Textos sobre Livres

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Textos de livres escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Estou Sofrendo de Amor Feliz

Estou sofrendo de amor feliz. S√≥ aparentemente √© que isso √© contradit√≥rio. Quando se sente amor, tem-se uma funda ansiedade. √Č como se eu risse e chorasse ao mesmo tempo. Sem falar no medo que essa felicidade n√£o dure. Preciso ser livre ‚ÄĒ n√£o aguento a escravid√£o do amor grande, o amor n√£o me prende tanto. N√£o posso me submeter √† press√£o do mais forte.
Onde est√° minha corrente de energia? meu sentido de descoberta, embora esta assuma forma obscura? Eu sempre espero alguma coisa nova de mim, eu sou um frisson de espera ‚ÄĒ algo est√° sempre vindo de mim ou de fora de mim.

Vivemos Presos ao Nosso Passado e ao Nosso Futuro

A nós ligam-nos o nosso passado e o nosso futuro. Passamos quase todo o nosso tempo livre e também quanto do nosso tempo de trabalho a deixá-los subir e descer na balança. O que o futuro excede em dimensão, substitui o passado em peso, e no fim não se distinguem os dois, a meninice torna-se clara mais tarde, tal como é o futuro, e o fim do futuro já é de facto vivido em todos os nossos suspiros e assim se torna passado. Assim quase se fecha este círculo em cujo rebordo andamos. Bem, este círculo pertence-nos de facto, mas só nos pertence enquanto nos mantivermos nele; se nos afastarmos para o lado uma vez que seja, por distracção, por esquecimento, por susto, por espanto, por cansaço, eis que já o perdemos no espaço; até agora tínhamos tido o nariz metido na corrente do tempo, agora retrocedemos, ex-nadadores, caminhantes actuais, e estamos perdidos. Estamos do lado de fora da lei, ninguém sabe disso, mas todos nos tratam de acordo com isso.

O Nobre Patriotismo dos Patriotas

H√° em primeiro lugar o nobre patriotismo dos patriotas: esses amam a p√°tria, n√£o dedicando-lhe estrofes, mas com a serenidade grave e profunda dos cora√ß√Ķes fortes. Respeitam a tradi√ß√£o, mas o seu esfor√ßo vai todo para a na√ß√£o viva, a que em torno deles trabalha, produz, pensa e sofre: e, deixando para tr√°s as gl√≥rias que ganh√°mos nas Molucas, ocupam-se da p√°tria contempor√Ęnea, cujo cora√ß√£o bate ao mesmo tempo que o seu, procurando perceber-lhe as aspira√ß√Ķes, dirigir-lhe as for√ßas, torn√°-la mais livre, mais forte, mais culta, mais s√°bia, mais pr√≥spera, e por todas estas nobres qualidades elev√°-la entre as na√ß√Ķes. Nada do que pertence √† p√°tria lhes √© estranho: admiram decerto Afonso Henriques, mas n√£o ficam para todo o sempre petrificados nessa admira√ß√£o: v√£o por entre o povo, educando-o e melhorando-o, procurando-lhe mais trabalho e organizando-lhe mais instru√ß√£o, promovendo sem descanso os dois bens supremos – ci√™ncia e justi√ßa.
P√Ķem a p√°tria acima do interesse, da ambi√ß√£o, da glor√≠ola; e se t√™m por vezes um fanatismo estreito, a sua mesma paix√£o diviniza-os. Tudo o que √© seu o d√£o √† p√°tria: sacrificam-lhe vida, trabalho, sa√ļde, for√ßa, o melhor de si mesmo. D√£o-lhe sobretudo o que as na√ß√Ķes necessitam mais,

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A Confiança é o Elo entre a Sociedade e a Amizade

Ainda que a sinceridade e a confian√ßa estejam relacionadas, s√£o, no entanto, diferentes: a sinceridade consiste em abrir o cora√ß√£o e em mostrarmo-nos tal como somos por amor da verdade. Odeia o disfarce e quer reparar as suas faltas, mesmo que para isso seja preciso diminui-las pelo valor da confiss√£o. Quanto √† confian√ßa, esta n√£o nos concede o mesmo grau de liberdade, as suas regras s√£o mais rigorosas, requer mais prud√™ncia e modera√ß√£o. Ora, nem sempre estamos livres para obedecer a estes requisitos. N√£o somos s√≥ n√≥s, no que a ela diz respeito, que estamos envolvidos, porque os nossos interesses misturam-se quase sempre com os dos outros. Requer uma enorme justeza para n√£o levar os nossos amigos a entregarem-se, pelo facto de n√≥s nos termos entregado, como para lhes oferecer um presente, com a √ļnica inten√ß√£o de aumentar o pre√ßo do que n√≥s damos.
Fica-se sempre satisfeito com o facto de os outros depositarem confiança em nós porque é um tributo que oferecemos ao nosso mérito, é um depósito que fazemos à nossa confiança, são, enfim, fianças que lhes dão algum direito sobre nós, isto é, aceitamos uma certa dependência à qual nos sujeitamos voluntariamente. Não, não é minha intenção destruir com as minhas palavras a confiança,

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A Face Oculta dos Progressos Técnicos

Os progressos técnicos, que toda a gente está confundindo cada vez mais com progresso humano, vão criar cada vez mais também um suplemento de ócio que, excelente em si próprio, porque nos aproxima exactamente daquele contemplar dos lírios e das aves que deve ser nosso ideal, vai criar, olhado à nossa escala, uma força de ataque e de triunfo; mais gente vai ter cada vez mais tempo para ouvir rádio e para ir ao cinema, para frequentar museus, para ler revistas ou para discutir política, e sem que preparo algum lhe possa ter sido dado para utilizar tais meios de cultura: a consequência vai ser a de que a qualidade do que for fornecido vai descer cada vez mais e a de que tudo o que não for compreendido será destruído; raros novos beneditinos salvarão da pilhagem geral a sempre reduzida antologia que em tais coisas é possível salvar-se.
O choque mais violento vai dar-se exactamente, como era natural, nos países em que existir uma liberdade maior; nos outros, as formas autoritárias de regime de certo modo poderão canalizar mais facilmente a Humanidade para a utilização desse ócio; sucederá, porém, o seguinte: nos países não-livres, porque nenhum há livre,

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A Vida Pessoal e a Vida Social

Na vida de cada homem h√° dois aspectos: a vida pessoal, tanto mais livre quanto mais restritos s√£o os seus interesses, e a vida geral, social, em que o homem obedece inevit√°velmente a leis prescritas.
O homem vive constantemente para si pr√≥prio, mas serve de instrumento inconsciente aos fins hist√≥ricos da humanidade. O acto realizado √© impar√°vel e, concordando, no tempo, com milh√Ķes de actos realizados por outros homens, adquire a sua import√Ęncia hist√≥rica. Tanto mais elevado √© o homem na escala social quanto mais ligado se encontra aos homens superiores, quanto mais poder tem sobre os outros, mais evidentes s√£o a predestina√ß√£o e a fatalidade de cada uma das suas ac√ß√Ķes.

Corpo e Espírito

A maior parte das pessoas tem um corpo que, ou √© desleixado, formado e deformado pelo acaso, e que parece quase n√£o ter rela√ß√£o com o seu esp√≠rito e o seu car√°cter, ou ent√£o √© recoberto pela m√°scara do desporto que lhe d√° o aspecto daquelas horas em que ele tirou f√©rias de si pr√≥prio. Essas s√£o aquelas horas em que um homem desfia o sonho diurno da sua boa figura, que foi buscar √†s revistas do grande mundo da eleg√Ęncia e da beleza. Todos esses jogadores de t√©nis, cavaleiros e corredores de autom√≥veis, bronzeados e musculosos, com ares de baterem todos os recordes, apesar de, em geral, dominarem apenas razoavelmente a sua especialidade, essas damas bem vestidas ou bem despidas, sonham sonhos diurnos, e s√≥ se distinguem do comum dos mortais que t√™m sonhos despertos porque o seu sonho n√£o permanece encerrado no c√©rebro, mas sai para o ar livre, como projec√ß√£o da alma das massas, configurada de forma corp√≥rea, dram√°tica, quase apetecia dizer, na linguagem de fen√≥menos ocultos mais que suspeitos, ideopl√°stica. Mas t√™m em comum com os vulgares construtores de fantasias uma certa banalidade dos seus sonhos, tanto no que se refere ao conte√ļdo como √† proximidade do estado de vig√≠lia.

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O Amor n√£o Acontece. Decide-se.

H√° quem julgue que o amor √© alheio √† vontade humana, algo superior que elege, embala e conduz‚Ķ e que quase nada se pode fazer perante tamanha for√ßa. Isso √© uma mera paix√£o no seu sentido menos nobre. E, nesse caso, sim, o amor acontece… Ao contr√°rio, amar √© estar acima das paix√Ķes e dos apetites. Mesmo quando o amor nasce de uma espontaneidade, resulta de um claro discernimento.

O amor decorre de uma decisão. De um compromisso. Constrói-se de forma consciente. Através do heroísmo de alguém livre que decide ser o que poucos ousam. Escolhe para fim de si mesmo ser o meio para a felicidade daquele a quem ama. Sim, decide-se amar e, sim, decide-se a quem amar.

O amor aut√™ntico √© raro e extraordin√°rio, embora o seu nome sirva para quase tudo… a maior parte das vezes designa ego√≠smos entrela√ßados, cada vez mais comuns. S√£o poucos os que se aventuram, os que arriscam tudo, os que se disp√Ķem a amar mesmo quando sabem que poucos sequer perceber√£o o que fazem, o seu porqu√™ e o para qu√™.
O amor n√£o sup√Ķe reciprocidade. Amar √© dar-se por completo e aceitar tudo… n√£o se contabilizam ganhos e perdas,

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O Prazer é Abrir as Mãos

O prazer √© abrir as m√£os e deixar escorrer sem avareza o vazio-pleno que se estava encarni√ßadamente prendendo. E de s√ļbito o sobressalto: ah, abri as m√£os e o cora√ß√£o, e n√£o estou perdendo nada! E o susto: acorde, pois h√° o perigo do cora√ß√£o estar livre!
Até que se percebe que nesse espraiar-se está o prazer muito perigoso de ser. Mas vem uma segurança estranha: sempre ter-se-á o que gastar. Não ter pois avareza com esse vazio-pleno: gastá-lo.

Cada Leitura é Única

Muitos autores s√£o ao mesmo tempo os seus pr√≥prios leitores – √† medida que escrevem -, e √© por isso que tantos vest√≠gios do leitor aparecem nos seus escritos – tantas observa√ß√Ķes cr√≠ticas – tanto que pertence √† prov√≠ncia do leitor e n√£o √† do autor. Travess√Ķes – palavras em mai√ļsculas – passagens grifadas – tudo isso pertence √† esfera do leitor. O leitor p√Ķe a √™nfase como tem vontade – ele de facto faz de um livro o que deseja. N√£o √© todo o leitor um fil√≥logo? N√£o existe uma √ļnica leitura v√°lida somente, no sentido usual. A leitura √© uma opera√ß√£o livre. Ningu√©m me pode prescrever como e o que lerei.

Conta Comigo Sempre

Conta comigo sempre. Desde a s√≠laba inicial at√© √† √ļltima gota de sangue. Venho do sil√™ncio incerto do poema e sou, umas vezes constela√ß√£o e outras vezes √°rvore, tantas vezes equil√≠brio, outras tantas tempestade. A nossa mem√≥ria √© um mist√©rio, recordo-me de uma m√ļsica maravilhosa que nunca ouvi, na qual consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o obo√©.
O sonho √©, e ser√° sempre e apenas, dos vivos, dos que mastigam o p√£o amadurecido da d√ļvida e a carne deslumbrada das pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as m√£os com uma fragilidade que √© um p√°ssaro s√°bio e distra√≠do que se aninha no cora√ß√£o e se alimenta de amor, esse amor acima do desejo, bem acima do sofrimento.
Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, contigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, contigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repartirei até o que é indivisível. Tu sabes onde estou.
Sabes como me chamo. Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua antiga coragem vacilar.

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Os Sábios Célebres

Todos vós, os sábios célebres, nunca fostes mais do que os servidores do povo e da superstição popular, e não os servidores da verdade. E é precisamente por isso que vos têm honrado.
E por isso também foi tolerada a vossa incredulidade, porque parecia uma brincadeira, um rodeio engenhoso que vos levava ao povo. Assim o amo dá maior liberdade aos seus escravos e regozija-se até com a sua presunção.
Mas aquele que o povo odeia, com o ódio do lobo pelos cães, é o espírito livre, inimigo das algemas, aquele que não adora, aquele que habita as florestas.
Persegui-lo at√© ao seu esconderijo, √© aquilo a que o povo, sempre chamou ter o ¬ęsentido de justi√ßa¬Ľ; e ainda por cima d√£o ca√ßa ao solit√°rio com os seus ferozes mastins.
‘Porque a verdade est√° onde o povo est√°! Ai daqueles que a procuram!’ – √© isto o que ecoa atrav√©s dos tempos.
Quer√≠eis assentar na raz√£o a piedade tradicional do vosso povo e √© a isso que chamais ¬ęa vontade de verdade¬Ľ, √≥ s√°bios c√©lebres!
E o vosso cora√ß√£o insiste em dizer para si pr√≥prio: ‘Eu vim do povo, foi tamb√©m do povo que me veio a voz de Deus.’

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Teorias Precipitadas

√Č vulgar uma teoria ser resultado da precipita√ß√£o de um entendimento impaciente que, desejoso de se ver livre dos fen√≥menos, os substitui por imagens, conceitos, ou com frequ√™ncia por meras palavras. Pressente-se, e por vezes v√™-se at√© com clareza, que se trata apenas de expedientes. Mas n√£o √© sabido que a paix√£o e o partidarismo se deixam atrair pelos expedientes? E com toda a raz√£o, porque tanta falta lhes fazem.
(…) Avan√ßar precipitadamente para o fim a alcan√ßar, sem reflectir sobre os meios. Como se, para poder ajudar t√£o cedo quanto poss√≠vel uma ciran√ßa de ber√ßo, lhe quis√©ssemos matar o pai.
Se atentarmos em certos problemas de Arist√≥teles ficamos supreendidos com o dom de observa√ß√£o e com a imensidade de coisas que n√£o escapavam ao olhar dos gregos. E contudo cometiam o erro da precipita√ß√£o, j√° que saltavam imediatamente dos fen√≥menos para a explica√ß√£o, de onde resultaram formula√ß√Ķes teor√©ticas totalmente inadequadas. Trata-se todavia de um erro geral que ainda hoje continua a ser cometido.

Os Juízos Ligeiros da Imprensa

Incontestavelmente foi a imprensa, com a sua maneira superficial e leviana de tudo julgar e decidir, que mais concorreu para dar ao nosso tempo o funesto e j√° irradic√°vel h√°bito dos ju√≠zos ligeiros. Em todos os s√©culos se improvisaram estouvadamente opini√Ķes: em nenhum, por√©m, como no nosso, essa improvisa√ß√£o impudente se tornou a opera√ß√£o corrente e natural do entendimento. Com excep√ß√£o de alguns fil√≥sofos mais met√≥dicos, ou de alguns devotos mais escrupulosos, todos n√≥s hoje nos desabituamos, ou antes nos desembara√ßamos alegremente do penoso trabalho de reflectir. √Č com impress√Ķes que formamos as nossas conclus√Ķes. Para louvar ou condenar em pol√≠tica o facto mais complexo, e onde entrem factores m√ļltiplos que mais necessitem de an√°lise, n√≥s largamente nos contentamos com um boato escutado a uma esquina. Para apreciar em literatura o livro mais profundo, apenas nos basta folhear aqui e al√©m uma p√°gina, atrav√©s do fumo ondeante do charuto.
O m√©todo do velho Cuvier, de julgar o mastodonte pelo osso, √© o que adoptamos, com magn√≠fica inconsci√™ncia, para decidir sobre os homens e sobre as obras. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza √© fulminante. Com que espl√™ndida facilidade exclamamos, ou se trate de um estadista, ou se trate de um artista: ¬ę√Č uma besta!

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Grandes Homens Forjam-se a si Próprios

Para conhecer a realidade do mundo, √ļnico fim s√©rio da ci√™ncia, √© preciso entrar no combate da vida como entravam na li√ßa os paladinos bastardos – sem pai e sem padrinho. Os pr√≠ncipes n√£o constituem excep√ß√£o a esta lei geral da forma√ß√£o dos homens. Da educa√ß√£o de gabinete, do bafo enervante dos mestres, dos camareiros e das aias, nunca sairam sen√£o doentes e pedantes.
Na sagração dos czares há uma cerimónia de alta significação simbólica: o imperador não se confirma enquanto por três vezes não haja descido do trono e penetrado sozinho na multidão; e isto quer dizer que na convivência do povo a autoridade e o valor dos monarcas recebe uma tão sagrada unção como a da santa crisma. Todos os reis fortes se fizeram e se educaram a si mesmos nos mais rudes e mais hostis contactos da natureza e da sociedade humana.
Veja vossa alteza Carlos Magno, que s√≥ aos quarenta anos √© que mandou chamar um mestre para aprender a ler. Veja Pedro o Grande, do qual a educa√ß√£o de c√Ęmara come√ßou por fazer um poltr√£o. Aos quinze anos n√£o se atrevia a atravessar um ribeiro. Reagiu enfim sobre si mesmo pela sua √ļnica for√ßa pessoal.

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O Tele-Lixo

Se a √ļnica coisa que oferecerem √†s pessoas for tele-lixo e omitirem que existem outras coisas, elas acreditar√£o que n√£o existe mais nada para l√° do lixo. Nestes momentos, a audi√™ncia √© a rainha e por causa dela √© l√≠cito uma pessoa at√© matar a av√≥. Os meios de comunica√ß√£o t√™m grande parte da responsabilidade nisto, embora seja necess√°rio perguntar quem move os seus fios. Por detr√°s h√° sempre um banco ou um governo. Um jornal independente? Uma r√°dio livre? Uma televis√£o objectiva? Isso n√£o existe. Essa mistura, o tele-lixo e os meios de comunica√ß√£o dependentes, provoca que a sociedade esteja gravemente doente.

Reivindico o Meu Direito Próprio de Pensar

Queixas-te de teres a√≠ falta de livros. N√£o interessa a quantidade, mas sim a qualidade: a leitura √© proveitosa se for met√≥dica, se apenas for variada torna-se um mero divertimento. Quem deseja chegar √† meta que se prop√īs deve seguir um s√≥ caminho, e n√£o vaguear por v√°rios: de outro modo n√£o viaja, deixa-se ir ao acaso.
(…) Confio, e muito, no pensamento dos grandes homens, mas reivindico o meu direito pr√≥prio de pensar. De resto eles n√£o nos legaram verdades acabadas, mas sim sujeitas √† investiga√ß√£o; e porventura teriam descoberto o essencial se n√£o tivessem investigado tamb√©m temas sup√©rfluos. Mas gastaram tempo imenso em jogos de palavras, em discuss√Ķes capciosas que agu√ßam inutilmente o engenho. Construimos argumentos tortuosos, empregamos termos de significa√ß√£o amb√≠gua, finalmente desatamos toda a trama. Temos assim tanto tempo livre? J√° sabemos como encarar a vida e a morte? O que devemos procurar, com todas as for√ßas, √© o modo de nos n√£o deixarmos enganar pelas coisas, e n√£o pelas palavras.
Para qu√™ analisar as diferen√ßas entre palavras sin√≥nimas, que n√£o causam dificuldade a ningu√©m a n√£o ser em discuss√Ķes de escola? As coisas enganam-nos: aprendamos a observ√°-las. Tomamos por bens coisas que o n√£o s√£o,

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O Céu e a Terra

Aqueles que afirmam existir mais coisas no céu que na terra, têm razão e não têm, por serem ambos a mesma coisa, embora em planos inversos. Todas as almas sabem disto, quando estão no etéreo, à espera de reencarnar, mas depois esquecem-se, quando mergulham no limbo e se agarram ao corpo mirrado de uma coisa viva que há-de ser.
E, tenho para mim, que as beatas n√£o fazem por mal quando batem no peito e censuram o resto do mundo por n√£o ser igual a si. Buscam, talvez, um comportamento livre dos corpos que as aproxime do que elas foram um dia: uma coisa di√°fana e sem corpo, desprendidas da realidade da carne.

O Irracional no Amor

Se √© rid√≠culo beijar uma mulher feia, tamb√©m √© rid√≠culo dar um beijo a uma beleza. A presun√ß√£o de que amando de uma certa maneira se tem o direito de rir do vizinho que tem outra maneira de amar, n√£o vale mais do que a arrog√Ęncia de certo meio social. Tal soberba n√£o p√Ķe ningu√©m ao abrigo do c√≥mico universal, porque todos os homens se encontram na impossibilidade de explicar a praxe a que se submetem, a qual pretende ter um alcance universal, pretende significar que os amantes querem pertencer um ao outro por toda a eternidade, e, o que mais divertido √©, pretende tamb√©m convenc√™-los de que h√£o-de cumprir fielmente o juramento.
Que um homem rico, muito bem sentado na sua poltrona, acene com a cabe√ßa, ou volte a cara para a direita e para a esquerda, ou bata fortemente com um p√© no ch√£o, e que, uma vez perguntado pela raz√£o de tais actos, me responda: ¬ęn√£o sei; apeteceu-me de repente; foi um movimento involunt√°rio¬Ľ, compreendo isso muito bem. Mas se ele me respondesse o que costumam responder os amantes, quando lhes pedem que expliquem os seus gestos e as suas atitudes, se me dissesse que em tais actos consistia a sua maior felicidade,

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O Homem РUm Ser Egoísta

O motor principal e fundamental no homem, bem como nos animais, √© o ego√≠smo, ou seja, o impulso √† exist√™ncia e ao bem-estar. […] Na verdade, tanto nos animais quanto nos seres humanos, o ego√≠smo chega a ser id√™ntico, pois em ambos une-se perfeitamente ao seu √Ęmago e √† sua ess√™ncia.
Desse modo, todas as ac√ß√Ķes dos homens e dos animais surgem, em regra, do ego√≠smo, e a ele tamb√©m se atribui sempre a tentativa de explicar uma determinada ac√ß√£o. Nas suas ac√ß√Ķes baseia-se tamb√©m, em geral, o c√°lculo de todos os meios pelos quais procura-se dirigir os seres humanos a um objectivo. Por natureza, o ego√≠smo √© ilimitado: o homem quer conservar a sua exist√™ncia utilizando qualquer meio ao seu alcance, quer ficar totalmente livre das dores que tamb√©m incluem a falta e a priva√ß√£o, quer a maior quantidade poss√≠vel de bem-estar e todo o prazer de que for capaz, e chega at√© mesmo a tentar desenvolver em si mesmo, quando poss√≠vel, novas capacidades de deleite. Tudo o que se op√Ķe ao √≠mpeto do seu ego√≠smo provoca o seu mau humor, a sua ira e o seu √≥dio: ele tentar√° aniquil√°-lo como a um inimigo. Quer possivelmente desfrutar de tudo e possuir tudo;

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