Passagens sobre Baixo

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Frases sobre baixo, poemas sobre baixo e outras passagens sobre baixo para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Com a Fortuna n√£o Perde o Ser de Besta

Na carreira veloz, a deusa cega
Lança às vezes a mão a um feio mono
E o sobe, num instante, a um coche, a um trono,
Onde a Virtude com trabalho chega.

Porém se, louca, num jumento pega,
Por mais que o erga n√£o lhe d√° abono:
Bem se vê que foi sonho de seu sono,
Quando a vara ou bast√£o ela lhe entrega.

Pouco importa adornar asno casmurro
Com jaezes reais, mantas de festa,
Se a conhecer se d√° no rouco zurro.

Quem, no berço, por vil se manifesta,
Quem nele baixo foi, quem nace burro,
Co’a Fortuna n√£o perde o ser de besta.

Aproveitar o Tempo

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha…
O trabalho honesto e superior…
O trabalho √† Virg√≠lio, √† M√≠lton…
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
√Č t√£o pouco prov√°vel ser Milton ou ser Virg√≠lio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos – nem mais nem menos –
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E est√£o certas tamb√©m do lado de baixo que se n√£o v√™)…
P√īr as sensa√ß√Ķes em castelo de cartas, pobre China dos ser√Ķes,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paci√™ncias ou de passatempos –
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo…
Sim, verbalismo…
Aproveitar o tempo!
N√£o ter um minuto que o exame de consci√™ncia desconhe√ßa…
N√£o ter um acto indefinido nem fact√≠cio…
N√£o ter um movimento desconforme com prop√≥sitos…
Boas maneiras da alma…
Eleg√Ęncia de persistir…

Aproveitar o tempo!

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A Bicicleta pela Lua Dentro – M√£e, M√£e

A bicicleta pela lua dentro – m√£e, m√£e –
ouvi dizer toda a neve.
As árvores crescem nos satélites.
Que hei-de fazer sen√£o sonhar
ao contr√°rio quando novembro empunha –
m√£e, m√£e – as tellhas dos seus frutos?
As nuvens, avi√Ķes, merc√ļrio.
Novembro Рmãe Рcom as suas praças
descascadas.

A neve sobre os frutos – filho, filho.
Janeiro com outono sonha ent√£o.
Canta nesse espanto Рmeu filho Рos satélites
sonham pela lua dentro na sua bicicleta.
Ouvi dizer novembro.
As praças estão resplendentes.
As grandes letras descascadas: é novo o alfabeto.
Avi√Ķes passam no teu nome –
minha m√£e, minha m√°quina –
merc√ļrio (ouvi dizer) est√° cheio de neve.

Avança, memória, com a tua bicicleta.
Sonhando, as √°rvores crescem ao contr√°rio.
Apresento-te novembro: avi√£o
limpo como um alfabeto. E as praças
d√£o a sua neve descascada.
M√£e, m√£e ‚ÄĒ como janeiro resplende
nos sat√©lites. Filho ‚ÄĒ √© a tua mem√≥ria.

E as letras est√£o em ti, abertas
pela neve dentro. Como √°rvores, avi√Ķes
sonham ao contr√°rio.

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Violoncelo

Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo…
De que esvoaçam,
Brancos, os arcos…
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.
Fundas, soluçam
Caudais de choro…
Que ruínas, (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!…
Trêmulos astros,
Soid√Ķes lacustres…
_ Lemes e mastros…
E os alabastros

Dos bala√ļstres!
Urnas quebradas!
Blocos de gelo…
_ Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

A Melhor Maneira de Viajar é Sentir

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas s√£o, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a f√ļria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que s√£o as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como v√°rias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais an√°logo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d’Ele h√° s√≥ Ele, e Tudo para Ele √© pouco.

Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.

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A Noite na Ilha

Dormi contigo toda a noite
junto ao mar, na ilha.
Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a √°gua.

Os nossos sonos uniram-se
talvez muito tarde
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento agita,
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.

0 teu sono separou-se
talvez do meu
e andava à minha procura
pelo mar escuro
como dantes,
quando ainda n√£o existias,
quando sem te avistar
naveguei a teu lado
e os teus olhos buscavam
o que agora
‚ÄĒ p√£o, vinho, amor e c√≥lera ‚ÄĒ
te dou às mãos cheias,
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.

Dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra escura gira
com os vivos e os mortos,
e ao acordar de repente
no meio da sombra
o meu braço cingia a tua cintura.
Nem a noite nem o sono
puderam separar-nos.

Dormi contigo
e, ao acordar, tua boca,

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H√° casos em que n√≥s, os psic√≥logos, nos portamos como cavalos, e nos inquietamos: vemos a nossa pr√≥pria sombra oscilar para cima e para baixo diante de n√≥s. O psic√≥logo se quer ver algo tem que afastar a vista de ¬ęsi¬Ľ.

Recordação

Foi por aqui, sob estes √°rvoredos,
Sob este doce e pl√°cido horizonte,
Perto da clara e pequenina fonte
Que murmura l√° baixo os seus segredos…

Recordo bem todos os cantos ledos
Da passarada — e lembro-me da ponte
Por sobre a qual via-se além, de fronte,
O mar azul batendo nos penedos.

Sinto a impress√£o ainda da paisagem,
Do tr√™molo (…)* da folhagem,
Das culturas rurais, do sítio agreste.

A luz do dia vinha ent√£o morrendo…
Foi por aqui que eu pude ficar crendo
O quanto pode o teu olhar celeste.

* Rasurado

Quando chover no seu desfile, olhe para cima e não para baixo. Sem a chuva, não existiria o arco-íris.

A Arte de Representar

A base da representa√ß√£o √© a falsidade. A arte do ator consiste em servir-se do drama do autor para mostrar por meio dele a sua capacidade de interpreta√ß√£o. A pe√ßa √© como uma barra onde o actor mostra as suas habilidades gin√°sticas. √Č apenas limitado pelas condi√ß√Ķes necess√°rias de uma barra: pode fazer com ela apenas um n√ļmero limitado de coisas, mas pode fazer de mil formas individuais.
A representa√ß√£o, repito, tem todo o atractivo de uma falsifica√ß√£o. Todos adoramos um falsificador. √Č um sentimento muito humano e completamente instintivo. Todos adoramos a trapa√ßa e a imita√ß√£o. A representa√ß√£o une e intensifica, por meio do car√°cter material e vital das suas manifesta√ß√Ķes, todos os baixos instintos do instinto art√≠stico ‚ÄĒ o instinto do enigma, o instinto do trap√©zio (…). √Č popular e apreciado por estas raz√Ķes, ou antes, por esta raz√£o.
A sede de gl√≥ria do artista √© feita carne na sede de aplauso do actor. Todo o aparecimento em p√ļblico √© baixo. Todas as assembleias s√£o multid√Ķes, e se n√£o suadas de corpo, pelo menos suadas de emo√ß√Ķes.
Todos os esp√≠ritos grosseiros adoram falar. Ser falador √© j√° por si vulgar. A √ļnica coisa que torna a verbosidade interessante √© a profanidade e a obscenidade,

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Tenho um Corpo a Sentir o que é de Todos

Tenho um corpo a sentir o que é de todos,
um espelho aonde n√£o aparece tudo; nem a m√£o que
vai ao sonho tornando menor o ultraje da criança
dividida com fantasmas de adultos. Ali, só permanece
a soma dos noivos deitados sobre a própria imagem.

E subentende-se o espanto da alma que n√£o imita
nada do homem. Ficam as medidas do corte por baixo
dos pontos, pois em cada parte do mundo te junto,
crio o que sou na morte adiantando
esse modelo in√ļtil que est√° no ber√ßo.

E ele embalança por nada. Não sente o que está
dentro e não começa nunca antes da saudade: esse nó
que damos em nós mesmos depois de passado o tempo.

No Alto

O poeta chegara ao alto da montanha,
E quando ia descer a vertente do oeste,
Viu uma cousa estranha,
Uma figura m√°.

Ent√£o, volvendo o olhar ao sutil, ao celeste,
Ao gracioso Ariel, que de baixo o acompanha,
Num tom medroso e agreste
Pergunta o que ser√°.

Como se perde no ar um som festivo e doce,
Ou bem como se fosse
Um pensamento v√£o,

Ariel se desfaz sem lhe dar mais resposta.
Para descer a encosta
O outro estendeu-lhe a m√£o.

O Espírito Desfaz a Ordem das Coisas

O esp√≠rito aprendeu que a beleza nos faz bons, maus, est√ļpidos ou sedutores. Disseca uma ovelha e um penitente e encontra em ambos humildade e paci√™ncia. Analisa uma subst√Ęncia e descobre que, tomada em grandes quantidades, pode ser um veneno, e em pequenas doses, um excitante. Sabe que a mucosa dos l√°bios tem afinidades com a do intestino, mas tamb√©m sabe que a humildade desses l√°bios tem afinidades com a humildade de tudo o que √© sagrado. O esp√≠rito desfaz a ordem das coisas, dissolve-as e volta a recomp√ī-las de forma diferente. O bem e o mal, o que est√° em cima e o que est√° em baixo n√£o s√£o para ele no√ß√Ķes de um relativismo c√©ptico, mas termos de uma fun√ß√£o, valores que dependem do contexto em que se encontram. Os s√©culos ensinaram-lhe que os v√≠cios se podem transformar em virtudes e as virtudes em v√≠cios, e conclui que, no essencial, s√≥ por in√©pcia se n√£o consegue fazer de um criminoso um homem √ļtil no tempo de uma vida. N√£o reconhece nada como l√≠cito ou il√≠cito, porque tudo pode ter uma qualidade gra√ßas √† qual um dia participar√° de um novo e grande sistema. Odeia secretamente como a morte tudo aquilo que se apresenta como se fosse definitivo,

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nenhum amor escapa impune

deixa-me perguntar se te
pareço tão assustado assim. Não
me sinto deslocado, talvez curioso, mas
nem surpreso. algo em ti me puxa
sempre ao sentimento, mesmo antes de
te conhecer, lembras-te, uma propens√£o para
te tratar bem, cuidar, vulnerabilizar os meus
modos, recusar admitir que também eu sou
capaz de crueldades quotidianas e
impunes. queria conversar contigo
sobre o nelson, que foi ver as coisas a
arder fotografando a própria
pele. queria falar-te da isabel e de como
choramos juntos, muito maricas, quando
nos correm mal estes amores ou, pior, a
nossa amizade. esta noite sonhei contigo e
achei graça dizer-te que cheirava mal
na nossa cama. que me incomodou a luz a entrar
pela persiana por fechar. que ouvi com dor o
orgasmo da vizinha de baixo

queria que soubesses que também eu
poderia ter ardido para o nelson
fotografar. queria que soubesses que
também poderia parar de chorar pela
isabel. queria que soubesses que o faria
exclusivamente
para arruinar o meu coração, se fosse a
tua vontade e com isso te deixasse em
paz.

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A Eterna Criação da Literatura

A literatura √© um acontecimento completamente √† parte. √Č um acontecimento que, de cada vez, recome√ßa de alto a baixo. √Č um acontecimento sem h√°bitos. No caso de um bom marceneiro, ou mesmo de um bom buscador de ouro, trata-se de refazer o que se fazia antes dele e – se for poss√≠vel – contribuir com o seu pequeno aperfei√ßoamento para a forma da mesa ou para o oco da bateia. Mas um jovem escritor n√£o deve absolutamente ameliorar Proust, ou aperfei√ßoar Claudel, completar Gide ou fazer um pequeno retoque a Val√©ry. N√£o, de modo algum. Cabe-lhe escrever como se nem Gide, nem Proust tivessem existido nunca.

N√£o Sou Digno de um Anjo T√£o Doce como Tu

Bom dia, anjo querido, beijo-te muito. Pensei em ti durante todo o caminho. Acabo de chegar. Sinto-me cansado e instalei-me para te escrever. Acabam de trazer-me ch√°, e √°gua para me lavar, mas no intervalo escrevo-te umas linhas. (…) Na sala de espera da esta√ß√£o andei de l√° para c√° a pensar em ti e dizia comigo: mas porque deixei eu a minha Anuska?
Recordava tudo, at√© ao mais √≠nfimo escaninho da tua alma e do teu cora√ß√£o. Desde que cas√°mos que descobri n√£o ser digno de um anjo t√£o doce, t√£o belo, t√£o puro como tu – e que cr√™ em mim. Como pude eu deixar-te? Para onde vou? Porqu√™? Deus confiou-te a mim para que nenhuma das riquezas da tua alma se perdesse – pelo contr√°rio, para que tudo se desenvolva e flores√ßa rica e esplendorosamente. Deus entregou-te a mim para que, por ti, eu resgate os meus enormes pecados, ao apresentar-te a Ele amadurecida, conservada, salva de tudo o que √© baixo e ofende o esp√≠rito. E eu (…) eu o que fa√ßo √© perturbar-te com coisas t√£o est√ļpidas como a minha viagem a este lugar.

Aparição

A mulher que por mim passou na rua, h√° pouco,
foi uma coisa di√°fana, gentil,
cedo, a pairar
na sombra dum jardim
com flores, em baixo, ajoelhadas,
ao senti-la na altura,
e mandando-lhe o aroma em l√°grimas, desfeito,
para mant√™-la em uma nuvem branca…

Mulher, coisa di√°fana, vaga e bela, sem desenho,
logo fluido animando o colo duma nuvem, nuvem,
num √°pice, trucidada pelo vento!

Eu entendo que um homem possa olhar para baixo, para a terra, e ser um ateu; mas não posso conceber que ele olhe para os céus e diga que não existe um Deus