Passagens de Cl√°udio Manuel da Costa

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XLVII

Que inflexível se mostra, que constante
Se vê este penhasco! já ferido
Do proceloso vento, e j√° batido
Do mar, que nele quebra a cada instante!

N√£o vi; nem hei de ver mais semelhante
Retrato dessa ingrata, a que o gemido
Jamais pode fazer, que enternecido
Seu peito atenda às queixas de um amante.

Tal és, ingrata Nise: a rebeldia,
Que vês nesse penhasco, essa dureza
H√° de ceder aos golpes algum dia:

Mas que diversa é tua natureza!
Dos contínuos excessos da porfia,
Recobras novo estímulo à fereza.

LIV

Ninfas gentis, eu sou, o que abrasado
Nos incêndios de Amor, pude alguma hora,
Ao som da minha cítara sonora,
Deixar o vosso império acreditado.

Se vós, glórias de amor, de amor cuidado,
Ninfas gentis, a quem o mundo adora,
N√£o ouvis os suspiros, de quem chora,
Ficai-vos; eu me vou; sigo o meu fado.

Ficai-vos; e sabei, que o pensamento
Vai tão livre de vós, que da saudade
N√£o receia abrasar-se no tormento.

Sim; que solta dos laços a vontade,
Pelo rio hei de ter do esquecimento
Este, aonde jamais achei piedade.

LXXX

Quando cheios de gosto, e de alegria
Estes campos diviso florescentes,
Então me vêm as lágrimas ardentes
Com mais √Ęnsia, mais dor, mais agonia.

Aquele mesmo objeto, que desvia
Do humano peito as m√°goas inclementes,
Esse mesmo em imagens diferentes
Toda a minha tristeza desafia.

Se das flores a bela contextura
Esmalta o campo na melhor fragr√Ęncia,
Para dar uma idéia da ventura;

Como, √≥ C√©us, para os ver terei const√Ęncia,
Se cada flor me lembra a formosura
Da bela causadora de minha √Ęnsia?

XXII

Neste √°lamo sombrio, aonde a escura
Noite produz a imagem do segredo;
Em que apenas distingue o próprio medo
Do feio assombro a hórrida figura;

Aqui, onde n√£o geme, nem murmura
Z√©firo brando em f√ļnebre arvoredo,
Sentado sabre o tosco de um penedo
Chorava Fido a sua desventura.

As l√°grimas a penha enternecida
Um rio fecundou, donde manava
D’√Ęnsia mortal a c√≥pia derretida:

A natureza em ambos se mudava;
Abalava-se a penha comovida;
Fido, est√°tua da dor, se congelava.

XIV

Quem deixa o trato pastoril amado
Pela ingrata, civil correspondência,
Ou desconhece o rosto da violência,
Ou do retiro a paz n√£o tem provado.

Que bem é ver nos campos transladado
No gênio do pastor, o da inocência!
E que mal é no trato, e na aparência
Ver sempre o cortes√£o dissimulado!

Ali respira amor sinceridade;
Aqui sempre a traição seu rosto encobre;
Um só trata a mentira, outro a verdade.

Ali não há fortuna, que soçobre;
Aqui quanto se observa, é variedade:
Oh ventura do rico! Oh bem do pobre!

VIII

Este é o rio, a montanha é esta,
Estes os troncos, estes os rochedos;
S√£o estes inda os mesmos arvoredos;
Esta √© a mesma r√ļstica floresta.

Tudo cheio de horror se manifesta,
Rio, montanha, troncos, e penedos;
Que de amor nos suavíssimos enredos
Foi cena alegre, e urna é já funesta.

Oh qu√£o lembrado estou de haver subido
Aquele monte, e as vezes, que baixando
Deixei do pranto o vale umedecido!

Tudo me está a memória retratando;
Que da mesma saudade o infame ruído
Vem as mortas espécies despertando.

LV

Em profundo silêncio já descansa
Todo o mortal; e a minha triste idéia
Se estende, se dilata, se recreia
Pelo espaçoso campo da lembrança.

Fatiga-se, prossegue, em v√£o se cansa;
E neste v√°rio giro, em que se enleia,
Ao duvidoso passo j√° receia,
Que lhe possa faltar a segurança.

Que diferente tudo est√° notando!
Que perplexo as imagens do perdido
Num e noutro despojo vem achando!

Este não é o templo (eu o duvido)
Assim o afirma, assim o est√° mostrando:
Ou morreu Nise, ou este não é Fido.

LXX

Breves horas, que em r√°pida porfia
Ides seguindo infausto movimento,
Oh como o vosso curso foi violento,
Quando soubestes, que eu vos possuía!

Já crédito vos dava; porque via
Avultar meu feliz contentamento:
Que é mui fácil num triste estar atento
Aos enganos, que pinta a fantasia.

Logrou-se o vosso fim; que foi levar-me
Da falsa glória, do fingido gosto A
o cume, donde venho a despenhar-me:

Assim a lei do fado tem disposto,
Que haja o instant√Ęneo bem de lisonjear-me;
Por que o estrago, me diga, que é suposto.

LXXVI

Enfim te hei de deixar, doce corrente
Do claro, do suavíssimo Mondego;
Hei de deixar-te enfim; e um novo pego
Formará de meu pranto a cópia ardente.

De ti me apartarei; mas bem que ausente,
Desta lira ser√°s eterno emprego;
E quanto influxo hoje a dever-te chego,
Pagar√° de meu peito a voz cadente.

Das ninfas, que na fresca, amena est√Ęncia
Das tuas margens √ļmidas ouvia,
Eu terei sempre n’alma a conson√Ęncia;

Desde o prazo funesto deste dia
Ser√£o fiscais eternos da minha √Ęnsia
As memórias da tua companhia.

LXXI

Eu cantei, n√£o o nego, eu algum dia
Cantei do injusto amor o vencimento;
Sem saber, que o veneno mais violento
Nas doces express√Ķes falso encobria.

Que amor era benigno, eu persuadia
A qualquer coração de amor isento;
Inda agora de amor cantara atento,
Se lhe n√£o conhecera a aleivosia.

Ninguém de amor se fie: agora canto
Somente os seus enganos; porque sinto,
Que me tem destinado estrago tanto.

De seu favor hoje as quimeras pinto:
Amor de uma alma é pesaroso encanto;
Amor de um coração é labirinto.

XL

Quem chora ausente aquela formosura,
Em que seu maior gosto deposita,
Que bem pode gozar, que sorte, ou dita,
Que n√£o seja funesta, triste, e escura!

A apagar os incêndios da loucura
Nos braços da esperança Amor me incita:
Mas se era a que perdi, glória infinita,
Outra igual que esperança me assegura!

Já de tanto delírio me despeço;
Porque o meu precipício encaminhado
Pela mão deste engano reconheço.

Triste! A quanto chegou meu duro fado!
Se de um fingido bem não faço apreço,
Que alívio posso dar a meu cuidado!

LXXXIII

Polir na guerra o b√°rbaro gentio,
Que as leis quase ignorou da natureza,
Romper de altos penhascos a rudeza,
Desentranhar o monte, abrir o rio;

Esta a virtude, a glória, o esforço, o brio
Do Russiano Herói, esta a grandeza,
Que igualou de Alexandre a fortaleza,
Que venceu as desgraças de Dario:

Mas se a lei do heroísmo se procura,
Se da virtude o espírito se atende,
Outra idéia, outra máxima o segura:

L√° vive, onde no ferro n√£o se acende;
Vive na paz dos povos, na brandura:
Vós a ensinais, ó Rei; em vós se aprende.

XXVII

Apressa se a tocar o caminhante
O pouso, que lhe marca a luz do dia;
E da sua esperança se confia,
Que chegue a entrar no porto o navegante;

Nem aquele sem termo passa avante
Na longa, duvidosa e incerta via;
Nem este atravessando a regi√£o fria
Vai levando sem rumo o curso errante:

Depois que um breve tempo houver passado,
Um se ver√° sobre a segura areia,
Chegará o outro ao sítio desejado:

Eu só, tendo de penas a alma cheia,
N√£o tenho, que esperar; que o meu cuidado
Faz, que gire sem norte a minha idéia.

XXXIII

Aqui sobre esta pedra, √°spera, e dura,
Teu nome hei de estampar, ó Francelisa,
A ver, se o bruto m√°rmore eterniza
A tua, mais que ingrata, formosura.

J√° cintilam teus olhos: a figura
Avultando j√° vai; quanto indecisa
Pasmou na efígie a idéia, se divisa
No engraçado relevo da escultura.

Teu rosto aqui se mostra; eu n√£o duvido,
Acuses meu delírio, quando trato
De deixar nesta pedra o vulto erguido;

√Č tosca a prata, o ouro √© menos grato;
Contemplo o teu rigor: oh que advertido!
Só me dá esta penha o teu retrato!

LXXIX

Entre este √°lamo, o Lise, e essa corrente,
Que agora est√£o meus olhos contemplando,
Parece, que hoje o céu me vem pintando
A m√°goa triste, que meu peito sente.

Firmeza a nenhum deles se consente
Ao doce respirar do vento brando;
O tronco a cada instante meneando,
A fonte nunca firme, ou permanente.

Na líquida porção, na vegetante
Cópia daquelas ramas se figura
Outro rosto, outra imagem semelhante:

Quem n√£o sabe, que a tua formosura
Sempre móvel está, sempre inconstante,
Nunca fixa se viu, nunca segura?

C

Musas, canoras musas, este canto
Vós me inspirastes, vós meu tenro alento
Erguestes brandamente àquele assento
Que tanto, ó musas, prezo, adoro tanto.

L√°grimas tristes s√£o, m√°goas, e pranto,
Tudo o que entoa o m√ļsico instrumento;
Mas se o favor me dais, ao mundo atento
Em assunto maior farei espanto.

Se em campos n√£o pisados algum dia
Entra a ninfa, o pastor, a ovelha, o touro,
Efeitos s√£o da vossa melodia;

Que muito, ó musas, pois, que em fausto agouro
Cresçam do pátrio rio à margem fria
A imarcescível hera, o verde louro!

L

Memórias do presente, e do passado
Fazem guerra cruel dentro em meu peito;
E bem que ao sofrimento ando j√° feito,
Mais que nunca desperta hoje o cuidado.

Que diferente, que diverso estado
√Č este, em que somente o triste efeito
Da pena, a que meu mal me tem sujeito,
Me acompanha entre aflito, e magoado!

Tristes lembranças! e que em vão componho
A memória da vossa sombra escura!
Que néscio em vós a ponderar me ponho!

Ide-vos; que em tão mísera loucura
Todo o passado bem tenho por sonho;
Só é certa a presente desventura.

LXIX

Se à memória trouxeres algum dia,
Belíssima tirana, ídolo amado,
Os ternos ais, o pranto magoado,
Com que por ti de amor Alfeu gemia;

Confunda-te a soberba tirania,
O ódio injusto, o violento desagrado,
Com que atr√°s de teu olhos arrastado
Teu ingrato rigor o conduzia.

E já que enfim tão mísero o fizeste,
Vê-lo-ás, cruel, em prêmio de adorar-te,
Vê-lo-ás, cruel, morrer; que assim quiseste.

Dir√°s, lisonjeando a dor em parte:
Fui-te ingrata, pastor; por mim morreste;
Triste remédio a quem não pode amar-te!

XXV

N√£o de tigres as testas descarnadas,
N√£o de hircanos le√Ķes a pele dura,
Por sacrifício à tua formosura,
Aqui te deixo, ó Lise, penduradas:

√ānsias ardentes, l√°grimas cansadas,
Com que meu rosto enfim se desfigura,
São, bela ninfa, a vítima mais pura,
Que as tuas aras guardar√£o sagradas.

Outro as flores, e frutos, que te envia,
Corte nos montes, corte nas florestas;
Que eu rendo as m√°goas, que por ti sentia:

Mas entre flores, frutos, peles, testas,
Para adornar o altar da tirania,
Que outra vítima queres mais, do que estas ?

XCVIII

Destes penhascos fez a natureza
O berço, em que nasci! oh quem cuidara,
Que entre penhas t√£o duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!

Amor, que vence os tigre por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra o meu coração guerra tão rara,
Que n√£o me foi bastante a fortaleza.

Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,
A que dava ocasi√£o minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano:

Vós, que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei; que Amor tirano,
Onde há mais resistência, mais se apura.