Passagens de Cecília Meireles

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Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.

Assovio

Ninguém abra a sua porta
para ver que aconteceu:
saímos de braço dado,
a noite escura mais eu.

Ela n√£o sabe o meu rumo,
eu n√£o lhe pergunto o seu:
n√£o posso perder mais nada,
se o que houve j√° se perdeu.

Vou pelo braço da noite,
levando tudo que é meu:
‚ÄĒ a dor que os homens me deram,
e a canção que Deus me deu.

N√£o te Fies do Tempo nem da Eternidade

N√£o te fies do tempo nem da eternidade
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo.
Apressa-te, amor, que amanh√£ eu morro,
que amanh√£ morro e n√£o te vejo!

N√£o demores t√£o longe, em lugar t√£o secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanh√£ eu morro,
que amanh√£ morro e n√£o te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo…
Apressa-te, amor, que amanh√£ eu morro,
que amanh√£ morro e n√£o te digo…

Como se Morre de Velhice

Como se morre de velhice
ou de acidente ou de doença,
morro, Senhor, de indiferença.

Da indiferença deste mundo
onde o que se sente e se pensa
não tem eco, na ausência imensa.

Na ausência, areia movediça
onde se escreve igual sentença
para o que é vencido e o que vença.

Salva-me, Senhor, do horizonte
sem estímulo ou recompensa
onde o amor equivale à ofensa.

De boca amarga e de alma triste
sinto a minha própria presença
num céu de loucura suspensa.

(J√° n√£o se morre de velhice
nem de acidente nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença.)

Os que sabem o que querem e querem o que têm! Sonhar um sonho a dois, e nunca desistir da busca de ser feliz, é para poucos!

Ainda que sendo tarde e em v√£o,
perguntarei por que motivo
tudo quando eu quis de mais vivo
tinha por cima escrito: N√£o

Nunca tive os olhos tão claros e o sorriso em tanta loucura. Sinto-me toda igual às árvores: solitária, perfeita e pura.

Epit√°fio

Ainda correm l√°grimas pelos
teus grisalhos, tristes cabelos,
na terra v√£ desintegrados,
em pequenas flores tornados.

Todos os dias est√°s viva,
na soledade pensativa,
ó simples alma grave e pura,
livre de qualquer sepultura!

E n√£o sou mais do que a menina
que a tua antiga sorte ensina.
E caminhamos de m√£o dada
pelas praias da madrugada.

Pergunto-te Onde se Acha a Minha Vida

Pergunto-te onde se acha a minha vida.
Em que dia fui eu. Que hora existiu formada
de uma verdade minha bem possuída.

Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.

E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida
por esperanças hereditárias? E de cada
pergunta minha vai nascendo a sombra imensa
que envolve a posição dos olhos de quem pensa.

Já não sei mais a diferença
de ti, de mim, da coisa perguntada,
do silêncio da coisa irrespondida.

De Longe Te Hei-de Amar

De longe te hei-de amar
– da tranquila dist√Ęncia
em que o amor é saudade
e o desejo, const√Ęncia.

Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.

Quem precisa explicar
o momento e a fragr√Ęncia
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrog√Ęncia?

E, no fundo do mar,
a Estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.

O saguim é um animalzinho assaz bonito:
é mesmo o mais bonito de todos, pela selva;
anda nas √°rvores, esconde-se, espia, foge depressa
e h√° deles, na terra vi√ßosa, n√ļmero infinito.

Se volto sobre o meu passo, √© j√° dist√Ęncia perdida. Meu cora√ß√£o, coisa de a√ßo, come√ßa a achar um cansa√ßo esta procura de espa√ßo para o desenho da vida.

Retrato de Mulher Triste

Vestiu-se para um baile que n√£o h√°.
Sentou-se com suas √ļltimas j√≥ias.
E olha para o lado, imóvel.

Est√° vendo os sal√Ķes que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que n√£o existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas l√°grimas.