Textos sobre Livres

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Textos de livres escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Temos de Ser o que Nos Apetecer

Se n√£o mudares, os outros fazem de ti o que querem.

A velha m√°xima ¬ęSe est√°s mal, muda-te¬Ľ faz mesmo todo o sentido.

Se não nos sentimos bem com determinado relacionamento, se não estamos felizes no nosso trabalho, se não conseguimos encarar certa pessoa ou se, simplesmente, não nos sentimos bem naquele jantar, naquele ginásio ou naquela viagem, só nos resta uma alternativa: mudar.

Acontece que, e apesar de parecer simples, essa decisão é extremamente delicada. E porquê? Porque uma vez mais colocamos o mundo inteiro à nossa frente. Em vez de nos respeitarmos e levarmos a cabo o nosso desejo de liberdade, saindo de onde estamos para onde queremos estar, não, deixamo-nos ficar mesmo que o amor já não exista, mesmo que o patrão ou os colegas nos tratem mal, mesmo que continuemos a ser julgados ou cobrados pela mãe, pelo pai, pelo tio ou pelo cão e por aí adiante. Não mudamos e o caldo entorna-se. Ou seja, é o pior dos dois mundos.
N√£o comemos a sopa, n√£o nos nutrimos, e ainda nos queimamos por andarmos constantemente nas m√£os de uns e outros.

As pessoas relacionam-se mais por medo de se perderem umas às outras ou por necessidade de dominarem alguém do que por se amarem genuinamente,

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Acreditei que Podia Dar-te um Céu para Brincares

Filho. Gostava que houvesse uma aragem qualquer que me explicasse esse teu sorriso e outra que te explicasse, sem te magoar, o meu silêncio. Gostava de aprender o trejeito dos teus lábios, a maneira dos teus olhos, e to lembrar quando tivesses a minha idade. Fui um dia a tua inocência. E dela ficou-me a grande inocência de acreditar.
Acreditei que podia dar-te um céu para brincares e que a vida seria o que nós quiséssemos. Assim. Bastaria querermos, esforçarmo-nos muito, trabalharmos, e teríamos então o que desejássemos. Não digo coisas majestosas, roupas bonitas ou charretes, mas comida, comida gostosa e bem temperada, e um cavalo de cartão novo, se por acaso esquecesses o teu no quintal numa noite de chuva. Acreditei que a felicidade dos teus olhos a sorrir podia voltar aos olhos da tua mãe, aos meus e perdurar intocada nos teus. Acreditei em tantas coisas. Sabes, aproximo-me da vila e o que me espera é morrer um pouco mais. Preferia que não o soubesses, mas infelizmente nem isso posso esconder-te, porque um dia, quando te contarem a história da tua vida, dir-te-ão que numa noite de estrelas, o teu pai foi à vila e levou uma sova;

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Só o Presente é Verdadeiro e Real

Um ponto importante da sabedoria de vida consiste na propor√ß√£o correcta com a qual dedicamos a nossa aten√ß√£o em parte ao presente, em parte ao futuro, para que um n√£o estrague o outro. Muitos vivem em demasia no presente: s√£o os levianos; outros vivem em demasia no futuro: s√£o os medrosos e os preocupados. √Č raro algu√©m manter com exactid√£o a justa medida. Aqueles que, por interm√©dio de esfor√ßos e esperan√ßas, vivem apenas no futuro e olham sempre para a frente, indo impacientes ao encontro das coisas que h√£o-de vir, como se estas fossem portadoras da felicidade verdadeira, deixando entrementes de observar e desfrutar o presente, s√£o, apesar dos seus ares petualentes, compar√°veis √†queles asnos da It√°lia, cujos passos s√£o apressados por um feixe de feno que, preso por um bast√£o, pende diante da sua cabe√ßa. Desse modo, os asnos v√™em sempre o feixe de feno bem pr√≥ximo, diante de si, e esperam sempre alcan√ß√°-lo.
Tais indivíduos enganam-se a si mesmos em relação a toda a sua existência, na medida em que vivem ad interim [interinamente], até morrer. Portanto, em vez de estarmos sempre e exclusivamente ocupados com planos e cuidados para o futuro, ou de nos entregarmos à nostalgia do passado,

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A Inutilidade dos Sindicatos

A sindica√ß√£o, sa√≠da da liberdade como o monop√≥lio espont√Ęneo, √© igualmente inimiga dela, e sobretudo das vantagens dela; √©-o com menos brutalidade e evid√™ncia e, por isso mesmo, com mais seguran√ßa. Um sindicato ou associa√ß√£o de classe ‚ÄĒ comercial, industrial, ou de outra qualquer esp√©cie ‚ÄĒ nasce aparentemente de uma congrega√ß√£o livre dos indiv√≠duos que comp√Ķem essa classe; como, por√©m, quem n√£o entrar para esse sindicato fica sujeito a desvantagens de diversa ordem, a sindica√ß√£o √© realmente obrigat√≥ria. Uma vez constitu√≠do o sindicato, passam a dominar nele ‚ÄĒ parte m√≠nima que se substitui ao todo ‚ÄĒ n√£o os profissionais (comerciantes, industriais, ou o que quer que sejam), mais h√°beis e representativos, mas os indiv√≠duos simplesmente mais aptos e competentes para a vida sindical, isto √©, para a pol√≠tica eleitoral dessas agremia√ß√Ķes. Todo o sindicato √©, social e profissionalmente, um mito.
Mais incisivamente ainda: nenhuma associa√ß√£o de classe √© uma associa√ß√£o de classe. No caso especial da sindica√ß√£o na ind√ļstria e no com√©rcio, o resultado √© desaparecerem todas as vantagens da concorr√™ncia livre, sem se adquirir qualquer esp√©cie de coordena√ß√£o √ļtil ou ben√©fica. O car√°ter natural do reg√≠men livre atenua-se, porque surge em meio dele este elemento estranho e essencialmente oposto √† liberdade.

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O Poema √© uma √Ārvore de um S√≥ Fruto

Creio que nenhum de v√≥s h√°-de estranhar que eu diga que o poeta √© aquele que perdeu a palavra antes de a poder dizer; dito de outro modo. Ele √© o que fala ou escreve antes de conhecer o enunciado do que vai dizer. O grito, o sil√™ncio, a aridez da n√£o inspira√ß√£o determinam inicialmente a cria√ß√£o po√©tica; o poema nunca √© real, nunca se efectiva numa conclus√£o, ou num objectivo determinado. O poema nasce de um grito, de um assombro, de uma ruptura, da noite do nada e da disponibilidade da linguagem relacional; √© sempre a transposi√ß√£o de um referente real ou imagin√°rio para uma linguagem de equival√™ncia, mas necessariamente, livremente, distanciada da refer√™ncia. Esta linguagem √© a ¬ęcoer√™ncia da incoer√™ncia¬Ľ, ¬ęuma linguagem na linguagem¬Ľ, mantendo embora a voz mesma do existente ausente que √© o poeta, no ¬ęfingimento¬Ľ, na fic√ß√£o, na heteron√≠mia do poema. Longe de ser um astro fixo, o poema suspende o enunciado para fluir numa rela√ß√£o metam√≥rfica de palavras, de imagens, de sons e de rela√ß√Ķes que s√£o todos os elementos consonantes do poema; o poema √©, assim, um √©brio fluir de chamas, de estrelas, de possibilidades, de vibra√ß√Ķes, de sil√™ncios de uma respira√ß√£o errante em que a verdade nos escapa no mist√©rio da sua nostalgia,

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Cartas Trocadas para o Marido e para o Amante

Anais,

Uma terr√≠vel asneira foi feita. Enviaste a carta para o Hugo, no dia em que chegaste, e mandaste-lhe a minha. O Hugo est√° freneticamente a tentar entrar em contacto comigo. Mandou a Am√©lia aqui, que deixou debaixo da porta o bilhete que junto. Ela esteve aqui de manh√£ e outra vez esta noite. Pensei de manh√£ que era o pr√≥prio Hugo e que ele tinha vindo para me “apanhar”… Por isso, n√£o abri a porta.

J√° que eu tinha recebido a carta dele na noite anterior (a tua carta para ele), tive um pressentimento de que as cartas tinham sido postas nos envelopes errados e fiquei apreensivo. Esta noite enviei-lhe a sua carta para o n√ļmero 18 da Ave. de Versailles, sem dar a minha morada. N√£o posso dizer nesta carta se chegarei a receber a que me era devida. Espero que sim. Suponho que ele saiba tudo agora. Mas estou a evit√°-lo, porque n√£o quero admitir nem negar. Ele deve estar furioso, mas, ao mesmo tempo, num estado terr√≠vel. Eu pr√≥prio estou exausto de apreens√£o. Trouxe o Fred para ficar aqui comigo, porque at√© o Hugo partir vou estar em pulgas. Sei que, se ele me matasse,

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Ser Feliz

Ser feliz √© reconhecer que vale a pena viver a vida, apesar de todos os desafios, incompreens√Ķes e per√≠odos de crise. Ser feliz n√£o √© uma fatalidade do destino, mas uma conquista de quem sabe viajar para dentro do seu pr√≥prio ser.

Ser feliz √© deixar de ser v√≠tima dos problemas e tornar-se autor da sua pr√≥pria hist√≥ria. √Č atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um o√°sis no rec√īndito da sua alma. √Č agradecer a Deus em cada manh√£ pelo milagre da vida.

Ser feliz √© n√£o ter medo dos pr√≥prios sentimentos. √Č saber falar de si mesmo. E ter a coragem de ouvir um ¬ęn√£o¬Ľ. √Č ter seguran√ßa para receber uma cr√≠tica, mesmo que injusta. √Č beijar os filhos, ter prazer com os pais e ter momentos po√©ticos com os amigos, mesmo que eles nos magoem.

Ser feliz √© deixar viver a crian√ßa livre, alegre e simples que mora dentro de cada um de n√≥s. √Č ter maturidade para dizer ¬ęeu errei¬Ľ. √Č ter ousadia para dizer ¬ęperdoa-me¬Ľ. √Č ter sensibilidade para expressar ¬ęeu preciso de ti¬Ľ. E ter capacidade de dizer ¬ęeu amo-te¬Ľ.

Desejo que a vida se torne um canteiro de oportunidades que lhe permita ser feliz…

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Estou Sofrendo de Amor Feliz

Estou sofrendo de amor feliz. S√≥ aparentemente √© que isso √© contradit√≥rio. Quando se sente amor, tem-se uma funda ansiedade. √Č como se eu risse e chorasse ao mesmo tempo. Sem falar no medo que essa felicidade n√£o dure. Preciso ser livre ‚ÄĒ n√£o aguento a escravid√£o do amor grande, o amor n√£o me prende tanto. N√£o posso me submeter √† press√£o do mais forte.
Onde est√° minha corrente de energia? meu sentido de descoberta, embora esta assuma forma obscura? Eu sempre espero alguma coisa nova de mim, eu sou um frisson de espera ‚ÄĒ algo est√° sempre vindo de mim ou de fora de mim.

Vivemos Presos ao Nosso Passado e ao Nosso Futuro

A nós ligam-nos o nosso passado e o nosso futuro. Passamos quase todo o nosso tempo livre e também quanto do nosso tempo de trabalho a deixá-los subir e descer na balança. O que o futuro excede em dimensão, substitui o passado em peso, e no fim não se distinguem os dois, a meninice torna-se clara mais tarde, tal como é o futuro, e o fim do futuro já é de facto vivido em todos os nossos suspiros e assim se torna passado. Assim quase se fecha este círculo em cujo rebordo andamos. Bem, este círculo pertence-nos de facto, mas só nos pertence enquanto nos mantivermos nele; se nos afastarmos para o lado uma vez que seja, por distracção, por esquecimento, por susto, por espanto, por cansaço, eis que já o perdemos no espaço; até agora tínhamos tido o nariz metido na corrente do tempo, agora retrocedemos, ex-nadadores, caminhantes actuais, e estamos perdidos. Estamos do lado de fora da lei, ninguém sabe disso, mas todos nos tratam de acordo com isso.

O Nobre Patriotismo dos Patriotas

H√° em primeiro lugar o nobre patriotismo dos patriotas: esses amam a p√°tria, n√£o dedicando-lhe estrofes, mas com a serenidade grave e profunda dos cora√ß√Ķes fortes. Respeitam a tradi√ß√£o, mas o seu esfor√ßo vai todo para a na√ß√£o viva, a que em torno deles trabalha, produz, pensa e sofre: e, deixando para tr√°s as gl√≥rias que ganh√°mos nas Molucas, ocupam-se da p√°tria contempor√Ęnea, cujo cora√ß√£o bate ao mesmo tempo que o seu, procurando perceber-lhe as aspira√ß√Ķes, dirigir-lhe as for√ßas, torn√°-la mais livre, mais forte, mais culta, mais s√°bia, mais pr√≥spera, e por todas estas nobres qualidades elev√°-la entre as na√ß√Ķes. Nada do que pertence √† p√°tria lhes √© estranho: admiram decerto Afonso Henriques, mas n√£o ficam para todo o sempre petrificados nessa admira√ß√£o: v√£o por entre o povo, educando-o e melhorando-o, procurando-lhe mais trabalho e organizando-lhe mais instru√ß√£o, promovendo sem descanso os dois bens supremos – ci√™ncia e justi√ßa.
P√Ķem a p√°tria acima do interesse, da ambi√ß√£o, da glor√≠ola; e se t√™m por vezes um fanatismo estreito, a sua mesma paix√£o diviniza-os. Tudo o que √© seu o d√£o √† p√°tria: sacrificam-lhe vida, trabalho, sa√ļde, for√ßa, o melhor de si mesmo. D√£o-lhe sobretudo o que as na√ß√Ķes necessitam mais,

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A Confiança é o Elo entre a Sociedade e a Amizade

Ainda que a sinceridade e a confian√ßa estejam relacionadas, s√£o, no entanto, diferentes: a sinceridade consiste em abrir o cora√ß√£o e em mostrarmo-nos tal como somos por amor da verdade. Odeia o disfarce e quer reparar as suas faltas, mesmo que para isso seja preciso diminui-las pelo valor da confiss√£o. Quanto √† confian√ßa, esta n√£o nos concede o mesmo grau de liberdade, as suas regras s√£o mais rigorosas, requer mais prud√™ncia e modera√ß√£o. Ora, nem sempre estamos livres para obedecer a estes requisitos. N√£o somos s√≥ n√≥s, no que a ela diz respeito, que estamos envolvidos, porque os nossos interesses misturam-se quase sempre com os dos outros. Requer uma enorme justeza para n√£o levar os nossos amigos a entregarem-se, pelo facto de n√≥s nos termos entregado, como para lhes oferecer um presente, com a √ļnica inten√ß√£o de aumentar o pre√ßo do que n√≥s damos.
Fica-se sempre satisfeito com o facto de os outros depositarem confiança em nós porque é um tributo que oferecemos ao nosso mérito, é um depósito que fazemos à nossa confiança, são, enfim, fianças que lhes dão algum direito sobre nós, isto é, aceitamos uma certa dependência à qual nos sujeitamos voluntariamente. Não, não é minha intenção destruir com as minhas palavras a confiança,

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A Face Oculta dos Progressos Técnicos

Os progressos técnicos, que toda a gente está confundindo cada vez mais com progresso humano, vão criar cada vez mais também um suplemento de ócio que, excelente em si próprio, porque nos aproxima exactamente daquele contemplar dos lírios e das aves que deve ser nosso ideal, vai criar, olhado à nossa escala, uma força de ataque e de triunfo; mais gente vai ter cada vez mais tempo para ouvir rádio e para ir ao cinema, para frequentar museus, para ler revistas ou para discutir política, e sem que preparo algum lhe possa ter sido dado para utilizar tais meios de cultura: a consequência vai ser a de que a qualidade do que for fornecido vai descer cada vez mais e a de que tudo o que não for compreendido será destruído; raros novos beneditinos salvarão da pilhagem geral a sempre reduzida antologia que em tais coisas é possível salvar-se.
O choque mais violento vai dar-se exactamente, como era natural, nos países em que existir uma liberdade maior; nos outros, as formas autoritárias de regime de certo modo poderão canalizar mais facilmente a Humanidade para a utilização desse ócio; sucederá, porém, o seguinte: nos países não-livres, porque nenhum há livre,

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A Vida Pessoal e a Vida Social

Na vida de cada homem h√° dois aspectos: a vida pessoal, tanto mais livre quanto mais restritos s√£o os seus interesses, e a vida geral, social, em que o homem obedece inevit√°velmente a leis prescritas.
O homem vive constantemente para si pr√≥prio, mas serve de instrumento inconsciente aos fins hist√≥ricos da humanidade. O acto realizado √© impar√°vel e, concordando, no tempo, com milh√Ķes de actos realizados por outros homens, adquire a sua import√Ęncia hist√≥rica. Tanto mais elevado √© o homem na escala social quanto mais ligado se encontra aos homens superiores, quanto mais poder tem sobre os outros, mais evidentes s√£o a predestina√ß√£o e a fatalidade de cada uma das suas ac√ß√Ķes.

Corpo e Espírito

A maior parte das pessoas tem um corpo que, ou √© desleixado, formado e deformado pelo acaso, e que parece quase n√£o ter rela√ß√£o com o seu esp√≠rito e o seu car√°cter, ou ent√£o √© recoberto pela m√°scara do desporto que lhe d√° o aspecto daquelas horas em que ele tirou f√©rias de si pr√≥prio. Essas s√£o aquelas horas em que um homem desfia o sonho diurno da sua boa figura, que foi buscar √†s revistas do grande mundo da eleg√Ęncia e da beleza. Todos esses jogadores de t√©nis, cavaleiros e corredores de autom√≥veis, bronzeados e musculosos, com ares de baterem todos os recordes, apesar de, em geral, dominarem apenas razoavelmente a sua especialidade, essas damas bem vestidas ou bem despidas, sonham sonhos diurnos, e s√≥ se distinguem do comum dos mortais que t√™m sonhos despertos porque o seu sonho n√£o permanece encerrado no c√©rebro, mas sai para o ar livre, como projec√ß√£o da alma das massas, configurada de forma corp√≥rea, dram√°tica, quase apetecia dizer, na linguagem de fen√≥menos ocultos mais que suspeitos, ideopl√°stica. Mas t√™m em comum com os vulgares construtores de fantasias uma certa banalidade dos seus sonhos, tanto no que se refere ao conte√ļdo como √† proximidade do estado de vig√≠lia.

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O Amor n√£o Acontece. Decide-se.

H√° quem julgue que o amor √© alheio √† vontade humana, algo superior que elege, embala e conduz‚Ķ e que quase nada se pode fazer perante tamanha for√ßa. Isso √© uma mera paix√£o no seu sentido menos nobre. E, nesse caso, sim, o amor acontece… Ao contr√°rio, amar √© estar acima das paix√Ķes e dos apetites. Mesmo quando o amor nasce de uma espontaneidade, resulta de um claro discernimento.

O amor decorre de uma decisão. De um compromisso. Constrói-se de forma consciente. Através do heroísmo de alguém livre que decide ser o que poucos ousam. Escolhe para fim de si mesmo ser o meio para a felicidade daquele a quem ama. Sim, decide-se amar e, sim, decide-se a quem amar.

O amor aut√™ntico √© raro e extraordin√°rio, embora o seu nome sirva para quase tudo… a maior parte das vezes designa ego√≠smos entrela√ßados, cada vez mais comuns. S√£o poucos os que se aventuram, os que arriscam tudo, os que se disp√Ķem a amar mesmo quando sabem que poucos sequer perceber√£o o que fazem, o seu porqu√™ e o para qu√™.
O amor n√£o sup√Ķe reciprocidade. Amar √© dar-se por completo e aceitar tudo… n√£o se contabilizam ganhos e perdas,

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O Prazer é Abrir as Mãos

O prazer √© abrir as m√£os e deixar escorrer sem avareza o vazio-pleno que se estava encarni√ßadamente prendendo. E de s√ļbito o sobressalto: ah, abri as m√£os e o cora√ß√£o, e n√£o estou perdendo nada! E o susto: acorde, pois h√° o perigo do cora√ß√£o estar livre!
Até que se percebe que nesse espraiar-se está o prazer muito perigoso de ser. Mas vem uma segurança estranha: sempre ter-se-á o que gastar. Não ter pois avareza com esse vazio-pleno: gastá-lo.

Cada Leitura é Única

Muitos autores s√£o ao mesmo tempo os seus pr√≥prios leitores – √† medida que escrevem -, e √© por isso que tantos vest√≠gios do leitor aparecem nos seus escritos – tantas observa√ß√Ķes cr√≠ticas – tanto que pertence √† prov√≠ncia do leitor e n√£o √† do autor. Travess√Ķes – palavras em mai√ļsculas – passagens grifadas – tudo isso pertence √† esfera do leitor. O leitor p√Ķe a √™nfase como tem vontade – ele de facto faz de um livro o que deseja. N√£o √© todo o leitor um fil√≥logo? N√£o existe uma √ļnica leitura v√°lida somente, no sentido usual. A leitura √© uma opera√ß√£o livre. Ningu√©m me pode prescrever como e o que lerei.

Conta Comigo Sempre

Conta comigo sempre. Desde a s√≠laba inicial at√© √† √ļltima gota de sangue. Venho do sil√™ncio incerto do poema e sou, umas vezes constela√ß√£o e outras vezes √°rvore, tantas vezes equil√≠brio, outras tantas tempestade. A nossa mem√≥ria √© um mist√©rio, recordo-me de uma m√ļsica maravilhosa que nunca ouvi, na qual consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o obo√©.
O sonho √©, e ser√° sempre e apenas, dos vivos, dos que mastigam o p√£o amadurecido da d√ļvida e a carne deslumbrada das pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as m√£os com uma fragilidade que √© um p√°ssaro s√°bio e distra√≠do que se aninha no cora√ß√£o e se alimenta de amor, esse amor acima do desejo, bem acima do sofrimento.
Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, contigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, contigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repartirei até o que é indivisível. Tu sabes onde estou.
Sabes como me chamo. Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua antiga coragem vacilar.

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Os Sábios Célebres

Todos vós, os sábios célebres, nunca fostes mais do que os servidores do povo e da superstição popular, e não os servidores da verdade. E é precisamente por isso que vos têm honrado.
E por isso também foi tolerada a vossa incredulidade, porque parecia uma brincadeira, um rodeio engenhoso que vos levava ao povo. Assim o amo dá maior liberdade aos seus escravos e regozija-se até com a sua presunção.
Mas aquele que o povo odeia, com o ódio do lobo pelos cães, é o espírito livre, inimigo das algemas, aquele que não adora, aquele que habita as florestas.
Persegui-lo at√© ao seu esconderijo, √© aquilo a que o povo, sempre chamou ter o ¬ęsentido de justi√ßa¬Ľ; e ainda por cima d√£o ca√ßa ao solit√°rio com os seus ferozes mastins.
‘Porque a verdade est√° onde o povo est√°! Ai daqueles que a procuram!’ – √© isto o que ecoa atrav√©s dos tempos.
Quer√≠eis assentar na raz√£o a piedade tradicional do vosso povo e √© a isso que chamais ¬ęa vontade de verdade¬Ľ, √≥ s√°bios c√©lebres!
E o vosso cora√ß√£o insiste em dizer para si pr√≥prio: ‘Eu vim do povo, foi tamb√©m do povo que me veio a voz de Deus.’

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Teorias Precipitadas

√Č vulgar uma teoria ser resultado da precipita√ß√£o de um entendimento impaciente que, desejoso de se ver livre dos fen√≥menos, os substitui por imagens, conceitos, ou com frequ√™ncia por meras palavras. Pressente-se, e por vezes v√™-se at√© com clareza, que se trata apenas de expedientes. Mas n√£o √© sabido que a paix√£o e o partidarismo se deixam atrair pelos expedientes? E com toda a raz√£o, porque tanta falta lhes fazem.
(…) Avan√ßar precipitadamente para o fim a alcan√ßar, sem reflectir sobre os meios. Como se, para poder ajudar t√£o cedo quanto poss√≠vel uma ciran√ßa de ber√ßo, lhe quis√©ssemos matar o pai.
Se atentarmos em certos problemas de Arist√≥teles ficamos supreendidos com o dom de observa√ß√£o e com a imensidade de coisas que n√£o escapavam ao olhar dos gregos. E contudo cometiam o erro da precipita√ß√£o, j√° que saltavam imediatamente dos fen√≥menos para a explica√ß√£o, de onde resultaram formula√ß√Ķes teor√©ticas totalmente inadequadas. Trata-se todavia de um erro geral que ainda hoje continua a ser cometido.