Textos sobre Conselho

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Textos de conselho escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Ira é uma Loucura Breve

Alguns s√°bios afirmaram que a ira √© uma loucura breve; por n√£o se controlar a si mesma, perde a compostura, esquece as suas obriga√ß√Ķes, persegue os seus intentos de forma obstinada e ansiosa, recusa os conselhos da raz√£o, inquieta-se por causas v√£s, incapaz de discernir o que √© justo e verdadeiro, semelhante √†s ru√≠nas que se abatem sobre quem as derruba. Mas, para que percebas que est√£o loucos aqueles que est√£o possu√≠dos pela ira, observa o seu aspecto; na verdade, s√£o claros ind√≠cios de loucura a express√£o ardente e amea√ßadora, a fronte sombria, o semblante feroz, o passo apressado, as m√£os trementes, a mudan√ßa de cor, a respira√ß√£o forte e acelerada, ind√≠cios que est√£o tamb√©m presentes nos homens irados: os olhos incendiam-se e fulminam, a cara cobre-se totalmente de um rubor, por causa do sangue que a ela aflui do cora√ß√£o, os l√°bios tremem, os dentes comprimem-se, os cabelos arrepiam-se e eri√ßam-se, a respira√ß√£o √© ofegante e ruidosa, as articula√ß√Ķes retorcem-se e estalam, entre suspiros e gemidos, irrompem frases praticamente incompreens√≠veis, as m√£os entrechocam-se constantemente, os p√©s batem no ch√£o e todo o corpo se agita amea√ßador, a face fica inchada e deformada, horrenda e assutadora. Ficas sem saber se o que h√° de pior neste v√≠cio √© ele ser detest√°vel ou t√£o disforme.

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A Ira Nunca √© S√ļbita

A ira nunca √© s√ļbita. Nasce de um longo roer precedente, que ulcerou o esp√≠rito e nele acumulou a for√ßa reactiva necess√°ria para a explos√£o. Daqui resulta que um belo acesso de c√≥lera n√£o √©, de forma alguma, sinal de uma √≠ndole franca e directa. √Č, pelo contr√°rio, revela√ß√£o involunt√°ria de uma tend√™ncia para nutrir dentro de si o rancor – isto √©, de um temperamento fechado, invejoso, e de um complexo de inferioridade.
O conselho de ¬ęestar em guarda contra quem nunca se irrita¬Ľ, significa, portanto, que – todos os homens, acumulando inevitavelmente √≥dio – conv√©m ter especial cuidado com os que nunca se traem por acessos de ira. Quanto a ti, n√£o fazes mal em ser insicero no teu remoer interior, mas em te tra√≠res na explos√£o.

O Interesse na Amizade

Aqueles que almejam somente o interesse na amizade, afastam dela o seu mais doce v√≠nculo. O que nos agrada n√£o √© a utilidade oferecida pelo nosso amigo, mas sim o carinho desse amigo; e tudo o que nos for oferecido por ele ser-nos-√° agrad√°vel, contanto que transpare√ßa a dedica√ß√£o. T√£o longe est√° que seja a indig√™ncia que cultiva as amizades que justamente aqueles que, pelas suas riquezas, pelo seu cr√©dito e sobretudo pelas suas virtudes, a mais segura das garantias, t√™m menos necessidade dos outros, ‚ÄĒ s√£o os mais generosos e benfeitores. N√£o sei se ser√° bom que os nossos amigos n√£o necessitem de n√≥s. Como poderia mostrar meu zelo por Cipi√£o, se ele n√£o procurasse os meus conselhos e os meus servi√ßos, seja na paz, ou na guerra? A nossa amizade n√£o nasceu pois, da utilidade, mas a utilidade a seguiu.

A Verdadeira Virtude

N√£o se pode pensar em virtude sem se pensar num estado e num impulso contr√°rios aos de virtude e num persistente esfor√ßo da vontade. Para me desenhar um homem virtuoso tenho que dar relevo principal ao que nele √© volunt√°rio; tenho de, talvez em esquema exagerado, lhe p√īr acima de tudo o que √© modelar e conter. Pela origem e pelo significado n√£o posso deixar de a ligar √†s fortes resolu√ß√Ķes e √† coragem civil. E um cont√≠nuo querer e uma cont√≠nua vigil√Ęncia, uma batalha perp√©tua dada aos elementos que, entendendo, classifiquei como maus; requer as n√≠tidas vis√Ķes e as almas destemidas.
Por isso não me prende o menino virtuoso; a bondade só é nele o estado natural; antes o quero bravio e combativo e com sua ponta de maldade; assim me dá a certeza de que o terei mais tarde, quando a vontade se afirmar e a reflexão distinguir os caminhos, com material a destruir na luta heróica e a energia suficiente para nela se empenhar. O que não chora, nem parte, nem esbraveja, nem resiste aos conselhos há-de formar depois nas massas submissas; muitas vezes me há-de parecer que a sua virtude consiste numa falta de habilidade para urdir o mal,

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Conselhos a um Príncipe

Vais pela primeira vez ficar com uma responsabilidade. Lembra-te que este primeiro passo na tua vida pol√≠tica, pode decidir de todo o teu futuro. Ouve pois os conselhos de um pai e do teu melhor amigo. Continua o mesmo sistema que tenho sempre seguido, n√£o alardear de querer fazer muito porque ent√£o nada se faz, e mesmo tu √©s apenas um delegado meu por oito a dez dias. S√™ modesto sem pareceres ignorante √© a primeira qualidade para um pr√≠ncipe. Trata a todos bem, n√£o d√™s confian√ßas a ningu√©m sen√£o aos teus mestres naturais, que deves consultar, porque ningu√©m nasce ensinado. Desconfia de elogios rasgados, poucas vezes s√£o sinceros. S√™ o Carlos meu filho, n√£o queiras nunca parecer mais do que isso, e todos te h√£o-de estimar e respeitar, porque os desejos e as vontades dos pais s√£o credos para os bons filhos. N√£o quero sen√£o o teu bem. Ouve-me mais ‚ÄĒ sobretudo, s√™ grave, mais ainda que se estiv√©ssemos junto de ti; porque os pr√≠ncipes se devem distinguir entre todos. Pode-se ser rapaz, divertir-se mas sempre que nos revista um car√°cter de seriedade que nesta √©poca moderna nos fa√ßa reconhecer mais pr√≠ncipe pelas virtudes e porte do que pela nascen√ßa.

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Causas e Curas para o Fanatismo

O fanatismo √© para a supersti√ß√£o o que o del√≠rio √© para a febre, o que √© a raiva para a c√≥lera. Aquele que tem √™xtases, vis√Ķes, que considera os sonhos como realidades e as imagina√ß√Ķes como profecias √© um entusiasta; aquele que alimenta a sua loucura com a morte √© um fan√°tico. (…) O mais detest√°vel exemplo de fanatismo √© aquele dos burgueses de Paris que correram a assassinar, degolar, atirar pelas janelas, despeda√ßar, na noite de S√£o Bartolomeu, os seus concidad√£os que n√£o iam √† missa. H√° fan√°ticos de sangue frio: s√£o os juizes que condenam √† morte aqueles cujo √ļnico crime √© n√£o pensar como eles. Quando uma vez o fanatismo gangrenou um c√©rebro a doen√ßa √© quase incur√°vel. Eu vi convulsion√°rios que, falando dos milagres de S. P√°ris, sem querer se acaloravam cada vez mais; os seus olhos encarni√ßavam-se, os seus membros tremiam, o furor desfigurava os seus rostos e teriam morto quem quer que os houvesse contrariado.
Não há outro remédio contra essa doença epidémica senão o espírito filosófico que, progressivamente difundido, adoça enfim a índole dos homens, prevenindo os acessos do mal porque, desde que o mal fez alguns progressos, é preciso fugir e esperar que o ar seja purificado.

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O Verdadeiro Criador N√£o Exije Recompensa do Exterior

Por isso, meu caro senhor, apenas me √© poss√≠vel dar-lhe este conselho: mergulhe em si pr√≥prio e sonde as profundidades onde a sua vida brota; na sua fonte encontrar√° a resposta √† pergunta ¬ęDevo criar?¬Ľ Aceite essa resposta, tal como lhe √© dada, sem tentar interpret√°-la. Talvez chegue √† conclus√£o de que a arte o chama. Nesse caso, aceite o seu destino e tome-o, com o seu peso e a sua grandeza, sem jamais exigir uma recompensa que possa vir do exterior. Porque o criador deve ser todo um universo para si pr√≥prio, tudo encontrar em si pr√≥prio e na Natureza √† qual toda a sua vida √© devotada.

Dos Estudos

Os estudos servem para deleite, ornamento e proficiência. Para deleite, são principalmente usados na vida íntima e retirada; para ornamento, nos dicursos; e para proficiência, no exame e resolução de negócios. Os homens experientes estão capacitados a decidir, ou opinar sobre casos isolados; mas os conselhos genéricos, o planeamento e condução de negócios, cabem antes aos proficientes. Gastar tempo demasiado em estudos é indolência; abusar deles como ornamento é afectação; julgar apenas de acordo com os seus preceitos é coisa de escolástico.
Os estudos aperfeiçoam a natureza e são aperfeiçoados pela experiência, porquanto os dotes naturais são como as plantas: devem ser cultivados mediante o estudo. Outrossim, quando não estão vinculados à experiência, os estudos fornecem directivas a esmo. Os homens hábeis desprezam os estudos, os simples admiram-nos, e os sábios utilizam-nos. Os estudos não ensinam o seu próprio uso; esta é uma sabedoria independente e superior a eles, que vem da observação.

Incoerência Humana

√Č f√°cil imaginar os homens inteiri√ßos, reduzi-los a f√≥rmulas simples que se condenam com uma palavra, negligenciando o resto, que as desmente; o mais dif√≠cil seria sair de si para entrar nos outros e julg√°-los segundo o ponto de vista deles, sem preconceitos, acompanhar nos seus desvios e nas suas incoer√™ncias uma natureza incerta feita mais pelo acaso do que pela vontade, desenredar, quando falha a l√≥gica, os sofismas semiconscientes sob os quais a paix√£o dissimula o ego√≠smo dos seus conselhos.

Contento-me com a Simpatia

Eu aprendi a contentar-me com a simpatia. Encontra-se mais facilmente e, depois, n√£o nos imp√Ķe nenhum compromisso. ¬ęCreia na minha simpatia¬Ľ, no discurso interior precede imediatamente ¬ęe agora ocupemo-nos de outra coisa¬Ľ. √Č um sentimento de presidente de Conselho: obt√©m-se muito barato, depois das cat√°strofes. A amizade √© menos simples. A sua aquisi√ß√£o √© longa e dif√≠cil, mas, quando se obt√©m, j√° n√£o h√° meio de nos desembara√ßarmos dela, temos de fazer frente.

A Vaidade Cega a Sabedoria

Os s√°bios da terra n√£o s√£o os mais pr√≥prios para o governo dela. As Rep√ļblicas, que se fundaram, ou se quiseram governar por s√°bios, perderam-se, acabaram-se; temos not√≠cia delas pelo que foram, e n√£o pelo que s√£o. (…) As maiores crueldades, ou foram feitas, ou aconselhadas pelos S√°bios; estes quando persuadem o mal, √© com tanta veem√™ncia, e t√£o eficazmente, que as gentes na boa f√©, buscam, e particam esse mal, como por entusiasmo, e sem advertirem nele. A impiedade, √© uma das coisas que a ci√™ncia ensina; n√£o porque seja o seu objecto, ou instituto, mas porque quando a impiedade √© √ļtil, √† for√ßa de a ornar, se lhe tira o horror. A vaidade das ci√™ncias n√£o consente, que haja cousa de que ela n√£o possa, nem se saiba aproveitar.
Os erros comummente s√£o partos da sabedoria humana; o errar propriamente √© dos s√°bios, porque o erro sup√Ķe conselho, e premedita√ß√£o; os ignorantes qu√°si que obram por instinto; a ci√™ncia sabe legitimar o erro, a ignor√Ęncia n√£o; por isso nesta n√£o h√° perigo de que ningu√©m o aprove; ao passo que naquela h√° o perigo de que a multid√£o o siga. O erro na m√£o de um s√°bio √© como uma lan√ßa penetrante,

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A Individualidade N√£o Se Deixa Representar

Conselho ao intelectual: N√£o deixes que te representem. A fungibilidade das obras e das pessoas e a cren√ßa da√≠ derivada de que todos t√™m de poder fazer tudo revelam-se no seio do estado vigente como grilh√Ķes. O ideal igualit√°rio da representatividade √© uma fraude, se n√£o for sustentado pelo princ√≠pio da revogabilidade e da responsabilidade do rank and file. O mais poderoso √© justamente o que menos faz, o que mais se pode encarregar daquele a que se dedica e sua vantagem arrecada. Parece colectivismo e fica-se apenas pela demasiado boa opini√£o de si mesmo, pela exclus√£o do trabalho, gra√ßas √† disposi√ß√£o do trabalho alheio.
Na produ√ß√£o material est√° solidamente implantada a substituibilidade. A quantifica√ß√£o dos processos laborais diminui tendencialmente a diferen√ßa entre o encargo do director geral e o do empregado de uma esta√ß√£o de servi√ßo. √Č uma ideologia miser√°vel pensar que, nas actuais condi√ß√Ķes, para a admininstra√ß√£o de um trust se requer mais intelig√™ncia, experi√™ncia e prepara√ß√£o do que para ler um man√≥metro. Mas enquanto na produ√ß√£o material h√° um apego tenaz a esta ideologia, o esp√≠rito da que lhe √© contr√°ria cai na submiss√£o. Tal √© a cada vez mais ruinosa doutrina da universitas litterarum, da igualdade de todos na rep√ļblica das ci√™ncias,

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A Doutrina Perfeita

Muitas vezes as pessoas dirigem-se a mim, dizendo: ¬ęvoc√™, que √© independente¬Ľ. N√£o sou assim; continuamente devo ceder a pequenas f√≥rmulas sofisticadas que corrompem, que d√£o um sentido inverso √† nossa orienta√ß√£o, que fazem com que a transpar√™ncia do cora√ß√£o se turve. Continuamente a nossa inseguran√ßa, o ego√≠smo, o esp√≠rito legalista, a mesquinhez, a vaidade, toda a esp√©cie de circunst√Ęncias que tomam o partido da vida como desfrute √† sensa√ß√£o se sobrep√Ķem √† luz interior. S√≥ a f√© √© independente. S√≥ ela est√° para al√©m do bem e do mal.

Estar para al√©m do bem e do mal aplica-se a Cristo. ¬ęPerdoa ao teu inimigo, oferece a outra face¬Ľ – disse Ele. N√£o √© um conselho para humilhados, n√£o √© um preceito para m√°rtires. Nisso aparece Cristo mal interpretado, a ponto de o cristianismo ter sido considerado uma religi√£o de escravos. Mas esquecemos que Cristo, como Homem, teve a experi√™ncia-limite, uma vis√£o do inconsciente absoluto, o que quer dizer que a sua consci√™ncia foi saturada, para al√©m do bem e do mal. Esse homem que perdoa ao seu inimigo n√£o o faz por contrariedade do seu instinto, por repara√ß√£o dos seus pecados; mas porque n√£o pode proceder de outra maneira.

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Um Silêncio Cauto e Prudente é o Cofre da Sensatez

– (…) V√≥s quereis tentar a sorte na grande cidade, e sabeis bem que √© l√° que deveis gastar essa aura de valentia que a longa inac√ß√£o dentro destas muralhas vos houver concedido. Procurareis tamb√©m a fortuna, e devereis ser h√°bil a obt√™-la. Se aqui aprendeste a escapar √† bala de um mosquete, l√° deveis aprender a saber escapar √† inveja, ao ci√ļme, √† rapacidade, batendo-vos com armas iguais com os vossos advers√°rios, ou seja, com todos. E portanto escutai-me. H√° meia hora que me interrompeis dizendo o que pensais, e com o ar de interrogar quereis mostrar-me que me engano. Nunca mais o fa√ßais, especialmente com os poderosos. √Äs vezes a confian√ßa na vossa arg√ļcia e o sentimento de dever testemunhar a verdade poderiam impelir-vos a dar um bom conselho a quem √© mais do que v√≥s. Nunca o fa√ßais. Toda a vit√≥ria produz √≥dio no vencido, e se se obtiver sobre o nosso pr√≥prio senhor, ou √© est√ļpida ou √© prejudicial. Os pr√≠ncipes desejam ser ajudados mas n√£o superados.
Mas sede prudente também com os vossos iguais. Não humilheis com as vossas virtudes. Nunca falei de vós mesmos: ou vos gabaríeis, que é vaidade, ou vos vituperaríeis,

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Como Trair o Seu Marido em Imaginação

Proponho-me ensinar-lhes como trair o seu marido em imaginação.
Acreditem-me: só as criaturas ordinárias traem o marido realmente. O pudor é uma condição sine qua non de prazer sexual. O entregar-se a mais de um homem mata o pudor.
Concedo que a inferioridade feminina precisa de macho. Acho que, ao menos se deve limitar a um macho só, fazendo dele, se disso precisar, centro de um círculo de raio crescente de machos imaginados.

A melhor ocasião para fazer isso é nos dias que antecedem os da menstruação. Assim:
Imaginam o seu marido mais branco de corpo. Se imaginam bem, senti-lo-√£o mais branco sobre si.
Retenham todo o gesto de sensualidade excessiva. Beijem o marido que lhes estiver em cima do corpo e mudem com a imaginação o homem num olhar belo que lhes estiver em cima da alma.
A essência do prazer é o desdobramento. Abram a porta da janela ao Felino em vós.
Como tracasser o marido.
Importa que o marido às vezes se zangue.
O essencial é começar a sentir a atracção pelas coisas que repugnam não perdendo a disciplina exterior.
A maior indisciplina interior junta √† m√°xima disciplina exterior comp√Ķe perfeita sensualidade.

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N√£o Amar nem Odiar

Se possível, não devemos alimentar animosidade contra ninguém, mas observar bem e guardar na memória os procedimentos de cada pessoa, para então fixarmos o seu valor, pelo menos naquilo que nos concerne, regulando, assim, a nossa conduta e atitude em relação a ela, sempre convencidos da imutabilidade do carácter. Esquecer qualquer traço ruim de uma pessoa é como jogar fora dinheiro custosamente adquirido. No entanto, se seguirmos o presente conselho, estaremos a proteger-nos da confiabilidade e da amizade tolas.
¬ęN√£o amar, nem odiar¬Ľ, eis uma senten√ßa que cont√©m a metade da prud√™ncia do mundo; ¬ęnada dizer e em nada acreditar¬Ľ cont√©m a outra metade. Decerto, daremos de bom grado as costas a um mundo que torna necess√°rias regras como estas e como as seguintes.
Mostrar c√≥lera e √≥dio nas palavras ou no semblante √© in√ļtil, perigoso, imprudente, rid√≠culo e comum. Nunca se deve revelar c√≥lera ou √≥dio a n√£o ser por actos; e estes podem ser praticados tanto mais perfeitamente quanto mais perfeitamente tivermos evitado os primeiros. Apenas animais de sangue frio s√£o venenosos.
Falar sem elevar a voz: essa antiga regra das gentes do mundo tem por alvo deixar ao entendimento dos outros a tarefa de descobrir o que dissemos.

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Dar é Viver

D√°-te.

Dar é viver.

Ningu√©m, por muito pouco que receba, viver√° em alegria se n√£o der nada a ningu√©m. D√°-se um sorriso, uma m√£o, um beijo, um abra√ßo, um conselho, uma ideia, uma palavra, uma hora, duas ou tr√™s, de sil√™ncio ou de ouvidos em alerta para o outro poder desabafar, chorar ou libertar-se. D√°-se boleia, d√£o-se sugest√Ķes, brinca-se, d√°-se o corpo, d√°-se prazer, d√£o-se pistas, d√°-se tanta coisa. Tanta coisa que custa zero mas vale tanto. E quanto mais dermos de n√≥s, mais recebemos. Nem sempre daqueles a quem damos, √© um facto, faz parte da experi√™ncia de aprender a lidar com a expectativa, o apego e a cobran√ßa, mas se dermos de cora√ß√£o, e s√≥ porque nos faz sentir bem, recebemos sempre e quase sempre de onde menos esperamos.

Quando somos incondicionais podemos ser surpreendidos a qualquer momento.

√Č t√£o bom. Sabe t√£o bem. Dar e nunca saber de onde podemos vir a receber. Torna os dias surpreendentes. A vida agiganta-se. Acaba-se a agonia do ¬ętem de ser¬Ľ e de repente √© tudo novidade. √Č como dizer ¬ęAmo-te¬Ľ a algu√©m que amo, e porque o senti naquele instante, e n√£o ficar √† espera de ouvir o mesmo dessa pessoa no segundo a seguir.

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A Interpretação das Nossas Capacidades

N√£o sabemos distinguir as faculdades dos homens; t√™m eles divis√≥rias e fronteiras subtis e dif√≠ceis de discernir. Concluir da compet√™ncia na vida privada uma qualquer compet√™ncia para os cargos p√ļblicos, √© mal concluir: h√° quem se governe bem e n√£o governe bem os outros e quem fa√ßa Ensaios sem ser capaz de realizar feitos; quem organize bem um cerco e mal uma batalha e quem fale bem em privado e n√£o o consiga fazer em p√ļblico ou diante de um princ√≠pe. E talvez mesmo o ser algu√©m capaz numa das coisas mais que o contr√°rio indicie que n√£o o √© na outra. Acho que os esp√≠ritos elevados n√£o muito menos aptos s√£o para as coisas inferiores que os inferiores para as elevadas. Seria de crer que S√≥crates tivesse dado aos atenienses motivo para se rirem √† sua custa por ele nunca haver sabido fazer a contagem dos sufr√°gios da sua tribo e particip√°-los ao Conselho? Decerto, a venera√ß√£o que tenho pelas qualidades desta personagem justifica que a sua sorte proporcione um exemplo t√£o magn√≠fico para desculpar os meus principais defeitos.
A nossa capacidade está fragmentada em pequenas parcelas. A minha não é extensa e ainda por cima é pouco variada.

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