Passagens de Cecília Meireles

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Ninguém me Venha Dar Vida

Ninguém me venha dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que n√£o tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferida,
que n√£o me quero curar,
que estou deixando de ser
e n√£o me quero encontrar,
que estou dentro de um navio
que sei que vai naufragar,
j√° n√£o falo e ainda sorrio,
porque est√° perto de mim
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.

Cora√ß√Ķes, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.

Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis a quem não quis.

No mistério do sem-fim equilibra-se um planeta. E no planeta um jardim e no jardim um canteiro no canteiro uma violeta e sobre ela o dia inteiro entre o planeta e o sem-fim a asa de uma borboleta.

Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
‚ÄĒ depois, abri o mar com as m√£os,
para o meu sonho naufragar.

Minhas m√£os ainda est√£o molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da √°gua vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Canção Póstuma

Fiz uma canção para dar-te;
porém tu já estavas morrendo.
A Morte é um poderoso vento.
E √© um suspiro t√£o t√≠mido, a Arte…

√Č um suspiro t√≠mido e breve
como o da respiração diária.
Choro de pomba. E a Morte é uma águia
cujo grito ninguém descreve.

Vim cantar-te a canção do mundo,
mas est√°s de ouvidos fechados
para os meus l√°bios inexatos,
‚ÄĒ atento a um canto mais profundo.

E estou como alguém que chegasse
ao centro do mar, comparando
aquele universo de pranto
com a l√°grima da sua face.

E agora fecho grandes portas
sobre a canção que chegou tarde.
E sofro sem saber de que Arte
se ocupam as pessoas mortas.

Por isso é tão desesperada
a pequena, humana cantiga.
Talvez dure mais do que a vida.
Mas à Morte não diz mais nada.

De seu calmo esconderijo,
o ouro vem, dócil e ingênuo;
torna-se pó, folha, barra,
prest√≠gio, poder, engenho…
√Č t√£o claro! – e turva tudo:
honra, amor e pensamento

Minhas m√£os ainda est√£o molhadas do azul das ondas entreabertas e a cor que escorre dos meus dedos, colore as areias desertas…

Sem Corpo Nenhum

Sem corpo nenhum,
como te hei de amar?
‚ÄĒ Minha alma, minha alma,
tu mesma escolheste
esse doce mal!

Sem palavra alguma,
como o hei de saber?
‚ÄĒ Minha alma, minha alma,
tu mesma desejas
o que não se vê!

Nenhuma esperança
me d√°s, nem te dou:
‚ÄĒ Minha alma, minha alma,
eis toda a conquista
do mais longo amor!

Encostei-me a ti, sabendo que eras somente onda. Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti. Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino, frágil, Fiquei sem poder chorar quando caí.

A Amiga Deixada

Antiga
cantiga
da amiga
deixada.

Musgo da piscina,
de uma √°gua t√£o fina,
sobre a qual se inclina
a lua exilada.

Antiga
cantiga
da amiga
chamada.

Chegara t√£o perto!
Mas tinha, decerto,
seu rosto encoberto…
Cantava ‚ÄĒ mais nada.

Antiga
cantiga
da amiga
chegada.

Pérola caída
na praia da vida:
primeiro, perdida
e depois ‚ÄĒ quebrada.

Antiga
cantiga
da amiga
calada.

Partiu como vinha,
leve, alta, sozinha,
‚ÄĒ giro de andorinha
na m√£o da alvorada.

Antiga
cantiga
da amiga
deixada.

A minha inf√Ęncia de menina sozinha de-me duas coisas que parecem negativas, e, foram sempre positivas para mim:sil√™ncio e solid√£o.

Personagem

Teu nome é quase indiferente
e nem teu rosto j√° me inquieta.
A arte de amar é exactamente
a de se ser poeta.

Para pensar em ti, me basta
o próprio amor que por ti sinto:
és a ideia, serena e casta,
nutrida do enigma do instinto.

O lugar da tua presença
é um deserto, entre variedades:
mas nesse deserto é que pensa
o olhar de todas as saudades.

Meus sonhos viajam rumos tristes
e, no seu profundo universo,
tu, sem forma e sem nome, existes,
silêncio, obscuro, disperso.

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome,
teu coração, tua existência,
tudo Рo espaço evita e consome:
e eu só conheço a tua ausência.

Eu só conheço o que não vejo.
E, nesse abismo do meu sonho,
alheia a todo outro desejo,
me decomponho e recomponho.