Passagens de Jean-Jacques Rousseau

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Caminhar com bom tempo, numa terra bonita, sem pressa, e ter por fim da caminhada um objectivo agrad√°vel: eis, de todas as maneiras de viver, aquela que mais me agrada.

Ousarei expor aqui a mais importante, a maior, a mais √ļtil regra de toda a educa√ß√£o? √Č n√£o ganhar tempo, mas perd√™-lo.

O Amor-Próprio como Fonte de Todos os Males

√Č preciso n√£o confundir o amor-pr√≥prio e o amor de si mesmo, duas paix√Ķes muito diferentes pela sua natureza e pelos seus efeitos. O amor de si mesmo √© um sentimento natural que leva todo o animal a velar pela sua pr√≥pria conserva√ß√£o, e que, dirigido no homem pela raz√£o e modificado pela piedade, produz a humanidade e a virtude. O amor-pr√≥prio √© apenas um sentimento relativo, fact√≠cio e nascido na sociedade, que leva cada indiv√≠duo a fazer mais caso de si do que de qualquer outro, que inspira aos homens todos os males que se fazem mutuamente, e que √© a verdadeira fonte da honra.
Bem entendido isso, repito que, no nosso estado primitivo, no verdadeiro estado de natureza, o amor-pr√≥prio n√£o existe; porque, cada homem em particular olhando a si mesmo como o √ļnico espectador que o observa, como o √ļnico ser no universo que toma interesse por ele, como o √ļnico juiz do seu pr√≥prio m√©rito, n√£o √© poss√≠vel que um sentimento que teve origem em compara√ß√Ķes que ele n√£o √© capaz de fazer possa germinar na sua alma.
Pela mesma raz√£o, esse homem n√£o poderia ter √≥dio nem desejo de vingan√ßa, paix√Ķes que s√≥ podem nascer da opini√£o de alguma ofensa recebida.

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N√£o h√° Felicidade Solit√°ria

√Č a fraqueza do homem que o torna soci√°vel; s√£o as nossas mi¬≠s√©rias comuns que levam os nossos cora√ß√Ķes a interessar-se pela humanidade: n√£o lhe dever√≠amos nada, se n√£o f√īssemos homens. Todos os afectos s√£o ind√≠cios de insufici√™ncia: se cada um de n√≥s n√£o tivesse necessidade dos outros, nunca pensaria em unir-se a eles. Assim, da nossa pr√≥pria enfermidade, nasce a nossa fr√°gil fe¬≠licidade. Um ser verdadeiramente feliz √© um ser solit√°rio; s√≥ Deus goza de uma felicidade absoluta; mas qual de n√≥s faz uma ideia do que isso seja? Se algum ser imperfeito se pudesse bastar a si mes¬≠mo, de que desfrutaria ele, na nossa opini√£o? Estaria s√≥, seria mi¬≠ser√°vel. N√£o posso acreditar que aquele que n√£o precisa de nada possa amar alguma coisa: n√£o acredito que aquele que n√£o ama na¬≠da se possa sentir feliz.

A arte de interrogar é bem mais a arte dos mestres do que as dos discípulos; é preciso ter já aprendido muitas coisas para saber perguntar aquilo que se não sabe.

Coração Mais Forte que o Dever

Nas alturas em que o meu dever e o meu coração estavam em contradição, o primeiro raramente saiu vitorioso, a menos que bastasse eu abster-me; então, na maioria das vezes, eu era forte, mas sempre me foi impossível agir contra o meu feitio. Quer sejam os homens, o dever, ou mesmo a fatalidade quem comanda, sempre que o meu coração se cala, a minha vontade fica surda, e eu não sou capaz de obedecer. Vejo o mal que me ameaça e deixo-o chegar, em vez de agir para o evitar. Começo por vezes com esforço, mas esse esforço cansa-me e depressa me esgota, e não sou capaz de continuar. Em todas as coisas imagináveis, aquilo que não faço com prazer logo se me torna impossível de levar a cabo.

A Moderação é o Caminho para a Felicidade

Se a princ√≠pio a profus√£o e a variedade de divers√Ķes parecem contribuir para a felicidade, se a uniformidade de uma vida igual parece a princ√≠pio enfastiante, considerando-se melhor, percebe-se, pelo contr√°rio, que o h√°bito mais doce da alma consiste numa modera√ß√£o de gozo que deixa pouco espa√ßo ao desejo e ao desgosto.

Mentir sem Prejudicar

Julgar os discursos dos homens atrav√©s dos efeitos que produzem equivale frequentemente a apreci√°-los mal. Tais efeitos, para al√©m de nem sempre serem sens√≠veis e f√°ceis de conhecer, variam infinitamente, tal como as circunst√Ęncias em que esses discursos s√£o proferidos.
A inten√ß√£o daquele que os profere, por√©m, √© a √ļnica que permite apreci√°-los e que determina o seu grau de mal√≠cia ou de bondade. Proferir afirma√ß√Ķes falsas s√≥ √© mentir quando existe inten√ß√£o de enganar, e mesmo essa inten√ß√£o, longe de se aliar sempre √† de prejudicar, tem por vezes um objectivo oposto. Todavia, para tornar inocente uma mentira, n√£o basta que a inten√ß√£o de prejudicar n√£o seja expressa, √© necess√°rio tamb√©m ter a certeza de que o erro em que se induz aqueles a quem se fala n√£o poder√° prejudic√°-los a eles nem a ningu√©m, seja de que maneira for. √Č raro e dif√≠cil ter-se essa certeza e, por isso, √© dif√≠cil e raro que uma mentira seja perfeitamente inocente.

A arte de interrogar n√£o √© t√£o f√°cil como se pensa. √Č mais uma arte de mestres do que de disc√≠pulos; √© preciso ter aprendido muitas coisas para saber perguntar o que n√£o se sabe.

Toda a Ideia Geral é Puramente Intelectual

As ideias gerais s√≥ se podem introduzir na esp√©cie com o aux√≠lio das palavras, e o entendimento n√£o as apreende sen√£o por meio das proposi√ß√Ķes. √Č uma das raz√Ķes por que os animais n√£o poderiam formar tais ideias, nem jamais adquirir a perfectibilidade que delas depende. Quando um macaco vai, sem hesitar, de uma noz a outra, julga-se que tenha a ideia geral dessa esp√©cie de fruta e que compare o seu arqu√©tipo a esses dois indiv√≠duos? N√£o, sem d√ļvida; mas, a vista de uma dessas nozes lembra √† sua mem√≥ria as sensa√ß√Ķes que recebeu da outra, e os seus olhos, modificados de certa maneira, anunciam ao seu gosto a modifica√ß√£o que vai receber. Toda a ideia geral √© puramente intelectual; por pouco que a imagina√ß√£o tome parte nela, a ideia torna-se, logo, particular.
Procurai traçar a imagem de uma árvore em geral, e jamais o conseguireis; contra a vossa vontade, é preciso vê-la grande ou pequena, desgalhada ou em copa, clara ou escura; e, se dependesse de vós não ver senão o que se acha em toda a árvore, essa imagem não se pareceria mais com uma árvore. Os seres puramente abstractos vêem-se do mesmo modo, ou não se concebem senão por meio do discurso.

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