Textos sobre Deus

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Textos de deus escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Mentira

Porque √© que, na maior parte das vezes, os homens na vida quotidiana dizem a verdade? Certamente, n√£o porque um deus proibiu mentir. Mas sim, em primeiro lugar, porque √© mais c√≥modo, pois a mentira exige inven√ß√£o, dissimula√ß√£o e mem√≥ria. Por isso Swift diz: ¬ęQuem conta uma mentira raramente se apercebe do pesado fardo que toma sobre si; √© que, para manter uma mentira, tem de inventar outras vinte¬Ľ. Em seguida, porque, em circunst√Ęncias simples, √© vantajoso dizer directamente: quero isto, fiz aquilo, e outras coisas parecidas; portanto, porque a via da obriga√ß√£o e da autoridade √© mais segura que a do ardil. Se uma crian√ßa, por√©m, tiver sido educada em circunst√Ęncias dom√©sticas complicadas, ent√£o maneja a mentira com a mesma naturalidade e diz, involuntariamente, sempre aquilo que corresponde ao seu interesse; um sentido da verdade, uma repugn√Ęncia ante a mentira em si, s√£o-lhe completamente estranhos e inacess√≠veis, e, portanto, ela mente com toda a inoc√™ncia.

O Problema em Amar

O problema em amar quem te ama √© o de quem te ama te amar como tu amas quem te ama. E depois o encadeamento √© simples: quem te ama quer-te presente por dentro dele a toda a hora, por todo o lado do teu lado; e tu queres quem te ama presente em ti a toda a hora, por todo o lado do teu lado. Mas os corpos ‚Äď por mais que a alma n√£o seja palp√°vel tamb√©m ela tem um corpo ‚Äď t√™m um limite de dilata√ß√£o. A partir de uma certa altura: p√°ra. E j√° n√£o alarga mais. E tu queres enfiar o espa√ßo que quem ama ocupa em ti mesmo ao lado do espa√ßo do que te amas. E n√£o d√°. N√£o d√° para te amares como amas quem amas. E depois quem te ama como tu amas quem te ama vai querer fazer o mesmo contigo. E n√£o d√°. Os corpos ‚Äď repito ‚Äď t√™m um limite de dilata√ß√£o. E chega uma altura em que uma parte de ti n√£o cabe na parte toda de quem amas; e chega uma altura em que uma parte de quem amas n√£o cabe na parte toda de ti.

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N√£o Sou Digno de um Anjo T√£o Doce como Tu

Bom dia, anjo querido, beijo-te muito. Pensei em ti durante todo o caminho. Acabo de chegar. Sinto-me cansado e instalei-me para te escrever. Acabam de trazer-me ch√°, e √°gua para me lavar, mas no intervalo escrevo-te umas linhas. (…) Na sala de espera da esta√ß√£o andei de l√° para c√° a pensar em ti e dizia comigo: mas porque deixei eu a minha Anuska?
Recordava tudo, at√© ao mais √≠nfimo escaninho da tua alma e do teu cora√ß√£o. Desde que cas√°mos que descobri n√£o ser digno de um anjo t√£o doce, t√£o belo, t√£o puro como tu – e que cr√™ em mim. Como pude eu deixar-te? Para onde vou? Porqu√™? Deus confiou-te a mim para que nenhuma das riquezas da tua alma se perdesse – pelo contr√°rio, para que tudo se desenvolva e flores√ßa rica e esplendorosamente. Deus entregou-te a mim para que, por ti, eu resgate os meus enormes pecados, ao apresentar-te a Ele amadurecida, conservada, salva de tudo o que √© baixo e ofende o esp√≠rito. E eu (…) eu o que fa√ßo √© perturbar-te com coisas t√£o est√ļpidas como a minha viagem a este lugar.

Medo da Própria Alma

Se Deus n√£o existe… O pior de tudo √© que eu digo e afirmo – Deus n√£o existe! – mas na realidade n√£o sei se Deus existe ou n√£o. N√£o h√° nada que o prove – ou que prove o contr√°rio. O pior de tudo √© que eu sinto uma sombra por tr√°s de mim e n√£o sei por que nome lhe hei-de chamar. O pior que podia acontecer no mundo foi algu√©m p√īr esta ideia a caminho.
Mas mesmo que Deus não exista, tenho medo de mim mesmo, tenho medo da minha alma, tenho medo de me encontrar sós a sós com a minha alma, que é nada, o fim e o princípio da vida e a razão do meu ser. Mesmo que Deus não exista e a consciência seja uma palavra, há ainda outra coisa indefinida e imensa diante de mim, ao pé de mim, perto de mim.

O Problema do Pacifismo

Regozijo-me por me haverem dado a oportunidade de proferir algumas palavras sobre o problema do pacifismo. A evolu√ß√£o dos √ļltimos anos mostrou novamente que n√£o √© eficaz deixar a luta contra o armamento e contra o esp√≠rito b√©lico nas m√£os dos governantes. Mas a forma√ß√£o de grandes organiza√ß√Ķes com muitos membros tamb√©m n√£o basta, por si s√≥, para atingirmos essa finalidade. A meu ver o meio mais eficaz √© o que j√° o sarc√°stico Arist√≥fanes, h√° quase tr√™s mil anos preconizava na sua famosa com√©dia sat√≠rica ¬ęLisistrata¬Ľ.
Poderíamos assim conseguir que o problema do pacifismo se tornasse uma questão vital da Humanidade, um verdadeiro combate a que seriam atraídos todos os homens de boa-vontade e personalidade vigorosa. A luta seria árdua, por ter de se travar no campo da ilegalidade, mas no fundo seria legítima, por se travar em nome do verdadeiro direito dos homens, contra dirigentes que, por interesses muitas vezes odiosos, exigem dos seus concidadãos um sacrifício de vida que redunda também num acto criminal por atentar contra um dos mandamentos da Lei de Deus.
Muitos que se consideram bons pacifistas não estarão dispostos a tomar parte num pacifismo tão radical, invocando motivos patrióticos. Com esses não se poderá contar na hora crítica.

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Os Descrentes

Nunca encontrei um descrente, apenas desvairados inquietos… √© assim que √© melhor trat√°-los. S√£o pessoas diferentes, n√£o se percebe bem o que s√£o: tanto os grandes como os pequenos, os ignorantes como os cultos, mesmo a gente da classe mais simples, tudo neles √© desvario. Porque passam a vida a ler e a interpretar e depois, fartos da do√ßura livresca, continuam perplexos e n√£o conseguem resolver nada.
H√° quem se disperse, de maneira que n√£o consegue atentar em si mesmo. H√° quem seja rijo como pedra, mas no seu cora√ß√£o vagueiam sonhos. H√° tamb√©m o insens√≠vel e f√ļtil que s√≥ quer gozar e ironizar. H√° quem s√≥ tire dos livros florinhas, e mesmo elas consoante a sua opini√£o, e h√° nele desvario e falta de perspic√°cia. E digo mais: h√° muito t√©dio.
O homem pequeno é necessitado, não tem pão, não tem com que sustentar os filhos, dorme na palha áspera, mas tem o coração leve e alegre; é pecador e malcriado, mas mantém na mesma o coração alegre. E o homem grande farta-se de comer e beber, senta-se num montão de ouro, mas tem sempre a mágoa no coração. Há quem domine as ciências mas não se livre do tédio.

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O Amor Social

√Č necess√°rio voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena sermos bons e honestos. Vivemos j√° muito tempo na degrada√ß√£o moral, baldando-nos √† √©tica, √† bondade, √† f√©, √† honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de pouco nos serviu. Uma tal destrui√ß√£o de todo o fundamento da vida social acaba por nos colocar uns contra os outros, na defesa dos pr√≥prios interesses, provoca o despertar de novas formas de viol√™ncia e crueldade e impede o desenvolvimento de uma verdadeira cultura do cuidado do meio ambiente.

O exemplo de Santa Teresa de Lisieux convida-nos a p√īr em pr√°tica o pequeno caminho do amor, a n√£o perder a oportunidade de uma palavra gentil, de um sorriso, de qualquer pequeno gesto que semeie paz e amizade. Uma ecologia integral √© feita tamb√©m de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a l√≥gica da viol√™ncia, da explora√ß√£o, do ego√≠smo. Pelo contr√°rio, o mundo do consumo exacerbado √©, simultaneamente, o mundo que maltrata a vida em todas as suas formas.

O amor, cheio de pequenos gestos de cuidado m√ļtuo, √© tamb√©m civil e pol√≠tico,

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A Estranheza dá Crédito

O verdadeiro campo e assunto da impostura s√£o as coisas desconhecidas. Isso porque em primeiro lugar a pr√≥pria estranheza d√° cr√©dito; e depois, n√£o estando sujeitas √†s nossas reflex√Ķes habituais, elas tiram-nos os meios de as combater. Por causa disso, diz Plat√£o, √© muito mais f√°cil satisfazer ao falar da natureza dos deuses do que da natureza dos homens, porque a ignor√Ęncia dos ouvintes abre um belo e amplo caminho e toda a liberdade para o manejo de uma mat√©ria secreta.
Advém daí que nada é aceite tão firmemente como aquilo que menos se sabe, nem há pessoas tão seguras como as que nos contam fábulas, como alquimistas, prognotiscadores, astrólogos, quiromantes, médicos, toda a gente dessa espécie (Horácio). A eles eu acrescentaria de bom grado, se ousasse, um bando de pessoas, intérpretes e controladores habituais dos desígnios de Deus, que têm a pretensão de descobrir as causas de cada acontecimento e de ver nos segredos da vontade divina os incompreensíveis motivos das suas obras; e, embora a variedade e a disparidade contínua dos factos os lance de um canto para o outro e do ocidente para o oriente, não deixam entretanto de persistir no que é seu e com o mesmo lápis pintar o preto e o branco.

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Somos Uma Nação Que Se Regenera

Que somos n√≥s hoje? Uma na√ß√£o que tende a regenerar-se: diremos mais: que se regenera. Regenera-se, porque se repreende a si pr√≥pria; porque se revolve no loda√ßal onde dormia tranquila; porque se irrita da sua decad√™ncia, e j√° n√£o sorri sem vergonha ao insultar de estranhos; porque principia, enfim, a reconhecer que o trabalho n√£o desonra, e vai esquecendo as visagens senhoris de fidalga. Deixai passar essas paix√Ķes pequenas e m√°s que combatem na arena pol√≠tica, deixai flutuar √† luz do sol na superf√≠cie da sociedade esses cora√ß√Ķes cancerosos que a√≠ vedes; deixai erguerem-se, tombar, despeda√ßarem-se essas vagas encontradas e confusas das opini√Ķes! Tudo isto acontece quando se agita o oceano; e o mar do povo agita-se debaixo da sua superf√≠cie. O sarga√ßo imundo, a escuma f√©tida e turva h√£o-de desparecer. Um dia o oceano popular ser√° grandioso, puro e sereno como saiu das m√£os de Deus. A tempestade √© a precusora da bonan√ßa. O lago asfaltite, o Mar Morto, esse √© que n√£o tem procelas.
O nosso estrebuchar, muitas veze col√©rico, muitas mais mentecapto e rid√≠culo, prova que a Europa se enganava quando cria que esta nobre terra do √ļltimo ocidente era o cemit√©rio de uma na√ß√£o cad√°ver.

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O Amor Infinito

Da mulher o que nos comove e enleva √© a parte impoluta que ela tem do c√©u; √© a magia que a fada exercita obedecendo a interno impulso, n√£o sabido dela, n√£o sabido de n√≥s. Ali h√° mensagem de outras regi√Ķes; aqui, no peito arquejante, nos olhos amarados de gozozas l√°grimas, h√° um espirar para o alto, um ir-se o cora√ß√£o avoando desde os olhos, desde o sorriso dela para soberanas e imorredouras alegrias. N√≥s √© que n√£o sabemos nem podemos ver sen√£o o pouquinho desse infinito que nos entre-luz nas gra√ßas do primeiro amor, do segundo amor, de quantos estremecimentos de s√ļbita embriaguez nos fazem crer que despimos o inv√≥lucro de barro e pairamos alados sobre a regi√£o das l√°grimas.

√Č Deus que n√£o quer ou somos n√≥s que n√£o podemos prorrogar a dura√ß√£o ao sonho? Se Deus, que mal faria √† sua divina grandeza que o pequenino guzano o adorasse sempre? Porque vai t√£o r√°pida aquela esta√ß√£o em que o homem √© bom porque ama, e √© caritativo e dadivoso porque tudo sobeja √† sua felicidade? Quando poderam aliar-se um amor puro com a impureza das inten√ß√Ķes? Quais olhos de homem afectivo e como santificado por seu amor recusaram chorar sobre desgra√ßas estranhas?

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Viver √©…

Viver √© uma perip√©cia. Um dever, um afazer, um prazer, um susto, uma cambalhota. Entre o √Ęnimo e o des√Ęnimo, um entusiasmo ora doce, ora din√Ęmico e agressivo.
Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus, que também tem a sua vida. Viver é ter fome. Fome de tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros. Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera.
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar a nossa com a de ninguém. De um dia para o outro ela muda, muda-nos, faz-nos ver e sentir o que não víamos nem sentíamos antes e, possivelmente, o que não veremos nem sentiremos mais tarde.
Viver é observar, fixar, transformar. Experimentar mudanças. E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre. A vida é uma sala de aula onde todos somos professores, onde todos somos alunos. Viver é sempre uma ocasião especial. Uma dádiva de nós para nós mesmos. Os milagres que nos acontecem têm sempre uma impressão digital.

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O Animal que Pesa no Homem

N√£o se constr√≥i o mundo s√≥ com a parte min√ļscula do homem, que √© com que os pregadores do futuro julgam poder constru√≠-lo. H√° a outra parte, a interesseira, a comilona, e √© essa parte que v√≥s acenais para a ilus√£o. A parte grossa, a parte animal em disputa, a que d√° facadas por causa de uma sardinha, a que d√° tiros por causa de um olhar em desafio, a que d√° pontap√©s numa pedra s√≥ porque trope√ßou nela, ainda que fique ele pontapeado, a que rosna por causa de um osso, a que de todos os horizontes poss√≠veis s√≥ distingue o da gamela, a pesada e grossa, a gordurosa. Em nove d√©cimos do homem o que pesa √© o animal. E √© com o d√©cimo que resta que quereis reinvent√°-lo. Quereis? Mas √© da parte que negais nos outros que vos servis de engodo para a prega√ß√£o. Meu Deus.

Confiança Audaz

H√° um momento na aprendizagem de cada homem em que este chega √† convic√ß√£o de que a inveja √© ignor√Ęncia; que a imita√ß√£o √© suic√≠dio; que ele tem que se tomar a ele pr√≥prio tanto para melhor, tanto para pior, como a sua parcela; que embora o universo esteja cheio de coisas boas, nenhuma semente de milho nutritiva chegar√° a ele sen√£o atrav√©s da labuta que ele ofere√ßa nesse lote de terreno que lhe foi dado para cultivar. O poder que reside nele √© novo na natureza, e nenhum outro sen√£o ele sabe o que √© que pode fazer, e n√£o o saber√° at√© que o tente. N√£o √© por nada que uma cara, um car√°cter, um facto, causa muito impress√£o nele, e outros n√£o t√™m qualquer efeito. Esta escultura na mem√≥ria n√£o existe sem uma harmonia pr√©-estabelecida. O olho foi colocado onde um raio deve cair, de forma a testemunhar esse raio em particular. N√≥s apenas nos exprimimos pela metade, e temos vergonha da ideia divina que cada um de n√≥s representa. Podemos ser de confian√ßa e de motiva√ß√Ķes boas e proporcionais, e darmo-nos fielmente, mas Deus n√£o ter√° o seu trabalho mais manifesto feito por cobardes. Um homem est√° seguro e tranquilo quando coloca todo o cora√ß√£o no seu trabalho ou outra actividade e faz o seu melhor de acordo consigo pr√≥prio;

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N√£o H√° Dor Que Justifique a Fuga

A escuridão, as trevas desesperadas, é esse o círculo terrível da vida do dia-a-dia. Por que é que uma pessoa se levanta de manhã, come, bebe e se deita outra vez? A criança, o selvagem, o jovem saudável, o animal não padecem sob a rotina deste círculo de coisas e actividades indiferentes. Aquele a quem os pensamentos não atormentam, alegra-se com o levantar pela manhã e com o comer e o beber, acha que é o suficiente e não quer outra coisa.
Mas quem viu esta naturalidade perder-se, procura no decurso do dia, ansioso e desperto, os momentos da verdadeira vida cujas cintila√ß√Ķes o tornam feliz e que apagam a sensa√ß√£o de que o tempo re√ļne em si todos os pensamentos relativos ao sentido e ao objectivo de tudo. Podem chamar a esses momentos, momentos criadores, porque parece que trazem a sensa√ß√£o de uni√£o com o criador, porque se sente tudo como desejado, mesmo que seja obra do acaso. √Č aquilo a que os m√≠sticos chamam uni√£o com Deus. Talvez seja a luz muito clara desses momentos que faz parecer tudo t√£o escuro, talvez a libertadora e maravilhosa leveza desses momentos fa√ßa sentir o resto da vida t√£o pesada,

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O Poeta não é um Pequeno Deus

O poeta n√£o √© um ¬ępequeno deus¬Ľ. N√£o, n√£o √© um ¬ępequeno deus¬Ľ. N√£o est√° amrcado por um destino cabal√≠stico superior ao de quem exerce outros misteres e of√≠cios. Exprimi ami√ļde que o melhor poeta √© o homem que nos entrega o p√£o de cada dia: o padeiro mais pr√≥ximo, que n√£o se julga deus. Cumpre a sua majestosa e humilde tarefa de amassar, levar ao forno, dourar e entregar o p√£o de cada dia, com uma obriga√ß√£o comunit√°ria. E se o poeta chega a atingir essa simples consci√™ncia, a simples consci√™ncia tamb√©m se pode converter em parte de uma artesania colossal, de uma constru√ß√£o simples ou complicada, que √© a constru√ß√£o da sociedade, a transforma√ß√£o das condi√ß√Ķes que rodeiam o homem, a entrega da mercadoria: p√£o, verdade, vinho, sonhos.

Se o poeta se incorpora nessa nunca consumida luta para cada um confiar nas mãos dos outros a sua ração de compromisso, a sua dedicação e a sua ternura pelo trabalho comum de cada dia e de todos os homens, participa no suor, no pão, no vinho, no sonho de toda a humanidade. Só por esse caminho inalienável de sermos homens comuns conseguiremos restituir à poesia o vasto espaço que lhe vão abrindo em cada época,

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A Moral não é um Assunto Divino

Dificilmente se encontrar√° um esp√≠rito cient√≠fico, profundamente mergulhado na ci√™ncia, que n√£o se caracterize por uma religiosidade invulgar. Essa religiosidade distingue-se, no entanto, da religiosidade do homem simples. Para este, Deus √© um ser cuja solicitude se espera, cujo castigo se teme ‚ÄĒ um sentimento sublimado, como o que existe nas rela√ß√Ķes entre filho e pai ‚ÄĒ um ser, com o qual se mant√©m uma certa familiaridade, mesmo respeitosa que seja.
O investigador, contudo, est√° imbu√≠do do sentimento da causalidade de tudo o que acontece. O futuro n√£o √©, para ele, menos necess√°rio e determinado que o passado. A moral n√£o √© um assunto divino mas sim puramente humano. A sua religiosidade reside no √™xtase perante a harmonia das leis que regem a natureza, na qual se manifesta uma raz√£o t√£o superior que em compara√ß√£o com ela todas as ideias criadoras do homem e as suas disposi√ß√Ķes, s√£o apenas um lampejo insignificante. Este sentimento √© o princ√≠pio condutor (Leitmotiv) da sua vida e dos seus esfor√ßos, adentro dos limites em que o homem pode elevar-se acima da escravid√£o imposta pelos seus desejos ego√≠stas. E tal sentimento √©, sem d√ļvida, muito pr√≥ximo do que, atrav√©s todos os tempos, animou os esp√≠ritos criadores no dom√≠nio da religi√£o.

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A Alma Popular é Totalmente Dominada por Elementos Afectivos e Místicos

A ac√ß√£o cada vez mais consider√°vel das multid√Ķes na vida pol√≠tica imprime especial import√Ęncia ao estudo das opini√Ķes populares. Interpretadas por uma legi√£o de advogados e professores, que as transp√Ķem e lhe dissimulam a mobilidade, a incoer√™ncia e o simplismo, elas permanecem pouco conhecidas. Hoje, o povo soberano √© t√£o adulado quanto foram, outrora, os piores d√©spotas. As suas paix√Ķes baixas, os seus ruidosos apetites, as suas ininteligentes aspira√ß√Ķes suscitam admiradores. Para os pol√≠ticos, servidores da plebe, os factos n√£o existem, as realidades n√£o t√™m nenhum valor, a natureza deve-se submeter a todas as fantasias do n√ļmero.
A alma popular (…) tem, como principal caracter√≠stica, a circunst√Ęncia de ser inteiramente dominada por elementos afectivos e m√≠sticos. N√£o podendo nenhum argumento racional refrear nela as impuls√Ķes criadas por esses elementos, ela obedece-lhes imediatamente.
O lado m√≠stico da alma das multid√Ķes √©, muitas vezes, mais desenvolvido ainda do que o seu lado afectivo. Da√≠ resulta uma intensa necessidade de adorar alguma coisa: deus, feiti√ßo, personagem ou doutrina.
(…) O ponto mais essencial, talvez, da psicologia das multid√Ķes √© a nula influ√™ncia que a raz√£o exerceu nelas. As ideias suscept√≠veis de influenciar as multid√Ķes n√£o s√£o ideias racionais, por√©m sentimentos expressos sob forma de ideias.

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Alarga os Teus Horizontes

Por que é que combateis? Dir-se-á, ao ver-vos,
Que o Universo acaba aonde chegam
Os muros da cidade, e nem h√° vida
Além da órbita onde as vossas giram,
E além do Fórum já não há mais mundo!

Tal é o vosso ardor! tão cegos tendes
Os olhos de mirar a própria sombra,
Que dir-se-á, vendo a força, as energias
Da vossa vida toda, acumuladas

Sobre um s√≥ ponto, e a √Ęnsia, o ardente v√≥rtice,
Com que girais em torno de vós mesmos,
Que limitais a terra √† vossa sombra…
Ou que a sombra vos torna a terra toda!
Dir-se-√° que o oceano imenso e fundo e eterno,
Que Deus h√° dado aos homens, por que banhem
O corpo todo, e nadem à vontade,
E vaguem a sabor, com todo o rumo,
Com todo o norte e vento, v√£o e percam-se
De vista, no horizonte sem limites…
Dir-se-√° que o mar da vida √© gota d’√°gua
Escassa, que nas mãos vos há caído,
De avara nuvem que fugiu, largando-a…
Tamanho é o ódio com que a uns e a outros
A disputais,

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Nunca nos Assemelhamos a nós Próprios

O homem não é conhecível a si próprio, porque a sua vida consiste em esforços alternados para ser o que não é, e essa transposição e substituição contínuas de almas irreais e estranhas fazem com que aquilo que na verdade e, ao contrário de Deus, pareça o que nunca é. Mesmo no mais pobre de nós existem pelo menos sete homens.
Há aquele que parece aos outros e o julgado, justamente, sabe quase sempre que não é.
Há aquele que diz ser e ele próprio sabe não ser, porque a vaidade ou medo tornam sempre mentiroso.
Há aquele que julga ser e é o mais distante da verdade, que cada um se inclina para se julgar aquilo que não é, por uma retorsão do orgulho que afasta tudo o pior, que é a maioria.
H√° aquele que quereria ser, o mito pessoal de todo o homem, o sonho reservado ao futuro, aquele que depois deforma todas as autobiografias.
Aquele que finge ser para comodidade e necessidade da vida comum, onde o insensível deve mostrar-se caloroso, o avarento liberal e o vil corajoso.
H√° aquele que se poderia chamar o nosso duplo desconhecido: a personalidade subconsciente,

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Escolher a Felicidade

Nem paz nem felicidade se recebem dos outros nem aos outros se d√£o. Est√°-se aqui t√£o sozinho como no nascer e no morrer; como de um modo geral no viver, em que a √ļnica companhia poss√≠vel √© a daquele Deus a um tempo imanente e transcendente e a dos que neles est√£o, a de seus santos. Felicidade ou paz n√≥s as constru√≠mos ou destru√≠mos: aqui o nosso livre-arb√≠trio supera a fatalidade do mundo f√≠sico e do mundo do proceder e toda a experi√™ncia que vamos fazendo, negativa mesmo para todos, a podemos transformar em positiva. Para o fazermos, se exige pouco, mas um pouco que √© na realidade extremamente dif√≠cil e que n√£o atingiremos nunca por nossas pr√≥prias for√ßas: exige-se de n√≥s, primacialmente, a humildade; a gratid√£o pelo que vem, como a de um ginasta pelo seu aparelho de exerc√≠cio; a firmeza e a serenidade do capit√£o de navio em sua ponte, sabendo que o ata ao leme n√£o a vontade de um rei, como nos Descobrimentos, mas a vontade de um rei de reis, revelada num servidor de servidores; finalmente, o entregar-se como uma crian√ßa a quem sabe o caminho. De qualquer forma, no fundo de tudo, o que h√° √© um acto de decis√£o individual,

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