Textos sobre Arte

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Textos de arte escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Valor da Obra de Arte

A fonte imediata da obra de arte √© a capacidade humana de pensar, da mesma forma que a ¬ępropens√£o para a troca e o com√©rcio¬Ľ √© a fonte dos objectos de uso. Tratam-se de capacidades do homem, e n√£o de meros atributos do animal humano, como sentimentos, desejos e necessidades, aos quais est√£o ligados e que muitas vezes constituem o seu conte√ļdo.
Estes atributos humanos s√£o t√£o alheios ao mundo que o homem cria como seu lugar na terra, como os atributos correspondentes de outras esp√©cies animais; se tivessem de constituir um ambiente fabricado pelo homem para o animal humano, esse ambiente seria um n√£o mundo, resultado de emana√ß√£o e n√£o de cria√ß√£o. A capacidade de pensar relaciona-se com o sentimento, transformando a sua dor muda e inarticulada, do mesmo modo que a troca transforma a gan√Ęncia crua do desejo e o uso transforma o anseio desesperado da necessidade – at√© que todos se tornem dignos de entrar no mundo transformados em coisas, reificados. Em cada caso, uma capacidade humana que, por sua pr√≥pria natureza, √© comunicativa e voltada para o mundo, transcende e transfere para o mundo algo muito intenso e veemente que estava aprisionado no ser.

A Arte é Indivíduo, não Colectividade

Arte √© esp√≠rito, e o esp√≠rito n√£o precisa, em absoluto, de se sentir obrigado a servir a sociedade, a colectividade. A meu ver, n√£o tem direito a faz√™-lo, devido √† sua liberdade e √† sua nobreza. Uma arte que ¬ęse mete com o povo¬Ľ, fazendo suas as necessidades das massas, do z√©-povinho, dos ignorant√Ķes, cai na mis√©ria. Prescrever-lhe isso como um dever, admitindo-se, talvez, por raz√Ķes pol√≠ticas, unicamente uma arte que a gentinha possa compreender, √© mesmo o c√ļmulo da grosseria e equivale a assassinar o esp√≠rito. Este – eis a minha firme convic√ß√£o – pode empreender os mais audaciosos, os mais incontidos avan√ßos, as tentativas e pesquisas menos acess√≠veis √†s multid√Ķes, e todavia ter a certeza de servir, de um modo elevado, indirectamente o homem, e √† la longue at√© os homens.

O Sentimento Religioso Profundo da Ciência

Falando do esp√≠rito que anima as investiga√ß√Ķes cient√≠ficas modernas, sou da opini√£o de que todas as brilhantes especula√ß√Ķes no reino da ci√™ncia nascem de um sentimento religioso profundo e de que sem esse sentimento elas n√£o seriam frutuosas. Tamb√©m acredito que este tipo de religiosidade que hoje em dia se faz sentir na investiga√ß√£o cient√≠fica √© a √ļnica actividade religiosa criativa do nosso tempo. A arte contempor√Ęnea dificilmente pode ser encarada como um meio de express√£o dos nossos instintos religiosos (…) Mas o conte√ļdo da pr√≥pria teoria cient√≠fica n√£o oferece qualquer fundamento moral no que respeita √† conduta pessoal.

Ser Distinto

A eleg√Ęncia distinta (…) √© dif√≠cil de imitar, porque, no fundo, ela √© negativa e pressup√Ķe uma pr√°tica longa e constante. Pois a pessoa n√£o deve, por exemplo, representar na sua atitude qualquer coisa que indique dignidade, j√° que dessa maneira se cai facilmente num car√°cter formal e orgulhoso; antes se deve, simplesmente, evitar o que √© indigno, o que √© vulgar; a pessoa nunca se deve esquecer, deve prestar sempre aten√ß√£o a si e aos outros, n√£o perdoar nada a si pr√≥pria, n√£o fazer aos outros nem de mais, nem de menos, n√£o parecer comovida com nada, n√£o se impressionar com nada, nunca se apressar demasiado, saber dominar-se em qualquer momento e, assim, manter um equil√≠brio exterior, por muito forte que seja interiormente o temporal.
O homem nobre pode, em certos momentos, desleixar-se; o homem distinto nunca. Este é como um homem muito bem vestido: não se enconstará em lado nenhum e toda a gente evitará roçar nele. Ele distingue-se dos outros e, todavia, não deve ficar sozinho; pois, tal como em todas as artes e, portanto, também nesta, o mais difícil deve, finalmente, ser executado com facilidade: por isso, a pessoa distinta, apesar de todo o isolamento,

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Aptidão, Vontade, e Acção

No reino da Natureza dominam o movimento e o agir. No reino da liberdade dominam a aptid√£o e o querer. O movimento √© perp√©tuo e, sendo favor√°veis as circunst√Ęncias, manifesta-se necessariamente nos fen√≥menos. As aptid√Ķes, desenvolvendo-se embora em correspond√™ncia com a Natureza, t√™m contudo que ser postas em exerc√≠cio por parte da vontade para poderem elevar-se gradualmente. √Č por isso que nunca temos no exerc√≠cio livre da vontade a mesma certeza que temos na autonomia do agir natural; este √ļltimo √© qualquer coisa que se produz a si mesma enquanto que o primeiro √© produzido.
O exerc√≠cio da vontade, para ser perfeito e eficaz, tem que se adequar: no plano moral, √† consci√™ncia – a uma consci√™ncia sem erro -, e, no dom√≠nio das artes, √† regra – a uma regra que em nenhum lado est√° enunciada. A consci√™ncia n√£o precisa de nenhum patroc√≠nio, porque tem tudo o que lhe √© necess√°rio e porque s√≥ tem que ver com o mundo pessoal interior. O g√©nio tamb√©m n√£o precisaria de nenhuma regra, mas, uma vez que a sua efic√°cia se dirige para o exterior, est√° na depend√™ncia de m√ļltiplas conting√™ncias materiais e temporais, n√£o lhe sendo poss√≠vel escapar a erros que da√≠ decorrem.

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A Literatura é a Mais Ameaçada das Formas de Arte

Justamente porque a literatura se funda genericamente na ideia, ela √© a mais amea√ßada das formas de arte, para l√° do que sabemos da sua aparente maior dura√ß√£o. Ou portanto a mais equ√≠voca. Ou a mais mortal. Porque nas outras artes, a ideia √© a nossa tradu√ß√£o do seu sil√™ncio, o modo de uma emo√ß√£o ser dita ou seja transaccion√°vel, um modo irresist√≠vel de explicar, uma forma afinal de dominarmos o que nos domina, porque nomear √© reduzir ao nosso poder aquilo que se nomeia. Mas a forma de arte n√£o discursiva permanece intacta ao nosso nomear. A literatura, por√©m, √© nesse nomear que come√ßa. Na rela√ß√£o da emo√ß√£o com a palavra que a diz, o seu movimento √© inverso do que acontece com a m√ļsica ou a pintura. A emo√ß√£o de um quadro resolve-se numa palavra terminal. Mas a literatura parte-se dessa palavra para se chegar √° emo√ß√£o. Assim pois a ¬ęideia¬Ľ √© o seu elemento nuclear, ainda que uma associa√ß√£o imprevis√≠vel de palavras a disfarce.

S√£o os Sentimentos que Conduzem as Sociedades, n√£o as Ideias

As sociedades são conduzidas por agitadores de sentimentos, não por agitadores de ideias. Nenhum filósofo fez caminho senão porque serviu, em todo ou em parte, uma religião, uma política ou outro qualquer modo social do sentimento.
Se a obra de investiga√ß√£o, em mat√©ria social, √© portanto socialmente in√ļtil, salvo como arte e no que contiver de arte, mais vale empregar o que em n√≥s haja de esfor√ßo em fazer arte, do que em fazer meia arte.

A Religião e o Jornalismo São as Únicas Forças Verdadeiras

Todas as artes s√£o uma futilidade perante a literatura. As artes que se dirigem √† visualidade, al√©m de serem √ļnicos os seus produtos, e perec√≠veis, podendo portanto, de um momento para o outro, deixar de existir, n√£o existem sen√£o para criar ambiente agrad√°vel, para distrair ou entreter ‚ÄĒ exactamente como as artes de representar, de cantar, de dan√ßar, que todos reconhecem como sendo inferiores em rela√ß√£o √†s outras. A pr√≥pria m√ļsica n√£o existe sen√£o enquanto executada, participando portanto da futilidade das artes de representa√ß√£o. Tem a vantagem de durar, em partituras; mas essa n√£o √© como a dos livros, ou coisas escritas, cuja valia est√° em que s√£o partituras acess√≠veis a todos os que sabem ler, existindo ali para a interpreta√ß√£o imediata de quem l√™, e n√£o para a interpreta√ß√£o do executante, transmitida depois ao ouvinte.
As literaturas, porém, são escritas em línguas diferentes, e, como não há possibilidades de haver uma língua universal, nem, se vier a havê-la, será o grego antigo, onde tantas obras de arte se escreveram, ou o latim, ou o inglês ou outra qualquer, e se for uma delas não será as outras, segue que a literatura, sendo escrita para a posteridade, não a atinge senão,

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Egoísmo Relativo

Por mim, o meu ego√≠smo √© a superf√≠cie da minha dedica√ß√£o. O meu esp√≠rito vive constantemente no estudo e no cuidado da Verdade, e no escr√ļpulo de deixar, quando eu despir a veste que me liga a este mundo, uma obra que sirva o progresso e o bem da Humanidade.
Reconhe√ßo que o sentido intelectual que esse Servi√ßo da Humanidade toma em mim, em virtude do meu temperamento, me afasta, muitas vezes, das pequenas manifesta√ß√Ķes que em geral revelam o esp√≠rito humanit√°rio. Os actos de caridade, a dedica√ß√£o por assim dizer quotidiana s√£o cousas que raras vezes aparecem em mim, embora nada haja em mim que represente a nega√ß√£o delas.
Em todo o caso, reconheço, em justiça para comigo próprio, que não sou mais egoísta que a maioria dos indivíduos, e muito menos o sou que a maioria dos meus colegas nas artes e nas letras. Pareço egoísta àqueles que, por um egoísmo absorvente, exigem a dedicação dos outros como um tributo.

O Saber Ajuda em Todas as Actividades

O mero fil√≥sofo √© geralmente uma personalidade pouco admis¬≠s√≠vel no mundo, pois sup√Ķe-se que ele em nada contribui para o be¬≠nef√≠cio ou para o prazer da sociedade, porquanto vive distante de toda comunica√ß√£o com os homens e envolto em princ√≠pios e no√ß√Ķes igualmente distantes de sua compreens√£o. Por outro lado, o mero ig¬≠norante √© ainda mais desprezado, pois n√£o h√° sinal mais seguro de um esp√≠rito grosseiro, numa √©poca e uma na√ß√£o em que as ci√™ncias florescem, do que permanecer inteiramente destitu√≠do de toda esp√©cie de gosto por estes nobres entretenimentos. Sup√Ķe-se que o car√°cter mais perfeito se encontra entre estes dois extremos: conserva igual capacidade e gosto para os livros, para a sociedade e para os neg√≥cios; mant√©m na conversa√ß√£o discernimento e delicadeza que nascem da cultura liter√°ria; nos neg√≥cios, a probidade e a exatid√£o que resultam naturalmente de uma filosofia conveniente. Para difundir e cultivar um car√°cter t√£o aperfei√ßoado, nada pode ser mais √ļtil do que as com¬≠posi√ß√Ķes de estilo e modalidade f√°ceis, que n√£o se afastam em demasia da vida, que n√£o requerem, para ser compreendidas, profunda apli¬≠ca√ß√£o ou retraimento e que devolvem o estudante para o meio de homens plenos de nobres sentimentos e de s√°bios preceitos,

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A Suprema Vantagem do Homem sobre todos os Seres

Foi para o ser capaz de adquirir o maior n√ļmero de artes que a natureza deu a ferramenta que √©, de longe, a mais √ļtil: a m√£o. E os que pretendem que o homem, longe de ser bem constitu√≠do, √© o mais mal munido dos animais – dizem, na verdade, que ele nada tem nos p√©s, que √© nu e n√£o possui armas para a luta – est√£o errados: ou outros, de facto, disp√Ķem de um √ļnico recurso que n√£o podem trocar por um outro, e precisam, por assim dizer, de permanecer cal√ßados para dormir ou para fazer tudo, jamais podem tirar a armadura que t√™m ao redor do corpo e jamais conseguem trocar a arma de que foram dotados pelo destino; o homem, pelo contr√°rio, disp√Ķe de m√ļltiplos meios de defesa e tem sempre a possibilidade de troc√°-los, assim como pode possuir a arma que deseja e no momento que deseja. A m√£o, de facto, torna-se garras, presas ou chifres, e tamb√©m pega na lan√ßa, na espada, ou e qualquer outra arma ou ferramenta, e ela √© tudo isso porque pode pegar e segurar tudo.

A Arte de Viver, pela Fantasia

A fantasia é a mãe da satisfação, do humor, da arte de viver. Apenas floresce alicerçada num íntimo entendimento entre o ser humano e aquilo que objectivamente o rodeia. Esse ambiente envolvente não tem de ser belo, singular ou sequer encantador. Basta que tenhamos tempo para a ele nos habituarmos, e é sobretudo isso que hoje em dia nos falta.

Uma Vida Exterior Simples e Modesta Só Pode Fazer Bem

Uma vida exterior simples e modesta s√≥ pode fazer bem, tanto ao corpo como ao esp√≠rito. N√£o creio de modo algum na liberdade do ser humano, no sentido filos√≥fico. Cada um age n√£o s√≥ sob press√£o exterior como tamb√©m de acordo com a sua necessidade interior. O pensamento de Schopenhauer: ¬ęO homem pode, na verdade, fazer o que quiser, mas n√£o pode querer o que quer¬Ľ, impressionou-me vivamente desde a juventude e tem sido para mim um consolo constante e uma fonte inesgot√°vel de toler√Ęncia. Esse conhecimento suaviza ben√©ficamente o sentimento de responsabilidade levemente inibit√≥rio e faz com que n√£o tomemos demasiado a s√©rio, para n√≥s e para os outros, uma concep√ß√£o de vida que justifica de modo especial a exist√™ncia do humor.
Do ponto de vista objectivo, pareceu-me sempre desprovido de senso querer-se indagar sobre o sentido ou a finalidade da própria existência ou da existência da criação. E, no entanto, cada homem tem certos ideais, que o orientam nos seus esforços e juízos. Neste sentido o bem-estar e a felicidade nunca me pareceram um fim em si (chamo a esta base ética o ideal da vara de porcos). Os ideais que me iluminavam e me encheram incessantemente de alegre coragem de viver foram sempre a bondade,

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A Amizade Exercita-se

√Č um erro desejar ser compreendido antes de se ser elucidado por si mesmo a seus pr√≥prios olhos. √Č procurar prazeres na amizade, e n√£o m√©ritos. √Č qualquer coisa de mais corruptor ainda do que o amor. Venderias a tua alma por amor.
Aprende a repelir a amizade, ou melhor, o sonho da amizade. Desejar a amizade √© um grande erro. A amizade deve ser uma alegria gratuita como as que a arte ou a vida oferecem. √Č preciso recus√°-la para se ser digno de a receber: ela √© da categoria da gra√ßa (¬ęMeu Deus, afastai-vos de mim…¬Ľ). √Č dessas coisas que s√£o dadas por acr√©scimo. Toda a ilus√£o de amizade merece ser destru√≠da. N√£o √© por acaso que nunca foste amado… Desejar escapar √† solid√£o √© uma cobardia. A amizade n√£o se procura, n√£o se imagina, n√£o se deseja; exercita-se (√© uma virtude). Abolir toda esta margem de sentimento, impura e enevoada. Schluss!
Ou melhor (pois n√£o √© necess√°rio desbastar-se a si mesmo rigorosamente), tudo o que, na amizade, n√£o passe por altera√ß√Ķes efectivas deve passar por pensamentos ponderados. √Č absolutamente in√ļtil privar-se da virtude inspiradora da amizade. O que deve ser severamente proibido, √© sonhar com os prazeres do sentimento.

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A Ordem das Coisas

Natura deficit, fortuna mutatur, deus omnia cernit. A natureza trai-nos, a sorte muda, um deus v√™ do alto todas estas coisas. Apertava ao dedo a mesa de um anel onde, num dia de amargura, mandava gravar estas palavras tristes; ia mais longe no desengano, talvez na blasf√©mia; acabava por achar natural, sen√£o justo, que dev√≠amos perecer. As nossas letras esgotam-se; as nossas artes adormecem; P√Ęncrates n√£o √© Homero; Arriano n√£o √© Xenofonte; quando tentei imortalizar na pedra a forma de Ant√≠noo n√£o encontrei Prax√≠teles. Depois de Arist√≥teles e de Arquimedes, as nossas ci√™ncias n√£o progridem; os nossos progressos t√©cnicos n√£o resistiriam ao desgaste de uma longa guerra; mesmo os nossos voluptuosos desgostam-se da felicidade. O abrandamento dos costumes, o avan√ßo das ideias no decorrer do √ļltimo s√©culo √© obra de uma infima minoria de bons esp√≠ritos; a massa continua ignara, feroz, quando pode, de qualquer forma ego√≠sta e limitada, e h√° raz√Ķes para apostar que ficar√° sempre assim. Procuradores a mais, publicanos √°vidos, demasiados senadores desconfiados, demasiados centuri√Ķes brutais comprometeram adiantadamente a nossa obra; e os imp√©rios, como os homens, j√° n√£o t√™m tempo para se instru√≠rem √† custa das suas faltas. Onde quer que um tecel√£o remendar o seu pano,

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O Tipo de Homem que Eu Sou

Agora é necessário que eu deva dizer que tipo de homem sou. O meu nome não importa, nem qualquer outro pormenor exterior particular acerca de mim. Do meu carácter alguma coisa deve ser dita.

Toda a constitui√ß√£o do meu esp√≠rito √© de hesita√ß√£o e d√ļvida. Nada √© ou pode ser positivo para mim, todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, uma incerteza para mim pr√≥prio. Tudo para mim √© incoer√™ncia e mudan√ßa. Tudo √© mist√©rio e tudo √© significado. Todas as coisas s√£o ¬ędesconhecidos¬Ľ simb√≥licos do Desconhecido. Consequentemente horror, mist√©rio, medo supra-inteligente.

Pelas minhas próprias tendências naturais, pelo enquadramento da minha juventude, pela influência dos estudos realizados sob o impulso delas (dessas mesmas tendências), por tudo isso eu sou das espécies internas de caráter, auto-centrado, mudo, não auto-suficiente mas auto-perdido. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror de, na incapacidade que permeia tudo o que me é, fisicamente e mentalmente, por actos decisivos, por pensamentos definidos. Eu nunca tive uma resolução nascida de uma auto-determinação, nunca uma traição externa de uma vontade consciente. Nenhum dos meus escritos foi terminado;

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A Função do Escritor

Que o mundo ¬ęest√° infestado com a esc√≥ria do g√©nero humano¬Ľ √© perfeitamente verdade. A natureza humana √© imperfeita. Mas pensar que a tarefa da literatura √© separar o trigo do joio √© rejeitar a pr√≥pria literatura. A literatura art√≠stica √© assim chamada porque descreve a vida como realmente √©. O seu objectivo √© a verdade – incondicional e honestamente. O escritor n√£o √© um confeiteiro, um negociante de cosm√©ticos, algu√©m que entret√©m; √© um homem constrangido pela realiza√ß√£o do seu dever e a sua consci√™ncia. Para um qu√≠mico, nada na terra √© puro. Um escritor tem de ser t√£o objectivo como um qu√≠mico.
Parece-me que o escritor n√£o deveria tentar resolver quest√Ķes como a exist√™ncia de Deus, pessimismo, etc. A sua fun√ß√£o √© descrever aqueles que falam, ou pensam, acerca de Deus e do pessimismo, como e em que circunst√Ęncias. O artista n√£o deveria ser juiz dos seus personagens e das suas conversas, mas apenas um observador imparcial.
Têm razão em exigir que um artista deva ter uma atitude inteligente em relação ao seu trabalho, mas confundem duas coisas: resolver um problema e enunciar correctamente um problema. Para o artista, só a segunda cláusula é obrigatória.
Acusam-me de ser objectivo,

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A Delicadeza de Express√£o

As regras e os preceitos n√£o s√£o de grande ajuda para se aprender a falar delicadamente, se a natureza n√£o concorrer para isso. A delicadeza de que falo √© menos o efeito da arte do que de uma imagina√ß√£o viva e venturosa, que sem se esfor√ßar encontra termos apropriados para exprimir aquilo que se pensou; mas, para falar delicadamente, √© necess√°rio pensar delicadamente. A maioria das mulheres de qualidade que t√™m muito esp√≠rito e frequentam a sociedade falam com delicadeza, e embora n√£o inventem palavras novas, colocam t√£o bem os termos de que se servem, que eles parecem inteiramente novos e feitos especialmente para significar o que elas querem dizer. Elas exprimem todo um sentimento numa √ļnica palavra, e deixam ainda mil coisas agrad√°veis a adivinhar; √© nisso que consiste a tal delicadeza da express√£o. Ela n√£o consiste de modo algum em palavras grandiosas, num longo agrupamento de palavras harmoniosas, em frases muito rebuscadas; √© necess√°rio n√£o sei qu√™ de natural, de desenvolto, de simples, de ing√©nuo, de f√°cil, mas vivo e engenhoso.

A Alma Transforma-se em Sensa√ß√Ķes

Eis um efeito que me será contestado, e que só apresento aos homens que, digamos, são bastante infelizes para terem amado com paixão durante longos anos, dum amor contrariado por obstáculos invencíveis:
A vista de tudo o que √© extremamente belo, tanto na natureza como nas artes, traz-nos a recorda√ß√£o do que amamos, com a rapidez de um rel√Ęmpago. √Č que, pelo processo do ramo de √°rvore guarnecido de diamantes da mina de Salzburgo, tudo o que no mundo √© belo e sublime faz parte da beleza do que amamos, e esta vis√£o imprevista da felicidade enche-nos os olhos de l√°grimas num instante. √Č assim que o amor do belo e o amor se d√£o vida um ao outro.
Uma das infelicidades da vida √© que a ventura de ver a quem amamos e de lhe falar n√£o deixa recorda√ß√Ķes distintas. Aparentemente, a alma est√° demasiado perturbada pelas suas emo√ß√Ķes para poder prestar aten√ß√£o ao que as causa ou as acompanha. Transforma-se na pr√≥pria sensa√ß√£o. √Č talvez porque estes prazeres n√£o se podem renovar sempre que queremos, por simples for√ßa de vontade, que se renovam com tanta for√ßa, desde que um objecto qualquer nos venha tirar da medita√ß√£o consagrada √† mulher que amamos,

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Renunciar à Sede de Poder

Quem n√£o conheceu a tenta√ß√£o de ser o primeiro na cidade nada compreender√° do jogo pol√≠tico, da vontade de submeter os outros para deles fazer objectos, nem adivinhar√° os elementos de que √© composta a arte do desprezo. A sede de poder, raros s√£o os que n√£o a tenham num grau ou noutro experimentado: √©-nos natural, e contudo, se a considerarmos melhor, assume todos os car√°cteres de um estado m√≥rbido do qual apenas nos curamos por acidente ou ent√£o por meio de um amadurecimento interior, aparentado com o que se operou em Carlos V quando, ao abdicar em Bruxelas, no topo da sua gl√≥ria, ensinou ao mundo que o excesso de cansa√ßo podia suscitar cenas t√£o admir√°veis como o excesso de coragem. Mas, anomalia ou maravilha, a ren√ļncia, desafio √†s nossas contantes, √† nossa identidade, sobrev√©m somente em momentos excepcionais, caso limite que satisfaz o fil√≥sofo e perturba profundamente o historiador.