Textos sobre Mal

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Textos de mal escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Captar a Oportunidade no Momento Justo

J√° percebeste que deves subtrair-te a essas tuas ocupa√ß√Ķes ilus√≥rias e nocivas, mas ignoras ainda o modo de o conseguir. Ora h√° coisas que s√≥ estando presente te posso indicar! O m√©dico tamb√©m n√£o pode determinar por carta a hora adequada para a alimenta√ß√£o ou para o banho: tem de tomar o pulso ao doente. Diz um antigo prov√©rbio que o gladiador s√≥ forma o seu plano na arena a partir da observa√ß√£o do rosto do advers√°rio, do modo como move os bra√ßos, da pr√≥pria postura do corpo. Observa√ß√Ķes sobre os costumes, sobre os deveres, √© poss√≠vel faz√™-las de um modo geral e por escrito; s√£o conselhos que se podem dar n√£o s√≥ a ausentes, como at√© √† posteridade. Mas a maneira e a ocasi√£o de tomar uma decis√£o concreta, isso ningu√©m pode aconselh√°-lo √† dist√Ęncia, √© for√ßoso deliberar em face das pr√≥prias circunst√Ęncias.
Para captar a oportunidade no momento justo √© preciso n√£o s√≥ estar presente, como estar atento. P√Ķe-te, por conseguinte na expectativa, e assim que surpreenderes a oportunidade agarra-a com toda a rapidez, com toda a energia, e liberta-te definitivamente desses teus falacciosos deveres! Repara bem no conselho que te dou: em meu entender tens de libertar-te desse tipo de vida,

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Os Dias Zangados S√£o Dias de Amor

Raios partam os dias zangados. Nada há que se possa fazer para fugir deles. Esperam por nós, como credores ajudados por juros injustificáveis, para nos cortarem a fatia do nosso coração que lhes cabe.
Não são como os dias tristes, que não conseguem habituar-se a uma realidade qualquer, que se revelou, sem querer, desiludindo-nos de uma ilusão que nós próprios inventámos, para mais facilmente podermos acreditar, falsamente, nela. Mas assemelham-se para mais bem nos poderem magoar. Depois. Quase ao mesmo tempo. Bem.
Quem não tem um dia zangado, em que ninguém ou nada corresponde ao que esperávamos? A felicidade é a excepção e o engano. Resulta mais de um esquecimento do que de uma lembrança.
Pouco h√° de certo neste mundo. S√£o muitos os pobres, mas n√£o s√£o poucos os ricos. As pessoas do sexo masculino n√£o se entendem nem com as pessoas do sexo masculino, nem com as do sexo feminino. As pessoas, sejam de que sexo e sexualidade forem, compreendem-se mal. D√£o-se mal, por muito bem que se d√™em. As mais apaixonadas umas pelas outras s√£o as que menos bem aceitam as diferen√ßas, as incompreens√Ķes, os dias zangados e as noites zangadas que apenas servem para nos relembrar que todos n√≥s nascemos e morremos sozinhos.

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A Instabilidade e Imprevisibilidade do Nosso Comportamento

N√£o deveis estranhar se hoje vedes poltr√£o aquele que ontem vistes t√£o intr√©pido: ou a c√≥lera, ou a necessidade, ou a companhia, ou o vinho, ou o som de uma trombeta, tinham-lhe incutido coragem. N√£o se trata de uma coragem que a raz√£o haja modelado; foram as circunst√Ęncias que lhe deram consist√™ncia; n√£o espanta, pois, que circunst√Ęncias contr√°rias a tenham transformado.
Esta t√£o flex√≠vel varia√ß√£o e estas contradi√ß√Ķes que em n√≥s se v√™em, fizeram com que alguns imaginassem termos duas almas, e que outros supusessem que dois poderes nos acompanham e agitam, cada qual √† sua maneira, um tendendo para o bem, o outro para o mal, j√° que t√£o brutal diversidade n√£o poderia atribuir-se a uma s√≥ entidade.
N√£o somente o vento dos acidentes me agita consoante a direc√ß√£o para que sopra, mas, ademais, eu agito-me e perturbo-me a mim pr√≥prio pela instabilidade da minha postura; e quem, antes do mais, se observar, nunca se achar√° duas vezes no mesmo estado. Confiro √† minha alma ora um rosto ora outro, conforme o lado sobre que a pousar. Se falo de mim de diferentes maneiras √© porque de maneiras diferentes me observo. Toda a sorte de contradi√ß√Ķes se podem encontrar em mim sob algum ponto de vista e sob alguma forma.

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A Cantiga do Optimismo

N√£o embarquem na cantiga do optimismo. Sempre que poss√≠vel, vejam as coisas pelo lado ruim. Desejem o melhor, mas n√£o deixem nunca de esperar o pior. E saibam que dois ter√ßos das conquistas do Homem se fizeram, mais do que pelo optimismo dos seus autores, em resultado do pessimismo dos vizinhos daqueles. Os comp√™ndios ir√£o contra v√≥s. Dir-vos-√£o que s√£o c√≠nicos, escapistas, pobres cultores da ideia de supremacia do mal sobre o bem, tristes conformistas destinados ao imobilismo e mais nada. N√£o acreditem. Se h√° uma coisa capaz de mover montanhas, √© ter ao lado um sacana a dizer ¬ęN√£o consegues, p√°, d√™s as voltas que deres n√£o consegues¬Ľ – e, ali√°s, n√≥s pr√≥prios concordarmos com ele. Em todo o caso, o mal exerce efectivamente supremacia sobre o bem. Voc√™s sabem que as crian√ßas choram antes de rir – e que. muito antes de aprenderem o potencial sedutor de um sorriso, j√° conhecem as virtudes chantag√≠sticas de uma boa gritaria.

N√£o pensem que o m√©todo √© meu. Insinuou-o Voltaire, no seu Candide, √† revelia dos optimistas taralhoucos que vieram antes e depois dele, como Leibniz ou Godwin. Gramsci tratou da exegese. O verdadeiro segredo? O verdadeiro m√©todo? ¬ę√Č preciso atrair violentamente a aten√ß√£o para o presente do modo como ele √©.

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O Outono da Vida

Come√ßa devagarinho. √Č como tudo. A gente andamos na nossa vida, andamos influ√≠dos e est√° claro que n√£o reparamos. De manh√£, temos de pensar no caf√©.
Depois, h√°-de vir o almo√ßo. Est√° claro que nem reparamos numa aragem. Mal uma aragem mais fresca que se mistura com o sol-p√īr. J√° setembro quer acabar e ainda temos a torrina do sol na pele, a hora do calor, (quase cansada, para a cadela invis√≠vel) Anda c√°, Ladina… Tamb√©m est√°s a ficar velha… Arriba, cadela… (voltando ao tom e √† direc√ß√£o inicial) A gente nem d√° f√©. Primeiro, √© umas pontadas nas costas, umas sez√Ķes, umas coisas assim. Primeiro, a gente julga que vai passar, como passavam os esfol√Ķes nas pernas quando √©ramos pequenos e and√°vamos a correr pelas ruas ou quando encontr√°vamos alguma √°rvore a jeito de subir. Come√ßa mesmo devagarinho. Aos poucos, (com ternura, para a cadela) Ah, Ladina… Bochinha, bochinha… Ent√£o, n√£o queres vir? Anda c√°, cadela… (voltando √† direc√ß√£o inicial) E as m√£os come√ßam a tremer um bocadinho. E o trabalho come√ßa a ser mais custoso. E um dia a gente j√° quase que n√£o conhece a nossa cara no espelho no lavat√≥rio. √Č nesse dia, √© nessa hora que come√ßa o outono.

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O Amor Infinito

Da mulher o que nos comove e enleva √© a parte impoluta que ela tem do c√©u; √© a magia que a fada exercita obedecendo a interno impulso, n√£o sabido dela, n√£o sabido de n√≥s. Ali h√° mensagem de outras regi√Ķes; aqui, no peito arquejante, nos olhos amarados de gozozas l√°grimas, h√° um espirar para o alto, um ir-se o cora√ß√£o avoando desde os olhos, desde o sorriso dela para soberanas e imorredouras alegrias. N√≥s √© que n√£o sabemos nem podemos ver sen√£o o pouquinho desse infinito que nos entre-luz nas gra√ßas do primeiro amor, do segundo amor, de quantos estremecimentos de s√ļbita embriaguez nos fazem crer que despimos o inv√≥lucro de barro e pairamos alados sobre a regi√£o das l√°grimas.

√Č Deus que n√£o quer ou somos n√≥s que n√£o podemos prorrogar a dura√ß√£o ao sonho? Se Deus, que mal faria √† sua divina grandeza que o pequenino guzano o adorasse sempre? Porque vai t√£o r√°pida aquela esta√ß√£o em que o homem √© bom porque ama, e √© caritativo e dadivoso porque tudo sobeja √† sua felicidade? Quando poderam aliar-se um amor puro com a impureza das inten√ß√Ķes? Quais olhos de homem afectivo e como santificado por seu amor recusaram chorar sobre desgra√ßas estranhas?

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A TV Como Instrumento Redutor

Porque √© que a TV foi essa ¬ęcaixinha que revolucionou o mundo¬Ľ? Fa√ßo a pergunta e as respostas v√™m em turbilh√£o. Fez de tudo um espect√°culo, fez do longe o mais perto, promoveu o analfabetismo e o atraso mental. De um modo geral, desnaturou o homem. E sobretudo miniturizou-o, fazendo de tudo um pormenor, isturado ao quotidiano dom√©stico. Porque mesmo um filme ou pe√ßa de teatro ou at√© um espect√°culo desportivo perdem a grandeza e metaf√≠sica de um largo espa√ßo de uma comunidade humana.

J√° um acto religioso √© muito diferente ao ar livre ou no interior de uma catedral. Mas a TV √© algo de min√ļsculo e trivial como o sof√° donde a presenciamos. Diremos assim e em resumo que a TV √© um instrumento redutor. Porque tudo o que passa por l√° chega at√© n√≥s diminu√≠do e desvalorizado no que lhe √© essencial. E a maior raz√£o disso n√£o est√° nas reduzidas dimens√Ķes do ecr√£, mas no facto de a ¬ęcaixa revolucionadora¬Ľ ser um objecto entre os objectos de uma sala.

Mas por sobre todos os males que nos infligiu, ergue-se o da promoção do analfabetismo. Ser é um acto difícil e olhar o boneco não dá trabalho nenhum.

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O Amor e a Vida

O amor √© uma imagem da nossa vida. Tanto o primeiro como a segunda est√£o sujeitos √†s mesmas revolu√ß√Ķes e mudan√ßas. A sua juventude √© resplandecente, alegre e cheia de esperan√ßas porque somos felizes por ser jovens tal como somos felizes por amar. Este agradabil√≠ssimo estado leva-nos a procurar outros bens muito s√≥lidos. N√£o nos contentamos nessa fase da vida com o facto de susbsistirmos, queremos progredir, ocupamo-nos com os meios para nos aperfei√ßoarmos e para assegurar a nossa boa sorte. Procuramos a protec√ß√£o dos ministros, mostrando-nos sol√≠citos e n√£o aguentamos que outrem queira o mesmo que temos em vista. Este est√≠mulo cumula-nos de mil trabalhos e esfor√ßos que logo se apagam quando alcan√ßamos o desejado. Todas as nossas paix√Ķes ficam ent√£o satisfeitas e nem por sombras podemos imaginar que a nossa felicidade tenha fim.
No entanto, esta felicidade raramente dura muito e fatiga-se da graça da novidade. Para possuirmos o que desejámos não paramos de desejar mais e mais. Habituamo-nos ao que temos, mas os mesmos haveres não conservam o seu preço, como nem sempre nos tocam do mesmo modo. Mudamos imperceptivelmente sem disso nos apercebermos. O que já adquirimos torna-se parte de nós mesmos e sofreríamos muito com a sua perda,

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O Medo Da Nossa Condição Humana

Quando me ponho √†s vezes a considerar as diversas agita√ß√Ķes dos homens, e os perigos e trabalhos a que eles se exp√Ķem, na corte, na guerra, donde nascem tantas querelas, paix√Ķes, cometimentos ousados e muitas vezes nocivos, etc., descubro que toda a mis√©ria dos homens vem duma s√≥ coisa, que √© n√£o saberem permanecer em repouso, num quarto. Um homem que tenha o bastante para viver, se fosse capaz de ficar em sua casa com prazer n√£o sairia para ir viajar por mar ou p√īr cerco a uma pra√ßa-forte. Ningu√©m compraria t√£o caro um posto no ex√©rcito se n√£o achasse insuport√°vel deixar-se estar quieto na cidade; e quem procura a conviv√™ncia e a divers√£o dos jogos √© porque √© incapaz de ficar, em casa, com prazer.
Mas quando pensei melhor, e que, depois de ter encontrado a causa de todos os nossos males, quis descobrir a razão desta, achei que há uma bem efectiva, que consiste na natural infelicidade da nossa condição frágil e mortal, e tão miserável que nada nos pode consolar quando nela pensamos a fundo.

O Mundo dos Solteiros

Agora a s√©rio: voc√™ conhece algum solteiro verdadeiramente satisfeito com a sua condi√ß√£o de solteiro? Eu n√£o. Conhe√ßo v√°rios solteiros que se dizem satisfeitos com a sua condi√ß√£o de solteiros, mas que de bom grado imediatamente se casariam. N√£o se casam por in√©rcia, por cobardia, muitas vezes por falta de sorte – mas √© por uma vida a dois que suspiram. √Č da natureza humana. Uma coisa √© estar entre casamentos. Outra √© ser solteiro. E o solteiro cool √© uma constru√ß√£o t√£o artificial como o da gordinha ¬ęmuito¬Ľ simp√°tica. Voc√™ conhece alguma gordinha ¬ęmuito¬Ľ simp√°tica em que essa t√£o √≥bvia simpatia n√£o seja excessiva, provavelmente fabricada – e mensageira sobretudo de uma profunda solid√£o? Eu n√£o.

(…) √Č um mundo sombrio, o mundo dos solteiros – um mundo de ansiedades, de cinismo, de ressentimento, de ego√≠smo. Se os solteiros solit√°rios s√£o tristes, ali√°s, os solteiros greg√°rios s√£o-no ainda mais. Voc√™ j√° foi a algum jantar em que os presentes fossem maioritariamente solteiros? Eu j√°. E, sempre que fui, voltei deprimido. Ia deprimido – e deprimido voltei. √ćamos deprimidos – e deprimidos volt√°mos. Todos. Fizemos o que pudemos, claro: troc√°mos palavras, troc√°mos solidariedades, troc√°mos mimos. No fim, nada.

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√Č o H√°bito Que Nos Persuade

√Č preciso n√£o nos conhecermos mal: somos aut√≥mato, tanto quanto esp√≠rito, donde resulta que o instrumento pelo qual se faz a persuas√£o n√£o √© unicamente a demonstra√ß√£o. Qu√£o poucas s√£o as coisas demonstradas! As provas n√£o convencem sen√£o o esp√≠rito. O h√°bito d√°-nos provas mais fortes e mais cr√≠veis; inclina o aut√≥mato, que arrasta o esp√≠rito, sem que ele o saiba. Quem demonstrou que amanh√£ ser√° dia, e que morremos? E que existir√° de mais cr√≠vel? √Č, portanto, o h√°bito que nos persuade; √© ele que faz tantos crist√£os, que faz os maometanos, os pag√£os, os artes√£os, os soldados, etc.
Enfim, √© preciso recorrer a ele depois de o esp√≠rito ter visto onde est√° a verdade, para nos dessedentar e nos impregnar dessa cren√ßa que nos escapa a todo o momento; pois ter as provas sempre presentes √© por demais penoso. √Č mister adquirir uma cren√ßa mais f√°cil – a do h√°bito -, que, sem viol√™ncia, sem artif√≠cio, sem argumento, nos faz crer nas coisas e predisp√Ķe todas as nossas faculdades para essa cren√ßa, de sorte que a nossa alma nela mergulhe naturalmente.N√£o basta crer pela for√ßa da convic√ß√£o, quando o aut√≥mato est√° predisposto a crer o contr√°rio. √Č preciso fazer com que as nossas duas partes creiam: o esp√≠rito,

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A Vantagem de Ter Pouca Memória

Não há outro homem a quem aventurar-se a falar de memória assente tão mal. Pois praticamente não reconheço em mim vestígio dela, e não creio que haja no mundo uma outra tão prodigiosa em insuficiência. Tenho banais e comuns todas as minhas outras qualidades. Mas nesta creio ser singular e muito raro, e digno de por ela ganhar nome e fama.
(…) Em certa medida, consolo-me. Em primeiro lugar porque esse √© um mal pelo qual encontrei principalmente o meio de corrigir um mal pior que poderia facilmente ter surgido em mim, ou seja, a ambi√ß√£o, pois √© uma falta (a falta de mem√≥ria) inadmiss√≠vel para quem se envolve nos neg√≥cios do mundo; e porque, como mostram v√°rios exemplos semelhantes do andamento da natureza, esta de bom grado fortaleceu em mim outras faculdades na medida em que aquela se enfraqueceu, e facilmente eu iria deitando e enlaguescendo o meu esp√≠rito e o meu discernimento sobre os rastros de outrem, como faz o mundo, sem exercer as suas pr√≥prias for√ßas, se as ideias e opini√Ķes alheias estivessem presentes em mim pelo benef√≠cio da mem√≥ria.
E porque as minhas falas são mais curtas, pois o armazém da memória costuma ser mais bem provido de matéria do que o da invenção;

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Valem Mais as Vidas do que os Livros

Defende Cleantes a opini√£o de que em nada nos interessam as ideias dos homens e que acima de tudo devemos p√īr o seu car√°cter, a honestidade e a firmeza, a independ√™ncia e a lisura do seu procedimento. Se de pol√≠tica tratamos, Cleantes, que, por defini√ß√£o, √© honesto, sentir-se-√° muito bem representado ou muito bem governado n√£o por aquele que, incluindo nos seus programas de elei√ß√£o ou nas suas declara√ß√Ķes ideias que perfeitamente se harmonizam com as dele, depois aparece apenas como um membro de toda a ra√ßa infinita dos que sobem por fora, mas por aquele que, tendo-o porventua irritado com a sua maneira de pensar, em seguida vem habitar a ilha min√ļscula dos que sobem por dentro. Se de dois candidatos que se apresentam, um est√° no partido contr√°rio ao nosso mas √© um honesto, seguro cidad√£o, e o outro se proclama correligion√°rio, mas nos deixa d√ļvidas sobre a integridade moral, diz Cleantes que ningu√©m deve hesitar: o nosso voto deve ir para o que d√° garantias de uma fiscaliza√ß√£o s√©ria dos neg√≥cios e n√£o deixar√° que se maltrate a Justi√ßa. Sobretudo se formos moralistas, isto √©, se acreditarmos que o mundo se salvar√° pela moral; e, como cumpre a moralistas,

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A Conversa Nunca é Imparcial

√Č espantoso qu√£o f√°cil e rapidamente a homogeneidade ou a heterogeneidade de esp√≠rito e de √Ęnimo entre os homens se faz manifesta na conversa√ß√£o: ela torna-se sens√≠vel √† menor situa√ß√£o. Entre duas pessoas de natureza substancialmente heterog√©nea, que conversam sobre os assuntos mais estranhos e indiferentes, cada frase de uma desagradar√° mais ou menos √† outra, em muitos casos irritar√°. Naturezas homog√©neas, pelo contr√°rio, sentem de imediato, em tudo, uma certa concord√Ęncia, que, tratando-se de grande homogeneidade, logo converge para a harmonia perfeita, para o un√≠ssono.
A partir disso, explica-se, em primeiro lugar, porque os tipos ordin√°rios s√£o t√£o soci√°veis e em qualquer lugar encontram boa companhia com tanta facilidade – gente estimada, am√°vel e honesta. Com os indiv√≠duos incomuns acontece o contr√°rio, e tanto mais quanto mais distintos forem, de tal maneira que, de tempos em tempos, no seu isolamento, podem alegrar-se por terem descoberto em algu√©m, uma fibra, por menor que seja, homog√©nea √† sua! De facto, cada um s√≥ pode ser para outrem o que este √© para ele. Esp√≠ritos verdadeiramente eminentes fazem o seu ninho nas alturas, como as √°guias, solit√°rios. Em segundo lugar, isso explica por que os indiv√≠duos de disposi√ß√£o igual se re√ļnem de imediato,

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Somos a Resposta que Damos ao que Nos Acontece

Somos frágeis. A vida é dura. Não somos o que nos acontece.

H√° pesos que n√£o podemos rejeitar. Toda a revolta seria t√£o ilus√≥ria quanto in√ļtil. Mas n√£o devemos ficar pela simples resigna√ß√£o, √© preciso que assumamos esses pesos e os queiramos levar de vencidos. Que escolhamos ser quem somos, apesar deles. Com eles. Neles.

Somos a resposta que damos ao que nos acontece.

Temos de aceitar a indiferen√ßa e a incompreens√£o dos outros. As d√ļvidas e as contradi√ß√Ķes do mundo s√£o um peso acrescido, que devemos carregar junto √†s nossas pr√≥prias dores, falhas e fraquezas.

Depois, h√° ainda os pesos que os outros n√£o podem, ou n√£o querem, levar…

Os males pesam, sempre. Sejam os meus, os do mundo ou os dos que amo… h√° que aceit√°-los primeiro, para lhes fazer frente depois.

√Č essencial aceitar a fraqueza das nossas for√ßas. A imperman√™ncia de tudo o que temos. A fragilidade do que somos.

Por vezes, a cruz é o caminho.

√Č na dor que o verdadeiro amor se manifesta.

Tenho de me negar a mim mesmo se quero amar o outro.

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Espíritos Dirigentes e seus Instrumentos

Vemos grandes estadistas e, em geral, todos aqueles, que devem servir-se de muitas pessoas para a execu√ß√£o dos seus planos, comportarem-se ora de uma maneira, ora de outra: ou seleccionam muito apurada e cuidadosamente as pessoas que conv√™m aos seus projectos e lhes deixam, depois, uma liberdade relativamente grande, porque sabem que a natureza desses indiv√≠duos escolhidos os impele precisamente para onde eles pr√≥prios querem que eles v√£o; ou, ent√£o, escolhem mal, pegam mesmo no que t√™m √† m√£o, mas formam a partir desse barro algo que serve para os seus fins. Este √ļltimo g√©nero √© o mais violento, tamb√©m o que procura instrumentos mais submissos; o seu conhecimento dos homens √©, habitualmente, muito mais escasso, o seu desprezo pelos homens √© maior do que no caso dos esp√≠ritos mencionados em primeiro lugar, mas a m√°quina, que eles constroem, trabalha melhor, de maneira geral, que a m√°quina sa√≠da da oficina daqueles.

Somos Apenas Cerimónia

Somos apenas cerim√≥nia (formalidade, conven√ß√Ķes): a cerim√≥nia transporta-nos e deixamos de lado a subst√Ęncia das coisas; agarramo-nos aos galhos e abandonamos o tronco e o corpo. Ensinamos as mulheres a enrubescer por apenas ouvirem nomear o que elas n√£o t√™m o menor receio de fazer; n√£o ousamos mencionar directamente os nossos membros e n√£o tememos empreg√°-los em todo o tipo de devassid√£o. A cerim√≥nia pro√≠be-nos de expressar em palavras as coisas l√≠citas e naturais, e acreditamos nela; a raz√£o pro√≠be-nos de praticar as il√≠citas e m√°s, e ningu√©m acredita nela. Encontro-me aqui enredado nas leis da cerim√≥nia, pois ela n√£o permite nem que se fale bem de si nem que se fale mal.

Ninguém Permanece Satisfeito Com o Que Tem

Ningu√©m permanece satisfeito com o que tem, olhando para o que √© dos outros; √© por isso que nos iramos at√© contra os deuses quando algu√©m nos ultrapassa, esquecidos dos homens que ficam para tr√°s; e, quando h√° poucos homens para invejar, aqueles que seguem atr√°s de n√≥s s√£o invejosos terr√≠veis. Mas o homem √© t√£o mesquinho que, mesmo tendo recebido muito, considera-se injuriado se pudesse ter recebido mais. (…) Sobretudo, agradece aquilo que recebeste; aguarda pelo restante e alegra-te por n√£o estares ainda satisfeito: √© um prazer haver algo por que esperar. Venceste todos os homens: alegra-te por seres o primeiro no cora√ß√£o do teu amigo; foste vencido por muitos: considera quantos homens est√£o atr√°s de ti, mais do que quantos est√£o √† tua frente. Queres saber qual √© o teu maior v√≠cio? Fazes mal as contas: valorizas demasiado o que te oferecem, mas desvalorizas o que tens.

Alarga os Teus Horizontes

Por que é que combateis? Dir-se-á, ao ver-vos,
Que o Universo acaba aonde chegam
Os muros da cidade, e nem h√° vida
Além da órbita onde as vossas giram,
E além do Fórum já não há mais mundo!

Tal é o vosso ardor! tão cegos tendes
Os olhos de mirar a própria sombra,
Que dir-se-á, vendo a força, as energias
Da vossa vida toda, acumuladas

Sobre um s√≥ ponto, e a √Ęnsia, o ardente v√≥rtice,
Com que girais em torno de vós mesmos,
Que limitais a terra √† vossa sombra…
Ou que a sombra vos torna a terra toda!
Dir-se-√° que o oceano imenso e fundo e eterno,
Que Deus h√° dado aos homens, por que banhem
O corpo todo, e nadem à vontade,
E vaguem a sabor, com todo o rumo,
Com todo o norte e vento, v√£o e percam-se
De vista, no horizonte sem limites…
Dir-se-√° que o mar da vida √© gota d’√°gua
Escassa, que nas mãos vos há caído,
De avara nuvem que fugiu, largando-a…
Tamanho é o ódio com que a uns e a outros
A disputais,

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Os H√°bitos Embutidos

J√° me n√£o entendo com essa gente dos comboios suburbanos; esses homens que homens se julgam e que, no entanto, como as formigas, est√£o reduzidos, por uma press√£o que n√£o sentem, aos h√°bitos que lhes criam. Quando ociosos, em que ocupam eles os seus absurdos e insignificantes domingos?
Certa vez, na R√ļssia, ouvi tocar Mozart numa f√°brica. Escrevi a esse respeito. Recebi duzentas cartas insultuosas. N√£o quero mal aos que preferem um reles caf√©-concerto. Nenhuma outra harmonia eles conhecem. Mas abomino o dono do caf√©-concerto. N√£o gosto que degradem os homens.