Sonetos sobre Natureza

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Sonetos de natureza escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

J√° o Inverno, expremendo as c√£s nevosas

J√° o Inverno, expremendo as c√£s nevosas,
Geme, de horrendas nuvens carregado;
Luz o aéreo fuzil, e o mar inchado
Investe ao pólo em serras escumosas;

√ď benignas manh√£s!, tardes saudosas,
Em que folga o pastor, medrando o gado,
Em que brincam no ervoso e fértil prado
Ninfas e Amores, Zéfiros e Rosas!

Voltai, retrocedei, formosos dias:
Ou antes vem, vem tu, doce beleza
Que noutros campos mil prazeres crias;

E ao ver-te sentir√° minha alma acesa
Os perfumes, o encanto, as alegrias,
Da estação que remoça a natureza.

A Partida

Partimos muito cedo — A madrugada
Clara, serena, vaporosa e fresca,
Tinha as nuances de mulher tudesca
De fina carne esplêndida e rosada.

Seguimos sempre afora pela estrada
Franca, poeirenta, alegre e pitoresca,
Dentre o frescor e a luz madrigalesca
Da natureza aos poucos acordada.

Depois, no fim, l√° de algum tempo — quando
Chegamos nós ao termo da viagem,
Ambos joviais, a rir, cantarolando,

Da mesma parte do levante, de onde
Saímos, pois, faiscava na paisagem
O sol, radioso e altivo como um conde.

Amor

Nas largas muta√ß√Ķes perp√©tuas do universo
O amor √© sempre o vinho en√©rgico, irritante…
Um lago de luar nervoso e palpitante…
Um sol dentro de tudo altivamente imerso.

N√£o h√° para o amor rid√≠culos pre√Ęmbulos,
Nem mesmo as conven√ß√Ķes as mais superiores;
E vamos pela vida assim como os noct√Ęmbulos
√† fresca exala√ß√£o sal√ļbrica das flores…

E somos uns completos, célebres artistas
Na obra racional do amor — na heroicidade,
Com essa intrepidez dos s√°bios transformistas.

Cumprimos uma lei que a seiva nos dirige
E amamos com vigor e com vitalidade,
A cor, os tons, a luz que a natureza exige!…

A Meu Pai Morto

Madrugada de Treze de janeiro.
Rezo, sonhando, o ofício da agonia.
Meu Pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!

E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse à minha Mãe que me dizia:
“Acorda-o”! deixa-o, M√£e, dormir primeiro!

E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma n√©voa no estrelado v√©u…

Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!

XLIV

Há quem confie, Amor, na segurança
De um falsíssimo bem, com que dourando
O veneno mortal, v√°s enganando
Os tristes cora√ß√Ķes numa esperan√ßa!

Há quem ponha inda cego a confiança
Em teu fingido obséquio, que tomando
Li√ß√Ķes de desengano, n√£o v√° dando
Pelo mundo certeza da mudança!

H√° quem creia, que pode haver firmeza
Em peito feminil, quem advertido
Os cultos n√£o profane da beleza!

H√° inda, e h√° de haver, eu n√£o duvido,
Enquanto n√£o mudar a Natureza
Em Nise a formosura, o amor em Fido.

Metamorfose

A Carlos Ferreira

O sol em fogo pelo ocaso explode
Nesse estertor, que os cr√Ęnios assoberba.
Vivo, o clar√£o, nuns frocos exacerba
Dos ideais a original nevrose.

Da natureza os anafis mouriscos
Ante o cariz da atmosfera muda,
Soam queixosos, numa nota aguda,
Da luz que esvai-se aos derradeiros discos.

O pensamento que flameja e luta
Nos ares rasga aprofundado sulco…
A sombra desce nos lisins da gruta;

E a lua nova — a peregrina Onfale,
Como em um plaustro luminoso, hiulco,
Surge através dos pinheirais do vale.

Conciliação

Se essa ang√ļstia de amar te crucifica,
Não és da dor um simples fugitivo:
Ela marcou-te com o sinete vivo
Da sua estranha majestade rica.

√Čs sempre o Assinalado ideal que fica
Sorrindo e contemplando o céu altivo;
Dos Compassivos és o compassivo,
Na Transfiguração que glorifica.

Nunca mais de tremer ter√°s direito…
Da Natureza todo o Amor perfeito
Adorar√°s, venerar√°s contrito.

Ah! Basta encher, eternamente basta
Encher, encher toda esta Esfera vasta
Da convulsão do teu soluço aflito!

Spleen

Fora, na vasta noute, um vento de procela
Erra, aos saltos, uivando, em rajadas e em f√ļria;
E num rumor de choro, uma voz de lam√ļria,
Ouço a chuva a escorrer nos vidros da janela.

No desconforto do meu quarto de estudante,
Velo. Sinto-me como insulado da vida.
Eu imagino a morte assim, aborrecida
Solid√£o numa sombra infinita e constante…

Tu, que √©s forte, rebrame em f√ļria, natureza!
Eu, caído num fundo abismo de tristeza,
Invejo-te a expans√£o livre do temporal;

E, no tédio feroz que me assalta e me toma,
Sinto ansiarem-me n’alma instintos de chacal…
E compreendo Nero incendiando Roma.

√ď Trevas, que Enlutais a Natureza

√ď trevas, que enlutais a Natureza,
Longos ciprestes desta selva anosa,
Mochos de voz sinistra e lamentosa,
Que dissolveis dos fados a incerteza;

Manes, surgidos da morada acesa
Onde de horror sem fim Plut√£o se goza,
N√£o aterreis esta alma dolorosa,
Que é mais triste que voz minha tristeza.

Perdi o galardão da fé mais pura,
Esperanças frustrei do amor mais terno,
A posse de celeste formosura.

Volvei, pois, sombras v√£s, ao fogo eterno;
E, lamentando a minha desventura,
Movereis à piedade o mesmo Inferno.

Di√°logo

A cruz dizia à terra onde assentava,
Ao vale obscuro, ao monte √°spero e mudo:
‚ÄĒ Que √©s tu, abismo e jaula, aonde tudo
Vive na dor e em luta cega e brava?

Sempre em trabalho, condenada escrava.
Que fazes tu de grande e bom, contudo?
Resignada, és só lodo informe e rudo;
Revoltosa, √©s s√≥ fogo e horrida lava…

Mas a mim n√£o h√° alta e livre serra
Que me possa igualar!.. amor, firmeza,
Sou eu só: sou a paz, tu és a guerra!

Sou o espírito, a luz!.. tu és tristeza,
Oh lodo escuro e vil! ‚ÄĒ Por√©m a terra
Respondeu: Cruz, eu sou a Natureza!

Pecador Endurecido

Se por segredo oculto, alto destino
Da próvida, admirável natureza,
Do diamante lavrar pode a dureza
O sangue do cordeiro peregrino,

Lavrar deveis meu peito diamantino,
Amante Deus, pois somos nesta empresa,
Eu, um retrato vivo da fereza,
Vós, da brandura um exemplar divino.

Firme esperança de remédio posso
Ter, meu Jesus, notando-vos amante,
Por mais que o peito se resista inteiro.

Lavrai meu peito com o sangue vosso,
Pois é meu peito, peito de diamante,
E vosso sangue é sangue de cordeiro.

Depois Da Orgia

O prazer que na orgia a hetaíra goza
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma t√ļnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!

Troveja! E anelo ter, s√īfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.

Apraz-me, enfim, despindo a √ļltima alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,

Semelhante a um cachorro de atalaia
√Äs decomposi√ß√Ķes da Natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!

A Ang√ļstia

Nada em ti me comove, Natureza, nem
Faustos das madrugadas, nem campos fecundos,
Nem pastorais do Sul, com o seu eco t√£o rubro,
A solene dolência dos poentes, além.

Eu rio-me da Arte, do Homem, das can√ß√Ķes,
Da poesia, dos templos e das espirais
Lançadas para o céu vazio plas catedrais.
Vejo com os mesmos olhos os maus e os bons.

N√£o creio em Deus, abjuro e renego qualquer
Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar
Dessa velha ironia a que chamam Amor.

J√° farta de existir, com medo de morrer,
Como um brigue perdido entre as ondas do mar,
A minha alma persegue um naufr√°gio maior.

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Noli Me Tangere

A exaltação emocional do Gozo,
O Amor, a Glória, a Ciência, a Arte e a Beleza
Servem de combustíveis à ira acesa
Das tempestades do meu ser nervoso!

Eu sou, por conseq√ľ√™ncia um ser monstruoso!
Em minha arca encef√°lica indefesa
Choram as forças más da Natureza
Sem possibilidades de repouso!

Agregados an√īmalos malditos
Despedaçam-se, mordem-se, dão gritos
Nas minhas camas cerebrais fun√©reas…

Ai! N√£o toqueis em minhas faces verdes,
Sob pena, homens felizes, de sofrerdes
A sensação de todas as misérias!

Voz de Outono

Ouve tu, meu cansado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
‚ÄĒ ¬ęMais te valera, n√ļ e sem defesa,
Ter nascido em aspérrima soidão,

Ter gemido, ainda infante, sobre o ch√£o
Frio e cruel da mais cruel
deveza, Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berço da Ilusão!

Mais valera à tua alma visionária
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba v√°ria,

(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)
Com √≥dio e raiva e dor… que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste!¬Ľ ‚ÄĒ

A Vida Passada A Limpo

√ď espl√™ndida lua, debru√ßada
sobre Joaquim Nabuco, 81.
Tu n√£o banhas apenas a fachada
e o quarto de dormir, prenda comum.

Baixas a um vago em mim, onde nenhum
halo humano ou divino fez pousada,
e me penetras, l√Ęmina de Ogum,
e sou uma lagoa iluminada.

Tudo branco, no tempo. Que limpeza
nos resíduos e vozes e na cor
que era sinistra, e agora, flor surpresa,

j√° n√£o destila m√°goa nem furor:
fruto de aceitação da natureza,
essa alvura de morte lembra amor.

O Condenado

Folga a justiça e geme a natureza РBocage

Alma feita somente de granito,
Condenada a sofrer cruel tortura
Pela rua sombria d’amargura
РEi-lo que passa Рréprobo maldito.

Olhar ao ch√£o cravado e sempre fito,
Parece contemplar a sepultura
Das suas ilus√Ķes que a desventura
Desfez em pó no hórrido delito.

E, à cruz da expiação subindo mudo,
A vida a lhe fugir j√° sente prestes
Quando ao golpe do algoz, calou-se tudo.

O mundo é um sepulcro de tristeza,
Ali, por entre matas de ciprestes,
Folga a justiça e geme a natureza.

A Flor Do C√°rcere

Nascera ali – no limo viridente
Dos muros da pris√£o – como uma esmola
Da natureza a um cora√ß√£o que estiola –
Aquela flor imaculada e olente…

E ele que f√īra um bruto, e vil descrente,
Quanta vez, numa prece, ungido, cola
O l√°bio seco, na √ļmida corola
Daquela flor alv√≠ssima e silente!…

E – ele – que sofre e para a dor existe –
Quantas vezes no peito o pranto estanca!..
Quantas vezes na veia a febre acalma,

Fitando aquela flor t√£o pura e triste!…
– Aquela estrela perfumada e branca,
Que cintila na noite de sua alma…

Glória

Florescimentos e florescimentos!
Glória às estrelas, glória às aves, glória
√Ä natureza! Que a minh’alma fl√≥rea
Em mais flores flori de sentimentos.

Glória ao Deus invisível dos nevoentos
Espaços! glória à lua merencória,
Glória à esfera dos sonhos, à ilusória
Esfera dos profundos pensamentos.

Glória ao céu, glória à terra, glória ao mundo!
Todo o meu ser é roseiral fecundo
De grandes rosas de divino brilho.

Almas que floresceis no Amor eterno!
Vinde gozar comigo este falerno,
Esta emoção de ver nascer um filho!

Mundo Interior

Ouço que a natureza é uma lauda eterna
De pompa, de fulgor, de movimento e lida,
Uma escala de luz, uma escala de vida
De sol à ínfima luzerna.

Ou√ßo que a natureza, – a natureza externa, –
Tem o olhar que namora e o gesto que intimida,
Feiticeira que ceva uma hidra de Lerna
Entre as flores da bela Armida.

E contudo, se fecho os olhos, e mergulho
Dentro de mim, vejo à luz de outro sol, outro abismo
Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho,

Rola a vida imortal e o eterno cataclismo,
E, como o outro, guarda em seu √Ęmbito enorme,
Um segredo que atrai, que desafia, – e dorme.