Textos sobre Existência

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Textos de existência escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

As Oscila√ß√Ķes da Personalidade

Pretender que a nossa personalidade seja m√≥vel e suscept√≠vel de grandes mudan√ßas √©, por vezes, no√ß√£o um pouco contr√°ria √†s id√©ias tradicionais atinentes √† estabilidade do ‚Äúeu‚ÄĚ. A sua unidade foi durante muito tempo um dogma indiscut√≠vel. Factos numerosos vieram provar quanto esta ideia era fict√≠cia.
O nosso ‚Äúeu‚ÄĚ √© um total. Comp√Ķe-se da adi√ß√£o de inumer√°veis ‚Äúeu‚ÄĚ celulares. Cada c√©lula concorre para a unidade de um ex√©rcito. A homogeneidade dos milhares de indiv√≠duos que o comp√Ķem resulta somente de uma comunidade de ac√ß√£o que numerosas coisas podem destruir.
√Č in√ļtil objectar que a personalidade dos seres parece, em geral, bastante est√°vel. Se ela nunca varia, com efeito, √© porque o meio social permanece mais ou menos constante. Se subitamente esse meio se modifica, como em tempo de revolu√ß√£o, a personalidade de um mesmo indiv√≠duo poder√° transformar-se por completo. Foi assim que se viram, durante o Terror, bons burgueses reputados pela sua brandura tornarem-se fan√°ticos sanguin√°rios. Passada a tormenta e, por conseguinte, representando o antigo meio e o seu imp√©rio, eles readquiriram sua personalidade pacifica. Desenvolvi, h√° muito tempo, essa teoria e mostrei que a vida dos personagens da Revolu√ß√£o era incompreens√≠vel sem ela.
De que elementos se comp√Ķe o ‚Äúeu‚ÄĚ,

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A Palavra não é o Signo do Pensamento

A palavra n√£o √© o ¬ęsigno¬Ľ do pensamento, se compreendermos como tal um fen√≥meno que anuncia outro, como o fumo anuncia o fogo. A palavra e o pensamento s√≥ admitiriam essa rela√ß√£o exterior se uma e outro fossem dados tematicamente; na realidade est√£o envolvidos uma no outro, o sentido est√° preso na palavra, e a palavra √© a exist√™ncia exterior do sentido.

A Castração da Personalidade

O homem √© um animal greg√°rio. Pol√≠tico, dizia Arist√≥teles, ou seja, membro da cidade. Mas n√£o s√≥ da cidade – de todas as greis espont√Ęneas ou artificiais, est√°veis ou prec√°rias, onde quer que se encontre. N√£o pode suportar a ideia de estar s√≥, consigo – quer ser unidade e n√£o individualidade. Tem necessidade de se sentir cotovelo com cotovelo, pele com pele, no calor de uma multid√£o, ligado, seguro, uniforme, conforme. Se o le√£o anda s√≥, em n√≥s predomina o instinto ovino, do rebanho – os pr√≥prios individualistas, para afirmar o seu individualismo, congregam-se: sempre segundo a pr√°tica ovina.

O homem, quando s√≥, sente-se incompleto – tem medo. Opor-se √† grei significa separar-se, permanecer s√≥, morrer. Os conceitos do bem e do mal nascem da necessidade de conviv√™ncia. √Č bem o que aproveita ao grupo, mal o que o prejudica ou n√£o beneficia. O rebanho n√£o quer que cada ovelha pense demasiado em si, e como a privilegiada √© a que obt√©m a boa opini√£o das outras, v√™-se for√ßada, ainda que contra os seus gostos e interesses, a agir no sentido do bem supremo do rebanho. H√° que pagar, com a castra√ß√£o da personalidade, a seguran√ßa contra o medo.

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Saber Desfrutar Todos os Tempos

Nós mostramo-nos ingratos em relação ao que nos foi dado por esperarmos sempre no futuro, como se o futuro (na hipótese de lá chegarmos) não se transformasse rapidamente em passado. Quem goza apenas do presente não sabe dar o correcto valor aos benefícios da existência; quer o futuro quer o passado nos podem proporcionar satisfação, o primeiro pela expectativa, o segundo pela recordação; só que enquanto um é incerto e pode não se realizar, o outro nunca pode deixar de ter acontecido.

J√° Est√° na Altura de Perder as Ilus√Ķes

As ilus√Ķes das pessoas v√£o mudando. Quando s√£o jovens, t√™m a ilus√£o do amor; pensam que o amor talvez consiga abrir as portas de todos os mist√©rios. O amor abre realmente as portas, n√£o as dos mist√©rios, mas as das mis√©rias. H√° outros indiv√≠duos a quem s√≥ interessa ganhar dinheiro. Quando perguntaram a Henry Ford: ¬ęGanhou mais dinheiro do que qualquer outra pessoa no mundo. Agora que chegou ao topo, como se sente?¬Ľ, ele respondeu: ¬ęCompletamente frustrado, porque no topo n√£o existe nada. O que aprendi ao longo de toda a minha vida foi a subir escadas. Fui subindo, na esperan√ßa de que no degrau seguinte pudesse estar a realiza√ß√£o, mas a realiza√ß√£o nunca se alcan√ßa.¬Ľ
Quando as pessoas perdem as suas esperan√ßas, ilus√Ķes e sonhos mundanos, ent√£o mudam e come√ßam a ter esperan√ßa no crescimento espiritual, em Deus e no para√≠so. Estas s√£o as mesmas pessoas e as mesmas mentes que n√£o aprenderam absolutamente nada.
A n√£o ser que n√£o possua quaisquer tipo de ilus√Ķes – o que significa que j√° n√£o pensa no amanh√£ n√£o conhecer√° a verdade pura da exist√™ncia, que apenas existe nesse momento. N√£o se encontrar√° em sintonia com o mesmo, e, portanto,

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Felicidade, Glória, Imaginação, Inteligência e Inspiração

Numa vida profundamente atormentada seria possível muitas vezes encontrar-se felicidade para várias outras existências. Da felicidade que um homem malbarata, sem lhe suspeitar o valor, outros homens tirariam alegria para toda a vida, assim como as sobras da mesa do rico dariam para sustento de mais de um pobre.

A gl√≥ria √© um processo de apuramento que nunca p√°ra. √Ä medida que a humanidade envelhece e que as suas recorda√ß√Ķes se v√£o amontoando, tornam-se necess√°rias novas selec√ß√Ķes. S√©culos inteiros s√£o depurados nesses escrut√≠nios, sem que sobreviva um nome sequer. Um dia os imortais ir√£o unir-se aos an√≥nimos no esquecimento final.

√Č a imagina√ß√£o, tocha divina apensa ao esp√≠rito do homem, que lhe permite mover-se nas trevas da cria√ß√£o. Assim os peixes das profundezas oce√Ęnicas trazem um facho que os ilumina na noite eterna. Sem isto para que lhes serviriam os olhos? Sem imagina√ß√£o, que utilidade teria para o homem a intelig√™ncia?

O homem de letras tem falhas pronunciadas de intelig√™ncia, a ponto de parecer est√ļpido ao homem de neg√≥cios. N√£o deixa por√©m por isso de se considerar, onde quer que se encontre, o mais inteligente da roda. Nada √© mais absurdo do que essa superioridade,

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Resgatar o Prazer de Viver

√Č poss√≠vel resgatar o prazer de viver, √© poss√≠vel treinar a emo√ß√£o para ser jovem, desprendida, livre, feliz.

Primeiro: Contemple o belo nos pequenos eventos da vida.
Tenha sempre atividades programadas fora da sua agenda pelo menos uma vez por semana. Valorize aquilo que o dinheiro não compra e que não dá prestígio.
Treine dez minutos por dia a contemplar a anatomia das flores, a gastar tempo a ver o brilho das estrelas, a experimentar o prazer de penetrar no mundo das pessoas.
Não viva em função de grandes eventos, aprenda a extrair o prazer dos pequenos estímulos da rotina diária.

Segundo: Irrigue o palco da mente com pensamentos agrad√°veis.
Treine trazer diariamente à sua memória aquilo que lhe traz esperança, serenidade e encanto pela vida. Pense em conquistar pessoas e em superar os seus obstáculos. Pense em ser íntimo do Autor da vida e conhecer os mistérios da existência.
Os seus maiores inimigos est√£o dentro de si. N√£o se deixe derrotar ou perturbar por pensamentos que lhe roubam a tranquilidade e o prazer de viver.
Treine ver o lado positivo de todas as coisas negativas. Os negativistas veem os raios,

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Os Homens não Sabem o que é o Amor

De forma geral, os homens não sabem o que é amor, é um sentimento que lhes é totalmente estranho. Conhecem o desejo, o desejo sexual em estado bruto e a competição entre machos; e depois, muito mais tarde, já casados, chegam, chegavam antigamente, a sentir um certo reconhecimento pela companheira quando ela lhes tinha dado filhos, tinha mantido bem a casa e era boa cozinheira e boa amante Рentão chegavam a ter prazer por dormirem na mesma cama. Não era talvez o que as mulheres desejavam, talvez houvesse aí um mal-entendido, mas era um sentimento que podia ser muito forte Рe mesmo quando eles sentiam uma excitação, aliás cada vez mais fraca, por esta ou aquela mulher, já não conseguiam literalmente viver sem a mulher e, se acontecia ela morrer, eles desatavam a beber e acabavam rapidamente, em geral uns meses bastavam. Os filhos, esses, representavam a transmissão de uma condição, de regras e de um património. Era evidentemente o que acontecia nas classes feudais, mas igualmente com os comerciantes, camponeses, artesãos, de forma geral com todos os grupos da sociedade. Hoje, nada disso existe.
As pessoas são assalariadas, locatárias, não têm nada para deixar aos filhos.

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Depender de Alguém

Depender de alguém, das ideias dos outros ou das filosofias das massas é negar a nossa própria existência, é abdicar totalmente do poder que nos foi concedido à nascença e a mais profunda ingratidão para com a oportunidade que nos foi dada de aqui estar. Como já o disse, cada um de nós é um ser especial e precioso, com responsabilidades pessoais e sociais diferentes de todos os outros. Cada um de nós pode fazer a diferença.
Quantas vezes já deixaste de arriscar porque não to permitiram? Quantas vezes já sonhaste com algo diferente daquilo que te foi imposto ou ensinado e por isso desististe? Quantas vezes foste feliz por depender de algo ou alguém?
Muitas pessoas optam, conscientemente, pela depend√™ncia por acharem que a vida se torna mais f√°cil nesse estado de submiss√£o. Na verdade n√£o lhes √© exigido que lutem por nada, por ningu√©m e, muito menos, por elas. Agora, pergunto eu, que interesse √© que isto tem? Esta gente, apesar de respirar e dar ares da sua gra√ßa, j√° morreu e s√≥ anda aqui a fazer figura de corpo presente, pois as suas vidas j√° n√£o s√£o desafiantes. Ser dependente √© ter medo de assumir o risco das suas paix√Ķes,

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A Deliciosa Solid√£o dos Anos de Maturidade

O que é significativo na existência de cada um é algo de que dificilmente temos consciência e não deve seguramente incomodar os outros. O que sabe um peixe acerca da água na qual nada durante toda a vida?
A amargura e a do√ßura v√™m do exterior, as dificuldades do interior, dos nossos pr√≥prios esfor√ßos. Na maior parte das vezes fa√ßo as coisas que a minha pr√≥pria natureza me compele a fazer. √Č embara√ßador ganhar tanto respeito e amor por isso. Tamb√©m me foram atiradas setas de √≥dio, mas nunca me atingiram, porque de algum modo pertencem a outro mundo, com o qual n√£o tenho qualquer tipo de liga√ß√£o.
Vivo naquela solidão que é penosa na juventude, mas deliciosa nos anos de maturidade.

O Eterno é a Própria Vida

Segundo a express√£o de Lavelle, a morte d√° ¬ęa todos os acontecimentos que a precederam esta marca do absoluto que nunca possuiriam se n√£o viessem a interromper-se¬Ľ. O absoluto habita em cada uma das nossas empresas, na medida em que cada uma se realiza de uma vez para sempre e n√£o ser√° nunca recome√ßada. Entra na nossa vida atrav√©s da sua pr√≥pria temporalidade. Assim o eterno torna-se fluido e reflui do fim ao cora√ß√£o da vida. A morte j√° n√£o √© a verdade da vida, a vida j√° n√£o √© a espera do momento em que a nossa ess√™ncia ser√° alterada. O que h√° sempre de incoactivo, de incompleto e de constrangedor no presente n√£o √© j√° um sinal de menor realidade.
Mas ent√£o a verdade de um ser j√° n√£o √© aquilo em que se tornou no fim ou a sua ess√™ncia, mas o seu devir activo ou a sua exist√™ncia. E se, como Lavelle dizia em tempos, nos julgamos mais perto dos mortos que am√°mos do que dos vivos, √© porque j√° nos n√£o p√Ķem em d√ļvida e daqui para o futuro podemos sonh√°-los a nosso gosto. Esta piedade √© quase √≠mpia. A √ļnica recorda√ß√£o que lhes diz respeito √© a que se refere ao uso que faziam de si pr√≥prios e do seu mundo,

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Excesso de Vol√ļpia

A vol√ļpia carnal √© uma experi√™ncia dos sentidos, an√°loga ao simples olhar ou √† simples sensa√ß√£o com que um belo fruto enche a l√≠ngua. √Č uma grande experi√™ncia sem fim que nos √© dada; um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de todo o saber. O mal n√£o √© que n√≥s a aceitemos; o mal consiste em quase todos abusarem dessa experi√™ncia, malbaratando-a, fazendo dela um mero est√≠mulo para os momentos cansados da sua exist√™ncia.

Combater a Opress√£o

√Č certamente admir√°vel o homem que se op√Ķe a todas as esp√©cies de opress√£o, porque sente que s√≥ assim se conseguir√° realizar a sua vida, s√≥ assim ela estar√° de acordo com o esp√≠rito do mundo; constitui-lhe suficiente imperativo para que arrisque a tranquilidade e bordeje a pr√≥pria morte o pensamento de que os esp√≠ritos nasceram para ser livres e que a liberdade se confunde, na sua forma mais perfeita, com a raz√£o e a justi√ßa, com o bem; a exist√™ncia passou a ser para ele o meio que um deus benevolente colocou ao seu dispor para conseguir, pelo que lhe toca, deixar uma centelha onde at√© a√≠ apenas a treva se cerrara; √© um esfor√ßo de indiv√≠duo que reconheceu o caminho a seguir e que deliberadamente por ele marcha sem que o esmore√ßam obst√°culos ou o intimide a amea√ßa; afinal o poder√≠amos ver como a alma que busca, ap√≥s uma luta de que a n√£o interessam nem dificuldades nem extens√£o.

A Má Consciência como Inibição dos Instintos

A m√° consci√™ncia √© para mim o estado m√≥rbido em que devia ter ca√≠do o homem quando sofreu a transforma√ß√£o mais radical que alguma vez houve, a que nele se produziu quando se viu acorrentado √† argola da sociedade e da paz. √Ä maneira dos peixes obrigados a adaptarem-se a viver em terra, estes semianimais, acostumados √† vida selvagem, √† guerra, √†s correrias e aventuras, viram-se obrigados de repente a renunciar a todos os seus nobres instintos. For√ßavam-nos a irem pelo seu p√©, a ¬ęlevarem-se a si mesmos¬Ľ, quando at√© ent√£o os havia levado a √°gua: esmagava-os um peso enorme. Sentiam-se inaptos para as fun√ß√Ķes mais simples; neste mundo novo e desconhecido n√£o tinham os seus antigos guias estes instintos reguladores, inconscientemente fal√≠veis; viam-se reduzidos a pensar, a deduzir, a calcular, a combinar causas e efeitos. Infelizes! Viam-se reduzidos √† sua ¬ęconsci√™ncia¬Ľ, ao seu √≥rg√£o mais fraco e mais coxo! Creio que nunca houve na terra desgra√ßa t√£o grande, mal-estar t√£o horr√≠vel!
Acrescente-se a isto que os antigos instintos n√£o haviam renunciado de vez √†s suas exig√™ncias. Mas era dif√≠cil e ami√ļde imposs√≠vel satisfaz√™-las; era preciso procurar satisfa√ß√Ķes novas e subterr√Ęneas. Os instintos sob a enorme for√ßa repressiva, volvem para dentro,

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Um Bom Pai

Um bom pai não é aquele que nunca perde a paciência, mas é aquele que dialoga muito com os seus filhos, que tem prazer em entrar no mundo deles, que não os deixa do lado de fora da sua história. Ninguém tem filhos sabendo o que é ser pai. Ser pai exige um constante treino, em que os erros corrigem as rotas e as lágrimas acertam os caminhos. Educar filhos é uma tarefa complexa. Costumo brincar e dizer que os melhores filhos para serem educados são os dos outros e não os nossos. E fácil educar os filhos dos outros, pois não temos vínculos nem dificuldades com eles. Sem vínculo, o amor não cresce, mas onde há vínculos há sempre problemas e atritos. Não acredite em manuais mágicos de educação. Acredite na sua sensibilidade.

A melhor educa√ß√£o que os pais podem dar aos seus filhos √© dividir a sua hist√≥ria com eles. O melhor treino da emo√ß√£o √© falar das suas frustra√ß√Ķes, dos seus momentos de hesita√ß√£o, das suas conquistas, dos seus sonhos, dos seus erros. Nunca houve tantos div√≥rcios, mas o ser humano n√£o deixa de se unir. Porqu√™? Porque viver em fam√≠lia √© uma das experi√™ncias mais prazerosas da exist√™ncia.

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O Supremo Palhaço da Criação

A velha no√ß√£o antropom√≥rfica de que todo o universo se centraliza no homem ‚Äď de que a exist√™ncia humana √© a suprema express√£o do processo c√≥smico ‚Äď parece galopar alegremente para o ba√ļ das ilus√Ķes perdidas. O facto √© que a vida do homem, quanto mais estudada √† luz da biologia geral, parece cada vez mais vazia de significado. O que no passado deu a impress√£o de ser a principal preocupa√ß√£o e obra-prima dos deuses, a esp√©cie humana come√ßa agora a apresentar o aspecto de um sub-produto acidental das maquina√ß√Ķes vastas, inescrut√°veis e provavelmente sem sentido desses mesmos deuses.
(…) O que n√£o quer dizer, naturalmente, que um dia a tal teoria seja abandonada pela grande maioria dos homens. Pelo contr√°rio, estes a abra√ßar√£o √† medida que ela se tornar cada vez mais duvidosa. De fato, hoje, a teoria antropom√≥rfica ainda √© mais adoptada do que nas eras de obscurantismo, quando a doutrina de que um homem era um quase Deus foi no m√≠nimo aperfei√ßoada pela doutrina de que as mulheres inferiores. O que mais est√° por tr√°s da caridade, da filantropia, do pacifismo, da ‚Äúinspira√ß√£o‚ÄĚ e do resto dos atuais sentimentalismos? Uma por uma, todas estas tolices s√£o baseadas na no√ß√£o de que o homem √© um animal glorioso e indescrit√≠vel,

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Amor Desmistificado

O sentimento de um homem apaixonado produz por vezes efeitos c√≥micos ou tr√°gicos, porque em ambos os casos, √© dominado pelo esp√≠rito da esp√©cie que o domina ao ponto de o arrancar a si pr√≥prio; os seus actos n√£o correspondem √† sua individualidade. Isto explica, nos n√≠veis superiores do amor, essa natureza t√£o po√©tica e sublimadora que caracteriza os seus pensamentos, essa eleva√ß√£o transcendente e hiperf√≠sica, que parece faz√™-lo afastar da finalidade meramente f√≠sica do seu amor. √Č porque o impelem ent√£o o g√©nio da esp√©cie e os seus interesses superiores.
Recebeu a miss√£o de iniciar uma s√©rie indefinida de gera√ß√Ķes dotadas de determinadas caracter√≠sticas e constitu√≠das por certos elementos que s√≥ se podem encontrar num √ļnico pai e numa √ļnica m√£e; s√≥ essa uni√£o pode dar exist√™ncia √† gera√ß√£o determinada que a objectiva√ß√£o da vontade expressamente exige. O sentimento que o amante tem de agir em circunst√Ęncias de semelhantes transcend√™ncia, eleva-o de tal modo sobre as coisas terrestres e mesmo acima de si pr√≥prio, e tranforma-lhe os desejos f√≠sicos numa apar√™ncia de tal modo suprasens√≠vel, que o amor √© um acontecimento po√©tico, mesmo na exist√™ncia do homem mais prosaico, o que o faz cair por vezes em rid√≠culo.

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As Vantagens de se Ser um Pobre-Diabo

Para aquele que n√£o √© nobre, mas dotado de algum talento, ser um pobre-diabo √© uma verdadeira vantagem e uma recomenda√ß√£o. Pois o que cada um mais procura e aprecia, n√£o apenas na simples conversa√ß√£o, mas sobretudo no servi√ßo p√ļblico, √© a inferioridade do outro. Ora, s√≥ um pobre-diabo est√° convencido e compenetrado em grau suficiente da sua completa, profunda, decisiva, total inferioridade e da sua plena insignific√Ęncia e aus√™ncia de valor, tal como exige o caso. Apenas ele, portanto, inclina-se ami√ļde e por bastante tempo, e apenas a sua rever√™ncia atinge plenos noventa graus; apenas ele suporta tudo e ainda sorri; apenas ele conhece como obras-primas, em p√ļblico, em voz alta ou em grandes caracteres, as in√©pcias liter√°rias dos seus superiores ou dos homens influentes em geral; apenas ele sabe como mendigar; por conseguinte, apenas ele se pode tornar um iniciado, a tempo, portanto, na juventude, naquela verdade oculta que Goethe nos revelou nos seguintes termos:

Sobre a baixeza

Que ninguém se lamente:

Pois ela é a potência,

N√£o importa o que te digam.
Em contrapartida, quem já nasceu com uma fortuna que lhe garanta a existência irá posicionar-se, na maioria das vezes,

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O Dom de Deixar Ir

√Č preciso aprender a viver. A qualidade da nossa exist√™ncia depende de um equil√≠brio fundamental na nossa rela√ß√£o com o mundo: apego e desapego. Nesta vida, a pondera√ß√£o, a propor√ß√£o e a subtileza s√£o sempre melhores que qualquer arrebatamento. Mas o essencial √© aprender que a exist√™ncia √© feita de d√°divas e perdas.

Eis porque quem reza deve pedir e agradecer: tudo √©, na verdade, um dom. Tudo passa… importa pois prepararmo-nos para a perda, ainda que tantas vezes n√£o seja sen√£o tempor√°ria… Alegrias e dores. S√≥ h√° felicidade num cora√ß√£o onde habita a sabedoria e paci√™ncia dos tempos e dos momentos, a paz de quem sabe que s√£o muitos os porqu√™s e para qu√™s que ultrapassam a capacidade humana de compreender.

Na vida, tudo se recebe e tudo se perde.
Amar é um apego natural mas também obriga a que deixemos o outro ser quem é, abrindo mão e permitindo-lhe que parta, ou que fique, sem desejar outra coisa senão que seja radicalmente livre. Aprendendo que há muito mais valor no ato de quem decide ficar do que naquele de quem só está por não poder partir.

Nada verdadeiramente nos pertence. O sublime do amor está aí,

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A Morte que Trazemos no Coração

√Č no cora√ß√£o que morremos. √Č a√≠ que a morte habita.

Nem sempre nos damos conta que a carregamos connosco, mas, desde que somos vida, ela segue-nos de perto. Enquanto n√£o somos tomados pela nossa, vamos assistindo e sentindo, em ritmo crescente ao longo da vida, √†s mortes de quem nos √© querido. A morte de um amigo √© como uma amputa√ß√£o: perdemos uma parte de n√≥s; uma fonte de amor; algu√©m que dava sentido √† nossa exist√™ncia… porque despertava o amor em n√≥s.

Mas não há sabedoria alguma, cultura ou religião, que não parta do princípio de que a realidade é composta por dois mundos: um, a que temos acesso direto e, outro, que não passa pelos sentidos, a ele se chega através do coração. Contudo, o visível e o invisível misturam-se de forma misteriosa, ao ponto de se confundirem e, como alguns chegam a compreender, não serem já dois mundos, mas um só.
Só as pessoas que amamos morrem. Só a sua morte é absoluta separação. Os estranhos, com vidas com as quais não nos cruzamos, não morrem, porque, para nós, de facto, não chegam sequer a ser.

Só as pessoas que amamos não morrem.

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