Passagens de Miguel Torga

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Inocência

Vou aqui como um anjo, e carregado
De crimes!
Com asas de poeta voa-se no c√©u…
De tudo me redimes,
Penitência
De ser artista!
Nada sei,
Nada valho,
Nada faço,
E abre-se em mim a força deste abraço
Que abarca o mundo!

Tudo amo, admiro e compreendo.
Sou como um sol fecundo
Que adoça e doira, tendo
Calor apenas.
Puro,
Divino
E humano como os outros meus irm√£os,
Caminho nesta ingénua confiança
De criança
Que faz milagres a bater as m√£os.

O que √© pena √© que neste areal da vida, onde cada um segue o seu caminho, n√£o haja nem toler√Ęncia nem humildade para respeitar o norte que o vizinho escolheu.

Como a gente se perde! A linguagem que o meu sangue entende ‚ÄĒ √© esta. A comida que o meu est√īmago deseja ‚ÄĒ √© esta. O ch√£o que os meus p√©s sabem pisar ‚ÄĒ √© este. E, contudo, eu n√£o sou j√° daqui. Pare√ßo uma destas √°rvores que se transplantam, que t√™m m√° sa√ļde no pa√≠s novo, mas que morrem se voltam √† terra natal.

A Minha Luta

A minha luta √© para encontrar o centro, o n√ļcleo de toda uma infinidade de justifica√ß√Ķes, que superficialmente parecem satisfazer-me e s√£o, afinal, folhas caducas do meu tronco. Determinar, numa palavra, que causa √ļltima me conduz, que for√ßa polariza os meus actos. Mas estou longe dessa descoberta. Eliminei o divino, porque era divino e eu sou humano; superei o pecado, porque viver sem pecado era um absurdo moral; e consegui perceber que a vida n√£o √© tr√°gica por estar balizada pelo nascimento e pela morte, que s√£o condi√ß√Ķes de exist√™ncia e n√£o condena√ß√Ķes dela. Contudo, nada resolvi. Continua a escapar-me das m√£os a sombra de um fantasma paradoxal. Uma sombra que √© uma pura alucina√ß√£o dos sentidos, que sabem que apenas o real lhes merece cr√©dito, e, sobretudo, da raz√£o, que sabe que a √ļnica consci√™ncia do mundo √© ela pr√≥pria, princ√≠pio e fim de si mesma.

Como é Difícil Ser Natural

√Č curioso como √© dif√≠cil ser natural. Como a gente est√° sempre pronta a vestir a casaca das ideias, sem a humildade de se mostrar em camisa, na intimidade simples e humana da estupidez ou mesmo da indiferen√ßa. Fiz agora um grande esfor√ßo para dizer coisas brilhantes da guerra futura, da harmonia dos povos, da pr√≥xima crise. E, afinal de contas, era em camisa que eu devia continuar quando a visita chegou. No fundo, n√£o disse nada de novo, n√£o fiquei mais do que sou, n√£o mudei o curso da vida. Fui apenas rid√≠culo. Se n√£o aos olhos do interlocutor, que disse no fim que gostou muito de me ouvir, pelo menos aos meus, o que ainda √© mais penoso e mais tr√°gico.

√Č espantosa a tend√™ncia do portugu√™s para a promiscuidade! Chega a umas termas, senta-se, volta-se para o vizinho da direita e, sem dizer √°gua-vai, conta-lhe a vida.

Nasce Mais uma Vez

Nasce mais uma vez,
Menino Deus!
N√£o faltes, que me faltas
Neste inverno gelado.
Nasce nu e sagrado
No meu poema,
Se não tens um presépio
Mais agasalhado.
Nasce e fica comigo
Secretamente,
Até que eu, infiel, te denuncie
Aos Herodes do mundo.
Até que eu, incapaz
De me calar,
Devasse os versos e destrua a paz
Que agora sinto, só de te sonhar.

√Č Preciso Regressar ao Amigo √ćntimo

Custa, mas o melhor é ver o problema a toda a luz. No conceito do homem abstracto é necessário afinal meter tanto estrume, que não há entusiasmo que resista. Feito de mil incoerências, movido por sentimentos ocasionais, preso a necessidades rudimentares, o bípede real, ao ser premido no molde da abstracção, rebenta a forma. E é preciso regressar ao amigo íntimo, ao compadre, para se calcar terra firme. Numa palavra: não há um homem-símbolo que se possa venerar: há simples indivíduos cujas virtudes e defeitos toleram um convívio social urbano.

A vida √† beira-mar, para um escritor, tem a desvantagem de o fazer esquecer o mundo. √Č t√£o absorvente e t√£o embalador este ritmo cont√≠nuo das ondas, que se perde a mem√≥ria do resto.

Só eu Sinto Bater-lhe o Coração

Dorme a vida a meu lado, mas eu velo.
(Alguém há-de guardar este tesoiro!)
E, como dorme, afago-lhe o cabelo,
Que mesmo adormecido é fino e loiro.

Só eu sinto bater-lhe o coração,
Vejo que sonha, que sorri, que vive;
Só eu tenho por ela esta paixão
Como nunca hei-de ter e nunca tive.

E logo talvez já nem reconheça
Quem zelou esta flor do seu cansa√ßo…
Mas que o dia amanheça
E cubra de poesia o seu regaço!

O que sou toda a gente é capaz de ver; Mas o que ninguém é capaz de imaginar é até onde sou e como.

As ideias são como as plantas: têm o seu clima e a sua terra. Por mais que se diga, o eucalipto será sempre exótico na paisagem portuguesa.

Aceno

Longe,
Seu coração bate por mim;
E a sua m√£o desenha aquele afago
Que me sossega inteiro…

Longe,
A verdade serena do seu rosto
√Č que faz este dia verdadeiro…

Quando um homem tem dentro de si uma verdade que quer ouvidos, at√© peixes lhe servem para audit√≥rio. Santo Ant√≥nio que o diga…

Tenho a impress√£o de que certas pessoas, se soubessem exactamente o que s√£o e o que valem na verdade, endoideciam. De que, se no intervalo da emb√≥fia e da import√Ęncia pudessem descer ao fundo do po√ßo e ver a pobreza franciscana que l√° vai, pediam a Deus que as metesse pela terra dentro.

A Influência dos Livros

N√£o h√° d√ļvida nenhuma: se um leitor n√£o se tem firme nos p√©s diante de certos livros e de certos autores, acontece-lhe como quando a gente se debru√ßa a uma alta janela e olha com ades√£o exagerada para o fundo: atira-se dali abaixo. E coisa curiosa: tanto monta que o aceno venha dum cl√°ssico, como dum rom√Ęntico, como dum realista, como dum futurista. Desde que a m√£o feiticeira que o faz saiba da sua poda, um homem, que ainda ontem era enforcado de Villon, passa a sat√Ęnico de Baudelaire sem qualquer cerim√≥nia.

O Egoísmo dos Homens

Isto de saber que √© nos enterros que melhor se manifesta o ego√≠smo dos homens, n√£o √© novo. Vem nos livros. Mas √© conveniente experimentar. √Č sempre bom ir uma, duas, tr√™s, vinte vezes atr√°s de um caix√£o, e ver como a pouco e pouco o mar de gente se reduz e fica em nada. Como, de tantos amigos, chegam ao cemit√©rio apenas tr√™s, e esses tr√™s, furiosos por n√£o terem podido escapar-se.

Artista, Homem e Revolucion√°rio

Creio que n√£o √© preciso. Em todo o caso, fica aqui a declara√ß√£o. O que eu fui sempre, o que eu sou, e o que serei, √© um artista, um homem e um revolucion√°rio. Na medida em que sou artista, quero um mundo onde a beleza seja o v√©rtice da pir√Ęmide. Na medida em que sou homem, quero que nesse mundo os indiv√≠duos sejam livres e conscientes. E na medida em que sou revolucion√°rio, quero que a revolu√ß√£o traga √† tona as grandes massas, e que nunca acabe de percorrer o seu caminho perp√©tuo, sem estratifica√ß√Ķes e sem dogmas.