Passagens de Miguel Torga

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Frases, pensamentos e outras passagens de Miguel Torga para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

O mal é ninguém ter ainda percebido que o problema para mim consiste apenas em saber de que lado estão os valores da vida. Se os meus valores estivessem trocados, e eu o percebesse, seria eu o primeiro a destrocá-los. Mas não vejo que estejam. E não mudo.

Confiança

O que é bonito neste mundo, e anima,
√Č ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura…
E que a doçura
Que se n√£o prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova…

Quase um Poema de Amor

H√° muito tempo j√° que n√£o escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paix√£o
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
‚ÄĒ H√° muito tempo j√° que n√£o escrevo um poema
De amor.

√Č Imposs√≠vel que o Tempo Actual n√£o Seja o Amanhecer doutra Era

√Č imposs√≠vel que o tempo actual n√£o seja o amanhecer doutra era, onde os homens signifiquem apenas um instinto √†s ordens da primeira solicita√ß√£o. Tudo quanto era coer√™ncia, dignidade, hombridade, respeito humano, foi-se. Os dois ou tr√™s casos pessoais que conhe√ßo do s√©culo passado, levam-me a concluir que era uma gente naturalmente cheia de limita√ß√Ķes, mas digna, direita, capaz de repetir no fim da vida a palavra com que se comprometera no in√≠cio dela. Al√©m disso her√≥ica nas suas dores, sofrendo-as ao mesmo tempo com a tristeza do animal e a grandeza da pessoa. Agora √© esta ferocidade que se v√™, esta coragem que n√£o d√° para deixar abrir um panar√≠cio ou parir um filho sem anestesia, esta tartufice, que a gente chega a perguntar que diferen√ßa haver√° entre uma humanidade que √© daqui, dali, de acol√°, conforme a brisa, e uma col√≥nia de bichos que sentem a humidade ou o cheiro do alimento de certo lado, e n√£o t√™m mais nenhuma hesita√ß√£o nem mais nenhum entrave.

Enchi com frequ√™ncia uma p√°gina de lam√ļrias, quando na verdade estava cheio de for√ßa e de alegria.

O Poeta

Triste, lá vai à ronda dos segredos
O maluco que rouba quanto vê.
Branco, do coração aos dedos,
√Č todo antenas onde apenas l√™.

Murcha-lhe nos pés o rosmaninho
E a própria rosa, de o sentir, descora;
Mas é um Deus que passeia o seu caminho
A beber a amargura de quem chora.

Magro, l√° passa, e l√° se vai consigo
A luz das coisas e a flor de tudo.
√Č um bruxo lento, tenebroso e antigo,
Pálido, sério, solitário e mudo.

A r√°dio foi para a m√ļsica o que o jornalismo foi para a literatura. Da mesma maneira que n√£o h√° Cervantes que resista entre duas colunas de uma gazeta, n√£o h√° Beethoven que se aguente entre dois fados da Mouraria.

Que belo é ter um amigo! Ontem eram ideias contra ideias. Hoje é este fraterno abraço a afirmar que acima das ideias estão os homens. Um sol tépido a iluminar a paisagem de paz onde esse abraço se deu, forte e repousante. Que belo e que natural é ter um amigo!

Canção para a Minha Mãe

E sem um gesto, sem um n√£o, partias!
Assim a luz eterna se extinguia!
Sem um adeus, sequer, te despedias,
Atraiçoando a fé que nos unia!

Terra lavrada e quente,
Regaço de um poeta criador,
Ias-te embora antes do sol poente,
Triste como semente sem calor!

Ias, resignada, apodrecer
À sombra das roseiras outonais!
Cor da alegria, c√Ęntico a nascer,
Trocavas por ciprestes pinheirais!

Esta Prosa Travada

P√Ķe-se a gente a ler estes Gides, estes Munthes, estes Malraux. E √© sempre a mesma sensa√ß√£o de plenitude. Sempre a mesma sensa√ß√£o de que, depois daquilo, n√£o vale a pena escrever uma palavra, de mais a mais nesta l√≠ngua de que o diabo ainda se serve para falar √† av√≥… Mas depois vem a revolta. Esta impotente revolta de todo o verdadeiro escritor portugu√™s que come√ßou por nascer atr√°s duma fraga e acaba por gastar a vida em Paio Pires, amanuense de secretaria. Metessem no bra√ßo dum Gide uma manga de alpaca, e eu queria ver… Ent√£o um homem nasce em Paris ou numa terra lavada da Su√©cia, tanto faz, mestres logo √† beira do ber√ßo, todas as civiliza√ß√Ķes na biblioteca do pai, uma vida inteira pelo mundo al√©m, e aqueles neur√≥nios, e aqueles sentidos n√£o h√£o-de reagir?! O mais bronco ser humano, quando fala com um Wilde, ouviu pelo menos falar o autor do De Profundis. Evidentemente √© preciso mais alguma coisa do que ir √† China e ter certa experi√™ncia para escrever A Condi√ß√£o Humana. Mas, sem um homem andar de avi√£o, como h√°-de um homem ganhar perspectivas de p√°ssaro e falar de po√ßos de ar?!
…E a gente n√£o tem outro rem√©dio sen√£o gastar as horas a fabricar esta prosa travada,

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Desejar Aplausos

Desejar aplausos em arte √© mais uma necessidade do que uma vaidade. √Č sentir que se √© necess√°rio, que nos querem. N√£o h√° nada mais esterilizante do que estar o dia inteiro no consult√≥rio √† espera de doentes que nos passam √† porta e v√£o √† consulta do vizinho. Escrever para a posteridade n√£o consola nem estimula ningu√©m. A leg√≠tima ora√ß√£o de todo o artista, quer queiram, quer n√£o, tem de ser esta: dai-nos, Senhor, um pouco de gl√≥ria em vida.

O mundo √© uma realidade universal, desarticulada em bili√Ķes de realidades individuais.

Portugal

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que n√£o te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Ser√°s sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilus√£o,
Surdo √†s raz√Ķes do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na g√°vea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.

Inocência

Vou aqui como um anjo, e carregado
De crimes!
Com asas de poeta voa-se no c√©u…
De tudo me redimes,
Penitência
De ser artista!
Nada sei,
Nada valho,
Nada faço,
E abre-se em mim a força deste abraço
Que abarca o mundo!

Tudo amo, admiro e compreendo.
Sou como um sol fecundo
Que adoça e doira, tendo
Calor apenas.
Puro,
Divino
E humano como os outros meus irm√£os,
Caminho nesta ingénua confiança
De criança
Que faz milagres a bater as m√£os.

O que √© pena √© que neste areal da vida, onde cada um segue o seu caminho, n√£o haja nem toler√Ęncia nem humildade para respeitar o norte que o vizinho escolheu.

Como a gente se perde! A linguagem que o meu sangue entende ‚ÄĒ √© esta. A comida que o meu est√īmago deseja ‚ÄĒ √© esta. O ch√£o que os meus p√©s sabem pisar ‚ÄĒ √© este. E, contudo, eu n√£o sou j√° daqui. Pare√ßo uma destas √°rvores que se transplantam, que t√™m m√° sa√ļde no pa√≠s novo, mas que morrem se voltam √† terra natal.

A Minha Luta

A minha luta √© para encontrar o centro, o n√ļcleo de toda uma infinidade de justifica√ß√Ķes, que superficialmente parecem satisfazer-me e s√£o, afinal, folhas caducas do meu tronco. Determinar, numa palavra, que causa √ļltima me conduz, que for√ßa polariza os meus actos. Mas estou longe dessa descoberta. Eliminei o divino, porque era divino e eu sou humano; superei o pecado, porque viver sem pecado era um absurdo moral; e consegui perceber que a vida n√£o √© tr√°gica por estar balizada pelo nascimento e pela morte, que s√£o condi√ß√Ķes de exist√™ncia e n√£o condena√ß√Ķes dela. Contudo, nada resolvi. Continua a escapar-me das m√£os a sombra de um fantasma paradoxal. Uma sombra que √© uma pura alucina√ß√£o dos sentidos, que sabem que apenas o real lhes merece cr√©dito, e, sobretudo, da raz√£o, que sabe que a √ļnica consci√™ncia do mundo √© ela pr√≥pria, princ√≠pio e fim de si mesma.

Como é Difícil Ser Natural

√Č curioso como √© dif√≠cil ser natural. Como a gente est√° sempre pronta a vestir a casaca das ideias, sem a humildade de se mostrar em camisa, na intimidade simples e humana da estupidez ou mesmo da indiferen√ßa. Fiz agora um grande esfor√ßo para dizer coisas brilhantes da guerra futura, da harmonia dos povos, da pr√≥xima crise. E, afinal de contas, era em camisa que eu devia continuar quando a visita chegou. No fundo, n√£o disse nada de novo, n√£o fiquei mais do que sou, n√£o mudei o curso da vida. Fui apenas rid√≠culo. Se n√£o aos olhos do interlocutor, que disse no fim que gostou muito de me ouvir, pelo menos aos meus, o que ainda √© mais penoso e mais tr√°gico.

√Č espantosa a tend√™ncia do portugu√™s para a promiscuidade! Chega a umas termas, senta-se, volta-se para o vizinho da direita e, sem dizer √°gua-vai, conta-lhe a vida.