Cita√ß√Ķes de Marguerite Duras

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Marguerite Duras para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Os homens gostam das mulheres que escrevem. Pensam-no, mas não o dizem. Um escritor é um país desconhecido.

Não Acredito na Palavra Glória

A glória externa está mais ligada à morte que à vida. Quando a glória chega, e se abate sobre qualquer um, o objecto que a provocou já está escrito, no seu caminho, já feito, as obras já foram contabilizadas nas colunas da morte. Somos substituídos por aquilo que já fizemos, e querer ser célebre a qualquer preço é, igualmente, apossar-se da própria morte, conhecer já o que ela faz.

Os jornalistas são os trabalhadores manuais, os operários da palavra. O jornalismo só pode ser literatura quando é apaixonado.

Sou mais escritora do que vivente, que uma pessoa que vive. Naquilo que vivi, sou mais escritora do que algu√©m que vive. √Č assim que eu me vejo.

O Esplendor da Heterossexualidade, pelo Desejo

Somos um objecto, na paixão, totalmente submissos, sem poder prever os golpes que sofremos; aí reside a grandeza, a loucura, o assombro da paixão.
Para mim, o desejo só pode ter lugar entre o masculino e o feminino, entre sexos diferentes.
O outro desejo é um autodesejo, é, para mim, como que o prolongamento da prática masturbatória do homem ou da mulher. O esplendor da paixão, a sua imensidade, o seu sofrimento, o seu inferno, reside no facto de só poder verificar-se entre géneros irreconciliáveis, o masculino e o feminino. Tanto a paixão como o desejo.

Os casais homossexuais são muito mais estáveis do que os casais heterossexuais, porque na homosexualidade há uma prática simples e cómoda do desejo. A prática heterossexual é ainda selvagem, é ainda a floresta do desejo.
Na prática homossexual não creio que exista esse fenómeno de posse que existe na heterossexual. Na prática homossexual existe uma espécie de intermutabilidade do prazer, as pessoas nunca pertencem na homossexualidade como pertencem na heterossexualidade.
√Č um inferno n√£o se poder escapar ao desejo de uma pessoa, √© a isso que eu chamo, quando a mim, o esplendor da heterossexualidade.

Os romances dos homens nunca são poemas. E os romances ou são poemas ou não são nada, são pura recompilação.

A Escrita é o Desconhecido

A escrita é o desconhecido. Antes de escrever não sabemos nada acerca do que vamos escrever. Com toda a lucidez.
√Č o desconhecido de n√≥s mesmos, da nossa cabe√ßa, do nosso corpo. N√£o √© sequer uma reflex√£o, escrever √© uma esp√©cie de faculdade que temos ao lado da nossa pessoa, paralelamente a ela, de uma outra pessoa que aparece e que avan√ßa, invis√≠vel, dotada de pensamento, de c√≥lera, e que, por vezes, pelos seus pr√≥prios factos, est√° em perigo de perder a vida.
Se soubéssemos alguma coisa do que vamos escrever, antes de o fazer, antes de escrever, nunca escreveríamos. Não valeria a pena.
Escrever é tentar saber aquilo que escreveríamos se escrevêssemos Рsó o sabemos depois Рantes, é a interrogação mais perigosa que nos podemos fazer. Mas é também a mais corrente.

O √°lcool n√£o consola, n√£o preenche os vazios psicol√≥gicos, mas supre a aus√™ncia de Deus. N√£o compensa o homem. Pelo contr√°rio, anima a sua loucura, transporta-o a regi√Ķes supremas onde √© mestre do seu pr√≥prio destino.

Nunca Nos Separamos do Primeiro Amor

J√° o disse em Hiroshima Mon Amour: o que conta n√£o √© a manifesta√ß√£o do desejo, da tentativa amorosa. O que conta √© o inferno da hist√≥ria √ļnica. Nada a substitui, nem uma segunda hist√≥ria. Nem a mentira. Nada. Quanto mais a provocamos, mais ela foge. Amar √© amar algu√©m. N√£o h√° um m√ļltiplo da vida que possa ser vivido. Todas as primeiras hist√≥rias de amor se quebram e depois √© essa hist√≥ria que transportamos para as outras hist√≥rias. Quando se viveu um amor com algu√©m, fica-se marcado para sempre e depois transporta-se essa hist√≥ria de pessoa a pessoa. Nunca nos separamos dele.
N√£o podemos evitar a unicidade, a fidelidade, como se f√īssemos, s√≥ n√≥s, o nosso pr√≥prio cosmo. Amar toda a gente, como proclamam algumas pessoas e os crist√£os, √© embuste. Essas coisas n√£o passam de mentiras. S√≥ se ama uma pessoa de cada vez. Nunca duas ao mesmo tempo.

Não Podemos Escrever Sem a Força do Corpo

A escrita torna-nos selvagens. Regressamos a uma selvajaria de antes da vida. E reconhec√™mo-la sempre, √© a das florestas, t√£o velha como o tempo. A do medo de tudo, distinta e insepar√°vel da pr√≥pria vida. Ficamos obstinados. N√£o podemos escrever sem a for√ßa do corpo. √Č preciso sermos mais fortes que n√≥s para abordar a escrita, √© preciso ser-se mais forte do que aquilo que se escreve. √Č uma coisa estranha, sim. N√£o √© apenas a escrita, o escrito, s√£o os gritos dos animais da noite, os de todos, os vossos e os meus, os dos c√£es. √Č a vulgaridade maci√ßa, desesperante, da sociedade. A dor √©, tamb√©m, Cristo e Mois√©s e os fara√≥s e todos os judeus e todas as crian√ßas judias e √©, tamb√©m, o lado mais violento da felicidade. Acredito nisso, sempre.

Em Cada Livro Que se Escreve, uma Vida Desconhecida

A parte desconhecida da minha vida √© a minha vida escrita. Morrerei sem conhecer essa parte desconhecida. Como foi escrito isto, porqu√™, como o escrevi, n√£o sei, n√£o sei como isto come√ßou. N√£o se pode explicar. Donde v√™m certos livros? A p√°gina est√° vazia e, de repente, j√° h√° trezentas p√°ginas. Donde vem isto? √Č preciso deixar andar, quando se escreve, n√£o devemos controlar-nos, √© preciso deixar andar, porque n√£o sabemos tudo de n√≥s pr√≥prios. N√£o sabemos o que somos capazes de escrever.

Conheci grandes escritores que nunca conseguiram falar disso – conheci Maurice Blanchot e Georges Bataille intimamente, conheci Genet, creio que menos. Eles nunca sabiam, nunca falavam disso. Penso que √© errado, ali√°s. H√° trinta anos, era uma esp√©cie de pudor aprendido, em parte, na escola sartriana, n√£o se podia falar daquilo que se escrevia, n√£o era decente – e penso que em Les Parleuses √© a primeira vez que algu√©m fala disso, pelo menos uma das primeiras vezes. √Č bom falar disso e, ao mesmo tempo, √© muito perigoso dar a ler textos antes de estarem terminados.
(…) Ap√≥s o final de cada livro √© o fim do mundo inteiro, √© sempre assim, de cada vez.

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Um Escritor é Uma Contradição

Um escritor √© uma coisa curiosa. √Č uma contradi√ß√£o e, tamb√©m, um contra-senso. Escrever tamb√©m √© n√£o falar. √Č calar. √Č gritar sem ru√≠do. Um escritor √©, muitas vezes, repousante: ouve muito. N√£o fala muito porque √© imposs√≠vel falar a algu√©m de um livro que se escreveu e, sobretudo, de um livro que se est√° a escrever.
√Č imposs√≠vel. √Č o oposto do cinema, o oposto do teatro e de outros espect√°culos. √Č o oposto de todas as leituras. √Č o mais dif√≠cil de tudo. √Č o pior. Porque um livro √© o desconhecido, √© a noite, √© fechado, √© assim. √Č o livro que avan√ßa, que cresce, que avan√ßa em direc√ß√Ķes que julg√°vamos ter explorado, que avan√ßa em direc√ß√£o ao seu pr√≥prio destino e ao do seu autor, ent√£o aniquilado pela sua publica√ß√£o: a sua separa√ß√£o dele, do livro sonhado, como da crian√ßa rec√©m-nascida, sempre a mais amada.