia de n√≥s. O resto s√£o maneiras ou expedientes ou condicionamentos de isso se efectivar.