Textos sobre Importantes

195 resultados
Textos de importantes escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Se Pudesses Estar Comigo Vinte e Quatro horas do Dia

Se pudesses estar comigo durante as vinte e quatro horas do dia, observar cada gesto meu, dormir comigo, comer comigo, trabalhar comigo, tudo isto n√£o poderia ter lugar. Quando me vejo afastado de ti, penso em ti constantemente e isso d√° cor a tudo o que eu diga ou fa√ßa. Se soubesses o qu√£o fiel te sou! N√£o apenas fisicamente, mas mentalmente, moralmente, espiritualmente. Aqui n√£o h√° qualquer tenta√ß√£o para mim, absolutamente nenhuma. Estou imune a Nova Iorque, aos meus velhos amigos, ao passado, a tudo. Pela primeira vez na minha vida, estou completamente centrado em outro ser… Em ti. Sinto-me capaz de dar tudo, sem ter medo de ficar exaurido ou de me ver perdido. Quando ontem escrevi no meu artigo que ¬ęse eu nunca tivesse ido para a Europa…¬Ľ, n√£o era a Europa que tinha em mente, mas sim tu.

Mas n√£o posso dizer isso ao mundo num artigo. Tu √©s a Europa. Pegaste em mim, um homem despeda√ßado, e tornaste-me completo. E n√£o hei-de desintegrar-me ‚ÄĒ n√£o existe o menor perigo disso. Mas agora vejo-me mais sens√≠vel, mais receptivo a qualquer sinal de perigo. Se te persigo loucamente, se te imploro para ouvires, se fico √† tua porta e espero por ti,

Continue lendo…

Amar Alguém

Amar é como o prazer de conseguir estar sozinho Рmas melhor. Amar é o prazer de descobrir continuamente que há alguém com quem se quer passar o tempo todo, incluindo o tempo que se quer passar juntos e o tempo que se quer passar sozinho.

Amar √© um casamento de solid√Ķes que, gozando o prazer da juntid√£o, mesmo assim n√£o prescinde dos prazeres de duas solid√Ķes juntas, estejam momentaneamente separadas ou reunidas.

Amar alguém é uma coisa egoísta que só nos faz bem. Mas só se a pessoa amada nos contra-ama também. Ser amado alivia muito a loucura de amar e de ser obrigatoriamente infeliz por causa disso.

Amar e ser amado √© a melhor sorte que se pode ter. N√£o s√£o milagres que aconte√ßam por acaso. √Č preciso trabalhar com leviandade – por muito cheio de amor que o cora√ß√£o esteja – para que esses milagres, fac√≠limos, comecem a habituar-se a acontecer regularmente.

Amar alguém é um alívio: é poder deixar de pensar que cada um de nós é marginalmente mais importante do que qualquer outra pessoa que nasceu nesta vida e neste planeta.

Amar alguém é um baluarte contra o mundo,

Continue lendo…

A Escolha Inteligente

Uma vida bem sucedida depende das escolhas que fizermos. Temos de saber o que √© ou n√£o importante para n√≥s. A escolha inteligente implica um sentido realista dos valores e um sentido realista das propor√ß√Ķes. Este processo de escolha – de aceita√ß√£o por um lado e de rejei√ß√£o pelo outro – come√ßa na inf√Ęncia e continua pela vida fora. N√£o podemos ter tudo o que ambicionamos. O homem de neg√≥cios que procura o sucesso financeiro tem muitas vezes de abandonar os seus interesses de ordem desportiva ou cultural. Os que preferem servir os interesses espirituais, culturais ou pol√≠ticos da sociedade – sacerdotes, escritores, artistas, militares, homens de estado e funcion√°rios p√ļblicos em geral – t√™m quase sempre de relegar para segundo plano o bem-estar financeiro.
Com uma vida limitada não podemos ser ou fazer tudo. Estamos constantemente a ter de escolher com que e com quem passar o nosso tempo. Cultivar amizades toma tempo. Às vezes temos de recusar encontros e desapontar muitas pessoas para termos tempo de alcançar os nossos fins. Todos os dias temos de escolher entre as coisas que estão à venda. Não podemos ter o mundo inteiro, tal como uma criança não pode comprar todos os rebuçados da doçaria se tiver apenas um tostão.

Continue lendo…

A Import√Ęncia da Segunda Leitura

H√° escritores, dissera eu a Gambetti, que entusiasmam o leitor, quando este os l√™ pela segunda vez, em muito mais alto grau do que na primeira vez, com Kafka sempre me acontece assim. Conservo Kafka na mem√≥ria como um grande escritor, tinha eu dito a Gambetti, mas, ao rel√™-lo, fiquei absolutamente com a impress√£o de ter lido um ainda muito maior. N√£o h√° muitos escritores que, √† segunda leitura, se tornem mais importantes, mais admir√°veis, na sua maior parte lemo-los pela segunda vez e envergonhamo-nos de alguma vez os ter lido, com centenas de escritores assim nos acontece, mas n√£o com Kafka nem com os grandes russos, Dostoievski, Tolstoi, Turgueniev, Lermontov, nem com Proust, com Flaubert, com Sartre, que para mim se contam entre os maiores de todos. N√£o me parece que seja mau o m√©todo de ler uma segunda vez os escritores que t√≠nhamos lido uma vez e nos tinham impressionado, pois eles s√£o nesse caso ou ainda muito maiores, muito mais importantes, ou a sua import√Ęncia desvanece-se por completo.

A Vida é uma Eternidade

Sabemos que vamos morrer e que estaremos mortos tanto tempo como n√£o estivemos √† espera para nascer. √Č banal dizer-se que a vida √© um intervalo ou uma passagem ou um instante. N√£o √©. A vida √© uma excep√ß√£o generosamente comprida √† regra nem triste nem alegre da inexist√™ncia.
A vida est√° para o nada como o planeta Terra est√° para o sistema solar a que pertence. Sim, pode haver vida noutros planetas. Mas ser√° uma vida que vale a pena viver? Ou que apenas vale a pena estudar?

Sabemos que temos muito tempo de vida: muito mais do que precisamos. O direito à preguiça e à procrastinação está consagrado na nossa vida e faz logo, à partida, parte dela.
Sabemos que somos obrigados a pensar, errada e repetidamente, que o tempo em que estamos vivos √© importante. E que as nossas no√ß√Ķes de decl√≠nio (“dantes √© que era bom; os jovens de hoje n√£o sabem o que perdem”) s√£o lugares-comuns de todas as gera√ß√Ķes antes de n√≥s.

Sabemos que não há ninguém que não envelheça, desde o bebé que nasceu neste segundo até ao velho que, por ter morrido agora mesmo, deixou de envelhecer.

Continue lendo…

Saber Lidar com as Inj√ļrias

Se o pr√≥prio Epicuro, que tanto cedeu ao corpo, se insurgiu contra as inj√ļrias, porque h√£o-de nos parecer estas coisas incr√≠veis ou sobre-humanas? Epicuro disse que, para o s√°bio, as inj√ļrias s√£o toler√°veis; n√≥s dizemos que, para o s√°bio, n√£o h√° inj√ļrias. E n√£o digas que isto √© estar em desacordo com a natureza: n√£o negamos que seja desagrad√°vel ser fustigado, agredido ou ficar privado de um membro, mas negamos que estas coisas sejam inj√ļrias; n√£o contestamos o car√°cter doloroso, mas sim o nome de ¬ęinj√ļria¬Ľ, o qual n√£o podemos aceitar sem faltar √† virtude. Veremos qual das duas doutrinas √© mais verdadeira; mas, de qualquer forma, ambas desprezam a inj√ļria.
Queres saber qual a diferen√ßa entre elas? √Č a mesma que existe entre dois gladiadores intr√©pidos: um que comprime a ferida e mant√©m-se em posi√ß√£o, o outro, virando-se para o p√ļblico clamoroso, faz sinal de que nada se passou e pede para que n√£o se pare o combate. N√£o julgues que aquilo em que discordamos √© importante: no que diz respeito ao ponto principal, que √© aquele que nos interessa, as duas doutrinas encorajam a desprezar as inj√ļrias e o que eu chamaria sombras das inj√ļrias e suspei√ß√Ķes,

Continue lendo…

A Vantagem do Conhecimento Alargado

No que se refere ao esp√≠rito dotado de capacidades elevadas – o √ļnico que pode ousar a solu√ß√£o dos grandes e dif√≠ceis problemas concernentes ao universal e geral das coisas -, ele far√° bem em estender o m√°ximo poss√≠vel o seu horizonte, mas sempre com equanimidade, para todos os lados, sem se perder muito numa dessas regi√Ķes bem espec√≠ficas e conhecidas apenas por poucos. Ou seja, sem penetrar demasiado profundamente nas especialidades de alguma ci√™ncia isolada, muito menos envolver-se com a micrologia. Pois n√£o tem necessidade de se dedicar a objectos de dif√≠cil acesso para livrar-se da multid√£o de concorrentes; pelo contr√°rio, justamente aquilo que est√° ao alcance de todos √© o que fornecer√° a mat√©ria para combina√ß√Ķes novas, importantes e verdadeiras. Desse modo, o seu m√©rito poder√° ser apreciado por todos os que conhecem os dados, portanto, por uma boa parte do g√©nero humano. Nisso reside a imensa diferen√ßa entre a gl√≥ria que os poetas e os fil√≥sofos alcan√ßam e aquela acess√≠vel a f√≠sicos, qu√≠micos, anatomistas, mineralogistas, zo√≥logos, fil√≥logos, historiadores, etc.

Como Lidar com a Adulação

N√£o quero deixar de abordar uma quest√£o que reputo de importante e um erro do qual os principes com dificuldade se guardam, se n√£o s√£o prudentes ou se n√£o t√™m cuidado nas escolhas que fazem. Trata-se dos aduladores, esp√©cie de que as cortes se encontram cheias. √Č que os homens comprazem-se de tal modo com as coisas que lhes dizem respeito e de um modo t√£o ilus√≥rio, que s√≥ muito dificilmente se precavem contra esta peste. E querendo precaver-se, corre o risco de se tornar desprez√≠vel. Porque n√£o tendes outro modo de vos protegerdes da adula√ß√£o a n√£o ser logrando convencer os outros homens de que vos n√£o ofendem dizendo a verdade. Todavia, quando algu√©m vos diz a verdade, sentis a falta da rever√™ncia.
Consequentemente, um pr√≠ncipe prudente deve dispor de uma terceira via, escolhendo no seu estado homens s√°bios, devendo s√≥ a esses conceder livre arb√≠trio para lhe falarem verdade. E, apenas, sobre as coisas que lhes perguntardes, n√£o de outras. Mas deve fazer perguntas sobre todas as coisas, ouvir as suas opini√Ķes e, depois, decidir por si pr√≥prio, a seu modo. E com estes conselhos e com cada um dos conselheiros, portar-se de maneira que cada um deles perceba que,

Continue lendo…

Vontade de Mudança

Se achas que a situa√ß√£o da tua vida √© insatisfat√≥ria ou at√© mesmo intoler√°vel, s√≥ te rendendo primeiro conseguir√°s quebrar o padr√£o de resist√™ncia inconsciente que perpetua essa situa√ß√£o. Render-se √© perfeitamente compat√≠vel com tomar provid√™ncias, com iniciar uma mudan√ßa ou alcan√ßar metas. Mas no estado de rendi√ß√£o h√° uma energia totalmente diferente, uma qualidade diferente que corre no que fizeres. Ao renderes-te, ligas-te novamente com a energia da fonte do Ser e, se o que fizeres estiver infuso do Ser, tornar-se-√° numa celebra√ß√£o rejubilante da energia da vida, que te levar√° mais profundamente para dentro do Agora. Atrav√©s da n√£o-resist√™ncia, a qualidade da tua consci√™ncia e, por conseguinte, a qualidade de tudo o que fizeres ou criares, ser√° incomensuravelmente real√ßada. Os resultados tomar√£o ent√£o conta de si pr√≥prios e reflectir√£o essa qualidade. Poder√≠amos chamar-lhe “ac√ß√£o rendida”. N√£o √© o trabalho tal como o conhecemos desde h√° milhares de anos. √Ä medida que mais seres humanos forem despertando, a palavra trabalho desaparecer√° do nosso vocabul√°rio, e talvez se crie uma palavra nova em sua substitui√ß√£o.

√Č a qualidade da tua consci√™ncia desse momento que √© o factor determinante do tipo de futuro que vivenciar√°s, pelo que render-te √© a coisa mais importante que podes fazer para provocar uma mudan√ßa positiva.

Continue lendo…

S√£o as Pessoas como Tu

S√£o as pessoas como tu que fazem com que o nada queira dizer-nos algo, as coisas vulgares se tornem coisas importantes e as preocupa√ß√Ķes maiores sejam de facto mais pequenas. S√£o as pessoas como tu que d√£o outra dimens√£o aos dias, transformando a chuva em delirante orvalho e fazendo do inverno uma esta√ß√£o de rosas rubras.
As pessoas como tu possuem n√£o uma, mas todas as vidas. Pessoas que amam e se entregam porque amar √© tamb√©m partilhar as m√£os e o corpo. Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem transformar o cansa√ßo numa esperan√ßa aliciante, tocando-nos o rosto com dedos de √°gua pura, soltando-nos os cabelos com a leveza do p√°ssaro ou a firmeza da flecha. S√£o as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem inspirar com elas o azul que h√° no dorso das manh√£s, e nos estendem os bra√ßos e nos apertam at√© sentirmos o cora√ß√£o transformar o peito numa m√ļsica infinita. S√£o as pessoas como tu que n√£o nos pedem nada mas t√™m sempre tudo para dar, e que fazem de n√≥s nem √≠caros nem prisioneiros, mas homens e mulheres com a estatura da vida, capazes da beleza e da justi√ßa,

Continue lendo…

Arte Com ou Sem Nacionalidade

O que se deve entender por arte portuguesa? Concorda com este termo? H√° arte verdadeiramente portuguesa?
‚ÄĒ Por arte portuguesa deve entender-se uma arte de Portugal que nada tenha de portugu√™s, por nem sequer imitar o estrangeiro. Ser portugu√™s no sentido decente da palavra, √© ser europeu sem a m√°-cria√ß√£o de nacionalidade. Arte portuguesa ser√° aquela em que a Europa ‚ÄĒ entendendo por Europa principalmente a Gr√©cia antiga e o universo inteiro ‚ÄĒ se mire e se reconhe√ßa sem se lembrar do espelho. S√≥ duas na√ß√Ķes ‚ÄĒ a Gr√©cia passada e Portugal futuro ‚ÄĒ receberam dos deuses a concess√£o de serem n√£o s√≥ elas mas tamb√©m todas as outras. Chamo a sua aten√ß√£o para o facto, mais importante que geogr√°fico, de que Lisboa e Atenas est√£o quase na mesma latitude.

Viver Com os Contempor√Ęneos Ou Ser Eterno

Se quisermos ganhar a gratidão da nossa própria era, temos de nos manter a par dela. Mas, se o fizermos, nada de grande produziremos. Quem tiver algo importante em vista deverá dirigir-se à posteridade: mas assim, na verdade, ficar-se-á provavelmente desconhecido dos contemporãneos: ser-se-á como alguém forçado a passar a vida numa ilha deserta e aí se esforçando por erguer um monumento, de modo que os futuros navegantes fiquem a saber que ele existiu.

Rentabilizar o Tempo

Sempre que damos algo como adquirido deixamos de sentir a plenitude, abdicamos da ess√™ncia e acabamos por nos esquecer do ¬ęAgora¬Ľ, o √ļnico momento de a√ß√£o que temos e que √© verdadeiramente real. O que pretendo afirmar com estas linhas √© t√£o simples como isto: o facto de sabermos do fim aproxima-nos de tudo o que realmente vale a pena e nada √© mais imponente que a natureza, as pessoas e os afetos. Nada √© mais importante que a forma como escolhemos rentabilizar o tempo finito que temos. Damos mais valor √† vida quando temos a certeza absoluta que vamos morrer e quanto mais cedo adquirirmos essa consci√™ncia, mais sentimos, mais nos damos, mais sabemos receber, mais arriscamos, mais desfrutamos, mais celebramos, mais inspiramos e, por conseguinte, mais felizes somos tamb√©m.

A Falta de Cultura √Čtica da Nossa Civiliza√ß√£o

Creio que o exagero da atitude puramente intelectual, orientando, muitas vezes, a nossa educa√ß√£o, em ordem exclusiva ao real e √† pr√°tica, contribuiu para p√īr em perigo os valores √©ticos. N√£o penso propriamente nos perigos que o progresso t√©cnico trouxe directamente aos homens, mas antes no excesso e confus√£o de considera√ß√Ķes humanas rec√≠procas, assentes num pensamento essencialmente orientado pelos interesses pr√°ticos que vem embotando as rela√ß√Ķes humanas.
O aperfei√ßoamento moral e est√©tico √© um objectivo a que a arte, mais do que a ci√™ncia, deve dedicar os seus esfor√ßos. √Č certo que a compreens√£o do pr√≥ximo √© de grande import√Ęncia. Essa compreens√£o, por√©m, s√≥ pode ser fecunda quando acompanhada do sentimento de que √© preciso saber compartilhar a alegria e a dor. Cultivar estes importantes motores de ac√ß√£o √© o que compete √† religi√£o, depois de libertada da supersti√ß√£o. Nesse sentido, a religi√£o toma um papel importante na educa√ß√£o, papel este que s√≥ em casos raros e pouco sistematicamente se tem tomado em considera√ß√£o.
O terr√≠vel problema magno da situa√ß√£o pol√≠tica mundial √© devido em grande parte √†quela falta da nossa civiliza√ß√£o. Sem ¬ęcultura √©tica¬Ľ , n√£o h√° salva√ß√£o para os homens.

A Perturbação do Último Acontecimento

A vida de uma pessoa consiste num conjunto de acontecimentos no qual o √ļltimo poderia mesmo mudar o sentido de todo o conjunto, n√£o porque conte mais do que os precedentes mas porque, uma vez inclu√≠dos na vida, os acontecimentos disp√Ķem-se segundo uma ordem que n√£o √© cronol√≥gica mas que corresponde a uma arquitectura interna. Uma pessoa, por exemplo, l√™ na idade madura um livro importante para ela, que a faz dizer: “Como poderia viver sem o ter lido!” e ainda: “Que pena n√£o o ter lido quando era jovem!”. Pois bem, estas afirma√ß√Ķes n√£o fazem muito sentido, sobretudo a segunda, porque a partir do momento em que ela leu aquele livro, a sua vida torna-se a vida de uma pessoa que leu aquele livro, e pouco importa que o tenha lido cedo ou tarde, porque at√© a vida que precede a leitura assume agora uma forma marcada por aquela leitura.

Coerção e Autocoerção

Os casos e acontecimentos que nos dizem respeito aparecem e entrecruzam-se isoladamente, sem ordem nem rela√ß√£o uns com os outros, no mais vivo contraste e sem nada em comum, a n√£o ser justamente o facto de se relacionarem connosco. Dessa maneira, para corresponder a esses casos e acontecimentos, os nossos pensamentos e cuidados t√™m igualmente de estar desligados uns dos outros. Como consequ√™ncia, quando empreendemos algo, temos de nos abstrair de tudo o resto, para ent√£o tratar cada coisa a seu tempo, fru√≠-la e senti-la, sem demais preocupa√ß√Ķes. Precisamos ter, por assim dizer, compartimentos para os nossos pensamentos e abrir apenas um deles, enquanto os outros permanecem fechados. Desse modo, conseguimos impedir que uma preocupa√ß√£o muito grave roube cada pequeno prazer do presente, despojando-nos de toda a tranquilidade.
Conseguimos ainda fazer com que uma pondera√ß√£o n√£o reprima a outra, que a preocupa√ß√£o com um caso importante n√£o produza a neglig√™ncia de muitos de menor relev√Ęncia, e assim por diante. Mas sobretudo o homem capaz de considera√ß√Ķes elevadas e nobres nunca pode deixar o seu esp√≠rito ser totalmente possu√≠do e absorvido por casos pessoais e preocupa√ß√Ķes triviais, a ponto de impedir o acesso √†s altas considera√ß√Ķes, pois isso, de facto,

Continue lendo…

Pensar Com Cabeça Alheia

Ler significa pensar com cabeça alheia em vez de pensar com a própria. O furor que a maioria dos eruditos sente ao ler constitui uma espécie de fuga vacui do vazio de pensamentos da sua própria cabeça, que faz força para atrair para dentro de si o que lhe é estranho: para terem pensamentos, precisam de aprender nos livros da mesma forma que os corpos inanimados recebem movimento apenas do exterior, enquanto os dotados de pensamento próprio são como os corpos vivos, que se movem por si mesmos.
Em rela√ß√£o √† nossa leitura, a arte de n√£o ler √© extremamente importante. Ela consiste em n√£o aceitar o que o p√ļblico mais amplo sempre l√™, como planfletos pol√≠ticos ou liter√°rios, romances, poesias e similares, que s√≥ fazem rumor naquele momento e at√© atingem muitas edi√ß√Ķes no seu primeiro e √ļltimo ano de vida.
Exigir que um indivíduo conserve na sua mente tudo o que já leu é como querer que ele ainda traga dentro de si tudo o que já comeu na vida.

O que é uma Pessoa Religiosamente Iluminada

Em vez de perguntar o que √© a religi√£o, prefiro perguntar o que caracteriza as aspira√ß√Ķes de uma pessoa que me d√° a impress√£o de ser religiosa: uma pessoa que √© religiosamente iluminada parece-me algu√©m que, utilizando as suas melhores capacidades, se libertou das grilhetas dos seus desejos ego√≠stas e est√° preocupado com pensamentos, sentimentos e aspira√ß√Ķes a que se agarra devido ao seu estreito valor superpessoal. Parece-me que o que √© importante √© a for√ßa deste conte√ļdo superpessoal e a profundidade da convic√ß√£o relativa ao seu significado esmagador, independentemente de se fazer alguma tentativa para reunir este conte√ļdo com um ser divino, pois de outro modo n√£o seria poss√≠vel considerar Buda e Spinoza personalidades religiosas. De igual modo, uma pessoa religiosa √© devota no sentido de que n√£o tem quaisquer d√ļvidas sobre o significado e o car√°cter desses objectos e fins superpessoais, que n√£o necessitam nem garantem uma fundamenta√ß√£o racional (…)
A ci√™ncia s√≥ pode ser criada por aqueles que est√£o profundamente imbu√≠dos de uma aspira√ß√£o de verdade e compreens√£o. Todavia, a origem deste sentimento nasce na esfera da religi√£o. A esta esfera pertence tamb√©m a f√© na possibilidade de as regula√ß√Ķes v√°lidas para o mundo real serem racionais,

Continue lendo…

O Gosto pela Cultura

√Č mais dif√≠cil encontrar um gentleman que um g√©nio. A marca mais distintiva de um homem culto √© a possibilidade de aceitar um ponto de vista diferente do seu; p√īr-se no lugar de outra pessoa e ver a vida e os seus problemas dessa perspectiva diferente. Estar disposto a experimentar uma ideia nova; poder viver nos limites das diverg√™ncias intelectuais; examinar sem calor os problemas escaldantes do dia; ter simpatia imaginativa, largueza e flexibilidade de esp√≠rito, estabilidade e equil√≠brio de sentimentos, calma ponderada para decidir – √© ter cultura.
(…) A cultura vem da contempla√ß√£o da natureza; do estudo da Literatura, Arte e Arquitectura com letras grandes; e do conhecimento pessoal das realidades emocionais da exist√™ncia. √Č uma escala de valores, ou m√©ritos, diferente da usada nas esferas dominadas pela ci√™ncia e pelo com√©rcio. Vivemos numa cultura onde o sucesso √© medido pelos bens materiais. √Č importante alcan√ßar objectivos materiais, mas ainda √© mais importante ser-se cidad√£o amadurecido, bem equilibrado e culto.

A cultura (…) est√° em n√≥s e n√£o sepultada em estranhas galerias. Significa bondade de esp√≠rito e √© a base de um bom car√°cter. A plenitude da vida n√£o vem das coisas exteriores a n√≥s;

Continue lendo…

Só o Presente é Verdadeiro e Real

Um ponto importante da sabedoria de vida consiste na propor√ß√£o correcta com a qual dedicamos a nossa aten√ß√£o em parte ao presente, em parte ao futuro, para que um n√£o estrague o outro. Muitos vivem em demasia no presente: s√£o os levianos; outros vivem em demasia no futuro: s√£o os medrosos e os preocupados. √Č raro algu√©m manter com exactid√£o a justa medida. Aqueles que, por interm√©dio de esfor√ßos e esperan√ßas, vivem apenas no futuro e olham sempre para a frente, indo impacientes ao encontro das coisas que h√£o-de vir, como se estas fossem portadoras da felicidade verdadeira, deixando entrementes de observar e desfrutar o presente, s√£o, apesar dos seus ares petualentes, compar√°veis √†queles asnos da It√°lia, cujos passos s√£o apressados por um feixe de feno que, preso por um bast√£o, pende diante da sua cabe√ßa. Desse modo, os asnos v√™em sempre o feixe de feno bem pr√≥ximo, diante de si, e esperam sempre alcan√ß√°-lo.
Tais indivíduos enganam-se a si mesmos em relação a toda a sua existência, na medida em que vivem ad interim [interinamente], até morrer. Portanto, em vez de estarmos sempre e exclusivamente ocupados com planos e cuidados para o futuro, ou de nos entregarmos à nostalgia do passado,

Continue lendo…