Poemas sobre Vida

735 resultados
Poemas de vida escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Ora Até que Enfim

Ora at√© que enfim…, perfeitamente…
C√° est√° ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça.
Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabe√ßa teve o sobressalto pela espinha acima…

Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a sarapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!

Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solu√ß√£o, e foi preciso o est√īmago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!

Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organiza√ß√£o de poemas relativos √† vastid√£o de cada assunto resolvido em v√°rios ‚ÄĒ
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim…
Tenho uma n√°usea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia,

Continue lendo…

Perder

Perder é começar. A minha vida
foi movimento em cerne opaco e fr√≠gido…
E quando sei que este momento eterno
em mim percorre sulcos, veias, sonhos,
outro momento abra√ßa-me o porvir ‚ÄĒ
e desconheço a margem onde navegar,
onde aportar o peso do caminho.

Perder é começar. Por isso a ténue sombra
desenha no sigilo os abismais instantes
onde existiu, uma vez, qualquer destino exacto.

Que por Ti Perdi

O mar dentro da √°rvore, as nuvens
dentro da terra sem fim,
a luz. A luz dentro doutra luz
que limitava as m√£os e as abria
para outras m√£os dentro de um olhar.

Batem na fornalha os ventos.
Um c√°lice de vidro grosso com o licor
de fermentação caseira. Um prato
com avel√£s e nozes e folhas de medronho.
Nas margens as portadas corridas
ganham um halo de candeeiros de rua
que se difunde na fluorescência do televisor,
na palidez rubra das pequenas luzes do r√°dio.

A √ļltima claridade do dia mistura-se
à primeira da noite.
Este vento na auto-estrada onde rebenta a chuva
não me vai forçar o coração; nem estas sebes
ladeadas de cimento suspender√£o o voo
do que sou até ao que não és. Mas será
a carícia que no cinto treme, o calor do pescoço
descoberto, os vimes da cadeira donde te levantas
quando estou quase para me sentar.

Entre veios de relva desigual,
valados por cuidar abrigam
máquinas de desolação.
Forma√ß√Ķes de patos atravessam
o vidro polido do postigo.

Continue lendo…

Faz-se Luz

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes    loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina    realmente    os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual n√£o podemos contactar
sen√£o como amantes
de olhos fechados
e l√Ęmpadas nos dedos¬†¬†¬† e na boca

h√°-de flutuar uma cidade…

h√°-de flutuar uma cidade no crep√ļsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas √°guas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lent√≠ssimos… sem ningu√©m

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentado √† porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solid√£o

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive d√ļvidas que alguma vez me visite a felicidade

Prova Documental

J√° assumi a solid√£o dos outros
j√° provei do enigma insol√ļvel
j√° calcei as botas do morto
j√° tive segredo e foi de √°gua abaixo.

J√° fugi ao encontro marcado
j√° fui banido, j√° disse adeus
j√° fui soldado, j√° fui rapsodo
já tive inocência e foi de água abaixo.

J√° fui esperto, j√° fui afoito
já puxei faca, já toquei pífaro
j√° fui vaiado depois da briga
j√° tive saudade e foi de √°gua abaixo.

J√° fui √°rcade, j√° fui arcaico
já fui pateta, já fui patético
j√° perdi no jogo e na vida
j√° tive amor e foi de √°gua abaixo.

Já tive pressa, já sentei praça
j√° tive ouro, j√° tive prata
j√° tive lenda, j√° tive fazenda
j√° tive paz e foi de √°gua abaixo.

J√° tive herdade, j√° fui deserdado
já tive episódio, já tive epitáfio
j√° levei o andor de Nosso Senhor
já tive esperança e foi de água abaixo.

J√° tive mando, j√° corri mundo
j√° fui a Roma e n√£o quis ver o Papa
j√° fui pra cama com Ana Bolena
j√° tive inf√Ęncia e foi de √°gua abaixo.

Continue lendo…

Pousa em Mim os Teus Olhos Vagarosos

Pousa em mim os teus olhos vagarosos,
sobre o meu dorso livre, √°gua tranquila,
deslizando comigo até o nada.
Que se sabe da vida?

Nada h√° que se compare ao grande susto
do m√ļtuo descobrir-se e de sua dor.
Vivamos a verdade deste sonho.
Que se sabe do amor?

O Amor

I

Eu nunca naveguei, pieguíssimo argonauta
Dans les fleuves du tendre, onde h√° naufr√°gios bons,
Conduzindo Florian na tolda a tocar frauta,
E cupidinhos d’oiro a tasquinhar bombons.
Nunca ninguém me viu de capa à trovador,
Às horas em que está já Menelau deitado,
A tanger o arrabil sob os balc√Ķes em flor
Dos castelos feudais de papel√£o doirado.
N√£o canto de Anfitrite as vaporosas fraldas,
(Eu não quero com isto, ó Vénus, descompor-te)
Nem costumo almo√ßar c’roado de grinaldas,
Nem nunca pastoreei enfim, vestido à corte,
De bordão de cristal e punhos de Alençon,
Borreguinhos de neve a tosar esmeraldas
Num lameiro qualquer de qualquer Trianon.
Eu não bebo ambrósia em taças cristalinas,
Bebo um vinho qualquer do Douro ou de Bucelas,
Nem vou interrogar as folhas das boninas,
Para saber o amor, o tal amor das Elas.
N√£o visto da poesia a t√ļnica incons√ļtil,
Pela simples raz√£o, sob o pretexto f√ļtil
De ter visto passar na rua uns pés bonitos;
Nem do meu coração eu fiz um paliteiro,
Onde venha o amor cravar os seus palitos.

Continue lendo…

Da Vida… n√£o Fales Nela

Da vida… n√£o fales nela,
quando o ritmo pressentes.
N√£o fales nela que a mentes.

Se os teus olhos se demoram
em coisas que nada s√£o,
se os pensamentos se enfloram
em torno delas e n√£o
em torno de n√£o saber
da vida… N√£o fales nela.

Quanto saibas de viver
nesse olhar se te congela.
E só a dança é que dança,
quando o ritmo pressentes.

Se, firme, o ritmo avança,
√© d√≥cil a vida, e mansa…
N√£o fales nela, que a mentes.

Preso Político

1

Quiseram p√īr-me inteiro numa ficha.
O dia e a noite s√£o iguais por dentro.
N√£o h√° papel que conte a minha vida
mais que estes versos de punhal à cinta.
A barba cresce, e cresce a voz armada
descendo pelos muros t√£o tranquila;
t√£o tranquila que j√° nem desespera
de ser apenas voz, n√£o uma guerra.

Quiseram p√īr-me inteiro numa ficha.
N√£o h√° papel que conte a minha vida.
Mais que estes versos, esta m√£o estendida
por sobre os muros só de medo e pedra.

2

Quando saíres, amigo, não me esqueças.
Fico à espera da tua novidade.
Olha bem que far√°s da liberdade:
quando saíres, amigo, não me esqueças.

Quero mais fazimento que promessas.
S√£o de prata os enganos da cidade
com que outros sujeitam a vontade.
Não me esqueças, amigo, não me esqueças.

1966

Falas de Civilização, e de não Dever Ser

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de n√£o dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a m√°quina de fazer felicidade!

O Corpo Insurrecto

Sendo com o seu ouro, aurífero,
o corpo é insurrecto.
Consome-se, combustível,
no sexo, boca e recto.

Ainda antes que pegue
aos cinco sentidos a chama,
por um aceso acesso
da imaginação
ateiam-se à cama
ou a sítio algures,
terra de ninguém,
(quem desliza é o espaço
para o corpo que vem),

labaredas tais
que, lume, crepitam
nos ciclos mais extremos,
nas réstias mais íntimas,
as gl√Ęndulas, esponjas
que os corpos apoiam,
zonas aqu√°ticas
onde os órgãos boiam.

No amor, dizendo acto de o sagrar,
apertado o corpo do recém-nascido
no ovo solar, h√° ainda um outro
corpo incluído,
mas um corpo aquém
de ser s√£o ou podre,
um repuxo, um magma,
subst√Ęncia solta,
com pulm√Ķes.

Neste amor equívoco
(ou respiração),
sendo um corpo humano,
sendo outro mais alto,
suspenso da morte,
mortalmente intenso,
mais alto e mais denso,

mais talhado é o golpe
quando o p√Ķem em pr√°tica
com desassossego na respiração
e o sossego cru de quem,

Continue lendo…

Se um Dia a Juventude Voltasse

se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em p√°ssaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder… eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimens√£o nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois… mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
n√£o estou triste n√£o tenho projectos nem ambi√ß√Ķes
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das vis√Ķes pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesita√ß√Ķes no leme do fr√°gil barco…

Continue lendo…

Nós Homens nos Façamos Unidos pelos Deuses

N√£o a Ti, Cristo, odeio ou menosprezo
Que aos outros deuses que te precederam
Na memória dos homens.
Nem mais nem menos és, mas outro deus.

No Pante√£o faltavas. Pois que vieste
No Pante√£o o teu lugar ocupa,
Mas cuida n√£o procures
Usurpar o que aos outros é devido.

Teu vulto triste e comovido sobre
A ‘steril dor da humanidade antiga
Sim, nova pulcritude
Trouxe ao antigo Pante√£o incerto.

Mas que os teus crentes te n√£o ergam sobre
Outros, antigos deuses que dataram
Por filhos de Saturno
De mais perto da origem igual das coisas.

E melhores memórias recolheram
Do primitivo caos e da Noite
Onde os deuses n√£o s√£o
Mais que as estrelas s√ļbditas do Fado.

Tu não és mais que um deus a mais no eterno
N√£o a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Pante√£o que preside
À nossa vida incerta.

Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
Trouxe algo que faltava
Ao n√ļmero dos divos.

Por isso reina a par de outros no Olimpo,

Continue lendo…

Gozo e Dor

Se estou contente, querida,
Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
– N√£o. Ai n√£o; falta-me a vida;
Sucumbe-me a alma à ventura:
O excesso de gozo é dor.

Dói-me a alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua beleza,
N√£o sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.

√Č que n√£o h√° ser bastante
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
Tremo dele, e delirante
Sinto que se exaure em mim
Ou a vida – ou a raz√£o.

Todo o Amor em Nosso Amor se Encerra

Minha moça selvagem, tivemos
que recuperar o tempo
e caminhar para tr√°s, na dist√Ęncia
das nossas vidas, beijo a beijo,
retirando de um lugar o que demos
sem alegria, descobrindo noutro
o caminho secreto
que aproximava os teus pés dos meus,
e assim tornas a ver
na minha boca a planta insatisfeita
da tua vida estendendo as raízes
para o meu coração que te esperava.
E entre as nossas cidades separadas
as noites, uma a uma,
juntam-se à noite que nos une.
Tirando-as do tempo, entregam-nos
a luz de cada dia,
a sua chama ou o seu repouso,
e assim se desenterra
na sombra ou na luz nosso tesouro,
e assim beijam a vida os nossos beijos:
todo o amor em nosso amor se encerra:
toda a sede termina em nosso abraço.
Aqui estamos agora frente a frente,
encontr√°mo-nos,
n√£o perdemos nada.
Percorremo-nos l√°bio a l√°bio,
mil vezes troc√°mos
entre nós a morte e a vida,
tudo o que trazíamos
quais mortas medalhas
atir√°mo-lo ao fundo do mar,
tudo o que aprendemos
de nada serviu:
começámos de novo,

Continue lendo…

Adormecer

Vai vida na madrugada fria.

O teu amante fica,
na posse deste momento que foi teu,
amorfo e sem limites como um anjo;
a cabe√ßa cheia de estrelas…
Fica abraçado a esta poeira que teu pé levantou.
Fica in√ļtil e hirto como um deus,
desfalecendo na raiva de n√£o poder seguir-te!

Namorados do Mirante

Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas s√ļbitas est√°tuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
A Remontavam √†s origens ‚ÄĒ a realidade
Neles se fez, de subst√Ęncia, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da esp√©cie ‚ÄĒ tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas na magma incandescente
Que milénios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas gal√°xias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o sil√™ncio…

M√£ezinha

A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
N√£o havia comboios, nem autom√≥veis, nem avi√Ķes, nem m√≠sseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.

Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam l√° na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
43 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai desde o berço até à puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, vi√ļvas, que nunca mais (Oh nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, m√£es de filhos…
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas pr√≥prias condi√ß√Ķes,
não têm que ser consideradas
nestas considera√ß√Ķes.)

Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que, por temperamento,
ou por outras raz√Ķes mais ou menos secretas,
n√£o se inclinavam para o casamento.

Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detr√°s das cortinas
espreitando,

Continue lendo…

Algumas Coisas

A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.

Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.