Cita√ß√Ķes de Nat√°lia Correia

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Nat√°lia Correia para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Poema Involunt√°rio

Decididamente a palavra
quer entrar no poema e disp√Ķe
com caligr√°fica raiva
do que o poeta no poema p√Ķe.

Entretanto o poema subsiste
informal em teus olhos talvez
mas perdido se em precisa palavra
significas o que vês.

Virtualmente teus cabelos sabem
se espalhando avencas no travesseiro
que se eu digo prodigiosos cabelos
as insólitas flores que se abrem
não têm sua cor nem seu cheiro.

Finalmente vejo-te e sei que o mar
o pinheiro a nuvem valem a pena
e é assim que sem poetizar
se faz a si mesmo o poema.

O que é que ficou da revolução do 25 de Abril? Ficou uma grande disponibilidade para as pessoas se organizarem.

O Mal da Nossa Literatura

O mal da nossa literatura é não ser bastante forte para enfrentar o desafio dos casos solitários. Há momentos históricos em que a solidão pode passar por desinteresse da sociedade de que se participa. Atravessamos um desses momentos e a crise explica que ninguém queira expor-se ao risco de atraiçoar um pacto com uma literatura empenhada numa só direcção. Esquece-se todavia que ser-se solitário é, na mais íntegra acepção, a forma mais fecunda de se ser solidário. Na grande solidão de Kafka formou-se um processo que envolvia o problema da liberdade intrínseca de cada um.

Devo dizer-lhe que o homem portugu√™s √© particularmente encantador. Para j√°, amam as mulheres, e tanto basta para que os achemos maravilhosos. √Č feio n√£o gostarmos dos que nos amam. O feminismo n√£o pode cometer essa injusti√ßa.

Quando digo escritas diferentes, s√£o escritas em prosa, ensaio de tipo imaginativo, teatro, fic√ß√£o, que s√£o ainda prolongamentos da poesia. Haver√° momentos em que tenho de repousar um pouco, digamos, da febre da cria√ß√£o po√©tica e ent√£o vou procurar encontrar a poesia em express√Ķes mais repousadas.

A desordem é necessária, por isso Diónisos existe, porque é na desordem que vamos sorver a ordem. A ordem constante estagna, apodrece. Então tem que vir a desordem como uma espécie de purga, para voltarmos à ordem.

Gosto muito do meu marido, o respeito muito, ele é um homem extraordinário. Casei-me pela primeira vez quando era adolescente. Depois encontrei-o, fixei-me. O resto da minha vida é escrever, sonhar, viver, mais nada!

A Minha Poesia

Aquilo que dentro da minha produ√ß√£o po√©tica pode eventualmente definir-me, entre os poetas da minha gera√ß√£o, √© o resultado do esfor√ßo para conquistar um espa√ßo independente, ou seja, a minha forma particular de universalizar. Perten√ßo ao n√ļmero dos que atribuem √† poesia uma enorme responsabilidade: a de transformar o mundo. A poetiza√ß√£o das coisas n√£o √© sen√£o o aperfei√ßoamento delas. √Č para isto que se faz poesia e n√£o para com ela se fazer literatura. Os transes de ironia e de revolta que muitas vezes tecem os meus poemas, s√£o o regurgitar de um incontinente entusiasmo por um sonegado destino de amor e liberdade que o poeta escuta ao estimular a supera√ß√£o das coisas e dos seres e que n√£o v√™ cumprida. A luta contra o tempo gerando o sublime engendra-lhe o reverso que √© a abjec√ß√£o de se viver condicionalmente. Aquilo que Jaspers chama o incondicional e que emana de uma liberdade que n√£o pode ser de outra maneira, que n√£o √© causa de leis naturais mas o seu fundamento transcendente e que √© o sublime de cada um, resulta na maior trai√ß√£o, porque n√£o √© dado ao homem como sua exist√™ncia, mas deslumbrado num estado de supera√ß√£o. A luta pelo incondicional em choque com a minha condicionalidade,

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Tenho é a sorte de possuir três ou quatro amigos fiéis. Se as pessoas vêem nisso uma corte, terei de considerar uma tal interpretação com frustração de quem não os tem. Eu tenho. E devo dizer que também faço tudo por isso, porque me esforço por retribuir a amizade que recebo.

A Actualidade em Poesia

Uma coisa é poesia actual, outra coisa é actualidade em poesia. A actualidade em poesia compreende um tempo específico, que não só não é o tempo subordinado ao espaço no qual o poeta se move, como até entra em conflito com este.
Fazer poesia actual n√£o √© escrever versos destinados a terem √™xito na actualidade representada pelo p√ļblico e pela critica, porque esta √© o atraso de um tempo de que o poeta √© o avan√ßo. Suspeito √© o poeta sempre que agradavelmente afei√ßoa os seus versos a uma comum sensibilidade liter√°ria. N√£o estou fazendo o elogio da poesia obscura ou ambiciosamente original. O gosto liter√°rio de uma √©poca pode ser precisamente a obscuridade e a originalidade. √Č o que acontece com a nossa. E neste caso originalidade como recurso √© poeticamente est√©ril, porque n√£o fascina mas apenas satisfaz. Nada menos original do que a acomodat√≠cia originalidade da poesia dos nossos dias e tamb√©m nada menos actual por isso mesmo. Quer um exemplo? A √ļltima poesia feita com excresc√™ncias do Surrealismo execrado pelos seus parasitas. Nalguns casos √© uma sufocada montagem de imagens achadas no cesto dos pap√©is do Surrealismo. Proclama-se uma renova√ß√£o morfol√≥gica investindo de maior poder a palavra,

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O Poema

O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce.

√Č o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para l√° do homem se atreve.

Os acontecimentos s√£o pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.

E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que n√£o conhece.

Todos n√≥s estamos sujeitos a que nos inventem biografias. Inventem √† vontade… O problema √© das pessoas que as inventam.

A Comunidade Europeia Vai Ser um Logro

As primeiras d√©cadas do pr√≥ximo mil√©nio ser√£o terr√≠veis. Mis√©ria, fome, corrup√ß√£o, desemprego, viol√™ncia, abater-se-√£o aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Servi√ßo Nacional de Sa√ļde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independ√™ncia nacional sofrer√£o grav√≠ssimas rupturas. Abandonados, os idosos v√£o definhar, morrer, por falta de assist√™ncia e de comida. Espoliada, a classe m√©dia declinar√°, s√≥ haver√° muito ricos e muito pobres. A indiferen√ßa que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o inc√™ndio das florestas √© uma antecipa√ß√£o disso, de outras derrocadas a vir.

O Livro dos Amantes

I

Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.

Grande parte da minha obra √© dedicada √† minha m√£e. Eu n√£o sou nada maternal. Se sou maternal √© no sentido, digamos, psicobiologicamente feminino, de toda a mulher ser um translado da M√£e Eterna. Mais nada. S√≥ nisso √© que sou m√£e…

Por disposição estética, nasci para ser rica, mas o meu sentido de liberdade rejeitou todas as oportunidades que me dessem riqueza material. Vivi sempre o melhor possível dentro da modéstia dos meus recursos.

Balada para um Homem na Multid√£o

Este homem que entre a multid√£o
enternece por vezes destacar
é sempre o mesmo aqui ou no japão
a diferença é ele ignorar.

Muitos mortos foram necess√°rios
para formar seus dentes um cabelo
vai movido por pés involuntários
e endoidece ser eu a percebê-lo.

Sentam-no à mesa de um café
num andaime ou sob um pinheiro
tanto faz desde que se esqueça
que é homem à espera que cresça
a √°rvore que d√° dinheiro.

Alimentam-no do ar proibido
de um sonho que não é dele
n√£o tem mais que esse frasco de vidro
para fechar a estrela do norte.
E só o seu corpo abolido
lhe pertence na hora da morte.