Passagens de Arthur Schnitzler

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A Obra e o Eco da Obra

São complementares, não a obra e a crítica, mas a obra e o eco da obra. E o crítico é apenas uma forma de eco entre outras; certamente é em geral a mais forte, mas raramente é a mais pura e é sempre aquela que se apaga mais depressa.
Sobretudo nem uma palavra, caro autor – nenhuma resposta! A √ļnica que podes opor a todos os ataques, j√° a pronunciaste: – a tua obra. Se ela perdurar, venceste.

A Verdade por si Mesma n√£o Tem nenhum Valor

H√° uma coisa mais dolorosa do que nunca poder ouvir a verdade – √© nunca poder exprimi-la, mesmo com a melhor vontade do mundo. Porque o que quer que digamos, o outro n√£o escuta nunca a verdade que lhe queremos transmitir. Aquilo que sai dos nossos l√°bios e o que se passa na alma do outro, s√£o sempre duas coisas diferentes. No instante seguinte deixa de ser semelhante – isso depende de tantas coisas que nada tinham a ver com a tua verdade e a tua vontade de verdade – isso depende do que o outro queria ouvir, da situa√ß√£o em rela√ß√£o a ti, etc…
E a verdade por si mesma não tem nenhum valor, é como uma moeda num país onde não é corrente.

Somos Todos Corruptíveis

A faculdade de se deixar corromper no sentido mais amplo do termo √© uma particularidade da esp√©cie humana em geral; mais ainda, as rela√ß√Ķes entre os homens s√≥ s√£o poss√≠veis porque somos todos corrupt√≠veis em maior ou menor grau. Cada vez que dependemos do amor, da benevol√™ncia, da simpatia ou simplesmente da delicadeza, estamos j√° no fundo corrompidos, e o nosso ju√≠zo nunca √©, por isso, verdadeiramente objectivo; e ele √©-o tanto menos quanto nos esfor√ßamos por permanecer incorrupt√≠veis.
A corruptibilidade est√° longe de se limitar √† estrita rela√ß√£o de pessoa a pessoa; uma obra, uma ac√ß√£o, um gesto pode lisonjear-nos confirmando o nosso amor pr√≥prio, as nossas opini√Ķes ou a nossa impress√£o sobre o mundo.
√Č apenas quando utilizamos conscientemente a corruptibilidade dos outros para nossa vantagem pessoal ou em detrimento de um terceiro, que ela √© um mal, mas a falta √© ent√£o mais nossa do que daquele cuja corruptibilidade nos beneficia.

Os Piores Inimigos

Os teus piores inimigos não são de modo nenhum aqueles que têm um ponto de vista diferente do teu; são, pelo contrário, aqueles que têm o mesmo mas que, por diversos motivos, prudência, desejo de ter razão, cobardia, estão impedidos de a ele aderir.

Todos nós Somos Crentes

Todos os homens da terra est√£o conscientes do infinito e da eternidade. A √ļnica diferen√ßa que existe entre eles √© saber at√© que ponto essa consci√™ncia abala cada indiv√≠duo considerado isoladamente. Um acredita num deus pessoal acima das coisas e dos homens, o outro acredita no seu pr√≥prio querer como no seu deus, uns s√£o humildes, outros revoltam-se, e todos, seja qual for o comportamento individual de cada um – todos s√£o crentes.

O Desejo de Discutir

Se as discuss√Ķes pol√≠ticas se tornam facilmente in√ļteis, √© porque quando se fala de um pa√≠s se pensa tanto no seu governo como na sua popula√ß√£o, tanto no Estado como na no√ß√£o de Estado enquanto tal. Pois o Estado como no√ß√£o √© uma coisa diferente da popula√ß√£o que o comp√Ķe, igualmente diferente do governo que o dirige. √Č qualquer coisa a meio caminho entre o f√≠sico e o metaf√≠sico, entre a realidade e a ideia.
√ą a esse g√©nero de estirilidade que est√£o geralmente condenadas, tal como acontece com as discuss√Ķes pol√≠ticas, as que incidem sobre a religi√£o, pois a religi√£o pode ser sin√≥nima de dogmas, ou de ritual, ou referir-se a posi√ß√Ķes pessoais do indiv√≠duo sobre quest√Ķes ditas eternas, o infinito e a eternidade, problemas do livre arb√≠trio e da responsabilidade ou, como se diz tamb√©m: Deus.
E o mesmo acontece com as discuss√Ķes que t√™m a ver com a maior parte dos assuntos abstractos, sobretudo a √©tica e os temas filos√≥ficos, mas tamb√©m com campos de an√°lise mais restritos, incidindo sobre os problemas mais imediatos, como por exemplo o socialismo, o capitalismo, a aristocracia, a democracia, etc…, em que as no√ß√Ķes s√£o tomadas tanto no sentido amplo como no restrito,

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Empatia com as Fraquezas

A admiração que um discípulo deve ao seu mestre oculta muitas vezes, e nem sempre de modo consciente, uma certa satisfação sentida pela observação das suas fraquezas, pelas quais ele se lhe sente ligado, justificado nas próprias fraquezas e dispensado de produzir qualquer outra prova legitimando a sua ligação.

Liberdade Ilusória

A forma √© sempre aus√™ncia de liberdade, mesmo quando √© desejada. Por isso, em nenhuma forma de Estado, mesmo na aparentemente mais livre, a no√ß√£o filos√≥fica ou mesmo pol√≠tica de liberdade pode ser transposta para a realidade. Em si, pois, a rep√ļblica √© t√£o pouco sin√≥nima de liberdade como a monarquia – mesmo absoluta – √© sin√≥nimo de falta de liberdade. A diferen√ßa entre as formas de Estado reside sempre no ritual, e o ritual √© sempre determinado, em √ļltima an√°lise, pela personalidade daquele que est√° no cimo (quer seja imperador ou presidente).

Estar de prontidão é bom, ter paciência é melhor, porém saber esperar pelo momento certo é tudo.

Estabelecer Princípios

Existem pessoas que têm propensão para modelar a sua vida de acordo com princípios definidos, Рe outras que gostam de forjar os seus princípios de acordo com os acasos do seu destino pessoal. Em ambos os casos trata-se apenas de experimentar tornar a vida o mais cómoda possível, quando o importante é, apesar de tudo, enfrentar cada acontecimento, desembaraçado de qualquer preconceito e prevenção, mesmo correndo o risco de um constante extravio.

Apenas Conhecemos Fragmentos dos Outros

Quando te encontras na base de um importante maci√ßo montanhoso, est√°s longe de conhecer toda a sua diversidade, n√£o tens nenhuma ideia das alturas que se ergueram por tr√°s do seu cimo ou por tr√°s daquele que te parece ser o cimo, n√£o suspeitas nem o perigo dos abismos nem os confort√°veis assentos ocultos entre os rochedos. √Č apenas se sobes e se persegues o teu caminho que se revelam pouco a pouco a teus olhos os segredos da montanha, alguns que esperavas, outros que te surpreendem, uns essenciais, outros insignificantes, tudo isso sempre e unicamente em fun√ß√£o da direc√ß√£o que tomares; e nunca te revelar√£o todas.
O mesmo acontece quando te encontras diante de uma alma humana.
Aquilo que se te oferece ao primeiro olhar, por mais perto que estejas, est√° longe de ser a verdade e certamente nunca √© toda a verdade. √Č apenas no decurso do caminho, quando os teus olhos se tornam mais penetrantes e nenhuma bruma perturba o teu olhar, que a natureza √≠ntima dessa alma se revela a pouco a pouco e sempre por fragmentos. Aqui √© a mesma coisa: √† medida que te afastas da zona explorada, toda a diversidade que encontraste no caminho se esbate como um sonho,

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Um Certo Grau de Vida

Quando atingimos um certo grau da vida, da experiência e do conhecimento dos homens, toda a relação, mesmo com os mais avisados e os mais amáveis dos nossos amigos, quase não vale mais do que pela atmosfera que a envolve, e todas as nossas conversas, mesmo aquelas que se dizem profundas, já não são capazes de nos dar riqueza e felicidade no plano intelectual, mas unicamente de um modo quase melódico ou musical.

Mais Vale Mostrar Talento que Bom Humor

O talento de um indivíduo reconcilia-nos muitas vezes com aquilo que pode haver de discutível no seu carácter, quando não temos de lhe suportar pessoalmente os efeitos. Mas nunca o humor agradável de alguém nos tornará indulgentes para com a sua falta de talento.

A humanidade tem o ouvido concebido de tal forma que ela continua a dormir quando o barulho retumba e só acorda com o eco.

Influências Negativas do Passado

Que um acontecimento projecte a sua sombra no futuro √© um processo regular que devemos aceitar como tal; mais grave √© o acontecimento que lan√ßa uma sombra sobre o passado, mergulhando numa obscuridade s√ļbita fragmentos da vida que se encontravam na luz e haviam por muito tempo conservado o seu brilho.

O Melhor Motivo para Criar Arte

No artista criador, qualquer produção deve estar marcada com o cunho da necessidade, caso contrário, é desviada no sentido exacto do termo. Naquele que cria por imitação e se prende em todo o caso ao efeito do instante, esse elemento de necessidade interior pode ser também substituído por um outro: a rotina, a ambição, o desejo de causar efeito.

Imparcialidade Inconsciente do Crítico

Quando um cr√≠tico deve julgar uma obra pode escolher dois m√©todos. Ou limitar-se a essa √ļnica obra do autor e abstrair das outras; – ou integrar no seu ju√≠zo toda a produ√ß√£o do autor. Mas na maior parte das vezes ele emprega um outro m√©todo que lhe deveria ser sempre interdito – consiste em integrar no quadro das suas considera√ß√Ķes, paralelamente √† obra submetida a cr√≠tica, outras obras de acordo com o humor da sua escolha, deixando arbitrariamente de lado as outras que, de momento, n√£o servem o objectivo que persegue ou o efeito que pretende obter, outrogando-se assim o direito de fragmentar o autor a seu belo prazer.
Quantas vezes acontece Рe não é necessariamente por má vontade Рque o crítico projecta na obra de um autor a sua ideia fixa, sem ser já capaz de aí ver outra coisa a não ser essa ideia, que o obceca de modo monomaníaco; Рenquanto que para o autor ela é na sua obra apenas um elemento entre dezenas e não necessariamente o mais importante.
Atribui-se ao artista uma intenção artística, ética ou outra que ele nunca teve e critica-se-lhe o facto de não ter atingido aquilo que ele queria.

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Quando uma Terceira Pessoa fica a par de um Assunto Privado…

√Č imposs√≠vel ultrapassar um incidente ocorrido entre duas pessoas a partir do momento em que ele deixa de ser um segredo entre elas. Pois, a partir do momento em que um terceiro, a partir do momento em que outros indiv√≠duos n√£o envolvidos – como n√£o pode deixar de acontecer – s√£o postos a par do segredo, este incidente que at√© ent√£o era apenas uma quest√£o entre duas pessoas, inicia uma nova exist√™ncia em consci√™ncias estranhas; assume uma nova forma, adquire um novo sentido, pode prolongar-se e repercutir-se finalmente de modo misterioso nas duas pessoas entre as quais ocorreu.

Na maior parte das vezes, uma ideia nova n√£o passa duma banalidade, velha como o mundo, de cuja realidade nos apercebemos subitamente.

O √ďdio liga mais os Indiv√≠duos que a Amizade

O √≥dio, a inveja e o desejo de vingan√ßa ligam muitas vezes mais dois indiv√≠duos um ao outro do que o podem fazer o amor e a amizade. Pois est√° em causa a comunidade de interesses interiores ou exteriores e a alegria que se sente nessa comunidade – onde √© muitas vezes determinada a ess√™ncia das rela√ß√Ķes positivas entre os indiv√≠duos: o amor e a amizade – √© sempre relativa e n√£o √© em nenhum caso um estado de alma permanente; mas as rela√ß√Ķes negativas, essas s√£o, a maior parte das vezes, absolutas e constantes. O √≥dio, a inveja e o desejo de vingan√ßa t√™m, poder-se-ia dizer, o sono mais ligeiro do que o amor. O menor sopro os desperta, enquanto que o amor e a amizade continuam tranquilamente a dormir, mesmo sob o trov√£o e os rel√Ęmpagos.