Sonetos sobre Folhas

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Sonetos de folhas escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Minha √Ārvore

Olha: √Č um tri√Ęngulo est√©ril de √≠nvia estrada!
Como que a erva tem dor… Roem-na amarguras
Talvez humanas, e entre rochas duras
Mostra ao Cosmos a face degradada!

Entre os pedrouços maus dessa morada
√Č que, √†s apalpadelas e √†s escuras,
H√£o de encontrar as gera√ß√Ķes futuras
Só, minha árvore humana desfolhada!

Mulher nenhuma afagar√° meu tronco!
Eu n√£o me abalarei, nem mesmo ao ronco
Do furac√£o que, r√°bido, remoinha…

Folhas e frutos, sobre a terra ardente
H√£o de encher outras √°rvores! Somente
Minha desgraça há de ficar sozinha!

Supremo Enleio

Quanta mulher no teu passado, quanta!
Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
Se delas veio o sonho que conforta,
A sua vinda foi três vezes santa!

Erva do ch√£o que a m√£o de Deus levanta,
Folhas murchas de rojo √† tua porta…
Quando eu for uma pobre coisa morta,
Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!

Mas eu sou a manh√£: apago estrelas!
H√°s de ver-me, beijar-me em todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda!

E quando a derradeira, enfim, vier,
Nesse corpo vibrante de mulher
Ser√° o meu que h√°s de encontrar ainda…

P√°gina Vazia

Quem volta da região assustadora
De onde eu venho, revendo, inda na mente,
Muitas cenas do drama comovente
De guerra despiedada e aterradora.

Certo n√£o pode ter uma sonora
Estrofe ou canto ou ditirambo ardente
Que possa figurar dignamente
Em vosso √°lbum gentil, minha senhora.

E quando, com fidalga gentileza
Cedestes-me esta p√°gina, a nobreza
De nossa alma iludiu-vos, n√£o previstes

Que quem mais tarde, nesta folha lesse
Perguntaria: “Que autor √© esse
De uns versos t√£o mal feitos e t√£o tristes?”

Junquilhos

Nessa tarde mimosa de saudade
Em que eu te vi partir, ó meu amor,
Levaste-me a minh’alma apaixonada
Nas folhas perfumadas duma flor.

E como a alma, dessa florzita,
Que é minha, por ti palpita amante!
Oh alma doce, pequenina e branca,
Conserva o teu perfume estonteante!

Quando fores velha, emurchecida e triste,
Recorda ao meu amor, com teu perfume
A paix√£o que deixou e qu’inda existe…

Ai, dize-lhe que se lembre dessa tarde,
Que venha aquecer-se ao brando lume
Dos meus olhos que morrem de saudade!

Solit√°rio

Longe de ti, do mundo – solit√°rio.
sem o riso das falsas alegrias
vou desfiando, um a um, todos os dias,
como contas de dor, no meu ros√°rio…

E assim Рsem Ter ninguém Рoh, quantas vezes!
– no amor que j√° deixei fico a pensar…
E as semanas se escoam sem parar:
a primeira… outra mais… mais outra… e os meses…

O outono j√° chegou, e as folhas solta…
E eu, sem querer, nost√°lgico, me ponho
a pensar que esse amor aos poucos volta…

Mentira!… V√£ mentira que me ilude!…
Como é triste a ilusão mesmo num sonho,
Eu que na vida me iludir n√£o pude!…

Despois Que Viu Cibele O Corpo Humano

Despois que viu Cibele o corpo humano
do fermoso √Ātis seu verde pinheiro,
em piedade o v√£o furar primeiro
convertido, chorou seu grave dano.

E, fazendo a sua dor ilustre engano,
a J√ļpiter pediu que o verdadeiro
preço da nova palma e do loureiro,
ao seu pinheiro desse, soberano.

Mais lhe concede o filho poderoso
que, as estrelas, subindo, tocar possa,
vendo os segredos lá do Céu superno.

Oh! ditoso Pinheiro! Oh! mais ditoso
quem se vir coroar da folha vossa,
cantando à vossa sombra verso eterno!

Aboio De Ternura Para Uma Rês Desgarrada Para Astrid Cabral

Fora de tua tribo peixe fora d’água,
bordando as muitas dores no ponto de cruz,
alinhavas rebanhos reunidos na fr√°gua
dos rios da tua inf√Ęncia com escamas de luz.

Versos tecidos na cambraia das an√°guas
de alices caboclas, yaras-cunh√£s do fundo,
encantadas dos peraus, afogando m√°goas,
mas que sabem, sestrosas, dos botos do mundo.

E os teus pés desgarrados pisaram em nuvens
de ventos sem mormaços, no azul de outras línguas:
√°guas despidas do alfenim de nossas chuvas.

Te sabias folha de relva da ravina
irm√£ de Whitman e do Khayam simum
próxima do teu gado e rês da própria sina.

Tempestade Amaz√īnica

O calor asfixia e o ar escurece. O rio,
Quieto, n√£o tem uma onda. Os insetos na mata
Zumbem tontos de medo. E o p√°ssaro, o sombrio
Da floresta procura, onde a chuva n√£o bata.

S√ļbito, o raio estala. O vento zune. Um frio
De terror tudo invade… E o temporal desata
As peias pelo espaço e, bufando, bravio,
O arvoredo retorce e as folhas arrebata.

O anoso buriti curva a copa, e farfalha.
Aves rodam no céu, num estéril esforço,
Entre nuvens de folha e fragmentos de palha.

No alto o trov√£o repousa e em baixo a mata brama.
Ruge em meio a amplid√£o. Das nuvens pelo dorso
Correm serpes de fogo. E a chuva se derrama…

Crep√ļsculo

Alada, corta o espaço uma estrela cadente.
As folhas fremem. Sopra o vento. A sombra avança.
Paira no ar um languor de mística esperança
e de doc√ļra triste, inexprimivelmente.

À surdina da luz irrompe, de repente,
o coro vesperal das cigarras. E mansa,
E marmórea, no céu, curvo e claro, balança,
entre nuvens de opala, a concha do crescente.

Na alma, como na terra, a noite nasce. √Č quando,
da rec√īndita paz das horas esquecidas,
v√£o, ao luar da saudade, os sonhos acordando…

E, na torre do peito, em pl√°cidas batidas,
melancolicamente o coração chorando,
plange o r√©quiem de amor das ilus√Ķes perdidas.

Eterna Dor

Alma de meu amor, lírio celeste,
Sonho feito de um beijo e de um carinho,
Criatura gentil, pomba de arminho,
Arrulhando nas folhas de um cipreste.

√ď minha m√£e! Por que no mundo agreste,
Rola formosa, abandonaste o ninho?
Se as roseiras do Céu não têm espinhos,
Quero ir contigo, ó lírio meu celeste!

Ah! se soubesses como sofro, e tanto!
Leva-me à terra onde não corre o pranto,
Leva-me, santa, onde a ventura existe…

Aqui na vida – que tamanha m√°goa! –
O pr√≥prio olhar de Deus encheu-se d’√°gua…
√ď minha m√£e, como este mundo √© triste!

Mocidade

A mocidade esplêndida, vibrante,
Ardente, extraordin√°ria, audaciosa.
Que vê num cardo a folha duma rosa,
Na gota de √°gua o brilho dum diamante;

Essa que fez de mim Judeu Errante
Do espírito, a torrente caudalosa,
Dos vendavais irm√£ tempestuosa,
– Trago-a em mim vermelha, triunfante!

No meu sangue rubis correm dispersos:
– Chamas subindo ao alto nos meus versos,
Papoilas nos meus l√°bios a florir!

Ama-me doida, estonteadoramente,
O meu Amor! que o coração da gente
√Č t√£o pequeno… e a vida, √°gua a fugir…

Amo!

Amo a terra! Amo o sol! Amo o céu! Amo o mar!
Amo a vida! Amo a luz! Amo as √°rvores! Amo
a poesia que escrevo e entusiasta declamo
aos que sentem como eu a alegria de amar!

Amo a noite! Amo a antiga palidez do luar!
A flor presa aos cabelos soltos de algum ramo!
Uma folha que cai! Um perfume no ar
onde um desejo extinto sem querer inflamo!

Amo os rios! E a estranha solid√£o em festa,
dessa alma que possuo multiforme e inquieta
como a alma multiforme e inquieta da floresta!

Amo a cor que h√° nos sons! Amo os sons que h√° na cor!
E em mim mesmo Рamo a glória de sentir-me um Poeta
e amar imensamente o meu imenso amor!.

Tristêza

O sol do outomno, as folhas a cair,
A minha voz baixinho soluçando,
Os meus olhos, em lagrimas, beijando
A terra, e o meu espirito a sorrir…

Eis como a minha vida vae passando
Em frente ao seu Phantasma… E fico a ouvir
Silencios da minh’alma e o resurgir
De mortos que me f√īram sepultando…

E fico mudo, extatico, parado
E quasi sem sentidos, mergulhando
Na minha viva e funda intimidade…

S√≥ a longinqua estrela em mim actua…
Sou rocha harmoniosa √° luz da lua,
Petreficada esphinge de saudade…

Sobre A Neve

Sobre mim, teu desdém pesado jaz
Como um manto de neve…Quem dissera
Porque tombou em plena Primavera
Toda essa neve que o Inverno traz!

Coroavas-me inda pouco de lil√°s
E de rosas silvestres…quando eu era
Aquela que o destino prometera
Aos teus r√ļtilos sonhos de rapaz!

Dos beijos que me deste n√£o te importas,
Asas paradas de andorinhas mortas…
Folhas de Outono e correria louca…

Mas inda um dia, em mim, ébrio de cor,
H√°-de nascer um roseiral em flor
Ao sol de Primavera doutra boca!

A Dor

Que venha, ref√ļgio ou ins√≥nia, futuro
antigo e comece no campo ou no flanco, à
direita, onde consome a alma, à esquerda
onde exclama no corpo, na seiva ou no ch√£o

dos sobressaltos. Venha, amantíssima e espessa,
orelha ou folha acesa, fugaz ou rasgada,
planície vermelha, doce, gélida ou rápida.
Obedeça ao enleio, desperte ou descanse,

corre pelo sangue como cervo na noite,
sol que despedaça o peito. O rosto se cobre
de grandes cinzas, pesado como uma l√°grima,

a alma, sendo ar, em nenhum lugar sereno.
√önica posse de que dispomos. √Č seu
absurdo desejo, subtil e sem domínio.

Outonal

Caem as folhas mortas sobre o lago!
Na penumbra outonal, n√£o sei quem tece
As rendas do sil√™ncio…Olha, anoitece!
— Brumas long√≠nquas do Pa√≠s Vago…

Veludos a ondear…Mist√©rio mago…
Encantamento…A hora que n√£o esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lan√ßa em mim a b√™n√ß√£o dum afago…

Outono dos crep√ļsculos doirados,
De p√ļrpuras, damascos e brocados!
— Vestes a Terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que solu√ßo a delirar de amor…

Pobre De Cristo

A José Emídio Amaro

√ď minha terra na plan√≠cie rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viste o mar,
Onde tenho o meu p√£o e a minha casa.

Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folhas…a dormitar…
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra moirisca a arder em brasa!

Minha terra onde meu irm√£o nasceu
Aonde a m√£e que eu tive e que morreu
Foi moça e loira, amou e foi amada!

Truz…Truz…Truz… — Eu n√£o tenho onde me acoite,
Sou um pobre de longe, é quase noite,
Terra, quero dormir, d√°-me pousada!…

Vosso Nome de Amor

Quando entoar começo com voz branda
Vosso nome de amor, doce, e suave,
A terra, o mar, vento, √°gua, flor, folha, ave
Ao brando som se alegra, move, e abranda.

Nem nuvem cobre o céu, nem na gente anda
Trabalhoso cuidado, ou peso grave,
Nova cor toma o Sul, ou se erga, ou lave
No claro Tejo, e nova luz nos manda.

Tudo se ri, se alegra, e reverdece.
Todo mundo parece que renova.
Nem h√° triste planeta, ou dura sorte.

A minh’alma s√≥ chora, e se entristece,
Maravilha de Amor cruel, e nova!
O que a todos traz vida, a mim traz morte.

Paisagem

Dorme sob o silêncio o parque. Com descanso,
Aos haustos, aspirando o finíssimo extrato
Que evapora a verdura e que deleita o olfato,
Pelas alas sem fim da árvores avanço.

Ao fundo do pomar, entre folhas, abstrato
Em cismas, tristemente, um alvíssimo ganso
Escorrega de manso, escorrega de manso
Pelo claro cristal do límpido regato.

Nenhuma ave sequer, sobre a macia alfombra,
Pousa. Tudo deserto. Aos poucos escurece
A campina, a rech√£ sob a noturna sombra.

E enquanto o ganso vai, abstrato em cismas, pelas
Selvas a dentro entrando, a noite desce, desce…
E espalham-se no c√©u camandulas de estrelas…

A √öltima Cigarra

Todas cantaram para mim. A ouvi-las,
Purifiquei meu sonho adolescente,
Quando a vida corria doidamente
Como um regato de √°guas intranq√ľilas.

Diante da luz do sol que eu tinha em frente,
Escancarei os braços e as pupilas.
Cigarras que eu amei! Para possui-las,
Sofri na vida como pouca gente.

E veio o outono… Por que veio o outono ?
Prata nos meus cabelos… Abandono…
Deserta a estrada… Quanta folha morta!

Mas, no esplendor do derradeiro poente,
Uma nova cigarra, diferente;
Como um raio de sol, bateu-me à porta.