Cita√ß√Ķes de Miguel Torga

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Miguel Torga para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Os Artistas Verdadeiros não Têm Ideologia

Dia entre pescadores. Eles a pescarem sardinha para a fome org√Ęnica do corpo, e eu a pescar imagens para uma necessidade igual do esp√≠rito. Tisnados de sa√ļde, os homens olham-me; e eu, amarelo de doen√ßa, olho-os tamb√©m. Certamente que se julgam mais justificados do que eu, e que o mundo inteiro lhes d√° raz√£o. Mas da mesma maneira que eles, sem que ningu√©m lhes pe√ßa sardinha, se metem √†s ondas, tamb√©m eu, sem que ningu√©m me pe√ßa poesia, me lan√ßo a este mar da cria√ß√£o. H√° uma coisa que nenhuma ideologia pode tirar aos artistas verdadeiros: √© a sua consci√™ncia de que s√£o t√£o fundamentais √† vida como o p√£o. Podem acus√°-los de servirem esta ou aquela classe. Pura cal√ļnia. √Č o mesmo que dizer que uma flor serve a princesa que a cheira. O mundo n√£o pode viver sem flores, e por isso elas nascem e desabrocham. Se olhos menos avisados passam por elas e as n√£o podem ver, a trai√ß√£o n√£o √© delas, mas dos olhos, ou de quem os mant√©m cegos e incultos.

Um Povo Errado

Uma volta que teve por polos Mafra e o Estoril. Um passeio à roda da nossa história e do nosso mundo do capital. Mais uma tentativa para compreender como foi possível no passado português construir um convento daqueles, e é possível construir no presente português um paraíso destes. Decididamente, fomos, somos e seremos um povo errado. Um povo que não encontra nem o seu destino, nem os seus homens. E lá estava, depois do estendal de mármore e do morro de luxo, a prová-lo, o singelo monumento erguido no sítio onde foram lançadas as cinzas de Gomes Freire enforcado.

Intimidade

Meu coração tem quantos versos quer;
√Č s√≥ puls√°-los com medida e rumo.
√Č s√≥ erguer-se a pino a um c√©u qualquer,
E desse alado azul cair a prumo.

Logo se desvanece o negro encanto
Que os tinha ocultos no cond√£o da bruma;
Logo o seu corpo esguio rasga o manto,
E mostra a humanidade que ressuma.

Mas quanto ele sangra para os orvalhar
De ternura, de sonho e de ilus√£o,
S√£o outros versos. . . para segredar
A quem é seu irmão.

Um Autêntico Sonho de Amor

Orgulho, vaidade, despeito, rancor, tudo passa, se verdadeiramente o homem tem dentro de si um autêntico sonho de amor. Essas pequenas misérias são fatais apenas no começo, na puberdade, quando se olha uma janela e se desflora quem está lá dentro. Depois, não. Depois, sofre-se é pelo homem, é pela estupidez colectiva, é por não se poder continuar alegremente num mundo povoado, e se desejar um deserto de asceta. O ascetismo é a desumanização, é o adeus à vida, e é duro ser uma espécie de fantasma da cultura cercado de areias.

A inf√Ęncia n√£o se repete, nem na lembran√ßa, nem na imagina√ß√£o. Quando, muito, d√°-se outra inf√Ęncia. As cenas ing√©nuas, porque eram ing√©nuas, n√£o tinham consci√™ncia; e as humilha√ß√Ķes, de t√£o pungentes, n√£o h√° mem√≥ria que consinta na sua perfeita express√£o.

Viajar, num sentido profundo, √© morrer. √Č deixar de ser manjerico √† janela do seu quarto e desfazer-se em espanto, em desilus√£o, em saudade, em cansa√ßo, em movimento, pelo mundo al√©m.

O homem s√≥ peca contra o homem e contra as suas cria√ß√Ķes. S√≥ para olhos verdadeiramente impuros √© que a nudez de Miguel √āngelo precisava de camisas.

Paz

Calado ao pé de ti, depois de tudo,
Justificado
Como o instinto mandou,
Ouço, nesta mudez,
A força que te dobrou,
Serena, dizer quem és
E quem sou.

Agora, o remédio é partir discretamente, sem palavras, sem lágrimas, sem gestos. De que servem lamentos e protestos, contra o destino?

Frustração

Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paix√Ķes tardias
S√£o ironias
Dos deuses desleais.

Cada Português que se Preza

√Č escusado. Cada portugu√™s que se preza √© uma muralha de sufici√™ncia contra a qual se quebram todas as vagas da inquieta√ß√£o. Conhece tudo, previu tudo, tem solu√ß√Ķes para tudo. E quando algu√©m se apresenta carregado de d√ļvidas, tolhido de perplexidades, vira-lhe as costas ou tapa os ouvidos. Um m√≠nimo de aten√ß√£o ao interlocutor seria j√° uma prova de fraqueza, uma confiss√£o de falibilidade. Quanto mais apertado o seu horizonte intelectual, mais porfia na vulgaridade das certezas que proclama. N√£o √† maneira humilde e cabe√ßuda dos que se limitam a transmitir sem an√°lise um saber ancestral, mas como um presumido doutor, impante de mediocridade.

Pedido

Ama-me sempre, como à flor do lírio
Bravo e sózinho, a quem a gente quer
Mesmo já seco na recordação.
Ama-me sempre, cheia da certeza
De que, lírio que sou da natureza,
Na minha altura eu brotarei do ch√£o.

Combater é uma Diminuição

Combater √©, em termos absolutos, uma diminui√ß√£o. O homem, quer defenda a p√°tria, quer defenda as ideias, desde que passa os dias aos tiros ao vizinho, mesmo que o vizinho seja o monstro dos monstros, est√° a perder grandeza. Sempre que por qualquer motivo a raz√£o passou a servir a paix√£o, houve um apoucamento do espirito, e √© dif√≠cil que o esp√≠rito se salve num processo onde ele entra diminu√≠do. Mas quando numa comunidade algu√©m endoidece e desata a ferir a torto e a direito, √© preciso dominar o possesso de qualquer forma, e a guerra √© fatal. Ent√£o, embora sabendo que vai empobrecer a sua alma, o homem normal come√ßa a lutar, e s√≥ a morte ou o triunfo o podem fazer parar. √Č tr√°gico, mas √© natural. O que √© contra todas as leis da vida √© ficar ao lado da contenda como espectador. Sendo uma diminui√ß√£o combater, √© uma trai√ß√£o sem nome lavar as m√£os do conflito, e passar as horas de bin√≥culo assestado a contemplar a desgra√ßa do alto dum monte. Assim √© que nada se salva. Fica-se homem sem qualquer sentido, manequim vestido de gente, coisa que n√£o tem personalidade. Porque nem se representa a intelig√™ncia,

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As coisas do instinto e da natureza têm este condão: não envelhecem. Passa a filosofia mais transcendental, esgota-se o livro mais profundo. Mas é com um viço cada vez mais promissor que regressam as verdades simples e naturais.

O artista de agora, se quiser persistir, tem de ser um homem de ac√ß√£o. ‚ÄĒ Mas que ac√ß√£o? Ajudar a construir um mundo que o nega? Ajudar a destruir um mundo onde ele pr√≥prio j√° n√£o vive? A ac√ß√£o dum artista √© fazer a sua obra.

√Č preciso fazer um esfor√ßo cont√≠nuo para amar o presente. Viver pelo passado, pelo que se fez, pelo que se conseguiu, √© o mesmo que alimentar uma fome premente com banquetes de outrora.

O Vício do Exagero

Hoje, no caf√©, aqui-del-rei que eu exagero, aqui-del-rei que conto uma anedota e a anedota sai da minha boca transfigurada. Aqui-del-rei que descrevo um indiv√≠duo e ponho bigodes de pol√≠cia onde havia somente uma discreta penugem. √Č certo, exagero. Come√ßo a pintar um bot√£o, e √© capaz de me sair o cosmos.

Fraternidade

Não me dói nada meu particular.
Peno cilícios da comunidade.
√Āgua dum rio doce, entrei no mar
E salguei-me no sal da imensidade.

Dei o sossego às ondas
Da multid√£o.
E agora tenho chagas
No coração
E uma ang√ļstia secreta.

Mas não podia, lírico poeta,
Ficar, de avena, a exercitar o ouvido,
Longe do mundo e longe do ruído.