Textos sobre Inferiores

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Textos de inferiores escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Homem é um Animal Irracional

1. O homem √© um animal irracional, exactamente como os outros. A √ļnica diferen√ßa √© que os outros s√£o animais irracionais simples, o homem √© um animal irracional complexo. √Č esta a conclus√£o que nos leva a psicologia cient√≠fica, no seu estado actual de desenvolvimento. O subconsciente, inconsciente, √© que dirige e impera, no homem como no animal. A consci√™ncia, a raz√£o, o racioc√≠nio s√£o meros espelhos. O homem tem apenas um espelho mais polido que os animais que lhe s√£o inferiores.

2. Sendo assim, toda a vida social procede de irracionalismos vários, sendo absolutamente impossível (excepto no cérebro dos loucos e dos idiotas) a ideia de uma sociedade racionalmente organizada, ou justiceiramente organizada, ou, até, bem organizada.

3. A √ļnica coisa superior que o homem pode conseguir √© um disfarce do instinto, ou seja o dom√≠nio do instinto por meio de instinto reputado superior. Esse instinto √© o instinto est√©tico. Toda a verdadeira pol√≠tica e toda a verdadeira vida social superior √© uma simples quest√£o de senso est√©tico, ou de bom gosto.
4. A humanidade, ou qualquer nação, divide-se em três classes sociais verdadeiras: os criadores de arte; os apreciadores de arte; e a plebe.

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Imitadores

Os homens n√£o descendem dos macacos, mas desenvolvem todos os esfor√ßos para o fazer crer. O pecado original aproximou-nos dos animais e toda a alma √©, de uma maneira ou de outra, uma crestomia zool√≥gica. O que Dante diz das ovelhas – ¬ęe o que uma faz primeiro as outras imitam¬Ľ – poder-se-ia aplicar a quase todos n√≥s.
Desde que Ad√£o resolveu imitar Eva e mordeu o fruto, somos, a despeito da nossa ilus√£o em contr√°rio, uma sucess√£o infinita de c√≥pias. Um √ļnico cunho – em regra, chamado g√©nio – basta para imprimir milhares e milhares daquelas moedas vulgares que circulam pela Terra. E o g√©nio nem sempre se liberta da servid√£o universal da imita√ß√£o. Toda a vida √© um mosaico de pl√°gios.
A maioria imita por preguiça, para se poupar o trabalho de procurar e inventar, ou por prudência, que aconselha os caminhos percorridos e as experiências coroadas de êxito. Compreende-se que a humildade, embora rara, leve naturalmente quem a possui a imitar aqueles que reconhece superiores, mas a própria soberba, que deveria afastar da repetição, torna-nos macacos. Se viver é distinguir-se, o orgulhoso deveria providenciar para não se parecer com ninguém. Mas a inveja, sob a sonante designação da emulação,

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O Antagonismo Racial

O elemento puramente instintivo n√£o constitui sen√£o uma pequena parte do √≥dio racial e n√£o √© dif√≠cil de vencer. O medo do que √© estrangeiro, que √© a sua principal ess√™ncia, desaparece com a familiaridade. Se nenhum outro elemento o formasse, toda a perturba√ß√£o desapareceria logo que pessoas de ra√ßas diferentes se habituassem umas √†s outras. Mas h√° sempre pretextos para se odiarem os grupos estrangeiros. Os seus h√°bitos s√£o diferentes dos nossos e portanto (em nossa opini√£o) piores. Se triunfam, √© porque nos roubam as oportunidades; se n√£o triunfam, √© porque s√£o miser√°veis vagabundos. A actual popula√ß√£o do mundo descende dos sobreviventes de longos s√©culos de guerras e por instinto est√° √† espreita de ocasi√Ķes de hostilidade colectiva.

O desejo de ter um inimigo fixa-se no cora√ß√£o desse instinto racista e constr√≥i √† sua volta um edif√≠cio monstruoso de crueldade e de loucura. Tais conflitos representam hoje uma cat√°strofe universal e n√£o j√° somente, como outrora, um desastre para os vencidos: da√≠ as inquieta√ß√Ķes do nosso tempo. √Č por isso que √© mais importante do que nunca conseguir um certo grau de dom√≠nio racional sobre os nossos sentimentos destruidores.

Em geral o ódio racial tem duas origens,

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A Glória como Mira

Nem todos os homens nasceram para os grandes talentos; e n√£o creio que se possa olhar isso como uma desgra√ßa, pois que √© necess√°rio conservar todas as condi√ß√Ķes, e as artes mais necess√°rias n√£o s√£o as mais engenhosas, nem as mais prestigiadas. Mas o que importa, creio, √© que reina em todos esses estados uma gl√≥ria adequada ao m√©rito que eles solicitam. √Č o amor dessa gl√≥ria que os aperfei√ßoa, que torna os homens de todas as condi√ß√Ķes mais virtuosos, e que faz florescer os imp√©rios, como a experi√™ncia de todos os seculos o demonstra.
Essa glória, inferior à dos talentos mais elevados, não é menos justamente fundamentada; porque aquilo que é bom em si mesmo não pode ser anulado por aquilo que é melhor; o que é estimável pode perder a nossa estima, mas não pode sofrer decesso no seu ser; isso é visível.
Se existe então algum erro a esse respeito entre os homens, é quando procuram uma glória superior aos seus talentos, uma glória, por conseguinte, que engana os seus desejos e os faz negligenciar aquilo que realmente lhes cabe por natureza; que mantém, no entanto, o seu espírito acima da sua condição e os salva talvez de numerosas fraquezas.

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A Audácia é Má no Conselho e boa na Execução

A aud√°cia √© filha da ignor√Ęncia e da rudeza, e muito inferior a todos os outros dons. Ela fascina, por√©m, atando-lhes os p√©s e as m√£os, aos que s√£o d√©beis de entendimento e falhos de coragem que formam a maioria; e prevalece at√© sobre os homens s√°bios nas horas da fraqueza. Por isso vemos que ela fez maravilhas nos Estados populares, menos do que nos governados por Senados ou por Pr√≠ncipes; e muito mais ao primeiro arranco das pessoas audaciosas, do que depois, porque a aud√°cia √© m√° cumpridora de promessas.
(…) Certamente aos homens de grande entendimento, os audacciosos d√£o um espect√°culo de muito gozo; e at√© mesmo para o vulgo, a aud√°cia n√£o deixa de ser rid√≠cula. Porque se o absurdo √© o fundamento do riso n√£o duvideis de que uma grande aud√°cia raramente existe sem absurdo.
(…) Deve ser bem considerado que a aud√°cia √© sempre cega, para n√£o ver os perigos e as inconveni√™ncias. Por isso ela √© m√° no conselho e boa na execu√ß√£o; para bem aproveitar e utilizar as pessoas audacciosas √© preciso que elas nunca estejam na chefia do comando, mas em segundo lugar, sob a direc√ß√£o de outros. Porque no conselho √© bom ver os perigos,

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O Acto de Criação é de Natureza Obscura

O acto de cria√ß√£o √© de natureza obscura; nele √© imposs√≠vel destrin√ßar o que √© da raz√£o e o que √© do instinto, o que √© do mundo e o que √© da terra. Nunca nenhum dualismo serviu bem o poeta. Esse ¬ępastor do Ser¬Ľ, na t√£o bela express√£o de Heidegger, √©, como nenhum outro homem, nost√°lgico de uma antiga unidade. As mil e uma antinomias, t√£o escolarmente elaboradas, quando n√£o pervertem a primordial fonte do desejo, pecam sempre por cindir a inteireza que √© todo um homem. N√£o h√° vit√≥ria definitiva sem a reconcilia√ß√£o dos contr√°rios. √Č no mar crepuscular e materno da mem√≥ria, onde as √°guas ¬ęsuperiores¬Ľ n√£o foram ainda separadas das ¬ęinferiores¬Ľ, que as imagens do poeta sonham pela primeira vez com a prec√°ria e fugidia luz da terra.
Diante do papel, que ¬ęla blancheur d√©fend¬Ľ, o poeta √© uma longa e s√≥ hesita√ß√£o. Que Ifig√©nia ter√° de sacrificar para que o vento prop√≠cio se levante e as suas naves possam avistar os muros de Tr√≥ia? Que aug√ļrios escuta, que enigmas decifra naquele rumor de sangue em que se debru√ßa cheio de afli√ß√£o? Porque ao princ√≠pio √© o ritmo; um ritmo surdo, espesso, do cora√ß√£o ou do cosmos ‚ÄĒ quem sabe onde um come√ßa e o outro acaba?

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O Risco de Nunca termos Conhecido a nossa Verdadeira Alma

São muito raros aqueles que morrem tendo possuído verdadeiramente a sua alma. Com frequência, nem sequer a conheceram. Desde a primeira idade, tiveram na sua frente os exemplos que lhes pareciam óptimos e, a pouco e pouco, lhes moldaram, comprimiram e mascararam a sua natureza. Se essa natureza era baixa e pobre e os exemplos foram bem escolhidos, a imitação evitou mais um idiota ou delinquente.
Todavia, em muitos casos, trata-se de naturezas ricas e generosas que teriam podido dar mais do que obtiveram com o m√©todo quadr√ļmano – e vale muito mais um talento pequeno, mas novo, do que a imita√ß√£o med√≠ocre de um g√©nio.
Mas quase ningu√©m se atreve a ser o que √© e todos querem ser outros. E como nem a todos se adapta o modelo que escolheram, a imita√ß√£o resulta quase sempre inferior ao modelo: um desenho tosco efectuado numa parede vale sempre mais do que uma c√≥pia da Sibila de Miguel √āngelo.
Mas o homem n√£o pode deixar de copiar e n√£o faz sen√£o copiar: √© um fabricante de duplicados. Porque quer ter uma r√©plica do mundo, reduzida √†s propor√ß√Ķes humanas e aos seus gostos.

Cada Indivíduo é Único

A vida √©, intrinsecamente, uma tremenda aceita√ß√£o inconsciente. Aceitou totalmente os seus olhos? Aceitou totalmente o seu corpo? Aceitou totalmente a vida que leva? Esta ideia de aceita√ß√£o total que nos √© imposta torna-nos infelizes, porque est√° continuamente a fazer compara√ß√Ķes. H√° sempre algu√©m que tem uns olhos mais bonitos, um corpo mais forte e que possui mais conhecimentos. E a pessoa sente-se sempre inferior e esta inferioridade vai-nos corroendo o cora√ß√£o. Tornamo-nos cada vez mais infelizes, mas o motivo foi criado desnecessariamente por n√≥s. N√£o h√° necessidade de nos compararmos com os outros, porque n√£o existe ningu√©m com quem nos possamos comparar.
Cada indiv√≠duo √© √ļnico. E seja o que for, √© dessa maneira que a exist√™ncia quer que esse indiv√≠duo seja. Desfrute disso.
Substitua a palavra ¬ęaceita√ß√£o¬Ľ, porque n√£o √© uma palavra muito feliz. Aceita√ß√£o √© uma coisa que tem de se fazer, n√£o h√° alternativa. H√° pessoas mais bonitas, h√° pessoas mais ricas, h√° pessoas mais fortes. E o que √© que podemos fazer? Aceitar.
Eu n√£o ensino a aceita√ß√£o desta maneira. A minha ideia de aceita√ß√£o √© completamente diferente da de todas as religi√Ķes.
Eu proclamo a sua unicidade.
Cada um de n√≥s √© apenas aquela pessoa particular e n√£o existe ningu√©m –

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A Religião e o Jornalismo São as Únicas Forças Verdadeiras

Todas as artes s√£o uma futilidade perante a literatura. As artes que se dirigem √† visualidade, al√©m de serem √ļnicos os seus produtos, e perec√≠veis, podendo portanto, de um momento para o outro, deixar de existir, n√£o existem sen√£o para criar ambiente agrad√°vel, para distrair ou entreter ‚ÄĒ exactamente como as artes de representar, de cantar, de dan√ßar, que todos reconhecem como sendo inferiores em rela√ß√£o √†s outras. A pr√≥pria m√ļsica n√£o existe sen√£o enquanto executada, participando portanto da futilidade das artes de representa√ß√£o. Tem a vantagem de durar, em partituras; mas essa n√£o √© como a dos livros, ou coisas escritas, cuja valia est√° em que s√£o partituras acess√≠veis a todos os que sabem ler, existindo ali para a interpreta√ß√£o imediata de quem l√™, e n√£o para a interpreta√ß√£o do executante, transmitida depois ao ouvinte.
As literaturas, porém, são escritas em línguas diferentes, e, como não há possibilidades de haver uma língua universal, nem, se vier a havê-la, será o grego antigo, onde tantas obras de arte se escreveram, ou o latim, ou o inglês ou outra qualquer, e se for uma delas não será as outras, segue que a literatura, sendo escrita para a posteridade, não a atinge senão,

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Nunca nos Assemelhamos a nós Próprios

O homem não é conhecível a si próprio, porque a sua vida consiste em esforços alternados para ser o que não é, e essa transposição e substituição contínuas de almas irreais e estranhas fazem com que aquilo que na verdade e, ao contrário de Deus, pareça o que nunca é. Mesmo no mais pobre de nós existem pelo menos sete homens.
Há aquele que parece aos outros e o julgado, justamente, sabe quase sempre que não é.
Há aquele que diz ser e ele próprio sabe não ser, porque a vaidade ou medo tornam sempre mentiroso.
Há aquele que julga ser e é o mais distante da verdade, que cada um se inclina para se julgar aquilo que não é, por uma retorsão do orgulho que afasta tudo o pior, que é a maioria.
H√° aquele que quereria ser, o mito pessoal de todo o homem, o sonho reservado ao futuro, aquele que depois deforma todas as autobiografias.
Aquele que finge ser para comodidade e necessidade da vida comum, onde o insensível deve mostrar-se caloroso, o avarento liberal e o vil corajoso.
H√° aquele que se poderia chamar o nosso duplo desconhecido: a personalidade subconsciente,

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As Desvantagens das Nossas Paix√Ķes

Quanto mais um homem se emaranha numa paix√£o, tanto mais os acontecimentos, em si indiferentes, se traduzem para ele em dor, enganando justamente, pela sua indiferen√ßa, a avidez tensa em que esse homem se encontra. Um ambicioso sofrer√° porque uma pessoa c√©lebre n√£o lhe reconheceu import√Ęncia; essa mesma pessoa c√©lebre tentar√° insuflar escr√ļpulos de tenta√ß√£o a algum evang√©lico de quem procurar√° a conversa√ß√£o; escr√ļpulos que, por sua vez, irritar√£o um individualista, que ser√° atingido por eles, malgrado seu. A inveja, ambi√ß√£o ruminada, est√° na base de todas as ang√ļstias que sofremos. N√£o toleramos que uma coisa aconte√ßa indiferentemente, por acaso, escapando √† nossa chancela.
Qualquer género de fervor acarreta consigo a tendência para sentir uma lei preestabelecida na vida, uma lei que castiga os que abusam ou descuram esse mesmo fervor. Um estado de paixão Рmesmo que fosse a embriaguez da absoluta autodeterminação Рorganiza e anima de tal forma o Universo que toda a desgraça, parece, depois, provocada por uma ruptura do equilíbrio vital dessa paixão difusa, que, assim, se defende como um corpo vivo. E, segundo o temperamento de cada um, teremos a sensação de que abusámos, ou de que fomos inferiores; de qualquer forma, sentir-nos-emos organicamente punidos pela própria lei da paixão e do Universo.

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A Hipocrisia do Amor ao Povo

Estes amam o povo, mas n√£o desejariam, por interesse do pr√≥prio amor, que sa√≠sse do passo em que se encontra; deleitam-se com a ingenuidade da arte popular, com o imperfeito pensamento, as supersti√ß√Ķes e as lendas; v√™em-se generosos e sens√≠veis quando se debru√ßam sobre a classe inferior e traduzem, na linguagem adamada, o que dela julgam perceber; √© muito interessante o animal que examinam, mas que n√£o tente o animal libertar-se da sua condi√ß√£o; estragaria todo o quadro, toda a equilibrada posi√ß√£o; em nome da est√©tica e de tudo o resto conv√©m que se mantenha.
H√° tamb√©m os que adoram o povo e combatem por ele mas pouco mais o julgam do que um meio; a meta a atingir √© o dom√≠nio do mesmo povo por que parecem sacrificar-se; bate-lhes no peito um cora√ß√£o de altos senhores; se vieram parar a este lado da batalha foi porque os acidentes os repeliram das trincheiras opostas ou aqui viram maneira mais segura de satisfazer o v√£o desejo de mandar; nestes n√£o encontraremos a frase preciosa, a afectada sensibilidade, o retoque liter√°rio; preferem o estilo de barricada; mas, como nos outros, √© o som do oco tambor ret√≥rico o √ļltimo que se ouve.

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A Felicidade é Modesta e não Ambiciosa

Aqui tens o que posso dizer-te constantemente, a mat√©ria que poderei estar sempre a debater, pois ambos vemos √† nossa roda in√ļmeros milhares de pessoas inquietas que, a fim de obterem algo de altamente nocivo, andam com perseveran√ßa a praticar o mal, sempre √† procura de coisas que logo a seguir deixam de lhes interessar, ou mesmo as enchem de repulsa! J√° viste algu√©m contentar-se com uma coisa que, antes de a obter, lhe parecia mais que suficiente? A felicidade, ao contr√°rio da opini√£o corrente, n√£o √© ambiciosa, mas sim modesta, e por isso mesmo nunca sacia ningu√©m. Tu pensas que aquilo que satisfaz o vulgo √© elevado porque ainda est√°s longe da perfei√ß√£o est√≥ica; para quem a alcan√ßou, tudo isso √© absolutamente rasteiro! Minto: para quem come√ßou a subir at√© esse n√≠vel, pois o ponto que tu pensas ser j√° o mais alto n√£o passa de um degrau. Toda a gente √© infelizmente confundida pela ignor√Ęncia da verdade. Enganada pela opini√£o vulgar, procura como se fossem bens certas coisas que, depois de muito penar para as conseguir, verifica serem nocivas, in√ļteis ou inferiores ao que esperava. A maior parte das pessoas sente admira√ß√£o por coisas que s√≥ ao fim de algum tempo se revelam ilus√≥rias;

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Saber Estar em Sociedade

O homem que n√£o tem mais do que o pr√≥prio valor necessita de ser excelente em grande n√ļmero de virtudes, tal como a pedra que n√£o √© preciosa necessita de ser revestida de metal; mas comummente acontece com a reputa√ß√£o o mesmo que com o lucro, se √© verdadeiro o prov√©rbio que diz: que com leves ganhos se fazem pesadas bolsas, porque estes s√£o frequentes, enquanto os grandes s√≥ chegam de vez em quando; assim, tamb√©m √© verdade que pequenas coisas ganham grande recomenda√ß√£o, porque s√£o de uso e de observa√ß√£o corrente, enquanto a ocasi√£o de manifestar grandes virtudes s√≥ √© dada nos dias-santos. Para adquirir boas maneiras basta apenas n√£o as desdenhar, porque, habituando-nos a observ√°-las nos outros, deixamos confiadamente operar em n√≥s a imita√ß√£o; pois se cuidarmos de as exprimir, perdem logo a sua gra√ßa, a qual √© serem naturais e desafectadas. O comportamento de cada homem deve ser como um verso, no qual todas as s√≠labas s√£o medidas. Como pode um homem ocupar-se de grandes assuntos, se quebra demasiado o seu esp√≠rito com mesquinhas observa√ß√Ķes? N√£o usar completamente de cerim√≥nias √© ensinar aos outros que n√£o as usem tamb√©m, e assim diminuir o respeito pr√≥prio; especialmente, n√£o devem ser omitidas perante estrangeiros e pessoas desconhecidas.

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O Futuro é dos Virtuosos e dos Capazes

√Č preciso confessar, o presente √© dos ricos, e o futuro √© dos virtuosos e dos capazes. Homero ainda vive, e viver√° sempre; os recebedores de direitos, os publicanos, n√£o existem mais: existiram algum dia? A sua p√°tria, os seus nomes, s√£o conhecidos? Houve arrecadores de impostos na Gr√©cia? Que fim levaram essas personagens que desprezavam Homero, que s√≥ pensavam, na rua, em evit√°-lo, n√£o correspondiam √† sua sauda√ß√£o, ou o saudavam pelo nome, desdenhavam associ√°-lo √† sua mesa, olhavam-no como um home que n√£o era rico e fazia um livro?
O mesmo orgulho que faz elevar-se altivamente acima dos seus inferiores, faz rastejar vilmente diante dos que est√£o acima de si. √Č pr√≥prio deste v√≠cio, que n√£o se funda sobre o m√©rito pessoal nem sobre a virtude, e sim sobre as riquezas, cargos, cr√©dito, e sobre ci√™ncias v√£s, levar-nos igualmente a desprezar os que t√™m menos essa esp√©cie de bens do que n√≥s e a apreciar demais aqueles que t√™m uma medida que excede a nossa.

H√° almas sujas, amassadas com lama e sujidade, tomadas pelo desejo de ganho e interesse, como as belas almas o s√£o pelo da gl√≥ria e da virtude: capazes de uma √ļnica vol√ļpia,

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Felicidade e Cultura

A vis√£o das imedia√ß√Ķes da nossa inf√Ęncia comove-nos: a casa de campo, a igreja com as sepulturas, a lagoa e o bosque… √© sempre com padecimento que voltamos a ver isso. Apodera-se de n√≥s a compaix√£o para com n√≥s pr√≥prios, pois por que sofrimentos n√£o pass√°mos, desde ent√£o! E ali continua a estar tudo t√£o calmo, t√£o eterno: s√≥ n√≥s estamos mudados, t√£o agitados; at√© tornamos a encontrar algumas pessoas, nas quais o tempo n√£o meteu dente mais do que num carvalho: camponeses, pescadores, habitantes da floresta… s√£o os mesmos. Como√ß√£o, compaix√£o consigo pr√≥prio, √† vista da cultura inferior, √© sinal de cultura superior; donde se conclui que, por interm√©dio desta, a felicidade, em todo o caso, n√£o foi acrescida. Justamente, quem quiser colher da vida felicidade e deleite s√≥ tem que se desviar sempre da cultura superior.

A Inveja só Incide sobre os Vivos

Por mais que vivamos juntos, e nos vejamos sempre, √© por um modo como vago, e passageiro: as cousas nem por estarem muito perto se v√™em melhor, e os Her√≥is o que os faz mais vis√≠veis, √© a dist√Ęncia, e despropor√ß√£o dos outros homens em que os p√Ķem as suas ac√ß√Ķes; n√£o s√≥ os homens, mas ainda os sucessos, quanto mais longe v√£o ficando, mais crescem, e nos v√£o parecendo maiores, at√© que os vimos a perder de vista, e muitas vezes da mem√≥ria; porque no tempo tamb√©m h√° um ponto de perspectiva, donde como em espelho v√£o crescendo todos os objectos, e em chegando a um certo termo, desaparecem. As empresas, que hoje vemos, talvez n√£o sejam inferiores √†s que a tradi√ß√£o refere do tempo do hero√≠smo; por√©m t√™m de menos o estarem pr√≥ximas a n√≥s, e as outras t√™m de mais, o valor que recebem de uma antiguidade vener√°vel: aquelas admiramos porque n√£o temos inveja, nem vaidade, que nos preocupe contra os que passaram h√° muitos s√©culos; contra os que existem sim, e destes, se sabemos as ac√ß√Ķes, tamb√©m sabemos as circunst√Ęncias delas; por isso as desprezamos, porque √© rara a empresa her√≥ica, em que n√£o entre algum fim indigno,

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Todo o Génio é um Degenerado

Sendo certo que todo o g√©nio √© um degenerado (nem superior, nem inferior, porque h√° s√≥ degenerados de uma esp√©cie, mau grado a absurda escapat√≥ria dos psiquiatras modern style), cert√≠ssimo √©, sem d√ļvida, que entre os g√©nios, os da intelig√™ncia assumem um relevo m√°ximo de degenera√ß√£o. Um chefe pol√≠tico, um grande general, s√£o, no que g√©nios, degenerados, porque s√£o desvios do tipo normal e originais na sua ac√ß√£o e na sua individualidade. Mas s√£o normais porque s√£o homens de ac√ß√£o, porque vivem no meio da vida, e n√£o se pode fazer isso sem uma certa adapta√ß√£o a ela. O mais revolucion√°rio dos g√©nios pol√≠ticos tem de se adpatar ao que quer destruir para o poder destruir. Tem de mergulhar na vida que quer substituir para poder agir sobre ela.
Não assim na esfera da inteligência e da emoção intelectualizada Рna da filosofia e na da arte, digo. Sobre ser original, o artista, o pensador é um inadaptado às formas normais da vida, por isso que nem age no sentido da actividade normal (porque é original), nem age no que age, age vulgarmente (porque, em lugar de ter uma acção vulgar, orienta a sua vida sobretudo para a sensação e para a inteligência e não para a acção,

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A Inteligência e o Sentido Moral

A intelig√™ncia √© quase in√ļtil para aqueles que s√≥ a possuem a ela. O intelectual puro √© um ser incompleto, infeliz, pois √© incapaz de atingir aquilo que compreende. A capacidade de apreender as rela√ß√Ķes das coisas s√≥ √© fecunda quando associada a outras actividades, como o sentido moral, o sentido afectivo, a vontade, o racioc√≠nio, a imagina√ß√£o e uma certa for√ßa org√Ęnica. S√≥ √© utiliz√°vel √† custa de esfor√ßo.
Os detentores da ciência preparam-se longamente realizando um duro trabalho. Submetem-se a uma espécie de ascetismo. Sem o exercício da vontade, a inteligência mantém-se dispersa e estéril. Uma vez disciplinada, torna-se capaz de perseguir a verdade. Mas só a atinge plenamente se for ajudada pelo sentido moral. Os grandes cientistas têm sempre uma profunda honestidade intelectual. Seguem a realidade para onde quer que ela os conduza. Nunca procuram substituí-la pelos seus próprios desejos, nem ocultá-la quando se torna opressiva. O homem que quiser contemplar a verdade deve manter a calma dentro de si mesmo. O seu espírito deve ser como a água serena de um lago. As actividades afectivas, contudo, são indispensáveis ao progresso da inteligência. Mas devem reduzir-se a essa paixão que Pasteur chamava deus inteiror, o entusiasmo.

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A Dor e o Tédio São os Dois Maiores Inimigos da Felicidade

O panorama mais amplo mostra-nos a dor e o t√©dio como os dois inimigos da felicidade humana. Observe-se ainda: √† medida que conseguimos afastar-nos de um, mais nos aproximamos do outro, e vice-versa; de modo que a nossa vida, na realidade, exp√Ķe uma oscila√ß√£o mais forte ou mais fraca entre ambos. Isso origina-se do facto de eles se encontrarem reciprocamente num antagonismo duplo, ou seja, um antagonismo exterior ou oubjectivo, e outro interior e subjectivo. De facto, exteriormente, a necessidade e a priva√ß√£o geram a dor; em contrapartida, a seguran√ßa e a abund√Ęncia geram o t√©dio. Em conformidade com isso, vemos a classe inferior do povo numa luta constante contra a necessidade, portanto contra a dor; o mundo rico e aristocr√°tico, pelo contr√°rio, numa luta persistente, muitas vezes realmente desesperada contra o t√©dio. O antagonismo interior ou subjectivo entre ambos os sofrimentos baseia-se no facto de que, em cada indiv√≠duo, a susceptibilidade para um encontra-se em propor√ß√£o inversa √† susceptibilidade para o outro, j√° que ela √© determinada pela medida das suas for√ßas espirituais. Com efeito, a obtusidade do esp√≠rito est√°, em geral, associada √† da sensa√ß√£o e √† aus√™ncia da excitabilidade, qualidades que tornam o indiv√≠duo menos suscept√≠vel √†s dores e afli√ß√Ķes de qualquer tipo e intensidade.

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