Passagens de Miguel Torga

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À Beleza

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
N√£o te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
√Čs a ess√™ncia dos anos,
O que vem e o que foi.

√Čs a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
√Čs aquele alimento
De quem, farto de p√£o, anda faminto.

√Čs a gra√ßa da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
√Čs o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

√Čs um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
√Čs o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

√Čs a beleza, enfim. √Čs o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem tra√ßo…
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.

A Evidência da Morte

√Äs vezes ponho-me a pensar se a aceita√ß√£o calma da morte no homem da terra n√£o ser√° o resultado desta √≠ntima comunh√£o com o ritmo da natureza. No inverno, √°rvores despidas; na primavera, folhas e flores; no ver√£o, frutos. No inverno seguinte, √°rvores despidas; na primavera, folhas e flores; no ver√£o, frutos. No inverno a seguir… Eu bem sei que o homem da cidade tem por sua vez mil maneiras de notar este eterno retorno da vida e da morte. Parece-me √© que ali a coisa n√£o tem esta nitidez, esta evid√™ncia, esta fatalidade.

Vou tentar ser bom marido, cumpridor. Mas quero que saibas, enquanto √© tempo, que em todas as circunst√Ęncias te troco por um verso.

O mal de quem apaga as estrelas é não se lembrar de que não é com candeias que se ilumina a vida.

A intimidade desta vida de aldeia é um espectáculo ao mesmo tempo repugnante e maravilhoso. Estrume da cabeça aos pés. Entre o porco e o dono não há destrinça. Mas, ao cabo, esta animalidade toda, de tão natural, acaba por ser pura e limpa como a bosta de boi.

√öltimo Natal

Menino Jesus, que nasces
Quando eu morro,
E trazes a paz
Que n√£o levo,
O poema que te devo
Desde que te aninhei
No entendimento,
E nunca te paguei
A contento
Da devoção,
Mal entoado,
Aqui te fica mais uma vez
Aos pés,
Como um tição
Apagado,
Sem calor que os aqueça.
Como ele me desobrigo e desengano:
√Čs divino, e eu sou humano,
Não há poesia em mim que te mereça.

O Encanto da Vida

Todas as noites acordado at√© desoras, √† espera da √ļltima cena de pancadaria num jogo de futebol, do √ļltimo insulto num debate parlamentar, do √ļltimo discurso demag√≥gico num com√≠cio eleitoral, da √ļltima pirueta dum cabotino entrevistado, da √ļltima farsa no palco internacional. Crucifica√ß√Ķes masoquistas, que a prud√™ncia desaconselha e a imprud√™ncia imp√Ķe. Vou deste mundo farto de o conhecer e faminto de o descobrir.

Mas n√£o h√° perspic√°cia, nem const√Ęncia de aten√ß√£o capazes de lhe prefigurar os imprevistos. O que acontece hoje excede sempre o que sucedeu ontem. A viol√™ncia, o facciosismo, a ambi√ß√£o de poder, a crueldade e o exibicionismo n√£o t√™m limites. Felizmente que a abnega√ß√£o, a generosidade e o altru√≠smo tamb√©m n√£o. E o encanto da vida √© precisamente esse: nenhum excesso nela ser previs√≠vel. Nem no mal nem no bem. E n√£o me canso de o verificar, de surpresa em surpresa, √† luz dos acontecimentos.

Quando julgo que estou devidamente informado sobre o amor, sobre o ódio, sobre a santidade, sobre a perfídia, sobre as virtudes e os defeitos humanos, acabo por concluir que soletro ainda o á-bê-cê da realidade. Cabeçudo como sou, teimo na aprendizagem. Hoje fizeram-me a revelação surpreendente de que um avarento meu conhecido,

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Prever o Futuro

Das coisas mais difíceis que há na vida é prever o futuro. Quando se tem quarenta anos, e já se pode olhar isto com certa perspectiva, é que se vê como se errou em todas as profecias. Conseguem-se vislumbrar, quando muito, as linhas gerais, os aspectos mais grosseiros das veredas do porvir. Isto, por exemplo: que a humanidade é móvel, oscilante, indo para o mau caminho quando vai no bom, e para o bom quando vai no mau.

Exercício Espiritual

Ouço-os de todo o lado.
Eu é que sou assim.
Eu é que sou assado,
Eu é que sou o anjo revoltado,
Eu √© que n√£o tenho santidade…

Quando, afinal, ninguém
P√Ķe nos ombros a capa da humildade,
E vem.

Eu Gosto da Paisagem

Eu gosto da paisagem. Mas amo-a duma maneira casta, comovida, sem poder macular a sua intimidade em descri√ß√Ķes a vint√©m por palavra. Chego a uma terra e n√£o resisto: tenho de me meter pelos campos fora, pelas serras, pelos montes, saber das culturas, beber o vinho e provar o p√£o. E quando anoitece volto, como agora, cheio do enigma que fez cada regi√£o do seu feitio, tal e qual como p√īs nas costas do dromed√°rio aquela incr√≠vel marreca, e no pesco√ßo do le√£o aquela fant√°stica juba.

Em Portugal, as pessoas são imbecis ou por vocação, ou por coacção, ou por devoção.

Tempo

Tempo ‚ÄĒ defini√ß√£o da ang√ļstia.
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Fica apenas a tua negra sombra:
‚ÄĒ O passado,
Amargura maior, fotografada.

Tempo…
E n√£o haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
Que estrangule a ampulheta duma vez!

Que realize o crime e a perfeição
De cortar aquele fio movediço
De areia
Que nenhum tecel√£o
√Č capaz de tecer na sua teia!

Muito grande e muito belo √© um homem quando se despe e se mostra todo! O que nos degrada, diminui e apouca, n√£o √© sermos pequenos; √© n√£o termos dos nossos defeitos a consci√™ncia inteira. Sermos som√≠ticos e n√£o nos apercebermos disso; sermos burros, e n√£o darmos conta; gostarmos da ¬ęVi√ļva Alegre¬Ľ, e andarmos convencidos de que gostamos de Stravinski.

Em termos absolutos, o homem é um valor imponderável, inteiro e perfeito como um dogma. Mas em termos relativos, sociais, o homem é o que vale para os seus semelhantes. E é na contradição de medida que vai de próximo a próximo que consiste o drama de ninguém conseguir ser ao mesmo tempo amado em Tebas e Atenas.

Liberdade √© disciplina, consci√™ncia e auto-limita√ß√£o. (…) Mas vamos juntar-lhe actualidade, t√©cnica, e um conceito mais humano e dial√©ctico de encarar os problemas. Teremos a nossa ordem, que n√£o h√°-de precisar de pistolas da ordenan√ßa, e teremos as nossas realiza√ß√Ķes. Desejamos coisas simples e poss√≠veis.

Escravizados ao Além

Acabar com a morte como agonia di√°ria da humanidade √© talvez o maior bem que se pode fazer hoje ao homem. O cristianismo transformou a vida numa cruz, porque lhe p√īs a consci√™ncia da morte √† cabeceira. E crentes e ateus vivem no mesmo terror. Ora a ideia terr√≠fica do fim n√£o √© uma condi√ß√£o fisiol√≥gica, nem mesmo intelectual do homem. Nem os Gregos, nem os Romanos, por exemplo, sentiam a morte com a irrepar√°vel ang√ļstia que nos r√≥i. √Č for√ßoso, pois, que se arranquem as ra√≠zes desta dor, custe o que custar. Escravizados ao al√©m, os nossos dias aqui n√£o podem ter liberdade nem alegria. Qualquer doutrina que nega ao homem o direito de ser pleno na sua f√≠sica dura√ß√£o, √© uma doutrina de castra√ß√£o e de aniquilamento. Ir buscar ao post-mortem as leis que devem limitar a expans√£o abusiva da personalidade, √© o artif√≠cio mais desgra√ßado que se podia inventar. Pregue-se e exija-se do indiv√≠duo medida e disciplina, mas que nas√ßam da sua pr√≥pria harmonia. Institua-se uma √©tica com ra√≠zes no mesmo ch√£o onde o homem caminha.

Eu Acredito na História

Eu acredito na História. Por isso, espero que ela escarre um dia sobre esta época, agoniada de nojo. Será tarde, evidentemente, para que os tartufos de agora sintam o cilindro da justiça a brunir-lhes a grandeza, e para que os humilhados tenham ainda em vida a desforra que merecem. Mas o homem dura pouco demais para poder assistir ao espectáculo inteiro da comédia de que também é comparsa. Tem de nomear representantes até para comerem os frutos das próprias árvores que planta. De maneira que eu delego na História um vómito azedo sobre isto.

Estes meus contempor√Ęneos lembram-me certos arbustos que nascem no c√īncavo de uma rocha, onde s√≥ uma rasa de terra √© o poss√≠vel pasto de qualquer avidez. Vivem de vagar, cautelosamente, n√£o v√° uma raiz mais imprudente consumir numa hora o que h√°-de ser comido em oitenta anos.

Que Tristeza Isto de a Gente Escrever

Que tristeza isto de a gente escrever! Secos como paus na vida, e sai-nos depois a ternura pelo bico da pena! Comigo √© assim. E como ningu√©m me l√™‚ÄĒningu√©m dos que eu mais desejava que recebessem ternura de mim (minha M√£e, meu Pai, minha Irm√£, uns pobres amigos rudes que tenho na minha terra e uns infelizes que encontro por este mundo) ‚ÄĒ, fica tudo em letra morta. Hoje todo eu fui uma sede ardente de abra√ßar um infeliz que calcorreava √†s apalpadelas as ruas escaroladas da Nazar√©. Um dia como uma estrela, aquela maravilha ali para se ver, e o desgra√ßado cego de nascen√ßa! Mas o abra√ßo saiu-me aqui, a tinta.

O mal é ninguém ter ainda percebido que o problema para mim consiste apenas em saber de que lado estão os valores da vida. Se os meus valores estivessem trocados, e eu o percebesse, seria eu o primeiro a destrocá-los. Mas não vejo que estejam. E não mudo.