Passagens sobre Ternura

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Frases sobre ternura, poemas sobre ternura e outras passagens sobre ternura para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O autor aos seus versos

Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela m√£o da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, n√£o busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da s√°tira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz e tirania:

Desculpa tendes, se valeis t√£o pouco,
Que n√£o pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.

A Visita do Príncipe

N√£o sei nunca o que me trazem as palavras, elas gostam tanto de me surpreender. Hoje ao levantar da n√©voa trouxeram-me a casa sobre o rio, o terra√ßo escassamente iluminado por um lampe√£o que balan√ßava ao vento, o pequeno sapo que todas as noites, rente ao muro, se ia aproximando, deposit√°rio de tudo o que nesse tempo em mim se confundia com a ternura. Pequeno pr√≠ncipe da vadiagem, por ali se quedava sem outro of√≠cio que n√£o fosse o de receber alguma car√≠cia, s√≥ depois regressando por entre a humidade das pedras aos p√Ęntanos da sombra, a noite inteira nos olhos desmedidos.

Na velhice o prazer do sexo é substituído pelo prazer da ternura, compreensão, companheirismo, é onde as duas pessoas realmente vivem uma sexualidade plena e responsável.

Temo a tua natureza; ela est√° demasiado cheia do leite da ternura humana para que seja capaz de seguir o caminho mais curto.

Magro, de Olhos azuis, Car√£o Moreno

Magro, de olhos azuis, car√£o moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e n√£o pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades;

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Dona Flor

Ela é tão meiga! Em seu olhar medroso
Vago como os crep√ļsculos do estio,
Treme a ternura, como sobre um rio
Treme a sombra de um bosque silencioso.

Quando, nas alvoradas da alegria,
A sua boca √ļmida floresce,
Naquele rosto angelical parece
Que é primavera, e que amanhece o dia.

Um rosto de anjo, l√≠mpido, radiante…
Mas, ai! sob êsse angélico semblante
Mora e se esconde uma alma de mulher

Que a rir-se esfolha os sonhos de que vivo
– Como atirando ao vento fugitivo
As folhas sem valor de um malmequer…

√ď M√£e

√ď m√£e, regressa a mim. Embala-me no tempo em que os teus l√°bios rebentavam de ternura. √ď m√£e, √≥ minha m√£e, √≥ rio de √°gua pura, correndo pelas veias. Pelo vento.

√ď m√£e, que √©s m√£e de Deus, que √©s m√£e de mim e m√£e de Antero e de Cam√Ķes, e m√£e de quem lhe faltam as palavras como se faltasse o ar. E s√£o assim uma esp√©cie de filhos de ningu√©m. Abre o teu ventre, m√£e. Acorda. Vem parir-me. E vem sofrer a minha dor uma vez mais. Morrer de amor por mim. Vem impedir-me o medo. Ensinar-me a amar a luz dos animais.

√ď m√£e, √≥ minha m√£e. √ď p√°tria. √ď minha pena. Que me pariste, assim, temperamental. M√£e de Ulisses, de Guevara e m√£e de Helena. E m√£e da minha dor universal.

Uma Alma Amante e Terna

Jamais houve alma mais amante ou terna do que a minha, alma mais repleta de bondade, de compaix√£o, de tudo o que √© ternura e amor. Contudo, nenhuma alma h√° t√£o solit√°ria como a minha – solit√°ria, note-se, n√£o merc√™ de circunst√Ęncias exteriores, mas sim de circunst√Ęncias interiores. O que quero dizer √©: a par da minha grande ternura e bondade, entrou no mau car√°cter um elemento da natureza inteiramente oposto, um elemento de tristeza, egocentrismo, portanto de ego√≠smo, produzindo um efeito duplo: deformar e prejudicar o desenvolvimento e a plena ac√ß√£o interna daquelas outras qualidades, e prejudicar, deprimindo a vontade, a sua plena ac√ß√£o externa, a sua manifesta√ß√£o. Hei-de analisar isto; um dia hei-de examinar melhor, destrin√ßar, os elementos que constituem o meu car√°cter, pois a minha curiosidade acerca de tudo, aliada √† minha curiosidade por mim pr√≥prio e pelo meu car√°cter, conduz a uma tentativa para compreender a minha personalidade.

S√£o as Pessoas como Tu

S√£o as pessoas como tu que fazem com que o nada queira dizer-nos algo, as coisas vulgares se tornem coisas importantes e as preocupa√ß√Ķes maiores sejam de facto mais pequenas. S√£o as pessoas como tu que d√£o outra dimens√£o aos dias, transformando a chuva em delirante orvalho e fazendo do inverno uma esta√ß√£o de rosas rubras.
As pessoas como tu possuem n√£o uma, mas todas as vidas. Pessoas que amam e se entregam porque amar √© tamb√©m partilhar as m√£os e o corpo. Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem transformar o cansa√ßo numa esperan√ßa aliciante, tocando-nos o rosto com dedos de √°gua pura, soltando-nos os cabelos com a leveza do p√°ssaro ou a firmeza da flecha. S√£o as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem inspirar com elas o azul que h√° no dorso das manh√£s, e nos estendem os bra√ßos e nos apertam at√© sentirmos o cora√ß√£o transformar o peito numa m√ļsica infinita. S√£o as pessoas como tu que n√£o nos pedem nada mas t√™m sempre tudo para dar, e que fazem de n√≥s nem √≠caros nem prisioneiros, mas homens e mulheres com a estatura da vida, capazes da beleza e da justi√ßa,

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Eu Deliro, Gertr√ļria, eu Desespero

Eu deliro, Gertr√ļria, eu desespero
No inferno de suspeitas e temores.
Eu da morte as ang√ļstias e os horrores
Por mil vezes sem morrer tolero.

Pelo Céu, por teus olhos te assevero
Que ferve esta alma em c√Ęndidos amores;
Longe o prazer de ilícitos favores!
Quero o teu coração, mais nada quero.

Ah! não sejas também qual é comigo
A cega divindade, a Sorte dura.
A v√°ria Deusa, que me nega abrigo!

Tudo perdi: mas valha-me a ternura
Amor me valha, e pague-me contigo
Os roubos que me faz a m√° ventura.

Gozo e Dor

Se estou contente, querida,
Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
– N√£o. Ai n√£o; falta-me a vida;
Sucumbe-me a alma à ventura:
O excesso de gozo é dor.

Dói-me a alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua beleza,
N√£o sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.

√Č que n√£o h√° ser bastante
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
Tremo dele, e delirante
Sinto que se exaure em mim
Ou a vida – ou a raz√£o.

Procuro-te

Procuro a ternura s√ļbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um p√°ssaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da √°gua entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou m√ļsica.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o p√£o e a √°gua,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manh√£ de maio.

Um p√°ssaro e um navio s√£o a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas n√£o quando se ama,
n√£o quando apertamos contra o peito
uma flor √°vida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solid√£o,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

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O que se é Vem à Flor?

“N√£o, n√£o digas nada” Fernando Pessoa

Melhor seria n√£o dizer-te nada
j√° que as palavras se frustram, Pessoa
– ai! onde as p√°s sutis e as virgens lavras
do ver de terna fala entre as criaturas?
J√° que as palavras nos frustram, pessoas
perdidas no universo das palavras
– ai tempos de durames sem ternuras! –
melhor seria n√£o dizer-te nada.
Calo. Do teu silêncio aflora a fala
desse verde essencial ‚Äď cerne, mensagem,
viva raiz-mistério da linguagem.
Na força de não ter dito o que mais cala.

A Morte que Trazemos no Coração

√Č no cora√ß√£o que morremos. √Č a√≠ que a morte habita.

Nem sempre nos damos conta que a carregamos connosco, mas, desde que somos vida, ela segue-nos de perto. Enquanto n√£o somos tomados pela nossa, vamos assistindo e sentindo, em ritmo crescente ao longo da vida, √†s mortes de quem nos √© querido. A morte de um amigo √© como uma amputa√ß√£o: perdemos uma parte de n√≥s; uma fonte de amor; algu√©m que dava sentido √† nossa exist√™ncia… porque despertava o amor em n√≥s.

Mas não há sabedoria alguma, cultura ou religião, que não parta do princípio de que a realidade é composta por dois mundos: um, a que temos acesso direto e, outro, que não passa pelos sentidos, a ele se chega através do coração. Contudo, o visível e o invisível misturam-se de forma misteriosa, ao ponto de se confundirem e, como alguns chegam a compreender, não serem já dois mundos, mas um só.
Só as pessoas que amamos morrem. Só a sua morte é absoluta separação. Os estranhos, com vidas com as quais não nos cruzamos, não morrem, porque, para nós, de facto, não chegam sequer a ser.

Só as pessoas que amamos não morrem.

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Carta

(digo dos que se ditam:
a minha defesa
s√£o os vossos punhais)

Quando me disseram ¬ęn√£o se vem √† vida para sonhar¬Ľ passei a odiar-vos. Para vos matar escolhi materiais inacess√≠veis ao meu √≥dio. Em mim fizestes despertar a irrepar√°vel urg√™ncia de ferir.

Descobri a vossa intenção: decepar as minhas raízes mais profundas, obrigar-me à cerimónia das palavras mortas. Preferi reiniciar-me: na solidão me apaguei. Estava só para me encher de gente, para me povoar de ternura. Eu queria simplesmente olhar de frente a verdade das pequenas coisas: esta água vem de onde, quem teceu este linho, que mãos fizeram este pão?

Desloquei-me para tudo ver de um outro lado: levei o meu olhar, o desejo de um princípio infinitamente retomado. Ganhei sonoridade nas vozes que me habitavam silenciosamente. Entre mar e terra eu preferia ser espuma, ter raiz e poente entre oceano e continente.

O tempo, por vezes, morria de o n√£o semear. Terras que golpeava com ternura eram feridas que em mim se abriam para me curar. Eram terras suspeitas, acusadas de futuro. Outras vezes eram m√£os de um corpo que ainda me n√£o nascera. Surgiam da obscuridade para afastar a √°gua e nela me deixar tombar.

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Rei Destronado

O teu lugar vaz√£o!… E esteve cheio,
Cheio de mocidade e de ternura!
Como brilhava a tua formosura!
Que luz divina te doirava o seio!

Quando a camisa tépida despias,
– Sob o reflexo do cabelo louro,
De pé, na alcova, ardias e fulgias
Como um ídolo de ouro.

Que fundo o fogo do primeiro beijo,
Que eu te arrancava ao l√°bio recendente!
Morria o meu desejo… outro desejo
Nascia mais ardente.

Domada a febre, l√Ęnguida, em meus bra√ßos
Dormias, sobre os linhos revolvidos,
Inda cheios dos √ļltimos gemidos,
Inda quentes dos √ļltimos abra√ßos…

Tudo quanto eu pedira e ambicionara,
Tudo meus dedos e meus olhos calmos
Gozavam satisfeitos nos seis palmos
De tua carne saborosa e clara:

Reino perdido! glória dissipada
T√£o loucamente! A alcova est√° deserta,
Mas inda com o teu cheiro perfumada,
Do teu fulgor coberta…

Fraqueza

Espero-te… E sei bem que eu s√≥ que te espero…
Aqui me tens… Constante e eterna √© a expectativa!
Por que hei de ser assim sempre ingênuo e sincero
por mais que experiência eu tenha, e a vida eu viva?

Chegar√°s… e ter√°s uma resposta esquiva
ao que te perguntar… E eu que tanto te quero
renderei novamente a minha alma cativa,
enquanto sorrir√°s feliz… e eu desespero…

H√° um imenso poder nessa tua humildade,
e esse teu ar de mansa ternura e meiguice
estra√ßalha aos teus p√©s toda a minha vontade…

Que fazer? Hei de sempre perdoar o que fazes…
E se choras, nem sei… Esquecendo o que disse
sou eu que enxugo o pranto e ainda proponho as pazes!

Que Tristeza Isto de a Gente Escrever

Que tristeza isto de a gente escrever! Secos como paus na vida, e sai-nos depois a ternura pelo bico da pena! Comigo √© assim. E como ningu√©m me l√™‚ÄĒningu√©m dos que eu mais desejava que recebessem ternura de mim (minha M√£e, meu Pai, minha Irm√£, uns pobres amigos rudes que tenho na minha terra e uns infelizes que encontro por este mundo) ‚ÄĒ, fica tudo em letra morta. Hoje todo eu fui uma sede ardente de abra√ßar um infeliz que calcorreava √†s apalpadelas as ruas escaroladas da Nazar√©. Um dia como uma estrela, aquela maravilha ali para se ver, e o desgra√ßado cego de nascen√ßa! Mas o abra√ßo saiu-me aqui, a tinta.