Textos sobre Beleza

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Textos de beleza escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Desejo como Consequência do Prazer e da Dor

O prazer e a dor suscitam o desejo. Desejo de alcançar o prazer e de evitar a dor. O desejo é o móbil principal da nossa vontade e, portanto, dos nossos atos. Do pólipo aos homens, todos os seres são movidos pelo desejo. Inspira a vontade, que não pode existir sem ele, e depende da sua intensidade. O desejo fraco suscita, naturalmente, uma vontade fraca.
Cumpre, no entanto, não confundir vontade e desejo, como fizeram muitos filósofos, tais como Condillac e Schopenhauer. Tudo quanto é querido é, evidentemente, desejado; mas desejamos muitas coisas que, sabemos, não podíamos querer. A vontade traduz deliberação, determinação e execução, estados de consciência que não se observam no desejo.
O desejo estabelece a escala dos nossos valores, variável, aliás, com o tempo e as raças. O ideal de cada povo é a fórmula do seu desejo.
Um desejo que invade todo o entendimento, transforma a nossa concep√ß√£o das coisas, as nossas opini√Ķes e as nossas cren√ßas. Spinoza muito bem disse julgamos uma coisa boa, n√£o por julgamento, mas porque a desejamos.

Não existindo em si mesmo o valor das coisas, ele é apenas determinado pelo desejo e proporcionalmente à intensidade desse desejo.A variável apreciação dos objetos de arte fornece desse fato uma prova diária.

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A Destruição de Tudo

√Č a palavra de ordem para o homem de hoje. Destruir. Tudo. Os deuses, as artes, diferen√ßas culturais, ou a s√≥ cultura, diferen√ßas sexuais, diferen√ßas liter√°rias ou a s√≥ literatura que leva hoje tudo, valores de qualquer esp√©cie, filosofias, o simples pensamento, a simples palavra – tudo alegremente ao caixote. Entretanto, ou por isso, prolifera√ß√£o das gentes com a forma que lhes pertence, devasta√ß√£o da sida, que foi o que de melhor a natureza arranjou para equilibrar a demografia, droga dura para se avan√ßar na vida mais depressa, criminalidade para esse avan√ßo, juventude de esgotos nocturnos, velhos em excesso e que n√£o h√° maneira de se despacharem e atulham os chamados lares de idosos ou simplesmente os dep√≥sitos em que s√£o largados at√© mudarem de cemit√©rio, politiqueiros que t√™m a verdade do erro que se segue e o mais e o mais. √Č tempo de cair um pedregulho como o que acabou com os dinossauros h√° sessenta milh√Ķes de anos e de poder dar-se a hip√≥tese de a vida recome√ßar. At√© que venha outra vez a destrui√ß√£o e Deus definitivamente se farte do brinquedo. Entretanto v√™ se v√™s ainda alguma flor ao natural e demora-te um pouco a admirar-lhe a beleza e estupidez.

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O Espírito Desfaz a Ordem das Coisas

O esp√≠rito aprendeu que a beleza nos faz bons, maus, est√ļpidos ou sedutores. Disseca uma ovelha e um penitente e encontra em ambos humildade e paci√™ncia. Analisa uma subst√Ęncia e descobre que, tomada em grandes quantidades, pode ser um veneno, e em pequenas doses, um excitante. Sabe que a mucosa dos l√°bios tem afinidades com a do intestino, mas tamb√©m sabe que a humildade desses l√°bios tem afinidades com a humildade de tudo o que √© sagrado. O esp√≠rito desfaz a ordem das coisas, dissolve-as e volta a recomp√ī-las de forma diferente. O bem e o mal, o que est√° em cima e o que est√° em baixo n√£o s√£o para ele no√ß√Ķes de um relativismo c√©ptico, mas termos de uma fun√ß√£o, valores que dependem do contexto em que se encontram. Os s√©culos ensinaram-lhe que os v√≠cios se podem transformar em virtudes e as virtudes em v√≠cios, e conclui que, no essencial, s√≥ por in√©pcia se n√£o consegue fazer de um criminoso um homem √ļtil no tempo de uma vida. N√£o reconhece nada como l√≠cito ou il√≠cito, porque tudo pode ter uma qualidade gra√ßas √† qual um dia participar√° de um novo e grande sistema. Odeia secretamente como a morte tudo aquilo que se apresenta como se fosse definitivo,

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O Orgulho de Ser Português

Aquelas qualidades que se revelaram e fixaram e fazem de n√≥s o que somos e n√£o outros; aquela do√ßura de sentimentos, aquela mod√©stia, aquele esp√≠rito de humanidade, t√£o raro hoje no mundo; aquela parte de espiritualidade que, mau grado tudo que a combate inspira ainda a vida portuguesa; o √Ęnimo sofredor; a valentia sem alardes; a facilidade de adapta√ß√£o e ao mesmo tempo a capacidade de imprimir no meio exterior os tra√ßos do modo de ser pr√≥prio; o apre√ßo dos valores morais; a f√© no direito, na justi√ßa, na igualdade dos homens e dos povos; tudo isso, que n√£o √© material nem lucrativo, constitui tra√ßos do car√°cter nacional. Se por outro lado contemplamos a Hist√≥ria maravilhosa deste pequeno povo, quase t√£o pobre hoje como antes de descobrir o mundo; as pegadas que deixou pela terra de novo conquistada ou descoberta; a beleza dos monumentos que ergueu; a l√≠ngua e literatura que criou; a vastid√£o dos dom√≠nios onde continua, com exemplar fidelidade √† sua Hist√≥ria e car√°cter, alta miss√£o civilizadora – concluiremos que Portugal vale bem o orgulho de se ser portugu√™s.

Para Que Serve a Filosofia?

O leitor ocupado perguntar√° para que serve a filosofia. Pergunta vergonhosa, que n√£o fazemos √† po√©tica, essa outra constru√ß√£o imaginativa de um mundo mal conhecido. Se a poesia nos revela a beleza que os nossos olhos ineducados n√£o v√™em, e se a filosofia nos d√° os meios de compreender e perdoar, n√£o lhes pe√ßamos mais – isso vale todas as riquezas da Terra. A filosofia n√£o enche a nossa carteira, n√£o nos ergue √†s dignidades do Estado; √© at√© bastante descuidosa destas coisas. Mas de que vale engordar a carteira, subir a altos postos e permanecer na ignor√Ęncia ing√©nua, desapetrechado de esp√≠rito, brutal na conduta, inst√°vel no car√°cter, ca√≥tico nos desejos e cegamente infeliz?
A maturidade é tudo. Talvez que a filosofia nos dê, se lhe formos fiéis, uma sadia unidade de alma. Somos negligentes e contraditórios no nosso pensar; talvez ela possa classificar-nos, dar-nos coerência, libertar-nos da fé e dos desejos contraditórios.
Da unidade de espírito pode vir essa unidade de carácter e propósitos que faz a personalidade e dá ordem e dignidade à vida. Filosofia é conhecimento harmónico, criador da vida harmónica; é disciplina que nos leva à serenidade e à liberdade. Saber é poder, mas só a sabedoria é liberdade.

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O Cerne da Escrita e da Leitura

Não se é escritor por se ter preferido dizer certas coisas, mas por se ter preferido dizê-las duma certa maneira. E o estilo faz, evidentemente, o valor da prosa. Mas deve passar despercebido. Uma vez que as palavras são transparentes e que o olhar as atravessa, seria absurdo meter entre elas vidros despolidos. Aqui, a beleza é apenas uma força doce e insensível.
Num quadro, brilha antes de mais nada; num livro, esconde-se, age por persuas√£o como o encanto duma voz ou dum rosto, n√£o obriga, faz curvar sem que se d√™ por isso e pensa-se ceder aos argumentos quando afinal se √© solicitado por um encanto impercept√≠vel. A cerim√≥nia da missa n√£o √© a f√©, ela disp√Ķe a isso; a harmonia das palavras, a sua beleza, o equil√≠brio das frases, disp√Ķem as paix√Ķes do leitor sem que ele d√™ por isso, ordenam-nas como a missa, como a m√ļsica, como uma dan√ßa; se acaba por as considerar em si mesmas, perde o sentido, apenas restam oscila√ß√Ķes aborrecidas.

Junta os Dons do Espírito às Vantagens do Corpo

Para ser amado, s√™ am√°vel, para o que n√£o bastar√° a beleza do rosto ou do corpo. Se pretendes conservar a tua amiga e n√£o teres nunca a surpresa de ser abandonado, mesmo que sejas Nireu, amado pelo velho Homero, ou o Hilas de delicada beleza que as N√°iades raptaram por meio de um crime, junta os dons do esp√≠rito √†s vantagens do corpo. A beleza √© um bem muito fr√°gil, tudo o que se acrescenta aos anos a diminui, murcha com a pr√≥pria dura√ß√£o. As violetas e os l√≠rios com as suas corolas abertas n√£o florescem sempre; e na rosa, depois de ca√≠da, s√≥ o espinho permanece. Tamb√©m tu, belo adolescente, cedo conhecer√°s cabelos brancos, cedo conhecer√°s as rugas que sulcam o teu corpo. Forma desde j√° um esp√≠rito que dure e fortalece a beleza; s√≥ ele subsiste at√© √† fogueira f√ļnebre.

Artista, Homem e Revolucion√°rio

Creio que n√£o √© preciso. Em todo o caso, fica aqui a declara√ß√£o. O que eu fui sempre, o que eu sou, e o que serei, √© um artista, um homem e um revolucion√°rio. Na medida em que sou artista, quero um mundo onde a beleza seja o v√©rtice da pir√Ęmide. Na medida em que sou homem, quero que nesse mundo os indiv√≠duos sejam livres e conscientes. E na medida em que sou revolucion√°rio, quero que a revolu√ß√£o traga √† tona as grandes massas, e que nunca acabe de percorrer o seu caminho perp√©tuo, sem estratifica√ß√Ķes e sem dogmas.

Eu Queria uma Liberdade Olímpica

Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim. Eu queria uma liberdade olímpica. Mas essa liberdade só é concedida aos seres imateriais. Enquanto eu tiver corpo ele me submeterá às suas exigências. Vejo a liberdade como uma forma de beleza e essa beleza me falta.

O Sofrimento do Hipócrita

Ter mentido √© ter sofrido. O hip√≥crita √© um paciente na dupla acep√ß√£o da palavra; calcula um triunfo e sofre um supl√≠cio. A premedita√ß√£o indefinida de uma a√ß√£o ruim, acompanhada por doses de austeridade, a inf√Ęmia interior temperada de excelente reputa√ß√£o, enganar continuadamente, n√£o ser jamais quem √©, fazer ilus√£o, √© uma fadiga. Compor a candura com todos os elementos negros que trabalham no c√©rebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compor o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma beleza, fabricar uma perfei√ß√£o com a perversidade, fazer c√≥cegas com o punhal, por a√ß√ļcar no veneno, velar na franqueza do gesto e na m√ļsica da voz, n√£o ter o pr√≥prio olhar, nada mais dif√≠cil, nada mais doloroso. O odioso da hipocrisia come√ßa obscuramente no hip√≥crita. Causa n√°useas beber perp√©tuamente a impostura. A meiguice com que a ast√ļcia disfar√ßa a malvadez repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e h√° momentos de enj√īo em que o hip√≥crita vomita quase o seu pensamento. Engolir essa saliva √© coisa horr√≠vel. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hip√≥crita se estima. H√° um eu desmedido no impostor.

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√Čs Linda

√Čs linda. E nem sabes quantos peda√ßos de beleza tive de juntar para chegar a esta conclus√£o. Para te construir, tive de misturar a conspira√ß√£o das searas com a tristeza do choupo, a inquieta√ß√£o da cotovia com o cheiro lavado do vento do ocidente. E a firmeza repartida dos livros, com a alegria explosiva dos mios√≥tis e a luz escura das violetas. Juntei depois um pouco de ansiedade das estrelas, a paci√™ncia das casas √† beira da fal√©sia, a espuma da terra, o respirar do sul, as perguntas de gesso que se fazem √† lua. Acrescentei-lhe a can√ß√£o das margens e pequenos peda√ßos da ang√ļstia do olhar. N√£o esqueci a intimidade do frio nem a dor branca que habita o cora√ß√£o dos muros. Por fim, deitei na tua pele o sono dos alperces, aos teus m√ļsculos prometi a viol√™ncia das cascatas, no teu sexo acordei a mem√≥ria do universo.
A tua beleza est√° no meu desejo, nos meus olhos, na minha desigual maneira de te amar. √Čs linda, repito. Mas tenta n√£o encarar o que te digo como um elogio.

O Amor Busca para que o Entendimento Encontre

N√£o basta a agudeza intelectual para descobrir uma coisa nova. Faz falta entusiasmo, amor pr√©vio por essa coisa. O entendimento √© uma lanterna que necessita de ir dirigida por uma m√£o, e a m√£o necessita de ir mobilizada por um anseio pr√©-existente para este ou outro tipo de poss√≠veis coisas. Em definitivo, somente se encontra o que se busca e o entendimento encontra porque o amor busca. Por isso todas as ci√™ncias come√ßaram por ser entusiasmos de amadores. A pedanteria contempor√Ęnea desprestigiou esta palavra; mas amador √© o mais que se pode ser com respeito a alguma coisa, pelo menos √© o germe todo. E o mesmo dir√≠amos do dilettante – que significa o amante. O amor busca para que o entendimento encontre. Grande tema para uma longa e f√©rtil conversa, este que consistiria em demonstrar como o ser que busca √© a pr√≥pria ess√™ncia do amor! Pensaram voc√™s na surpreendente contextura do buscar? O que busca n√£o tem, n√£o conhece ainda aquilo que busca e, por outra parte, buscar √© j√° ter de antem√£o e conjecturar o que se busca.
Buscar é antecipar uma realidade ainda inexistente, preparar o seu aparecimento, a sua apresentação. Não compreende o que é o amor quem,

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A Beleza ou a Excitação Aparecem no Mundo por Omissão

O que faz quando l√™? Vou dar-lhe j√° a resposta: a sua leitura deixa de lado aquilo que n√£o lhe conv√©m. O mesmo fez j√° o autor antes. Omitem-se tamb√©m coisas nos sonhos e na imagina√ß√£o. Daqui concluo: a beleza ou a excita√ß√£o aparecem no mundo por omiss√£o. Parece evidente que o modo como nos situamos na realidade corresponde a um compromisso, um estado interm√©dio em que os sentimentos se impedem mutuamente de chegar a paix√Ķes e se misturam em tons de cinzento. As crian√ßas que desconhecem este modo de estar no mundo s√£o, por isso, mais e menos felizes do que os adultos. E acrescento j√°: tamb√©m as pessoas est√ļpidas omitem; como se sabe, a estupidez faz-nos felizes.

O Saber Ajuda em Todas as Actividades

O mero fil√≥sofo √© geralmente uma personalidade pouco admis¬≠s√≠vel no mundo, pois sup√Ķe-se que ele em nada contribui para o be¬≠nef√≠cio ou para o prazer da sociedade, porquanto vive distante de toda comunica√ß√£o com os homens e envolto em princ√≠pios e no√ß√Ķes igualmente distantes de sua compreens√£o. Por outro lado, o mero ig¬≠norante √© ainda mais desprezado, pois n√£o h√° sinal mais seguro de um esp√≠rito grosseiro, numa √©poca e uma na√ß√£o em que as ci√™ncias florescem, do que permanecer inteiramente destitu√≠do de toda esp√©cie de gosto por estes nobres entretenimentos. Sup√Ķe-se que o car√°cter mais perfeito se encontra entre estes dois extremos: conserva igual capacidade e gosto para os livros, para a sociedade e para os neg√≥cios; mant√©m na conversa√ß√£o discernimento e delicadeza que nascem da cultura liter√°ria; nos neg√≥cios, a probidade e a exatid√£o que resultam naturalmente de uma filosofia conveniente. Para difundir e cultivar um car√°cter t√£o aperfei√ßoado, nada pode ser mais √ļtil do que as com¬≠posi√ß√Ķes de estilo e modalidade f√°ceis, que n√£o se afastam em demasia da vida, que n√£o requerem, para ser compreendidas, profunda apli¬≠ca√ß√£o ou retraimento e que devolvem o estudante para o meio de homens plenos de nobres sentimentos e de s√°bios preceitos,

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Uma Vida Exterior Simples e Modesta Só Pode Fazer Bem

Uma vida exterior simples e modesta s√≥ pode fazer bem, tanto ao corpo como ao esp√≠rito. N√£o creio de modo algum na liberdade do ser humano, no sentido filos√≥fico. Cada um age n√£o s√≥ sob press√£o exterior como tamb√©m de acordo com a sua necessidade interior. O pensamento de Schopenhauer: ¬ęO homem pode, na verdade, fazer o que quiser, mas n√£o pode querer o que quer¬Ľ, impressionou-me vivamente desde a juventude e tem sido para mim um consolo constante e uma fonte inesgot√°vel de toler√Ęncia. Esse conhecimento suaviza ben√©ficamente o sentimento de responsabilidade levemente inibit√≥rio e faz com que n√£o tomemos demasiado a s√©rio, para n√≥s e para os outros, uma concep√ß√£o de vida que justifica de modo especial a exist√™ncia do humor.
Do ponto de vista objectivo, pareceu-me sempre desprovido de senso querer-se indagar sobre o sentido ou a finalidade da própria existência ou da existência da criação. E, no entanto, cada homem tem certos ideais, que o orientam nos seus esforços e juízos. Neste sentido o bem-estar e a felicidade nunca me pareceram um fim em si (chamo a esta base ética o ideal da vara de porcos). Os ideais que me iluminavam e me encheram incessantemente de alegre coragem de viver foram sempre a bondade,

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A Juventude e a Literatura

Os jovens s√£o, geralmente, melhores ju√≠zes das obras destinadas a estimular sentimentos e imagens do que os homens maduros ou velhos. Mas por outro lado, v√™-se que os jovens que n√£o s√£o educados para a leitura procuram nela um prazer mais do que humano, infinito, e de caracter√≠sticas absurdas; e n√£o encontrando isso nela, desprezam os escritores; o que por vezes acontece tamb√©m noutras idades, por raz√Ķes id√™nticas, com os iliteratos.

E aqueles jovens que se dedicam √†s letras facilmente preferem, n√£o s√≥ quando escrevem mas tamb√©m quando avaliam as obras dos outros, o excessivo ao moderado, a sumptuosidade ou a afecta√ß√£o das express√Ķes e dos ornamentos ao simples e ao natural, e as belezas ilus√≥rias √†s verdadeiras, em parte devido √† sua pouca experi√™ncia e em parte ao arrebatamento pr√≥prio da idade. Donde se deduz que os jovens, que s√£o sem d√ļvida, entre todos os homens, aqueles que est√£o mais dispostos a louvar o que lhes parece bom, por serem mais sinceros e ing√©nuos, raramente s√£o capazes de apreciar a h√°bil e perfeita boa qualidade das obras liter√°rias. Com o avan√ßar dos anos, aumenta a capacidade que se adquire com o treino e diminui a natural. Contudo,

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A Alma Transforma-se em Sensa√ß√Ķes

Eis um efeito que me será contestado, e que só apresento aos homens que, digamos, são bastante infelizes para terem amado com paixão durante longos anos, dum amor contrariado por obstáculos invencíveis:
A vista de tudo o que √© extremamente belo, tanto na natureza como nas artes, traz-nos a recorda√ß√£o do que amamos, com a rapidez de um rel√Ęmpago. √Č que, pelo processo do ramo de √°rvore guarnecido de diamantes da mina de Salzburgo, tudo o que no mundo √© belo e sublime faz parte da beleza do que amamos, e esta vis√£o imprevista da felicidade enche-nos os olhos de l√°grimas num instante. √Č assim que o amor do belo e o amor se d√£o vida um ao outro.
Uma das infelicidades da vida √© que a ventura de ver a quem amamos e de lhe falar n√£o deixa recorda√ß√Ķes distintas. Aparentemente, a alma est√° demasiado perturbada pelas suas emo√ß√Ķes para poder prestar aten√ß√£o ao que as causa ou as acompanha. Transforma-se na pr√≥pria sensa√ß√£o. √Č talvez porque estes prazeres n√£o se podem renovar sempre que queremos, por simples for√ßa de vontade, que se renovam com tanta for√ßa, desde que um objecto qualquer nos venha tirar da medita√ß√£o consagrada √† mulher que amamos,

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O Abismo da Agitação

Uma vida demasiado repleta de agita√ß√£o √© uma vida esgotante que continuamente exige estimulantes mais fortes para provocar as emo√ß√Ķes que acabam por ser consideradas parte essencial do prazer. Uma pessoa habituada a demasiada agita√ß√£o √© compar√°vel √† que tem um desejo m√≥rbido de pimenta e acaba por ser incapaz de lhe apreciar o sabor numa quantidade que sufocaria qualquer outra pessoa. H√° sempre um certo aborrecimento quando se evita em demasia a agita√ß√£o, mas por sua vez a agita√ß√£o demasiada n√£o s√≥ enfraquece a sa√ļde como embota o gosto para toda a esp√©cie de prazeres, substituindo titila√ß√Ķes por profundas satisfa√ß√Ķes org√Ęnicas, habilidade por intelig√™ncia e impress√Ķes fugidias por beleza. N√£o pretendo exagerar os perigos da agita√ß√£o. Uma certa quantidade talvez seja saud√°vel, mas como em quase todas as outras coisas, o problema √© de ordem quantitativa. Uma dose demasiado pequena pode gerar desejos m√≥rbidos e o abuso pode produzir o esgotamento. Certa capacidade para suportar o aborrecimento √© pois essencial a uma vida feliz e isso era uma das coisas que deviam ser ensinadas aos jovens.

A Nossa Avidez Infinita

Todos n√≥s sofremos de uma avidez infinita. As nossas vidas s√£o-nos preciosas, estamos sempre alerta contra os desperd√≠cios. Ou talvez fosse melhor chamar a isso Sentido de Destino Pessoal. Sim. Creio que √© melhor do que avidez. Dever√° a minha vida perder um mil√©simo de polegada da sua plenitude? √Č uma coisa diferente avaliar-se a si pr√≥prio ou vangloriar-se loucamente. E h√° ent√£o os nossos planos, os nossos ideais. Tamb√©m eles s√£o perigosos. Podem consumir-nos como parasitas, comer-nos, sorver-nos e deixar-nos exangues e prostrados. E no entanto estamos constantemente a convidar os parasitas, como se estiv√©ssemos ansiosos por sermos sorvidos e comidos. Isto porque nos ensinaram que n√£o h√° limites para o que um homem pode ser.

Há seiscentos anos um homem era o que o seu nascimento demarcava para ele. Satanás e a Igreja, representante de Deus, lutavam por ele. Ele, pela sua escolha, decidia em parte qual seria o resultado. Mas quer fosse, depois da morte, para o céu ou para o inferno, o seu lugar entre os vivos estava marcado. Não podia ser contestado. Desde então o palco foi novamente arranjado e os seres humanos apenas passeiam nele e, sob este novo ponto de vista,

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