Textos sobre Tentação

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Textos de tentação escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Proibir Demasiado Prejudica a Lei

Penso que um excesso de decretos e de interditos prejudica a autoridade da lei. Podemos observ√°-lo: onde existem poucas proibi√ß√Ķes, estas s√£o obedecidas; onde a cada passo se trope√ßa em coisas proibidas, sente-se rapidamente a tenta√ß√£o de as infringir. Al√©m disso, n√£o √© preciso ser-se anarquista para se ver que as leis e os decretos, do ponto de vista da sua origem, n√£o gozam de qualquer car√°cter sagrado ou invulner√°vel. Por vezes s√£o pobres de conte√ļdo, insuficientes, ofensivas do nosso sentido de justi√ßa, ou nisso se tornam com o tempo, e ent√£o, dada a in√©rcia geral dos dirigentes, n√£o resta outro meio de corrigir essas leis caducas sen√£o infringi-las de boa vontade! Para mais, √© prudente, quando se pretende manter o respeito por leis e decretos, n√£o promulgar sen√£o aqueles cuja observa√ß√£o ou infrac√ß√£o possam ser facilmente controladas.

O Amor é Mais Forte

Os amantes de hoje preferem a droga mais leve, o tabaco mais light ou o caf√© descafeinado. J√° ningu√©m quer ficar pedrado de amor ou sofrer de uma overdose de paix√£o. As emo√ß√Ķes fortes s√£o fracas e as pr√≥prias fraquezas revelam-se mais fortes. Os amantes, esses, s√£o igualmente namorados da monotonia e amigos √≠ntimos da disciplina. O que est√° fora de controlo causa-lhes confus√£o, e afecta-lhes uma certa zona do c√©rebro, mas quase nunca lhes toca o cora√ß√£o. O amor devia ser sonhado e devia faz√™-los voar; em vez disso √© planeado, e quanto muito, f√°-los pensar.
Sobre o amor n√£o se tem controlo. √Č um sentimento que nos domina, que nos sufoca e que nos mata. Depois d√°-nos um pouco vida. No amor queremos viver, mas pouco nos importa morrer e estamos sempre dispostos a ir mais al√©m. Deixamo-nos cair em tenta√ß√£o, e n√£o nos livramos do mal, embora procuremos o bem. No amor tamb√©m se tem f√©, mas n√£o se conhecem ora√ß√Ķes: amamos porque cremos, porque desejamos e porque sabemos que o amor existe. Amamos sem saber se somos amados, e por isso podemos acabar desolados, isolados e deprimidos. Que se lixe! O amor n√£o √© justo,

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Meu Bebé para Dar Dentadas

Meu Bebé pequeno e rabino:
Cá estou em casa, sozinho, salvo o intelectual que está pondo o papel nas paredes (pudera! havia de ser no tecto ou no chão!); e esse não conta. E, conforme prometi, vou escrever ao meu Bebezinho para lhe dizer, pelo menos, que ela é muito má, excepto numa cousa, que é na arte de fingir, em que vejo que é mestra.
Sabes? Estou-te escrevendo mas ¬ęn√£o estou pensando em ti¬Ľ. Estou pensando nas saudades que tenho do meu tempo da ¬ęca√ßa aos pombos¬Ľ; e isto √© uma cousa, como tu sabes, com que tu n√£o tens nada…
Foi agrad√°vel hoje o nosso passeio ‚ÄĒ n√£o foi? Tu estavas bem-disposta, e eu estava bem-disposto, e o dia estava bem-disposto tamb√©m. (O meu amigo, Sr. A.A. Crosse est√° de sa√ļde ‚ÄĒ uma libra de sa√ļde por enquanto, o bastante para n√£o estar constipado.)
N√£o te admires de a minha letra ser um pouco esquisita. H√° para isso duas raz√Ķes. A primeira √© a de este papel (o √ļnico acess√≠vel agora) ser muito corredio, e a pena passar por ele muito depressa; a segunda √© a de eu ter descoberto aqui em casa um vinho do Porto espl√™ndido,

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Pais Aprisionados

As crian√ßas tornaram-se uma arma de arremesso √† medida de quase tudo. Justificam as discuss√Ķes entre marido e mulher, justificam a falta de generosidade para com o pr√≥ximo, justificam a indisponibilidade e a inac√ß√£o em geral – e no fim, em muitos casos (…), ainda nos absolvem pelo fracasso a que, pulverizados os sonhos da inf√Ęncia, os objectivos da juventude e as agendas da primeira idade adulta, nos vemos a certa altura obrigados a resumir o balan√ßo das nossas vidas. E talvez haja, afinal, uma certa racionalidade no cosmos. Talvez haja uma raz√£o para nunca, at√© hoje, n√≥s n√£o termos tido filhos, eu e outros como eu. Talvez nenhum de n√≥s esteja ainda pronto para resistir √† inevit√°vel tenta√ß√£o de transformar os filhos num desmentido oficial para a nossa frustra√ß√£o. Talvez, no dia em que os tivermos, estejamos j√° preparados para conter o impulso de culp√°-los por essa frustra√ß√£o. E talvez sejamos n√≥s, enfim, os primeiros a fugir √† inclina√ß√£o para considerar que a nossa vida apenas come√ßou no dia em que come√ßou a vida dos nossos filhos. At√© porque, disto tenho eu a certeza, filhos de pais cuja mem√≥ria alcan√ßa para al√©m do dia do primeiro parto resultam sempre em adultos mais saud√°veis,

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O Ciclo do Progresso

Da sociedade e do luxo que ela engendra, nascem as artes liberais e mec√Ęnicas, o com√©rcio, as letras, e todas essas inutilidades que fazem florescer a ind√ļstria, enriquecem e perdem os Estados. A raz√£o desse deperecimento √© muito simples. √Č f√°cil ver que, pela sua natureza, a agricultura deve ser a menos lucrativa de todas as artes, porque, sendo o seu produto de uso mais indispens√°vel para todos os homens, o pre√ßo deve estar proporcionado √†s faculdades dos mais pobres. Do mesmo princ√≠pio pode-se tirar a regra de que, em geral, as artes s√£o lucrativas na raz√£o inversa da sua utilidade, e de que as mais necess√°rias, finalmente, devem tornar-se as mais negligenciadas. Por ai se v√™ o que se deve pensar das verdadeiras vantagens da ind√ļstria e do efeito real que resulta dos seus progressos. Tais s√£o as causas sens√≠veis de todas as mis√©rias em que a opul√™ncia precipita, finalmente, as na√ß√Ķes mais admiradas.
√Ä medida que a ind√ļstria e as artes se estendem e florescem, o cultivador desprezado, carregado de impostos necess√°rios √† manuten√ß√£o do luxo, e condenado a passar a vida entre o trabalho e a fome, abandona o campo para ir procurar na cidade o p√£o que devia levar para l√°.

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N√£o h√° Casamento com Lux√ļria

No casamento a revitaliza√ß√£o da lux√ļria s√≥ pode ser conseguida enfraquecendo e destruindo os seus la√ßos. Quero dizer, amantes. √Č por isso que a lux√ļria se torna um pecado, pois est√° destinada a morrer, e se ainda se acende isso s√≥ acontece por causa das mulheres fora do casamento. √Č assim que chegamos √† ideia original de pecado quando a lux√ļria √© a inimiga do amor. A c√≥pula entre marido e mulher n√£o √© pecaminosa porque √© feita sem lux√ļria. Todos os casos extraconjugais s√£o luxuriosos e por isso pecaminosos. Assim, todas as tentativas de reavivar a lux√ļria no casamento s√£o m√°s, incluindo o afastamento.
Porque reacender a lux√ļria por um curto per√≠odo amea√ßa um casamento, sujeitando a esposa √† tenta√ß√£o de adult√©rio na separa√ß√£o. O casamento foi criado para destruir a paix√£o embora a princ√≠pio atraia com paix√£o. Calcar a paix√£o com a paix√£o.
O casamento seduz com a legitimidade e com a disponibilidade da lux√ļria. Ao fazermos o juramento de fidelidade, n√£o suspeitamos que estamos tamb√©m a renunciar √† lux√ļria. O casamento foi criado para distrair as pessoas da lux√ļria com a ajuda da lux√ļria. Por isso, para bem de um casamento forte, tem se aguentar o seu desaparecimento.

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A Certeza na Vitória

Ningu√©m pode ir para a batalha a menos que esteja plenamente convencido da vit√≥ria em antem√£o. Se come√ßarmos sem confian√ßa, j√° perdemos metade da batalha e enterramos os nossos talentos. Enquanto dolorosamente conscientes das nossas pr√≥prias fraquezas, temos que marchar sem ceder, tendo em mente o que o Senhor disse a S√£o Paulo: ¬ęA minha gra√ßa te basta, porque o poder se aperfei√ßoa na fraqueza¬Ľ (2 Cor 12: 9). O triunfo crist√£o √© sempre uma cruz, mas uma cruz que √© ao mesmo tempo uma bandeira vitoriosa suportada com ternura agressiva contra os assaltos do mal. O esp√≠rito maligno de derrotismo √© irm√£o da tenta√ß√£o de se separar, antes do tempo, o trigo do joio; √© o fruto de uma ansiosa e auto-centrada falta de confian√ßa.

O Que Sou e o Que Faço Neste Mundo

Involuntariamente, inconscientemente, nas leituras, nas conversas e at√© junto das pessoas que o rodeavam, procurava uma rela√ß√£o qualquer com o problema que o preocupava. Um ponto o preocupava acima de tudo: por que √© que os homens da sua idade e do seu meio, os quais exactamente como ele, pela sua maior parte, haviam substitu√≠do a f√© pela ci√™ncia, n√£o sofriam por isso mesmo moralmente? N√£o seriam sinceros? Ou compreendiam melhor do que ele as respostas que a ci√™ncia proporciona a essas quest√Ķes perturbadoras? E punha-se ent√£o a estudar, quer os homens, quer os livros, que poderiam proporcionar-lhe as solu√ß√Ķes t√£o desejadas.
(…) Atormentado constantemente por estes pensamentos, lia e meditava, mas o objectivo perseguido cada vez se afastava mais dele. Convencido de que os materialistas nenhuma resposta lhe dariam, relera, nos √ļltimos tempos da sua estada em Moscovo, e depois do seu regresso √† aldeia, Plat√£o e Espinosa, Kant e Schelling, Hegel e Schopenhauer. Estes fil√≥sofos satisfaziam-no enquanto se contentavam em refutar as doutrinas materialistas e ele pr√≥prio encontrava ent√£o argumentos novos contra elas; mas, assim que abordava – quer atrav√©s das leituras das suas obras, quer atrav√©s dos racioc√≠nios que estas lhe inspiravam – a solu√ß√£o do famoso problema,

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Dizer Mal dos Outros, Ouvir Falar Mal de Nós

Uma das formas mais universais de irracionalidade é a atitude tomada por quase toda a gente em relação às conversas maldizentes. Muito poucas pessoas sabem resistir à tentação de dizer mal dos seus conhecimentos e mesmo, se a ocasião se proporciona, dos seus amigos; no entanto, quando sabem que alguma coisa foi dita em seu desabono, enchem-se de espanto e indignação. Certamente nunca lhes ocorreu ao espírito que da mesma forma que dizem mal de não importa quem, alguém possa dizer mal deles. Esta é uma forma atenuada da atitude que, quando exagerada, conduz à mania da perseguição.
Exigimos de toda a gente o mesmo sentimento de amor e de profundo respeito que sentimos por nós próprios. Nunca nos ocorre que não devemos exigir que os outros pensem melhor de nós do que nós pensamos a respeito deles e não nos ocorre porque aos nossos olhos os méritos são grandes e evidentes ao passo que os dos outros, se na realidade existem, só são reconhecidos com certa benevolência. Quando o leitor ouve dizer que alguém disse qualquer coisa desprimorosa a seu respeito, lembra-se logo das noventa e nove vezes que reprimiu o desejo de exprimir, sobre esse alguém, a crítica que considerava justa e merecida,

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Ideias de Esquerda

Nunca disse que a esquerda era definitivamente est√ļpida, disse, sim, que agora mesmo n√£o vejo nada mais est√ļpido que a esquerda. Porqu√™? Porque h√° mais de cinquenta anos que n√£o produz uma √ļnica ideia que se diga de esquerda, porque, at√© quando parecia t√™-las, n√£o estava a fazer mais que remastigar ideias do passado sem se dar ao trabalho elementar de as fazer viver sob a luz da actualidade e das suas transforma√ß√Ķes. A esquerda tamb√©m √© est√ļpida porque √© incapaz de resistir √† tenta√ß√£o m√≥rbida que a leva a dividir-se e a subdividir–se sem parar.

Filosofia e Amor são completamente Antagónicos

Entre a filosofia e o amor não há possibilidade de convivência. A filosofia exila a mulher e a mulher exclui a filosofia. Os filósofos são todos cérebro sem coração nem testículos. Aqueles que tiveram mulheres e filhos são filósofos menores, em segunda mão. Os maiores são todos misóginos.
A filosofia tem relação com a castidade: quem se aproxima da mulher não pode alcançar o absoluto. Os filósofos foram eunucos, como Orígenes e Abelardo; ou virgens por eleição, como São Tomás e São Boaventura; ou eternos celibatários, como Platão, Espinosa, Kant, Schopenhauer, Nietzsche, como todos os maiores. Quem teve mulher, como Sócrates, considerou-a empecilho e tortura.
São antes sodomitas, como Séneca e Bacon, ou onanistas, como Rousseau, Kierkegaard e Leopardi Рem todos os casos, antifemininos. A mulher é a vida e a filosofia uma espécie de morte; a dona é o primado do sentimento e a filosofia quer ser racionalismo puro; a mulher é capricho e novidade e a filosofia ordem e sistema.
No entanto, a filosofia n√£o se pode vangloriar de vencer, com a sua for√ßa, a tenta√ß√£o de Eros – √© verdade, ao inv√©s, que a frigidez e a impot√™ncia predisp√Ķem para a filosofia. Se virem um fil√≥sofo marido e pai feliz,

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O Oportunismo

O oportunismo √©, porventura, a mais poderosa de todas as tenta√ß√Ķes; quem reflectiu sobre um problema e lhe encontrou solu√ß√£o √© levado a querer realiz√°-la, mesmo que para isso se tenha de afastar um pouco de mais r√≠gidas regras de moral; e a gravidade do perigo √© tanto maior quanto √© certo que se n√£o √© movido por um lado inferior do esp√≠rito, mas quase sempre pelo amor das grandes ideias, pela generosidade, pelo desejo de um grupo humano mais culto e mais feliz.
Por outra parte, é muito difícil lutar contra uma tendência que anda inerente ao homem, à sua pequenez, à sua fragilidade ante o universo e que rompe através dos raciocínios mais fortes e das almas mais bem apetrechadas: não damos ao futuro toda a extensão que ele realmente comporta, supomos que o progresso se detém amanhã e que é neste mesmo momento, embora transigindo, embora feridos de incoerência, que temos de lançar o grão à terra e de puxar o caule verde para que a planta se erga mais depressa.
Seria bom, no entanto, que pensássemos no reduzido valor que têm leis e reformas quando não respondem a uma necessidade íntima, quando não exprimem o que já andava,

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Gerir o Êxito

Deixa triunfar à vontade aqueles que praticaram verdadeiras proezas e merecem uma glória autêntica, sem reivindicares uma parte dos louvores: essa glória resplandecerá tanto melhor sobre ti se a ela se juntar a de te teres mostrado acima da inveja.
Atribui a outr√©m os teus √™xitos. Por exemplo, a uma pessoa experiente que te tenha ajudado com a sua previd√™ncia e as suas opini√Ķes prudentes.
Disfarça o orgulho pelos teus êxitos, não modifiques a maneira como falas ou como te vestes, nem os teus hábtios à mesa. Ou pelo menos, se alguma coisa tiveres de modificar nestes domínios, que seja por uma boa tazão que todos compreendam.
Se trinufares sobre um adversário, não cedas à tentação de o insultar excessivamente.
N√£o troces dos teus rivais, evita provoc√°-los e, sempre que sa√≠res vencedor, contenta-te com o prazer da vit√≥ria sem te glorificares em palavras ou ac√ß√Ķes.

O Sagrado e o Alcançável

Sem uma palavra a escrever, Martim no entanto n√£o resistiu √† tenta√ß√£o de imaginar o que lhe aconteceria se o seu poder fosse mais forte que a prud√™ncia. ¬ęE se de repente eu pudesse?¬Ľ, indagou-se ele. E ent√£o n√£o conseguiu se enganar: o que quer que conseguisse escrever seria apenas por n√£o conseguir escrever ¬ęa outra coisa¬Ľ. Mesmo dentro do poder, o que dissesse seria apenas por impossibilidade de transmitir uma outra coisa. A Proibi√ß√£o era muito mais funda…, surpreendeu-se Martim.
Como se vê, aquele homem terminara por cair na profundeza que ele sempre sensatamente evitara.
E a escolha tornou-se ainda mais funda: ou ficar com a zona sagrada intacta e viver dela Рou traí-la pelo que ele certamente terminaria conseguindo e que seria apenas isso: o alcançável.
Como quem n√£o conseguisse beber a √°gua do rio sen√£o enchendo o c√īncavo das pr√≥prias m√£os – mas j√° n√£o seria a silenciosa √°gua do rio, n√£o seria o seu movimento fr√≠gido, nem a delicada avidez com que a √°gua tortura pedras, n√£o seria aquilo que √© um homem de tarde junto do rio depois de ter tido uma mulher. Seria o c√īncavo das pr√≥prias m√£os. Preferia ent√£o o sil√™ncio intacto.

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Todos Erramos

Apontamos quase sempre o dedo a quem erra… Condenamos os outros com enorme facilidade. Compreendemo-los pouco, perdoamo-los ainda menos. Mas, ser√° que atirar pedras √© o mais justo, eficaz e melhor?

Temos uma necessidade quase prim√°ria de julgar o comportamento alheio, de o analisar e avaliar ao mais √≠nfimo detalhe, sempre de um ponto de vista superior, como se o sentido da nossa exist√™ncia, a nossa miss√£o, passasse por sentenciar todos quantos cruzam a sua vida com a nossa… condenando-os… na firme convic√ß√£o de que assim estamos a ajudar… a melhorar.

Comete erro em cima de erro quem se dedica a julgar os erros dos outros…

Julgamos de forma absoluta, na maior parte das vezes, generalizando um gesto ou dois, achando que cada pequena a√ß√£o revela tudo quanto h√° a saber sobre determinada pessoa… mais, achamos que cada homem ou √© bom ou √© mau… como se n√£o fossemos todos… de carne e osso… de luz e sombras.
J√° a n√≥s n√£o nos julgamos nem nos deixamos julgar. Consideramos que, no caso espec√≠fico da nossa vida, s√£o tantos os factores que t√™m de se levar em conta (quase todos atenuantes) que se torna imposs√≠vel qualquer tipo de veredicto…

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A Insegurança do Escritor

√Č certo que tudo o que concebi antecipadamente, mesmo quando estava com boa disposi√ß√£o, quer com todo o pormenor, quer casualmente, mas em palavras espec√≠ficas, aparece seco, errado, inflex√≠vel, embara√ßado para todos os que me rodeiam, t√≠mido, mas acima de tudo incompleto, quando tento escrever tudo isso √† minha secret√°ria, embora eu n√£o tenha esquecido nada da concep√ß√£o original. Isto est√° naturalmente relacionado em grande parte com o facto de eu conceber uma coisa boa longe do papel durante apenas um momento de exalta√ß√£o mais temido do que desejado, embora eu muito o deseje; mas ent√£o a plenitude √© tal que eu tenho de ceder. √Äs cegas e arbitrariamente agarro peda√ßos da corrente, de modo que, quando escrevo calmamente, a minha aquisi√ß√£o n√£o √© nada comparada com a plenitude em que viveu, √© incapaz de restaurar essa plenitude, e assim √© m√° e perturbadora, por ser uma in√ļtil tenta√ß√£o.

O Medo De Nós Próprios

Acredito que se um homem vivesse a sua vida plenamente, desse forma a cada sentimento, expess√£o a cada pensamento, realidade a cada sonho, acredito que o mundo beneficiaria de um novo impulso de energia t√£o intenso que esquecer√≠amos todas as doen√ßas da √©poca medieval e regressar√≠amos ao ideal hel√©nico, possivelmente at√© a algo mais depurado e mais rico do que o ideal hel√©nico. Mas o mais corajoso homem entre n√≥s tem medo de si pr√≥prio. A mutila√ß√£o do selvagem sobrevive tragicamente na autonega√ß√£o que nos corrompe a vida. Somos castigados pelas nossas ren√ļncias. Cada impulso que tentamos estrangular germina no c√©rebro e envenena-nos. O corpo peca uma vez, e acaba com o pecado, porque a ac√ß√£o √© um modo de expurga√ß√£o. Nada mais permanece do que a lembran√ßa de um prazer, ou o luxo de um remorso. A √ļnica maneira de nos livrarmos de uma tenta√ß√£o √© cedermos-lhe. Se lhe resistirmos, a nossa alma adoece com o anseio das coisas que se proibiu, com o desejo daquilo que as suas monstruosas leis tornaram monstruoso e ilegal. J√° se disse que os grandes acontecimentos do mundo ocorrem no c√©rebro. √Č tamb√©m no c√©rebro, e apenas neste, que ocorrem os grandes pecados do mundo.

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Sexo, Poder e Dinheiro

A nossa sociedade gravita em torno de 3 eixos. Muito poucos s√£o os que n√£o se deixam cair em nenhuma das reais tenta√ß√Ķes do aparente.
O culto destas dimens√Ķes imediatas da identidade remete para planos secund√°rios todas as categorias interiores que a estruturam e consubstanciam, dispensando pondera√ß√£o e reflex√£o, abrem alas a uma pregui√ßa estranha que se contenta com o superficial. Quase uma animalidade consentida, mas sem sentido.
O sexo, fazendo parte da vida, n√£o √© contudo o mais importante. O h√°bito consome-se com tremenda rapidez, e o corpo √© apenas uma √≠nfima parte do que somos, o albergue tempor√°rio de uma interioridade composta por, tantas vezes, tenebrosas podrid√Ķes, vulgaridades comuns e, por vezes tamb√©m, belezas indescrit√≠veis. Felizmente, o ser humano √© capaz de ver para bem mais longe do que a vista alcan√ßa, e ver o outro atrav√©s do seu corpo.

O poder atrai e corrompe, muito antes de ser atingido. Promete o que há de melhor pela amplificação da liberdade, mas como não dá nunca o discernimento essencial às escolhas que determinam os passos que nos aproximam da felicidade, ilude enquanto afoga quem se julga por ele abraçado.

O dinheiro é o que parece mover com mais eficácia o mundo,

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O Ser entre o Interior e o Exterior

Era um tipo estranho. Digo bem ¬ęum tipo¬Ľ. Olho um homem, uma mulher, e nem sempre me √© poss√≠vel tentar sequer abordar-lhe a pessoa por dentro. Porque h√° indiv√≠duos que irresistivelmente reduzimos a ¬ęobjectos¬Ľ. S√£o os indiv√≠duos ¬ęcaracter√≠sticos¬Ľ com tiques, com uma apar√™ncia de tra√ßos n√≠tidos. Compreendo a tenta√ß√£o da caricatura: a um olhar sem mist√©rio, os homens s√£o a caricatura do homem. Por isso o romance tem ignorado a outra zona. Ah, escrever um romance que se gerasse nesse ar rarefeito de n√≥s pr√≥prios, no alarme da nossa pr√≥pria pessoa, na zona incr√≠vel do sobressalto! Atingir n√£o bem o que se √© ¬ępor dentro¬Ľ, a ¬ępsicologia¬Ľ, o modo √≠ntimo de se ser, mas a outra parte, a que est√° antes dessa, a pessoa viva, a pessoa absoluta. Um romance que ainda n√£o h√°… Porque h√° s√≥ ainda romances de coisas – coisas vistas por fora ou coisas vistas por dentro. Um romance que se fixasse nessa ilumina√ß√£o viva de n√≥s, nessa dimens√£o ofuscante do halo de n√≥s…

O Machismo Portugu√™s e as Trai√ß√Ķes Amorosas

Na g√≠ria portuguesa, os palitos s√£o a vers√£o econ√≥mica, e mais moderna, dos cornos. Os cornos, √† semelhan√ßa do que aconteceu com os autom√≥veis e os computadores, tornaram-se demasiado volumosos e pesados para as exig√™ncias do homem de hoje. Da√≠ a crescente popularidade dos mais port√°teis e menos onerosos palitos. Contudo, visto que se vive presentemente um per√≠odo de transi√ß√£o, em que os novos palitos ainda se v√™em lado a lado com os tradicionais cornos, continuam a existir algumas sobreposi√ß√Ķes. Uma delas, herdada do antigamente, deve-se ao facto dos palitos n√£o se saldarem numa diminui√ß√£o proporcional de sofrimento. Ou seja, n√£o d√£o uma mera dor de palito ‚ÄĒ d√£o √† mesma, incontrovertivelmente, dor de corno. N√£o √© mais carinhoso, por isso, p√īr os ¬ępalitos¬Ľ a algu√©m ‚ÄĒ continua a ser exactamente o mesmo que p√īr os outros.

Tudo isto vem a prop√≥sito da forma at√≠pica, entre os povos latinos, que assume o machismo portugu√™s. N√£o se trata do machismo triunfalmente dominador, g√©nero ¬ęAqui quem manda sou eu!¬Ľ, do brutamontes que n√£o d√° satisfa√ß√Ķes √† mulher. N√£o ‚ÄĒ o machismo portugu√™s, imortalizado pelo fado ¬ęN√£o venhas tarde¬Ľ, √© um machismo apolog√©tico, todo ¬ędesculpa l√° √≥ Mafalda¬Ľ, que alcan√ßa os seus objectivos de uma maneira mais eficaz.

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