Passagens de Pedro Chagas Freitas

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Frases, pensamentos e outras passagens de Pedro Chagas Freitas para ler e compartilhar. Os melhores escritores estão em Poetris.

Morrer não é um verbo imóvel, a idade mexe-se mas é a vida que mata, os dias intermináveis e curtos demais, pessoas com vidas próprias instaladas nas nossas, não existe egoísmo, apenas sobrevivência.

O mais curioso com o medo é que nos obriga, para não fazermos algo que tememos fazer, a fazer algo que tememos ainda mais fazer. Fugir é um acto de coragem encapotado.

Amor com Humor

O que faz falta a muitas relações não é amor; é humor.
Humor verdadeiro, humor real. Humor transformador. O nosso humor. Somos amaristas ou humantes, uma qualquer mistura entre amante e humorista. Andamos pelas horas assim, a brincar ao equilíbrio. Ora dizemos uma piada sobre o beijo perfeito ora beijamos o beijo perfeito.
Temos de ser cómicos para nos amarmos bem.
Há amores que não sobrevivem sem humor. Todos.
O nosso faz stand-up a toda a hora. Levanta-se e faz-nos rir. Rimo-nos de nós. Sobretudo de nós. Também dos outros, claro. Por vezes somos mauzinhos, por vezes somos cruéis. Fazemos humor negro e nem assim nos deixamos cair no escuro.

Mais do que as doenças, mais do que a crise económica, mais do que as derrotas que todos os dias acontecem, o grande drama do mundo é a conformação.

A vida é saber perder a respiração enquanto ainda se tem respiração. Quando já não se tem a respiração, perder a respiração não existe.

É preciso a melancolia para que a alegria faça sentido, é importante perceber cada momento de distância para que todas as presenças aconteçam.

Só há um tipo de pecado: o que nos mantém vivos. Quem vive sem pecar e morre sem pecar nunca na realidade viveu. Limitou-se a andar por cá. Quem nunca pecou não é santo; é defunto. Nasceu morto.

A genialidade verdadeira – fixa isto como se fosse (e é mesmo) a mais importante lição que algum dia recebeste – é viver bem. A genialidade é saber viver. Isso sim: é genial. E, se não sabes viver, por mais obras-primas que cries e mais invenções que descubras, não passas de um burro.

Fazer algo que não temos a mínima ideia de como se faz é, provavelmente, a coisa mais excitante do mundo. Depois do amor, claro.

Pensar é uma mentira. Pensar inibe o viver. Pior: pensar apaga o viver – e faz do que vives aquilo que pensas sobre o viver; e não, como tem de ser, aquilo que vives antes de pensar.

O Drama de Amar

O drama de amar é não haver sucedâneos.
E tudo o resto sabe a merda. Porque houve o teu abraço, porque existe o teu cheiro. Amei-te para sempre mesmo que já não te ame. Ficou em mim a tarde em que pela primeira vez o nosso corpo (o teu arfar a mostrar-me que língua se fala no cėu, a tua boca a mostrar-me o tamanho de um beijo), e a partir daí fiquei órfão de um corpo sempre que não fosse o teu corpo. E quando chegou o dia da despedida eu soube que tinha chegado o dia de para sempre.
O drama de amar é não admitir a morte.
Há uma mulher a mais sempre que amo um corpo que não é o teu. E um homem a menos. Deito-me, aperto, espremo (o encaixe perfeito das tuas costas nos meus braços, o cheiro dos teus lábios no suor do meu pescoço). E até um orgasmo comprova a hipocrisia da carne. Despedi-me de orgasmos quando me despedi de ti. Já me deitei com tantas e é sempre o teu boa-noite que me adormece.
O drama de amar é só criar réplicas.
Tudo o que amo és tu.

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As frases feitas existem para ser desfeitas. Dizimadas. Não te confortes enquanto incapacidade, enquanto falência, enquanto impotência, com frases que outros criaram para se confortarem enquanto falência e incompetência e impotência.

O Problema em Amar

O problema em amar quem te ama é o de quem te ama te amar como tu amas quem te ama. E depois o encadeamento é simples: quem te ama quer-te presente por dentro dele a toda a hora, por todo o lado do teu lado; e tu queres quem te ama presente em ti a toda a hora, por todo o lado do teu lado. Mas os corpos – por mais que a alma não seja palpável também ela tem um corpo – têm um limite de dilatação. A partir de uma certa altura: pára. E já não alarga mais. E tu queres enfiar o espaço que quem ama ocupa em ti mesmo ao lado do espaço do que te amas. E não dá. Não dá para te amares como amas quem amas. E depois quem te ama como tu amas quem te ama vai querer fazer o mesmo contigo. E não dá. Os corpos – repito – têm um limite de dilatação. E chega uma altura em que uma parte de ti não cabe na parte toda de quem amas; e chega uma altura em que uma parte de quem amas não cabe na parte toda de ti.

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