Sonetos sobre Fortes

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Sonetos de fortes escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

À Sua Velhice

Meu corpo assaz tem sido espicaçado
Com buídos punhais, por mão da Morte,
Que arrebatado tem, da minha corte,
Grande rancho de quanto tenho amado.

N√£o me poupa a cruel no triste estado
Do caduco viver da minha Sorte:
Quando era vigoroso, moço forte,
Suportava com mais valor meu Fado.

Ent√£o as minhas √°speras feridas
N√£o tinham para mim tardias curas,
Porque o Tempo receitas tem, sabidas.

Mas velho e c’o vapor das sepulturas,
Como posso curar as desabridas
Chagas, das minhas novas amarguras?

Em Sórdida Masmorra Aferrolhado

Em sórdida masmorra aferrolhado,
De cadeias aspérrimas cingido,
Por ferozes contr√°rios perseguido,
Por línguas impostoras criminado:

Os membros quase nus, o aspecto honrado
Por vil boca, e vil m√£o roto, e cuspido,
Sem ver um só mortal compadecido
De seu funesto, rigoroso estado:

O penetrante, o b√°rbaro instrumento
De atroz, violenta, inevit√°vel morte
Olhando j√° na m√£o do algoz cruento:

Inda assim, não maldiz a iníqua sorte
Inda assim tem prazer, sossego, alento,
O s√°bio verdadeiro, o justo, o forte.

Desejos V√£os

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastid√£o imensa!
Eu queria ser a Pedra que n√£o pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a √°rvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar tamb√©m chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem l√°grimas de sangue na agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

V – A Vida E O Barco

Andar e mais andar é a vida a bordo;
Mal estudo, e apenas eu vou lendo;
A noite com a m√ļsica entretendo;
Deito-me cedo, e mais cedo acordo.

Saudosíssimo a pátria eu recordo,
E, pra consolo versos lhe fazendo,
Desenho terras só aquela vendo,
E para n√£o chorar os l√°bios mordo.

Enfim h√° de chegar, eu bem o sei,
Que o Brasil eu reveja jubiloso;
E, se outrora eu servi-lo só pensei,

Muito mais forte e muito mais zeloso,
Para ainda mais servi-lo, voltarei
T√© que nele encontre o √ļltimo repouso.

Spleen

Fora, na vasta noute, um vento de procela
Erra, aos saltos, uivando, em rajadas e em f√ļria;
E num rumor de choro, uma voz de lam√ļria,
Ouço a chuva a escorrer nos vidros da janela.

No desconforto do meu quarto de estudante,
Velo. Sinto-me como insulado da vida.
Eu imagino a morte assim, aborrecida
Solid√£o numa sombra infinita e constante…

Tu, que √©s forte, rebrame em f√ļria, natureza!
Eu, caído num fundo abismo de tristeza,
Invejo-te a expans√£o livre do temporal;

E, no tédio feroz que me assalta e me toma,
Sinto ansiarem-me n’alma instintos de chacal…
E compreendo Nero incendiando Roma.

M√£os

V

√ď M√£os eb√ļrneas, M√£os de claros veios,
Esquisitas tulipas delicadas,
L√Ęnguidas M√£os sutis e abandonadas,
Finas e brancas, no esplendor dos seios.

Mãos etéricas, diáfanas, de enleios,
De efl√ļvios e de gra√ßas perfumadas,
Relíquias imortais de eras sagradas
De amigos templos de relíquias cheios.
M√£os onde vagam todos os segredos,
Onde dos ci√ļmes tenebrosos, tredos,
Circula o sangue apaixonado e forte.

Mãos que eu amei, no féretro medonho
Frias, j√° murchas, na fluidez do Sonho,
Nos mistérios simbólicos da Morte!

Soneto VI

Qual naufragante mísero que cai
Da rota barca no soberbo pego,
E, lidando c’os bra√ßos sem sossego,
A cada onda receia que desmaie,

Tal, sem ter j√° lugar onde se espraie
Neste mar de meu mal, cansado e cego
Ando, aqui desfaleço, ali me anego,
E a cada encontro seu [a] alma me sai.

Em meio de mil barcas clamo, e brado:
“Me lancem por piedade um cabo forte!”,
Mas a ninguém magoa meu cuidado.

Ah, n√£o queirais que vida tal se corte
Que se vida me dais, ganhais dobrado,
Livrando muitas vidas de ua morte.

Vol√ļpia

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…
A nuvem que arrastou o vento norte…
– Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de vol√ļpia e de maldade!

Trago d√°lias vermelhas no rega√ßo…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas dan√ßas…

A Lanterna

O sabio antigo andou pelas ruas d’Athenas,
Com a lanterna accesa, errante, à luz do dia,
Buscando o var√£o forte e justo da Utopia,
Privado de paix√Ķes e d’emo√ß√Ķes terrenas.

Eu tambem que aborreço as cousas vãs, pequenas
E que mais alto puz a s√£ Philosophia,
Ha muito busco em v√£o–ha muito, quem diria!
O mais cruel ideal das concep√ß√Ķes serenas.

Tenho buscado em balde, e em v√£o por todo o mundo;
Esconde-se o ideal no sitio mais profundo,
No mar, no inferno, em tudo, aonde existe a d√īr!…

De sorte que hoje emfim, descrente, resignado,
Concentrei-me em mim s√≥, n’um tedio indignado,
E apaguei a lanterna – √Č s√≥ um sonho o Amor!

Por Cima Destas √Āguas, Forte E Firme

Por cima destas √°guas, forte e firme,
irei por onde as sortes ordenaram,
pois, por cima de quantas me choraram
aqueles claros olhos, pude vir me.

J√° chegado era o fim de despedir me,
j√° mil impedimentos se acabaram,
quando rios de amor se atravessaram
a me impedir o passo de partir me.

Passei os eu com √Ęnimo obstinado,
com que a morte forçada e gloriosa
faz o vencido j√° desesperado.

Em que figura, ou gesto desusado,
pode j√° fazer medo a morte irosa,
a quem tem a seus pés rendido e atado?

Alucinação À Beira-Mar

Um medo de morrer meus pés esfriava.
Noite alta. Ante o tel√ļrico recorte,
Na diuturna discórdia, a equórea coorte
Atordoadoramente ribombava!

Eu, ególatra céptico, cismava
Em meu destino!… O vento estava forte
E aquela matem√°tica da Morte
Com os seus n√ļmeros negros me assombrava!

Mas a alga usufructu√°ria dos oceanos
E os malacopterígios subraquianos
Que um castigo de espécie emudeceu,

No eterno horror das convuls√Ķes mar√≠timas
Pareciam também corpos de vítimas
Condenadas à Morte, assim como eu!

XVI

Toda a mortal fadiga adormecia
No silêncio, que a noite convidava;
Nada o sono suavíssimo alterava
Na muda confus√£o da sombra fria:

Só Fido, que de amor por Lise ardia,
No sossego maior n√£o repousava;
Sentindo o mal, com l√°grimas culpava
A sorte; porque dela se partia.

Vê Fido, que o seu bem lhe nega a sorte;
Querer enternec√™-na √© in√ļtil arte;
Fazer o que ela quer, é rigor forte:

Mas de modo entre as penas se reparte;
Que à Lise rende a alma, a vida à morte:
Por que uma parte alente a outra parte.

Saudades

Saudades! Sim.. talvez.. e por que n√£o?…
Se o sonho foi t√£o alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para qu√™?… Ah, como √© v√£o!
Que tudo isso, Amor, nos n√£o importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o p√£o.

Quantas vezes, Amor, j√° te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais saudade andasse presa a mim!

S√°tira aos Penteados Altos

Chaves na m√£o, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colch√£o, fofo e de pena,
A filha o ponha ali ou a criada.

A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz coa doce voz que o ar serena:
– ¬ęSumiu-se-lhe um colch√£o? √Č forte pena;
Olhe n√£o fique a casa arruinada…¬Ľ

– ¬ęTu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
J√° a m√£e n√£o tem m√£os?¬Ľ E, dizendo isto,

Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis sen√£o quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colch√£o de dentro do toucado!…

Aurora Morta, Foge! Eu Busco A Virgem Loura

Aurora morta, foge! Eu busco a virgem loura
Que fugiu-me do peito ao teu clar√£o de morte
E Ela era a minha estrela, o meu √ļnico Norte,
O grande Sol de afeto – o Sol que as almas doura!

Fugiu… e em si a Luz consoladora
Do amor – esse clar√£o eterno d’alma forte –
Astro da minha Paz, Sírius da minha Sorte
E da Noute da vida a Vênus Redentora.

Agora, oh! Minha M√°goa, agita as tuas asas,
Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas
E, num P√°lio auroral de Luz deslumbradora,

Ascende à Claridade. Adeus oh! Dia escuro,
Dia do meu Passado! Irrompe, meu Futuro;
Aurora morta, foge – eu busco a virgem loura!

Budismo Moderno

Tome, Dr., esta tesoura, e… corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do √ļltimo verso que eu fizer no mundo!

Cam√Ķes I

Tu quem és? Sou O século que passa.
Quem somos nós? A multidão fremente.
Que cantamos? A glória resplendente.
De quem? De quem mais soube a força e a graça.

Que cantou ele? A vossa mesma raça.
De que modo? Na lira alta e potente.
A quem amou? A sua forte gente.
Que lhe deram? Pen√ļria, ermo, desgra√ßa.

Nobremente sofreu? Como homem forte.
Esta imensa obla√ß√£o?… √Č-lhe devida.
Paga?… Paga-lhe toda a adversa sorte.

Chama-se a isto? A glória apetecida.
N√≥s, que o cantamos?… Volvereis √† morte.
Ele, que √© morto?… Vive a eterna vida.

Soneto Da Hora Final

Ser√° assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente,
O beijo leve de uma aragem fria.

Tu me olhar√°s silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de trevas, aberta em frente.

Ao transpor as fronteiras do segredo
Eu, calmo, te direi: – N√£o tenhas medo
E tu, tranq√ľila, me dir√°s: – S√™ forte.

E como dois antigos namorados
Noturnamente tristes e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.

Barrow-On-Furness V

H√° quanto tempo, Portugal, h√° quanto
Vivemos separados! Ah, mas a alma,
Esta alma incerta, nunca forte ou calma,
N√£o se distrai de ti, nem bem nem tanto.

Sonho, hist√©rico oculto, um v√£o recanto…
O rio Furness, que é o que aqui banha,
Só ironicamente me acompanha,
Que estou parado e ele correndo tanto …

Tanto? Sim, tanto relativamente…
Arre, acabemos com as distin√ß√Ķes,
As subtilezas, o interstício, o entre,
A metaf√≠sica das sensa√ß√Ķes –

Acabemos com isto e tudo mais …
Ah, que √Ęnsia humana de ser rio ou cais!

Num Tão Alto Lugar, De Tanto Preço

Num tão alto lugar, de tanto preço,
este meu pensamento posto vejo,
que desfalece nele inda o desejo,
vendo quanto por mim o desmereço.

Quando esta tal baixesa em mim conheço,
acho que cuidar nele é grão despejo,
e que morrer por ele me é sobejo
e mor bem para mim, do que mereço.

O mais que natural merecimento
de quem me causa um mal t√£o duro e forte,
o faz que v√° crecendo de hora em hora.

Mas eu n√£o deixarei meu pensamento,
porque inda que este mal me causa a morte,
Un bel morir tutta la vita onora.