Poemas sobre Flores

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Poemas de flores escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Cerca de Grandes Muros Quem te Sonhas

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
P√Ķe quantas flores s√£o as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim com lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu √©s –
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva t√£o pobre que nem tu a v√™s…

Musa dos Olhos Verdes

Musa dos olhos verdes, musa alada,
√ď divina esperan√ßa,
Consolo do anci√£o no extremo alento,
E sonho da criança;

Tu que junto do berço o infante cinges
C‚Äôos f√ļlgidos cabelos;
Tu que transformas em dourados sonhos
Sombrios pesadelos;

Tu que fazes pulsar o seio às virgens;
Tu que às mães carinhosas
Enches o brando, tépido regaço
Com delicadas rosas;

Casta filha do céu, virgem formosa
Do eterno devaneio,
Sê minha amante, os beijos meus recebe,
Acolhe-me em teu seio!

J√° cansada de encher l√Ęnguidas flores
Com as l√°grimas frias,
A noite vê surgir do oriente a aurora
Dourando as serranias.

Asas batendo à luz que as trevas rompe,
Piam noturnas aves,
E a floresta interrompe alegremente
Os seus silêncios graves.

Dentro de mim, a noite escura e fria
Melancólica chora;
Rompe estas sombras que o meu ser povoam;
Musa, sê tu a aurora!

Cantigas

Quando vejo a minha amada
Parece que o Sol nasceu;
Cantai, cantai alvorada
√ď avezinhas do c√©u.

Nessas √°guas do Mondego
Se pode a gente mirar,
Elas procuram sossego…
E v√£o caminho do mar.

A rosa que tu me deste
Peguei-lhe, mudou de cor;
Tornou-se de azul-celeste
Como o céu do nosso amor.

N√£o me fales da janela,
Que te não ouço da rua;
Fala-me de alguma estrela,
Que te vou ouvir da Lua.

Dizes que a letra n√£o deve
Ser nunca miudinha;
Mas grada ou mi√ļda escreve,
Que o coração adivinha.

N√£o digas que me n√£o amas
A ver se tenho ci√ļme;
Os laços do amor são chamas,
E n√£o se brinca com lume.

A virgem dos meus amores
Sobressai entre as mais belas:
√Č como a rosa entre flores,
√Č como o Sol entre estrelas.

Eu zombo de sol e chuva,
Noite e dia, terra e mar;
Ais de uma pobre vi√ļva,
Se os ouço, dá-me em chorar.

A sombra da nuvem passa
depressa pela seara;

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Embirração

(A Machado de Assis)

A balda alexandrina é poço imenso e fundo,
Onde poetas mil, flagelo deste mundo,
Patinham sem parar, chamando l√° por mim.
N√£o morrer√£o, se um verso, estiradinho assim,
Da beira for do poço, extenso como ele é,
Levar-lhes grosso anzol; então eu tenho fé
Que volte um afogado, à luz da mocidade,
A ver no mundo seco a seca realidade.

Por eles, e por mim, receio, caro amigo;
Permite o desabafo aqui, a sós contigo,
Que à moda fazer guerra, eu sei quanto é fatal;
Nem vence o positivo o frívolo ideal;
Despótica em seu mando, é sempre fátua e vã,
E até da vã loucura a moda é prima-irmã:
Mas quando venha o senso erguer-lhe os densos véus,
Do verso alexandrino h√° de livrar-nos Deus.

Deus quando abre ao poeta as portas desta vida,

Não lhe depara o gozo e a glória apetecida;
E o triste, se morreu, deixando mal escritas
Em verso alexandrino histórias infinitas,
Vai ter lá noutra vida insípido desterro,
Se Deus, por compaix√£o, n√£o d√° perd√£o ao erro;

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Natal Diferente

I

Catedrais de luz erguidas na cidade.
Neve artificial nas montras com brinquedos.
Soa um C√Ęntico antigo no vento da tarde
que arrefece. Em cada rosto, em cada olhar,
um não-sei-quê de pasmo nesta hora de Natal.

Não é serenidade o que se bebe pelas ruas.
Cinzenta é a cor do céu. Decerto vai chover.
No ambiente superficial
representam-se alegrias.
As notícias nos jornais agravam
o cepticismo deste Natal a haver.

Sinto-me vazio. Lasso. Sem vontade.
Uma grande ternura a boiar dentro de rnirn:
L√°stima, piedade, amor pelos humanos?
Mas de que serve comover-me assim?

Vou aceitar este Natal, tal como est√°.
Com √°lcool. Com prazer.
Embriagar-me de luz, de sons e de ilus√Ķes.
Ser como toda a gente. E possa o mundo arder!

II

Meu Menino Jesus que deves estar no Céu
vem tiritar nas cidades sem calor.
Vem dar realidade a este dia, vem!
‚ÄĒ Trinta e tr√™s anos e a consci√™ncia em flor.
Mas n√£o venhas de fraldas: a Estrela j√° brilhou.
Traz o corpo macerado,

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O Poeta

Triste, lá vai à ronda dos segredos
O maluco que rouba quanto vê.
Branco, do coração aos dedos,
√Č todo antenas onde apenas l√™.

Murcha-lhe nos pés o rosmaninho
E a própria rosa, de o sentir, descora;
Mas é um Deus que passeia o seu caminho
A beber a amargura de quem chora.

Magro, l√° passa, e l√° se vai consigo
A luz das coisas e a flor de tudo.
√Č um bruxo lento, tenebroso e antigo,
Pálido, sério, solitário e mudo.

Nostalgia

A pequena flor
só que além nasceu
sonhou ser maior:
nada lhe valeu…

Na cova esquecida,
sol que desejou
n√£o a bafejou,
bastarda da vida…

E era flor ou gente?
Esquecida imperfeita
numa dor silente
ali jaz desfeita!

Um Homem

De repente
como uma flor violenta
um homem com uma bomba à altura do peito
e que chora convulsivamente
um homem belo min√ļsculo
como uma estrela cadente
e que sangra
como uma est√°tua jacente
esmagada sob as asas do crep√ļsculo
um homem com uma bomba
como uma rosa na boca
negra surpreendente
e à espera da festa louca
onde o coração lhe rebente
um homem de face aguda
e uma bomba
cega
surda
muda

Amei-te

Amei-te
porque o teu olhar numa tarde se encheu de l√°grimas,
e falaste em morrer, e tremeste de medo.

Contudo
n√£o eras mais que uma flor corruta,
dessas que a vida enleia e usa
e depois atira para uma sarjeta lamacenta.

Mas, para mim, eras toda inocência, toda pureza branca.
Porque a inocência é um dom de Deus,
o dom só concedido
àqueles que mais ama.
Por isso, os homens só aparentemente sujam
as pequeninas rosas.

Ah! tivesse eu forças para seguir-te,
embora de longe, mas atentamente,
ajudando-te a subir o agreste calv√°rio!

A uma Dama

Por fazer lisonja às flores
De flores touca o cabelo
Nise, a gala do donaire,
Nise, a glória dos desejos.
Invejosas as estrelas
Murmuraram tanto emprego,
Se as n√£o contentara Nise
Com tê-las nos olhos negros.
De garbo, postura e talhe
Vai luzida em tanto extremo,
Que nas vidas que cativa
Tem muita parte o asseio.
Quanto pisa e quanto fala,
Vai brotando e florescendo
Uma rosa em cada passo,
Um jasmim em cada alento.
Caçadora ufana e dextra,
Quem viu caçadora Vénus?
Pede as armas emprestadas
Dizem que a um menino cego.
Galharda o arco exercita,
E, com movimento dextro,
De quantas setas lhe fia,
Nenhuma lhe leva o vento.
Guarde-se todo o alvedrio,
Que n√£o d√£o as frechas erro,
Pois para acertar as vidas
Tomam nos olhos preceitos.
Despejada comunica
Ao monte seus raios belos,
Que nem sempre o majestoso
H√°-de afectar o encoberto.
E, com deixar-se admirar,
Nada lhe perde o respeito;
Mas tais amas traz consigo…
Pastores, diga-o Fileno.

Notícias do Bloqueio

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos…
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
– √ļnico acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passar√°
por sobre a barreira alfandeg√°ria
e a tua mala levar√° fotografias,
um mapa, duas cartas, uma l√°grima…

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais di√°rios
ou escreve com √°cido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos j√° esperados.

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Pobres das Flores dos Canteiros

Pobres das flores dos canteiros dos jardins regulares.
Parecem ter medo da pol√≠cia…
Mas t√£o boas que florescem do mesmo modo
E têm o mesmo sorriso antigo
Que tiveram para o primeiro olhar do primeiro homem
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
Para ver se elas falavam…

M√£e e Filho

Primícias do meu amor!
Meu filhinho do meu seio
Tenro fruto que à luz veio
Como à luz da aurora a flor!

Na tua face inocente,
De teu pai a face beijo,
E em teus olhos, filho, vejo
Como Deus é providente;

Via em l√Ęmina dourada
O meu rosto todo o dia,
E a minha alma n√£o havia
De a ver nunca retratada?

Quando o pai me unia à face
E em seus braços me apertava,
Pomba ou anjo nos faltava
Que ambos juntos abraçasse!

Felizmente Deus que o centro
Vê da Terra e vê do abismo,
Que bem sabe no que eu cismo,
Na minha alma um altar viu dentro:

Mas com l√Ęmpada sem brilho,
Sem o deus a que era feito…
Bafeja-me um dia o peito,
E eis feito o meu gosto, filho!

Como em l√°grimas se espalma
Dor íntima e se esvaece
De alma o resto quem pudesse
Vazar todo na tua alma!

Mas em ti minha alma habita!
Mas teu riso a vida furta…

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Pirata

Sou o √ļnico homem a bordo do meu barco.
Os outros s√£o monstros que n√£o falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E h√° momentos que s√£o quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

Sacrilégio

Como a alma pura, que teu corpo encerra,
Podes, t√£o bela e sensual, conter?
Pura demais para viver na terra,
Bela demais para no céu viver.

Amo-te assim! – exulta, meu desejo!
√Č teu grande ideal que te aparece,
Oferecendo loucamente o beijo,
E castamente murmurando a prece!

Amo-te assim, à fronte conservando
A parra e o acanto, sob o alvor do véu,
E para a terra os olhos abaixando,
E levantando os braços para o céu.

Ainda quando, abraçados, nos enleva
O amor em que me abraso e em que te abrasas,
Vejo o teu resplandor arder na treva
E ouço a palpitação das tuas asas.

Em v√£o sorrindo, pl√°cidos, brilhantes,
Os céus se estendem pelo teu olhar,
E, dentro dele, os serafins errantes
Passam nos raios claros do luar:

Em v√£o! – descerras √ļmidos, e cheios
De promessas, os l√°bios sensuais,
E, à flor do peito, empinam-se-te os seios,
Ameaçadores como dois punhais.

Como é cheirosa a tua carne ardente!
Toco-a, e sinto-a ofegar, ansiosa e louca.

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Sábio é o que se Contenta com o Espetáculo do Mundo

Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
Que j√° bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.

Coroem-no p√Ęmpanos, ou heras, ou rosas vol√ļteis,
Ele sabe que a vida
Passa por ele e tanto
Corta à flor como a ele
De √Ātropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
Que o seu sabor orgíaco
Apague o gosto às horas,
Como a uma voz chorando
O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
E apenas desejando
Num desejo mal tido
Que a abomin√°vel onda
O n√£o molhe t√£o cedo.

√ď Rosas Desmaiadas

√ď rosas desmaiadas,
Rosas de Maio, rosas de toucar,
√ď rosas do rei negro, aveludadas,
Abrindo à flava luz das madrugadas
As corolas em g√©rmen, cora√ß√Ķes a arfar‚Ķ
No tremular de cores da asa vaporosa,
Borboleta que passa, vem beijar a rosa,
E aos murm√ļrios da brisa que corre anelante,
A subtil feiticeira deixa a sua amante
A chorar, a chorar, suavíssimos perfumes
– Pensamentos d‚Äôamor a traduzir ci√ļmes‚Ķ
Borboleta que passa diz adeus à rosa,
No tremular de cores da asa vaporosa…
E aos murm√ļrios da brisa que desliza meiga,
Lá vai adormecer nas frescuras da veiga…
Deixando a rosa a soluçar, a soluçar,
Com pena de não ter asas para voar… voar!
Diversas flores, de diversas cores
Qual é de vós, dizei, os meus amores!

Deslumbramentos

Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa arom√°tica e normal,
Com seu tipo t√£o nobre e t√£o de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!…

Em si tudo me atrai como um tesouro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de ouro
E o seu nevado e l√ļcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina…
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E t√£o alta e serena como a Morte!…

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Brit√Ęnica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e m√ļsica no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um dem√īnio a ilumin√°-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas m√£os,
O modo diplom√°tico e orgulhoso
Que Ana de √Āustria mostrava aos cortes√£os.

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Elevação

Por cima dos pa√ļes, das montanhas agrestes,
Dos rudes alcantis, das nuvens e do mar,
Muito acima do sol, muito acima do ar,
Para além do confim dos páramos celestes,

Paira o espírito meu com toda a agilidade,
Como um bom nadador, que na √°gua sente gozo,
As penas a agitar, gazil, voluptuoso,
Atrav√©s das regi√Ķes da et√©rea imensidade.

Eleva o v√īo teu longe das montureiras,
Vai-te purificar no éter superior,
E bebe, como um puro e sagrado licor,
A alvinitente luz das límpidas clareiras!

Neste bisonho dai’ de m√°goas horrorosas,
Em que o fastio e a dor perseguem o mortal,
Feliz de quem puder, numa ascens√£o ideal,
Atingir as mans√Ķes ridentes, luminosas!

De quem, pela manh√£, andorinha veloz,
Aos domínios do céu o pensamento erguer,
‚ÄĒ Que paire sobre a vida, e saiba compreender
A linguagem da flor e das coisas sem voz!

Tradução de Delfim Guimarães

Nos Foge o Tempo

Se mais que aéreas nuvens pressuroso,
Se mais que inquietas ondas inconstante,
Nos foge o Tempo; √© in√ļtil o saudoso
Pranto, dado a quem foge; eu incessante
Quero abarcar, e com ardor ansioso
Entranhar na alma cada alegre instante:
Pois que a vida é passagem, as lindas flores
Bom é colher na estrada dos Amores.