Passagens sobre Ouvidos

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Frases sobre ouvidos, poemas sobre ouvidos e outras passagens sobre ouvidos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

As Pessoas Riam-se de Mim

A minha susceptibilidade a certo tipo de sustos (medo) era grande. Na rua, um homem caminhando na minha direcção, isto é, na direcção contrária, tirou da algibeira um lenço à minha frente; comecei de imediato a pensar, inconscientemente, acho, que estava a tirar uma arma ou um revólver.
A minha vista curta ‚ÄĒ nem sempre, mas excessivamente no que respeita aos tra√ßos das pessoas, aos gestos ‚ÄĒ afectava o meu c√©rebro desequilibrado. A minha imagina√ß√£o interpretava mal o car√°cter dos seus olhares. Distorcia, n√£o sabia explicar porqu√™, a inten√ß√£o e o significado dos seus gestos. O meu pr√≥prio sentido de audi√ß√£o era d√©bil; aplicava a mim pr√≥prio, retorcendo-as, as palavras que captava. Via em cada palavra um termo destinado a ofender-me, em cada frase, mal apanhada, a sombra e o vislumbre de um insulto.
As pessoas na rua riam-se: riam-se de mim. A minha vista d√©bil n√£o me deixava destruir esta ilus√£o. N√£o me atrevia a p√īr os √≥culos que tinha no bolso, pois temia que as minhas desconfian√ßas se revelassem fundadas.
Ansiava por ter uma grande auto-estima, para que a minha pessoa me fizesse esquecer de mim pr√≥prio. Desejava, oh, como desejava! ‚ÄĒ o impulso de me dedicar aos outros para que eles me fizessem esquecer de mim.

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Da Liberdade

A: Eis uma bateria de canh√Ķes que atira junto aos nossos ouvidos; tendes a liberdade de ouvi-la e de a n√£o ouvir?
B: √Č claro que n√£o posso evitar ouvi-la.
A: Desejaríeis que esse canhão decepasse a vossa cabeça e as da vossa mulher e da vossa filha que estivessem convosco?
B: Que espécie de proposição me fazeis? Eu jamais poderia, no meu são juízo, desejar semelhante coisa. Isso é-me impossível.
A: Muito bem; ouvis necessariamente esse canhão e, também necessariamente, não quereis morrer, vós e a vossa família, de um tiro de canhão; não tendes nem o poder de não o ouvir nem o poder de querer permanecer aqui.
B: Isso é evidente.
A: Em consequência, destes uma trintena de passos a fim de vos colocardes ao abrigo do canhão: tivestes o poder de caminhar comigo estes poucos passos?
B: Nada mais verdadeiro.
A: E se f√īsseis paral√≠tico? N√£o ter√≠eis podido evitar ficar exposto a essa bateria; n√£o ter√≠eis o poder de estar onde agora estais: ter√≠eis ent√£o necessariamente ouvido e recebido um tiro de canh√£o e necessariamente estar√≠eis morto?
B: Nada mais claro.
A: Em que consiste, pois,

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Os Grandes Forjam-se na Adversidade

Todo o ambiente √© favor√°vel ao forte; de um modo ou de outro ele o ajuda a cumprir a miss√£o que se imp√īs e a conseguir ir porventura mais al√©m das barreiras marcadas. A derrota deve mais atribuir-se √† invalidez do impulso interior do que aos obst√°culos que lhe ponham diante, mais √† alma incapaz de se bater com vigor e tenazmente do que √†s resist√™ncias, √†s invejas e √†s dificuldades que o mundo possa levantar perante H√©rcules que luta.
O mal que se v√™ √© aguilh√£o para o bem que se deseja; e quanto mais duro, quanto mais agressivo, se bate em peito de a√ßo, tanto mais valioso auxiliar num caminho de progresso; o querer se apura, a vis√£o do futuro nos surge mais intensa a cada golpe novo; o contentamente e a mansa quietude s√£o estufa para homens; por a√≠ se habituaram a ser escravos de outros homens, ou da cega Natureza; e eu quero a terra povoada de rijos cora√ß√Ķes que seguem os calmos pensamentos e a mais nada se curvam.
Mais custa quebrar rochar do que escavar a terra; mais sólido, porém, o edifício que nela se firmou. A grandeza da obra é quase sempre devida à dificuldade que se encontra nos meios a empregar,

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Ode Triunfal

√Ä dolorosa luz das grandes l√Ęmpadas el√©ctricas da f√°brica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

√ď rodas, √≥ engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em f√ļria!
Em f√ļria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De express√£o de todas as minhas sensa√ß√Ķes,
Com um excesso contempor√Ęneo de v√≥s, √≥ m√°quinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes tr√≥picos humanos de ferro e fogo e for√ßa –
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,

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Poema de Amor

Se te pedirem, amor, se te pedirem
que contes a velha história
da nau que partiu
e se perdeu,
n√£o contes, amor, n√£o contes
que o mar és tu
e a nau sou eu.

E se pedirem, amor, e se pedirem
que contes a velha f√°bula
do lobo que matou o cordeiro
e lhe roeu as entranhas,
n√£o contes, amor, n√£o contes
que o lobo é a minha carne
e o cordeiro a minha estrela
que sempre tu conheceste
e te guiou ‚ÄĒ mal ou bem.

Depois, sabes, estou enjoado
desta farsa.
Histórias, fábulas, amores
tudo me corre os ouvidos
a fugir.

Sou o guerreiro sem forças
para erguer a sua espada,
sou o piloto do barco
que a tempestade afundou.

N√£o contes, amor, n√£o contes
que eu tenho a alma sem luz.

…Quero-me s√≥, a sofrer e arrastar
a minha cruz.

A Mulher

Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura

e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.

Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso √© a dist√Ęncia fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.

Um Fado: Palavras Minhas

Palavras que disseste e j√° n√£o dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
√† noite que assomava ao meu ouvido…

Palavras que n√£o dizes, nem s√£o tuas,
que morreram, que em ti j√° n√£o existem
‚ÄĒ que s√£o minhas, s√≥ minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

Como Lidar com a Adulação

N√£o quero deixar de abordar uma quest√£o que reputo de importante e um erro do qual os principes com dificuldade se guardam, se n√£o s√£o prudentes ou se n√£o t√™m cuidado nas escolhas que fazem. Trata-se dos aduladores, esp√©cie de que as cortes se encontram cheias. √Č que os homens comprazem-se de tal modo com as coisas que lhes dizem respeito e de um modo t√£o ilus√≥rio, que s√≥ muito dificilmente se precavem contra esta peste. E querendo precaver-se, corre o risco de se tornar desprez√≠vel. Porque n√£o tendes outro modo de vos protegerdes da adula√ß√£o a n√£o ser logrando convencer os outros homens de que vos n√£o ofendem dizendo a verdade. Todavia, quando algu√©m vos diz a verdade, sentis a falta da rever√™ncia.
Consequentemente, um pr√≠ncipe prudente deve dispor de uma terceira via, escolhendo no seu estado homens s√°bios, devendo s√≥ a esses conceder livre arb√≠trio para lhe falarem verdade. E, apenas, sobre as coisas que lhes perguntardes, n√£o de outras. Mas deve fazer perguntas sobre todas as coisas, ouvir as suas opini√Ķes e, depois, decidir por si pr√≥prio, a seu modo. E com estes conselhos e com cada um dos conselheiros, portar-se de maneira que cada um deles perceba que,

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N√£o Ser√° Tempo de Voltarmos aos Sentidos?

N√£o somos apenas o nosso corpo, estamos tamb√©m integrados num corpus social, que solicita, expande e reprime a nossa sensibilidade. Basta ouvir aquele que foi o maior te√≥rico da comunica√ß√£o do s√©culo XX, Marshall McLuhan, para perceber at√© que ponto isso √© aproveitado pela sociedade de comunica√ß√£o global, para quem o indiv√≠duo passa a ser uma presa. O que diz McLuhan sobre a televis√£o, por exemplo, √© imensamente elucidativo: ¬ęUm dos efeitos da televis√£o √© retirar a identidade pessoal. S√≥ por ver televis√£o, as pessoas tornam-se num grupo coletivo de iguais. Perdem o interesse pela singularidade pessoal.¬Ľ Se repararmos, os meios que lideram a comunica√ß√£o humana contempor√Ęnea (da televis√£o ao telefone, do e-mail √†s redes sociais) interagem apenas com aqueles dos nossos sentidos que captam sinais √† dist√Ęncia: fundamentalmente a vis√£o e a audi√ß√£o. Origina-se assim uma descontrolada hipertrofia dos olhos e ouvidos, sobre os quais passa a recair toda a responsabilidade pela participa√ß√£o no real. ¬ęViste aquilo?¬Ľ, ¬ęj√° ouviste a √ļltima do…¬Ľ: os nossos quotidianos s√£o continuamente bombardeados pela press√£o do ver e do ouvir. O mesmo se passa com a locomo√ß√£o: seja a pilotar um avi√£o, a conduzir um autom√≥vel, ou seja o pe√£o a deslocar-se nas art√©rias das cidades modernas,

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Olhar e Chorar

Not√°vel criatura s√£o os olhos! Admir√°vel instrumento da natureza; prodigioso artif√≠cio da Provid√™ncia! Eles s√£o a primeira origem da culpa; eles a primeira fonte da Gra√ßa. S√£o os olhos duas v√≠boras, metidas em duas covas, e que a tenta√ß√£o p√īs o veneno, e a contri√ß√£o a triaga. S√£o duas setas com que o Dem√≥nio se arma para nos ferir e perder; e s√£o dois escudos com que Deus depois de feridos nos repara para nos salvar. Todos os sentidos do homem t√™m um s√≥ of√≠cio; s√≥ os olhos t√™m dois. O Ouvido ouve, o Gosto gosta, o Olfacto cheira, o Tacto apalpa, s√≥ os olhos t√™m dois of√≠cios: Ver e Chorar. Estes ser√£o os dois p√≥los do nosso discurso.
Ninguém haverá (se tem entendimento) que não deseje saber por que ajuntou a Natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista; e por que uniu a mesma potência o ofício de chorar, e o de ver? O ver é a acção mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos os gostos é o ver; pelo contrário, o chorar é o estilado da dor, o sangue da alma,

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Censura Amiga

A amizade penetra nos menores detalhes da nossa vida, o que torna frequentes as ocasi√Ķes de ofensas e melindres: o s√°bio deve evit√°-las, destru√≠-las ou suport√°-las quando necess√°rio for. A √ļnica ocasi√£o em que n√£o devemos deixar de ofender um amigo, √© quando se trata de lhe dizer a verdade e de lhe provar assim a nossa fidelidade. Porque n√£o devemos deixar de sobreavisar os nossos amigos, ainda quando se trate de os repreender. E n√≥s mesmos devemos levar isto em boa vontade, quando tais repreens√Ķes s√£o ditadas pelo bem querer.
Todavia, sou for√ßado a confess√°-lo, como disse o nosso Ter√™ncio no seu Adriana: ¬ęA benevol√™ncia gera a amizade; a verdade, o √≥dio¬Ľ. Sem d√ļvida a verdade √© molesta se produz o √≥dio, este veneno da amizade. Mas a magnanimidade √©-o ainda mais, porque para a indulg√™ncia culp√°vel, pelas faltas de um amigo, ela deixa-o precipitar-se nas suas ru√≠nas. Mas a falta mais grave √© a que despreza a verdade e se deixa conduzir ao mal pela adula√ß√£o. Este ponto reclama toda a nossa vigil√Ęncia e aten√ß√£o. Afastemos o √°cido das nossas advert√™ncias, a inj√ļria dos nossos reproches; que a nossa complac√™ncia (sirvo-me volunt√°rio da express√£o de Ter√™ncio) seja farta de urbanidade;

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A Matança

N√£o penses
que a carne apenas é aquela oca
lívida carcaça
em imóvel galope alucinado,
embarrada numa trave da adega.

N√£o penses
que o milagre anual da salgadeira
vem sem morte e sem trabalhos. N√£o:

Contar-te-ei
que primeiro atam o porco em sua loja
com uma corda em torno do focinho
e o arrastam à força para o ar lavado e frio.

Contar-te-ei
que o porco luta e resiste: ora sentado
sobre os quartos traseiros (os futuros presuntos),
ora comicamente no solo as quatro patas
fincando com bravura se defende
da mal-agourada violação. Por fim, cedendo,
colocam-no, ainda contrafeito,
entre roncos, bufos e sac√Ķes,
no banco, deitado sobre o lado,
por forma a expor o vulner√°vel,
comestível coração.

Contar-te-ei
que quando a faca penetra nas entranhas,
qual punhal vingador de antiga fome,
o grito é tal, tão desolado e aflito,
t√£o humano, t√£o digno de compaix√£o,
t√£o de criatura insultada e indefesa –
que tenho de tapar a m√£os ambas os ouvidos
e recuar para os fundos da casa,

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Infante

D√°-me o sol a minha fronte. Doloridos
e chagados meus p√©s descal√ßos v√£o fugindo…
РMemórias dos meus doidos passos incontidos!
– √ď meu rumor do mundo em p√©talas abrindo!

√ď cor√ßas que correis pela tarde desferindo
o balido ligeiro que alonga os ouvidos…
– Tarde de √©cloga e mel silvestre reluzindo…
– Minhas vinhas de vinhos de oiro n√£o bebidos…

Desfolham-se ilus√Ķes e v√£o-se sem apegos…
Murchou a flor dos meus desejos com que pude
a vida transformar em √≥cios e sossegos…

Que lucrei, eu, Senhor! com horas execr√°veis
dum sonho que perdeu meu corpo de virtude?
Рo pródigo que fui dos erros inefáveis!

Perfeição

Vejo a Perfeição em sonhos ardentes,
Beleza divina aos sentidos ligada,
Cantando ao ouvido em voz olvidada
Que do peito irrompe em raios candentes

Que n√£o posso prender. Seu cabelo vem
P’lo peito inocente onde, confundidos,
O ideal e o real s√£o tecidos
E algo de alegre que ao céu fica bem.

Ent√£o chega o dia e tudo passou;
A mim regresso em dorido sentir,
Qual marinheiro que o naufr√°gio acordou

Do sonho de um campo em dia luminoso:
Ergue a cabeça e estremece ao ouvir
O rumor da descida ao abismo penoso.

A Decadência do Coração nos Tempos Modernos

Nestes ruins tempos de material e nauseante industrialismo, a fase do cora√ß√£o √© curta, o amor vem tempor√£o, e como que apodrece antes de sazonado. De toda a parte, aos ouvidos do mancebo vem a soada do martelar da ind√ļstria. A sociedade, aparelhada em oficina, n√£o d√° por ele, se o n√£o v√™ a labutar e mourejar no veio da riqueza. T√≠tulos, gl√≥ria, homenagens, regalos, as fei√ß√Ķes todas da festejada m√°scara, com que por aqui nos andamos entrudando uns aos outros, s√≥ pode ser afivelada com broches de ouro. Dislates do amor empecem o ir direito ao fim. O cora√ß√£o √© v√≠scera que derranca o sangue, se com as muitas vertigens o vascoleja demais. Faz-se mister abafar-lhe as v√°lvulas e exercitar o c√©rebro, onde demora a bossa do c√°lculo, da empresa, da sord√≠cia gananciosa, e outras muitas bossas filiadas ao est√īmago, o qual √©, sem debate, a v√≠scera por excel√™ncia, o luzeiro perene entre as trevas que ofuscam as almas.

Ausencia

L√ļgubre solid√£o! √ď noite triste!
Como sinto que falta a tua Imagem
A tudo quanto para mim existe!

Tua bemdita e efémera passagem
No mundo, deu ao mundo em que viveste,
√Ā nossa b√īa e maternal Paisagem,

Um espirito novo mais celeste;
Nova Forma a abra√ßou e nova C√īr
Beijou, sorrindo, o seu perfil agreste!

E ei-la agora t√£o triste e sem verdor!
Depois da tua morte, regressou
Ao seu velhinho estado anterior.

E esta saudosa casa, onde brilhou
Tua voz num instante sempiterno,
Em negra, intima noite se occultou.

Quando chego √° janela, vejo o inverno;
E, √° luz da lua, as sombras do arvoredo
Lembram as sombras p√°lidas do Inferno.

Dos recantos escuros, em segredo,
Nascem Vis√Ķes saudosas, diluidos
Traços da tua Imagem, arremêdo

Que a Sombra faz, em gestos doloridos,
Do teu Vulto de sol a amanhecer…
A Sombra quer mostrar-se aos meus sentidos…

Mas eu que vejo? A luz escurecer;
O imperfeito, o indeciso que, em nós, deixa
A amargura de olhar e de n√£o v√™r…

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Vingança

“Vingan√ßa…”
II
Quero sentir-te nos meus braços presa
e dizer bem baixinho ao teu ouvido,
um segredo de amor terno e sentido
que guardo no meu peito com avareza…

Quero ter afinal plena certeza
deste amor que na vida me tem sido:
o meu sonho mais lindo e mais querido,
a luz de uma esperan√ßa, sempre acesa…

Nesta rosa que tens, viva e vermelha
esmigalhada em tua boca – a abelha
do meu beijo algum dia hei de pousar…

Quero unir minha vida à tua vida,
sentir que és minha só, ter-te possuída,
para ent√£o, s√≥ depois, te abandonar!…

A vida √© como a m√ļsica. Deve ser composta de ouvido, com sensibilidade e intui√ß√£o, nunca por normas r√≠gidas.

Ter Raz√£o √© uma Quest√£o de Explica√ß√Ķes

Havia que ser um fan√°tico para querer ter sempre raz√£o. Ter raz√£o era sobretudo uma quest√£o de explica√ß√Ķes. O homem intelectual tornara-se uma criatura explicativa. Toda a gente explicava, os pais aos filhos, os maridos √†s mulheres, os conferencistas ao seu p√ļblico, os especialistas aos leigos, os colegas aos colegas, os m√©dicos aos pacientes, o homem √† sua alma. A g√©nese disto, a causa daquilo, as origens dos acontecimentos, a hist√≥ria, a estrutura, as raz√Ķes pelas quais. Na maior parte dos casos, a explica√ß√£o entrava por um ouvido e sa√≠a pelo outro. A alma desejava o que desejava. Tinha o seu pr√≥prio saber natural. A infeliz poisava, pobre avezinha, sobre superstruturas de explica√ß√£o, sem saber para onde levantar voo.

(…) Era um af√£ holand√™s, pensou Sammler, sempre a dar √† bomba para manter enxutos alguns hectares de terra. O mar invasor era uma met√°fora da multiplica√ß√£o dos factos e das sensa√ß√Ķes; quanto √† terra, era uma terra de ideias.

. Sammler’