Passagens de Vergílio Ferreira

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Há Dentro de Nós um Poço

H√° dentro de n√≥s um po√ßo. No fundo dele √© que estamos, porque est√° o que √© mais n√≥s, o que nos individualiza, a fonte do que nos enriquece no em que somos humanos. E a vida exterior, o assalto do que nos rodeia, o que visa √© esse √≠ntimo de n√≥s para o ocupar, o preencher, o esvaziar do que nos pertence e nos faz ser homens. Jamais como hoje esse assalto foi t√£o violento, jamais como hoje fomos invadidos do que n√£o √© n√≥s. √Č l√° nesse fundo que se gera a espiritualidade, a gravidade do sermos, o encantamento da arte. E a nossa luta √© terr√≠vel, para nos defendermos no √ļltimo recesso da nossa intimidade. Porque tudo nos expulsa de l√° Quando essa intimidade for preenchida pelo exterior, quando a materialidade se nos for depositando dentro, o homem definitivamente ter√° em n√≥s morrido.
J√° h√° exemplos disso. Um dos mais perfeitos chama-se robot. √Č invenc√≠vel pensarmos o que ser√° o homem amanh√£. E nenhuma outra imagem se nos imp√Ķe com mais for√ßa. Mas o que desse visionar mais nos enriquece a alma √© que o homem ent√£o ser√° possivelmente feliz. Porque ser homem n√£o √© ter felicidade mas apenas ser humano.

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Se fazes questão em reflectir sobre o enigma da vida e do universo, vê se te despachas depressa, que a espécie humana qualquer dia acaba.

Muitas vezes o problema não é o de se não ter talento mas apenas o de se não saber ter. Porque uma coisa é ter qualidades e outra ter o instinto da sua exacta aplicação.

Do amor se diz que é frágil. Da amizade se não diz que o é também. Só que a razão de o ser ou não ser não é tão visível. Nem tão chocante.

Qual é a Nossa Puerilidade Actual?

Que se pensar√° de n√≥s daqui a cem anos? Como se sentir√° o que hoje sentimos? Porque tudo envelhece t√£o incrivelmente cedo. Quando se rel√™ uma revista de h√° vinte, trinta anos, n√£o s√£o bem os assuntos que envelheceram mas a maneira como se √© nele, com eles. √Č-se ent√£o ing√©nuo, como n√£o sabemos explicar. Tudo perde ent√£o viabilidade, √© um ser-se infantil, um modo rid√≠culo de relacionamento com a vida. As ideias podem talvez persistir. Mas encarquilharam ao muito sol que apanharam, s√£o quebradi√ßas, fr√°geis no modo de existirem, f√ļteis e pueris como uma moda que passou. √Č a altura de vir ao de cima o que era ent√£o invis√≠vel e √© agora a parcela que lan√ßamos nas nossas contas de homens. √Č a altura de isso se separar do rid√≠culo em que se encarnou e de viver por si na significa√ß√£o que teve.

A Maravilha da Vida

Desvia a tua aten√ß√£o para a maravilha da vida e a vida se te n√£o esgotar√°. Economiza os teus ¬ęporqu√™s¬Ľ e ¬ępara qu√™¬Ľ, porque como na embriaguez s√≥ j√° paras na morte. Mas se insistes em chegar a Deus, submete-o ao teu questionar e ver√°s como ele fica desnorteado. Porque o teu questionar vai para l√° dele e desvanece-se no vazio. Aceita a vida, que ela √© bastante para qualquer questionar. E poder√°s ent√£o adormecer porque h√° a√≠ verdade que chegue. Dorme.

Vive o Instante que Passa

Vive o instante que passa. Vive-o intensamente at√© √† √ļltima gota de sangue. √Č um instante banal, nada h√° nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele √© o √ļnico por ser irrepet√≠vel e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele ser√° o mesmo nem tu que o est√°s vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele n√£o seja pois em v√£o no dar-se-te todo a ti. Olha o sol dif√≠cil entre as nuvens, respira √† profundidade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes long√≠nquas de crian√ßas, o ru√≠do de um motor que passa na estrada, o sil√™ncio que isso envolve e que fica. E pensa-te a ti que disso te apercebes, s√™ vivo a√≠, pensa-te vivo a√≠, sente-te a√≠. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que √©s. Assim o dom est√ļpido e miraculoso da vida n√£o ser√° a estupidez maior de o n√£o teres cumprido integralmente, de o teres desperdi√ßado numa vida que ter√° fim.

A Consciência Débil da Nossa Autenticidade

A consciência que te acompanha no que vais sendo é o puro registo disso que vais sendo para o poderes ler, se quiseres, depois de já ter sido. Mas no instante de seres o que és, o que és é apenas, por uma decisão anterior ao decidires. O que és é-lo onde a tua realidade profunda em profundeza obscura se realizou. O que és é-lo no absoluto de ti. A consciência testifica-nos apenas como o ser privilegiado que sabe o que é por aquilo que vai sendo e pode assim reconverter-se à posse iluminada disso que vai sendo. A consciência constata mas não interfere senão para se não ser mais o que se foi, ou mais rigorosamente, para se não querer ser o que se é Рo que é ser-se ainda, embora de outra maneira.
Porque se neste instante me sobreponho, ao que sou, outra maneira de ser Рa consciência que me altera o primeiro modo de ser é a paralela iluminação do modo de ser segundo. Decidi ainda antes de decidir, quando decidi não ser o que primeiramente decidira. Assim no torvelinho dos actos que me presentificam e da consciência desses actos, sempre o insondável de nós se abre para lá do que podemos sondar.

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O Valor do Homem para a Mulher

Se se diz a uma mulher que certo homem é inteligente, ela escreve mentalmente um zero. Se se diz que é culto, ela escreve outro zero. Se acrescentarmos que é belo, amável, com boa reputação social e tudo o mais que se quiser, ela acrescenta outros zeros. Se finalmente se confidenciar que ele é bom na cama, ela escreve um 1 antes dos zeros todos. (Tenho ideia de ter lido qualquer coisa de semelhante a esta conta não sei onde. Mas como não sei onde, façamos de conta que a conta é minha. Porque de qualquer modo, é exacta.)

Nasce-se todo inteiro, mas morre-se apenas a parcela do todo que nos foi morrendo ao longo da vida e nos tinha em pé. Por isso a morte mais natural de um velho é cair para o lado.

Sê alegre apenas depois de dares a volta à vida toda. E regressares então a uma flor, ao sol num muro, a um verme no chão. A profunda alegria não é a do começo mas a do fim.

A mulher mais ciumenta √© talvez a que mais facilmente atrai√ßoa o marido e menos tolera que ele a atrai√ßoes. Porque o ci√ļme √© a afirma√ß√£o de um direito de propriedade. E esse direito refor√ßa-se com a trai√ß√£o dela e diminui-se com a dele.