Textos sobre Repente

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Textos de repente escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Fim da Civilização

Quando se extinguir√° esta sociedade corrompida por todas as devassid√Ķes, devassid√Ķes de esp√≠rito, de corpo e de alma? Quando morrer esse vampiro mentiroso e hip√≥crita a que se chama civiliza√ß√£o, haver√° sem d√ļvida alegria sobre a terra; abandonar-se-√° o manto real, o ceptro, os diamantes, o pal√°cio em ru√≠nas, a cidade a desmoronar-se, para se ir ao encontro da √©gua e da loba.
Depois de ter passado a vida nos palácios e gasto os pés nas lajes das grandes cidades, o homem irá morrer nos bosques. A terra estará ressequida pelos incêncios que a devastaram e coberta pela poeira dos combates; o sopro da desolação que passou sobre os homens terá passado sobre ela e só dará frutos amargos e rosas com espinhos, e as raças extinguir-se-ão no berço, como as plantas fustigadas pelos ventos, que morrem antes de ter florido.
Porque tudo tem de acabar e a terra, de tanto ser pisada, tem de gastar-se; porque a imensid√£o deve acabar por cansar-se desse gr√£o de poeira que faz tanto alarido e perturba a majestade do nada. De tanto passar de m√£os e de corromper, o outro esgotar-se-√°; este vapor de sangue abrandar√°, o pal√°cio desmoronar-se-√° sob o peso das riquezas que oculta,

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A Fama N√£o Conhece Virtudes

As pessoas fazem exigências aos nomes que se tornam conhecidos de forma singular, não há diferença entre uma criança prodígio, um compositor, um poeta, um assassino. Há um que quer ter o seu retrato, o outro o seu autógrafo, um terceiro pede dinheiro, todos os colegas mais novos mandam os seus trabalhos com muitas lisonjas e pedem uma apreciação, e tanto faz não dar resposta como expressar a sua opinião, de repente aquele que venerava fica furioso, torna-se cruel e quer vingança. As revistas querem publicar o retrato do homem, os jornais contam a sua vida, as suas origens, falam do seu aspecto. Colegas de escola fazem-se conhecidos, e parentes distantes queriam já há anos dizer que o primo havia de ser famoso.

A Memória é o Maior Tormento do Homem

Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que é ontem e o que é hoje; ele saltita de lá para cá, come, descansa, digere, saltita de novo; e assim de manhã até a noite, dia após dia; ligado de maneira fugaz por isto, nem melancólico nem enfadado. Ver isto desgosta duramente o homem porque ele vangloria-se da sua humanidade frente ao animal, embora olhe invejoso para a sua felicidade Рpois o homem quer apenas isso, viver como animal, sem melancolia, sem dor; e o que quer entretanto em vão, porque não quer como o animal. O homem pergunta mesmo um dia ao animal: por que não falas sobre a tua felicidade e apenas me observas?
O animal quer tamb√©m responder e falar, isso deve-se ao facto de que sempre se esquece do que queria dizer, mas tamb√©m j√° esqueceu esta resposta e silencia: de tal modo que o homem se admira disso. Todavia, o homem tamb√©m se admira de si mesmo por n√£o poder aprender a esquecer e por sempre se ver novamente preso ao que passou: por mais longe e r√°pido que ele corra, a corrente corre junto. √Č um milagre: o instante em um √°timo est√° a√≠,

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A Má Consciência como Inibição dos Instintos

A m√° consci√™ncia √© para mim o estado m√≥rbido em que devia ter ca√≠do o homem quando sofreu a transforma√ß√£o mais radical que alguma vez houve, a que nele se produziu quando se viu acorrentado √† argola da sociedade e da paz. √Ä maneira dos peixes obrigados a adaptarem-se a viver em terra, estes semianimais, acostumados √† vida selvagem, √† guerra, √†s correrias e aventuras, viram-se obrigados de repente a renunciar a todos os seus nobres instintos. For√ßavam-nos a irem pelo seu p√©, a ¬ęlevarem-se a si mesmos¬Ľ, quando at√© ent√£o os havia levado a √°gua: esmagava-os um peso enorme. Sentiam-se inaptos para as fun√ß√Ķes mais simples; neste mundo novo e desconhecido n√£o tinham os seus antigos guias estes instintos reguladores, inconscientemente fal√≠veis; viam-se reduzidos a pensar, a deduzir, a calcular, a combinar causas e efeitos. Infelizes! Viam-se reduzidos √† sua ¬ęconsci√™ncia¬Ľ, ao seu √≥rg√£o mais fraco e mais coxo! Creio que nunca houve na terra desgra√ßa t√£o grande, mal-estar t√£o horr√≠vel!
Acrescente-se a isto que os antigos instintos n√£o haviam renunciado de vez √†s suas exig√™ncias. Mas era dif√≠cil e ami√ļde imposs√≠vel satisfaz√™-las; era preciso procurar satisfa√ß√Ķes novas e subterr√Ęneas. Os instintos sob a enorme for√ßa repressiva, volvem para dentro,

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As Horas

Damos festas, abandonamos as nossas fam√≠lias para vivermos s√≥s no Canad√°, batalhamos para escrever livros que n√£o mudam o mundo apesar das nossas d√°divas e dos nossos imensos esfor√ßos, das nossas absurdas esperan√ßas. Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos: √© t√£o simples e t√£o normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se, ou tomam comprimidos; um n√ļmero maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria √© lentamente devorada por alguma doen√ßa ou, com muita sorte, pelo pr√≥prio tempo. H√° apenas uma consola√ß√£o: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imagin√°mos, embora todos, excepto as crian√ßas (e talvez at√© elas), saibamos que a estas horas se seguir√£o inevitavelmente outras, muito mais negras e mais dif√≠ceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manh√£, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais.

O Apogeu

Cada ser humano atinge o seu apogeu de maneira diferente, num dado momento. Uma vez alcançado esse ponto alto, é sempre a descer. Fatal como o destino. E o pior é que ninguém sabe onde é que se situa o seu próprio auge. A linha divisória pode desenhar-se de repente, quando uma pessoa pensa que ainda estava a pisar terreno seguro. Ninguém tem maneira de saber. Alguns atingem esse pico aos doze anos, e depois espera-os uma vida perfeitamente monótona e sem chama. Outros continuam sempre em ascensão até à morte; outros morrem no seu máximo esplendor. Muitos poetas e compositores vivem em estado de permanente arrebatamento e estão mortos quando chegam aos trinta anos. Depois há aqueles, como é o caso de Picasso, que aos oitenta e muitos anos ainda pintava quadros cheios de vigor e teve uma morte tranquila, sem saber o que era o declínio.

A Vida Raramente depende da Inciativa dos Homens

Poucas pessoas saber√£o, a meio da vida, como chegaram a ser o que s√£o, aos seus prazeres, √† sua vis√£o do mundo, √† sua mulher, ao seu car√°cter, √† sua profiss√£o e aos seus √™xitos; mas sentem que a partir da√≠ as coisas j√° n√£o ir√£o mudar muito. Poderia mesmo afirmar-se que foram enganadas, porque n√£o se consegue descobrir em lugar nenhum a raz√£o suficiente para que tudo tenha acontecido como aconteceu, quando teria sido perfeitamente poss√≠vel ter acontecido de outra forma. O que acontece, ali√°s, raramente depende da iniciativa dos homens, mas quase sempre das mais variadas circunst√Ęncias, dos caprichos, da vida e da morte de outras pessoas, e, de certo modo, limita-se a vir ter connosco naquele preciso momento. Na juventude, a vida est√° ainda √† nossa frente como uma manh√£ inesgot√°vel, plena de possibilidades e de vazio; mas logo ao meio-dia algo se anuncia que reclama ser a nossa pr√≥pria vida, mas que √© t√£o surpreendente como uma pessoa com quem nos correspondemos durante vinte anos sem a conhecer, e que um belo dia, de repente, temos diante de n√≥s e constatamos que √© completamente diferente do que hav√≠amos imaginado.
Mas o mais estranho é que a maior parte das pessoas nem dêem por isso;

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Nenhum Amor é Menos Ridículo que Outro

Temos, pois, que ao amor corresponde o am√°vel, e que este √© inexplic√°vel. Concebe-se a coisa, mas dela n√£o se pode dar raz√£o; assim tamb√©m √© que de maneira incompreens√≠vel o amor se apodera da sua presa. Se, de tempos a tempos, os homens ca√≠ssem por terra e morressem subitamente, ou entrassem em convuls√Ķes violentas mas inexplic√°veis, quem √© que n√£o sofreria a ang√ļstia? No entanto, √© assim que o amor interv√©m na vida, com a diferen√ßa de que ningu√©m receia por isso, visto que os amantes encaram tal acontecimento como se esperassem a suprema felicidade. Ningu√©m receia por isso, toda a gente ri afinal, porque o tr√°gico e o c√≥mico est√£o em perp√©tua correspond√™ncia. Conversais hoje com um homem; parece-vos que ele se encontra em estado normal; mas amanh√£ ouvi-lo-eis falar uma linguagem metaf√≥rica, v√™-lo-eis exprimir-se com gestos muito singulares: √© sabido, est√° apaixonado. Se o amor tivesse por express√£o equivalente ¬ęamar qualquer pessoa, a primeira que se encontra¬Ľ, compreender-se-ia a impossibilidade de apresentar melhor defini√ß√£o; mas j√° que a f√≥rmula √© muito diferente, ¬ęamar uma s√≥ pessoa, a √ļnica no mundo¬Ľ, parece que tal acto de diferencia√ß√£o deve provir de motivos profundos.
Sim, deve necessariamente implicar uma dial√©tica de raz√Ķes,

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Casar por Amor

Quando eu pensava que n√£o podia ser mais feliz, manh√£ ap√≥s manh√£ era mais, mas s√≥ um bocadinho mais do que o m√°ximo humanamente poss√≠vel; pensava eu ser absolutamente imposs√≠vel que eu fosse, de repente, muito mais feliz, do que a pr√≥pria felicidade at√©. Mas, de repente, fui. Muito mais. Casei com o meu amor e o meu amor tornou-se a minha mulher, minha em tudo, para tudo, para sempre. E eu, finalmente, consegui divorciar-me de mim e deixar de ser t√£o triste e aborrecidamente meu, trocando-me, no melhor neg√≥cio do s√©culo, por ela. Ela ficou minha. Eu fiquei dela. √Č ou n√£o √© estranho e lindo e bem pensado por Deus Nosso Senhor que ambos pensemos que nos livr√°mos de boa e fic√°mos a ganhar? √Č.

√Č sim. A minha mulher √© mais minha do que eu alguma vez fui meu ‚ÄĒ e eu antes n√£o podia ter sido mais para mim, felizmente. Por ter tudo agora para lhe dar. Que al√≠vio. Nunca mais me quero ver na vida.
A n√£o ser aos olhos dela, onde sou muito bem visto ‚ÄĒ talvez o maior homem que j√° viveu, logo a seguir ao pai dela, claro. √Č um milagre como melhorei tanto.

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Como é que se Esquece Alguém que se Ama?

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa Рcomo é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas t√™m de morrer; os amores de acabar. As pessoas t√™m de partir, os s√≠tios t√™m de ficar longe uns dos outros, os tempos t√™m de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. √Č preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem p√īr-se processos e ac√ß√Ķes de despejo a quem se tem no cora√ß√£o, fazer os maiores escarc√©us, entrar nas maiores peixeiradas, mas n√£o se podem despejar de repente. Elas n√£o saem de l√°. Est√ļpidas! √Č preciso aguentar. J√° ningu√©m est√° para isso, mas √© preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura √© aceitar-se que se est√° doente. √Č preciso paci√™ncia. O pior √© que vivemos tempos imediatos em que j√° ningu√©m aguenta nada. Ningu√©m aguenta a dor. De cabe√ßa ou do cora√ß√£o.

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A Lamenta√ß√£o √© Completamente In√ļtil

N√£o h√° d√ļvida de que √© in√ļtil e prejudicial lamentarmo-nos perante o mundo. Resta saber se n√£o √© igualmente in√ļtil e prejudicial lamentarmo-nos perante n√≥s pr√≥prios. Evidentemente. De facto, ningu√©m se lamentar√° perante si pr√≥prio, a fim de se incitar √† piedade, o que nada significaria, dado que a piedade √©, por defini√ß√£o, o voluptuso encontro de dois esp√≠ritos. Para qu√™, ent√£o? N√£o para obter favores, porque o √ļnico favor que um esp√≠rito pode fazer a si pr√≥prio √© conceder-se indulg√™ncia, e toda a gente percebe quanto √© prejudicial que a vontade seja indulgente para com a sua pr√≥pria e lament√°vel fraqueza.
Resta a hipótese de o fazermos para extrair verdades do nosso coração amolecido pela ternura. Mas a experiência ensina que as verdades surgem apenas em virtude de uma pacata e severa busca, que surpreende a consciência numa atitude inesperada e a vê, como de um filme que parasse de repente, estupefacta, mas não emocionada.
Basta, portanto.

O Socorro

Ele foi cavando, foi cavando, cavando, pois sua profiss√£o – coveiro – era cavar. Mas, de repente, na distrac√ß√£o do of√≠cio que amava, percebeu que cavara de mais. Tentou sair da cova e n√£o conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que, sozinho, n√£o conseguiria sair. Gritou. Ningu√©m atendeu. Gritou mais forte. Ningu√©m veio. Enlouqueceu de gritar, cansou de esbravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado. A noite chegou, subiu, fez-se o sil√™ncio das horas tardas. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, n√£o se ouvia mais um som humano, embora o cemit√©rio estivesse cheio dos pipilos e coaxares naturais dos matos. S√≥ pouco depois da meia-noite √© que l√° vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabe√ßa √©bria apareceu l√° em cima, perguntou o que havia: ¬ęO que √© que h√°?¬Ľ
O coveiro ent√£o gritou, desesperado: ¬ęTire-me daqui, por favor. Estou com um frio terr√≠vel!¬Ľ. ¬ęMas coitado!¬Ľ – condoeu-se o b√™bado. – ¬ęTem toda raz√£o de estar com frio.
Algu√©m tirou a terra toda de cima de voc√™, meu pobre mortinho!¬Ľ. E, pegando na p√°, encheu-a de terra e p√īs-se a cobri-lo cuidadosamente.

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H√° Que Instruir o Povo, mas…

Há que instruir o povo. Afigura-se-nos, porém, que é presunção demasiada, em nosso parecer, pelo menos, pensar que o povo sem mais nem para quê vai ouvir-nos de boca aberta. Porque o povo não é um rebanho de carneiros! Mais ainda: estamos convencidos de que compreende, ou pelo menos pressente, que nós, os senhores, tão-pouco sabemos nada, ainda que nos apresentemos como mestres, e que precisamos que alguém nos ensine primeiro; eis por que efectivamente não respeita a nossa ciência, ou pelo menos não a ama.
Quem tiver tido algum com√©rcio com o povo poder√° verificar por si pr√≥prio esta impress√£o. Para que o povo nos ou√ßa, efectivamente, de boca aberta, h√° que come√ßar por merec√™-lo, isto √©, por ganhar a sua confian√ßa, o seu respeito e essa nossa ideia de que basta usarmos da palavra para ele nos ouvir boquiaberto… n√£o √© a mais indicada para granjearmos a sua confian√ßa e muito menos a sua estima. Mas o povo compreende-o. N√£o h√° nada que o homem entenda melhor que o tom com que nos dirigimos a ele, o sentimento que ele nos inspira. A ing√©nua cren√ßa na nossa incomensur√°vel sabedoria relativamente ao povo antolha-se-lhe grotesca e em muitas ocasi√Ķes considera-a mesmo ofensiva.

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Deus Precisa de Companhia

A minha proposi√ß√£o inicial, que me atrevo a considerar indiscut√≠vel, √© de que Deus criou o universo porque ¬ęse sentia¬Ľ s√≥. Em todo o tempo antes, isto √©, desde que a eternidade come√ßara, ¬ętinha estado¬Ľ s√≥, mas, como n√£o ¬ęse sentia¬Ľ s√≥, n√£o necessitava inventar uma coisa t√£o complicada como √© o universo. Com o que Deus n√£o contara √© que, mesmo perante o espect√°culo magn√≠fico das nebulosas e dos buracos negros, o tal sentimento de solid√£o persistisse em atorment√°-lo. Pensou, pensou, e ao cabo de muito pensar fez a mulher, ¬ęque n√£o era √† sua imagem e semelhan√ßa¬Ľ. Logo, tendo-a feito, viu que era bom. Mais tarde, quando compreendeu que s√≥ se curaria definitivamente do mal de estar s√≥ deitando-se com ela, verificou que era ainda melhor. At√© aqui tudo muito pr√≥prio e natural, nem era preciso ser-se Deus para chegar a esta conclus√£o. Passado algum tempo, e sem que seja poss√≠vel saber se a previs√£o do acidente biol√≥gico j√° estava na mente divina, nasceu um menino, esse sim, ¬ę√† imagem e semelhan√ßa de Deus¬Ľ. O menino cresceu, fez-se rapaz e homem. Ora, como a Deus n√£o lhe passou pela cabe√ßa a simples ideia de criar outra mulher para a dar ao jovem,

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Amo-te, Portugal

Portugal,

Estou há que séculos para te escrever. A primeira vez que dei por ti foi quando dei pela tua falta. Tinha 19 anos e estava na Inglaterra. De repente, deixei de me sentir um homem do mundo e percebi, com tristeza, que era apenas mais um dos teus desesperados pretendentes.

Apaixonaste-me sem que eu desse por isso. Deve ter sido durante os meus primeiros 18 anos de vida, quando estava em Portugal e só queria sair de ti. Insinuaste-te. Não fui eu que te escolhi. Quando descobri que te amava, já era tarde de mais.

Eu n√£o queria ficar preso a ti; queria correr mundo. Passei a querer correr para ti – e foi para ti que corri, mal pude.

Teria preferido chegar √† conclus√£o que te amava por uma lenta acumula√ß√£o de raz√Ķes, emo√ß√Ķes e vantagens. Mas foi ao contr√°rio. Apaixonei-me de um dia para o outro, sem qualquer esp√©cie de aviso, e desde esse dia, que rem√©dio, l√° fui acumulando, lentamente, as raz√Ķes por que te amo, retirando-as uma a uma dentre todas as outras raz√Ķes, para n√£o te amar, ou n√£o querer saber de ti.

Custou-me justificar o meu amor por ti.

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O Irracional no Amor

Se √© rid√≠culo beijar uma mulher feia, tamb√©m √© rid√≠culo dar um beijo a uma beleza. A presun√ß√£o de que amando de uma certa maneira se tem o direito de rir do vizinho que tem outra maneira de amar, n√£o vale mais do que a arrog√Ęncia de certo meio social. Tal soberba n√£o p√Ķe ningu√©m ao abrigo do c√≥mico universal, porque todos os homens se encontram na impossibilidade de explicar a praxe a que se submetem, a qual pretende ter um alcance universal, pretende significar que os amantes querem pertencer um ao outro por toda a eternidade, e, o que mais divertido √©, pretende tamb√©m convenc√™-los de que h√£o-de cumprir fielmente o juramento.
Que um homem rico, muito bem sentado na sua poltrona, acene com a cabe√ßa, ou volte a cara para a direita e para a esquerda, ou bata fortemente com um p√© no ch√£o, e que, uma vez perguntado pela raz√£o de tais actos, me responda: ¬ęn√£o sei; apeteceu-me de repente; foi um movimento involunt√°rio¬Ľ, compreendo isso muito bem. Mas se ele me respondesse o que costumam responder os amantes, quando lhes pedem que expliquem os seus gestos e as suas atitudes, se me dissesse que em tais actos consistia a sua maior felicidade,

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Um Segredo de um Casamento Feliz

Desde que a Maria João e eu fizemos dez anos de casados que estou para escrever sobre o casamento. Depois caí na asneira de ler uns livros profissionais sobre o casamento e percebi que eu não percebo nada sobre o casamento.

Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.

Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.

O casamento feliz n√£o √© nem um contrato nem uma rela√ß√£o. Rela√ß√Ķes temos n√≥s com toda a gente. √Č uma cria√ß√£o. √Č criado por duas pessoas que se amam.

O nosso casamento √© um filho. √Č um filho inteiramente dependente de n√≥s. Se n√≥s nos separarmos, ele morre. Mas n√£o deixa de ser uma terceira entidade.

Quando esse filho é amado por ambos os casados Рque cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro.

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A Mulher por quem Esperara tantos Anos

Alguma coisa dentro dele voltou a si. Foi como se, de repente, estivessem efectivamente ali os dois. E, reacendendo a luz, encostou os lábios aos dela e sentiu, enfim, o calor que deles se emitia, e o sabor da sua boca, e o seu cheiro, e teve consciência de que aquela que se deitava na cama consigo não era apenas uma mulher bela, mas uma mulher, a mulher por quem esperara tantos anos.

Tiraram ambos o que lhes restava de roupa, lançando-a ao chão, e tocaram-se suavemente. Havia uma admiração entre eles, como se se descobrissem, e todavia era também tal qual se conhecessem de há muito, as superfícies mais sadias como as primeiras rugosidades dos seus corpos.

Tacteavam-se devagar, atentos às luzes e às sombras de cada recanto que esquadrinhavam, e ao fim de alguns momentos beijavam-se de novo, ele abraçando-a na sua totalidade, açambarcando-a, e ela sorrindo por entre o vento da noite, a chuva e os terramotos sorrindo com ela, e a humidade salgada dos seus peitos, e o mar que se atirava furioso contra aquela terra, e o primeiro suor do seu pescoço.

A partir daí, o mundo desapareceu. E havia medo e alegria,

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Ser Escritor

E, então, porque não podemos viver de outra maneira, escrevemos. E cai-nos o cabelo e apodrecem-nos os dentes, como dizia Flannery O’Connor.

E somos uns chatos. E somos maus maridos e maus filhos e maus amigos. E sentimos culpa, e sentimo-nos indignos de estima, e continuamos, mesmo assim, a n√£o responder quando falam connosco.

E n√£o telefonamos nos anos, nem aparecemos nos churrascos, nem vamos ao caf√©. E, se vamos, a √ļnica coisa de que falamos √© disso: do livro. E tudo aquilo sobre que se conversa pode servir ao livro, caso contr√°rio n√£o nos importa.

E somos os maiores quando um par√°grafo nos sai bem, e ficamos de rastos quando n√£o encontramos um verbo. E sabemos que tem de ser mesmo assim, porque se n√£o for o romance fica uma merda. Mas sentimos culpa na mesma.

E não pagamos as contas, e esquecemo-nos de pedir a garrafa do gás, e calçamos meias de pares diferentes. E de repente queremos fumar dois maços de cigarros e beber meia garrafa de uísque, sozinhos no jardim, a olhar para a noite e a chorar.

E temos de fazer um esforço para mudar de roupa,

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O Deserto num Mundo Abastado

Tender√≠amos ilusoriamente a crer que uma vida nascida num mundo abastado seria melhor, mais vida e de superior qualidade √† que consiste, precisamente, em lutar com a escassez. Mas n√£o √© verdade. Por raz√Ķes muito rigorosas e arquifundamentais que agora n√£o √© oportuno enunciar. Agora, em vez dessas raz√Ķes, basta recordar o facto sempre repetido que constitui a trag√©dia de toda a aristocracia heredit√°ria. O aristocrata herda, quer dizer, encontra atribu√≠das √† sua pessoa umas condi√ß√Ķes de vida que ele n√£o criou, portanto, que n√£o se produzem organicamente unidas √† sua vida pessoal e pr√≥pria. Acha-se ao nascer instalado, de repente e sem saber como, no meio da sua riqueza e das suas prerrogativas. Ele n√£o tem, intimamente, nada que ver com elas, porque n√£o v√™m dele. S√£o a carapa√ßa gigantesca de outra pessoa, de outro ser vivente, seu antepassado. E tem de viver como herdeiro, isto √©, tem de usar a carapa√ßa de outra vida. Em que ficamos? Que vida vai viver o ¬ęaristocrata¬Ľ de heran√ßa, a sua ou a do pr√≥cer inicial? Nem uma nem outra. Est√° condenado a representar o outro, portanto, a n√£o ser nem o outro nem ele mesmo.
A sua vida perde inexoravelmente autenticidade,

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