Textos sobre Capricho

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Textos de capricho escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Outro como Motivo da nossa Infelicidade

Pergunta-se por que todos os homens juntos n√£o comp√Ķem uma √ļnica na√ß√£o e n√£o quiseram falar uma √ļnica l√≠ngua, viver sob as mesmas leis, combinar entre eles os mesmos costumes e um mesmo culto; e eu, pensando na contrariedade dos esp√≠ritos, dos gostos e dos sentimentos, surpreendo-me ao ver at√© sete ou oito pessoas reunirem-se sob um mesmo tecto, num mesmo recinto e compor uma √ļnica fam√≠lia.
(…) Buscamos a nossa felicidade fora de n√≥s mesmos e na opini√£o de homens que sabemos aduladores, pouco sinceros, sem equidade, cheios de inveja, de caprichos e preconceitos.

A Soberania da Alma

A alma sabe que as verdadeiras riquezas não se encontram onde nós as amontoamos: é a alma que nós devemos encher, não o cofre! Àquela devemos nós conceder o domínio sobre tudo, atribuir a posse da natureza inteira de modo a que os seus limites coincidam com o oriente e o ocaso, a que a alma, identicamente aos deuses, tudo possua, olhando soberanamente do alto os ricos e as suas riquezas Рesses ricos a quem menos alegria proporciona o que têm do que tristeza lhes dá o que aos outros pertence! Quando se eleva a tais alturas, a alma passa a cuidar do corpo (esse mal necessário!), não como amigo fiel, mas apenas como tutor, sem se submeter à vontade de quem está sob sua tutela.
Ningu√©m pode simultaneamente ser livre e escravo do corpo: para j√° n√£o falar de outras tiranias que o excessivo cuidado com ele nos imp√Ķe, a soberania do corpo tem exig√™ncias que s√£o aut√™nticos caprichos. A alma desprende-se dele ora com serenidade, ora de firme prop√≥sito – busca a sua sa√≠da sem se importar com a sorte dessa pobre coisa que para a√≠ fica! N√≥s n√£o ligamos import√Ęncia aos p√™los da barba ou aos cabelos que acab√°mos de cortar;

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N√£o h√° Felicidade sem Verdadeira Vida Interior

A vida intelectual ocupará, de preferência, o homem dotado de capacida­des espirituais, e adquire, mediante o incremento inin­terrupto da visão e do conhecimento, uma coesão, uma intensificação, uma totalidade e uma plenitude cada vez mais pronunciadas, como uma obra de arte amadurecen­do aos poucos. Em contrapartida, a vida prática dos ou­tros, orientada apenas para o bem-estar pessoal, capaz de incremento apenas em extensão, não em profundeza, contrasta em tristeza, valendo-lhes como fim em si mesmo, enquanto para o homem de capacida­des espirituais é apenas um meio.
A nossa vida pr√°tica, real, quando as paix√Ķes n√£o a movimentam, √© tediosa e sem sabor; mas quando a movi¬≠mentam, logo se torna dolorosa. Por isso, os √ļnicos feli¬≠zes s√£o aqueles aos quais coube um excesso de intelec¬≠to que ultrapassa a medida exigida para o servi√ßo da sua vontade. Pois, assim, eles ainda levam, ao lado da vida real, uma intelectual, que os ocupa e entret√©m ininter¬≠ruptamente de maneira indolor e, no entanto, vivaz. Pa¬≠ra tanto, o mero √≥cio, isto √©, o intelecto n√£o ocupado com o servi√ßo da vontade, n√£o √© suficiente; √© necess√°rio um excedente real de for√ßa, pois apenas este capacita a uma ocupa√ß√£o puramente espiritual, n√£o subordinada ao ser¬≠vi√ßo da vontade.

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Os Professores

O mundo não nasceu connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente; depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objectos até que, por fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu. Lançaram-se na tarefa de nos actualizar com o presente da nossa espécie e da nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita.

O material que √© trabalhado pelos professores n√£o pode ser quantificado. N√£o h√° n√ļmeros ou casas decimais com suficiente precis√£o para medi-lo. A falta de quantifica√ß√£o n√£o √© culpa dos assuntos inquantific√°veis, √© culpa do nosso desejo de quantificar tudo. Os professores n√£o vendem o material que trabalham, oferecem-no. N√≥s, com o tempo, com os anos, com a dist√Ęncia entre n√≥s e n√≥s, somos levados a acreditar que aquilo que os professores nos deram nos pertenceu desde sempre. Mais do que acharmos que esse material √© nosso, achamos que n√≥s pr√≥prios somos esse material. Por ironia ou capricho, √© nesse momento que o trabalho dos professores se efectiva.

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Como te Tens Lembrado Hoje de Mim?

O que tens tu feito, amor? Andar√°s, como segunda-feira, cavaleiro andante a flirtar √†s janelas das ruas do Alto do Pina, com damas de cem anos?… Cem anos, pelo menos… Eu creio mesmo que tu disseste mais alguns… Sempre est√°s uma prenda, um espertalh√£o… Tenho que te educar convenientemente e ensinar-te que damas de cem anos e mulheres que fazem queijadas, n√£o servem, ou pelo menos n√£o devem servir, a quem tem a suprema felicidade de possuir uma mulher como eu, que sou uma p√©rola, ou por outra: um colar de p√©rolas, como ontem gentilmente me chamaste… Est√°s de acordo, n√£o √© verdade?

A tua pequenina fera está há imenso tempo ansiosa que a chuva acabe, para deitar o focinhito fora do covil, ao menos por cinco minutos; mas não há meio, o diabo da chuva continua a cair sem piedade e daqui a pouco a ferazinha sai mesmo com chuva e tudo. Há tanto tempo que não saio! Em horas de concentração de consciência, eu ponho-me a pensar que nunca julguei capaz que um homem pudesse fazer da Miss América, como muita gente me chamava dantes, esta burguezinha pacata, que, detrás dos vidros duma janela, passa a vida a fazer rendas,

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Filosofia e Amor são completamente Antagónicos

Entre a filosofia e o amor não há possibilidade de convivência. A filosofia exila a mulher e a mulher exclui a filosofia. Os filósofos são todos cérebro sem coração nem testículos. Aqueles que tiveram mulheres e filhos são filósofos menores, em segunda mão. Os maiores são todos misóginos.
A filosofia tem relação com a castidade: quem se aproxima da mulher não pode alcançar o absoluto. Os filósofos foram eunucos, como Orígenes e Abelardo; ou virgens por eleição, como São Tomás e São Boaventura; ou eternos celibatários, como Platão, Espinosa, Kant, Schopenhauer, Nietzsche, como todos os maiores. Quem teve mulher, como Sócrates, considerou-a empecilho e tortura.
São antes sodomitas, como Séneca e Bacon, ou onanistas, como Rousseau, Kierkegaard e Leopardi Рem todos os casos, antifemininos. A mulher é a vida e a filosofia uma espécie de morte; a dona é o primado do sentimento e a filosofia quer ser racionalismo puro; a mulher é capricho e novidade e a filosofia ordem e sistema.
No entanto, a filosofia n√£o se pode vangloriar de vencer, com a sua for√ßa, a tenta√ß√£o de Eros – √© verdade, ao inv√©s, que a frigidez e a impot√™ncia predisp√Ķem para a filosofia. Se virem um fil√≥sofo marido e pai feliz,

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O Sucesso para um Grande Amor

Estou contente porque a minha querida n√£o tem ainda o afecto exclusivo e √ļnico que h√°-de sentir um dia por um homem, apesar de todas as suas teorias que h√°-de ver voar, voar para t√£o longe ainda!… E no entanto, elas s√£o t√£o verdadeiras! Ainda assim, minha querida J√ļlia, uma das coisas melhores da nossa vida de t√£o prosaico s√©culo, √© o amor, o grande e discutido amor, o nosso encanto e o nosso mist√©rio; as nossas p√©talas de rosa e a nossa coroa de espinhos. O amor √ļnico, doce e sentimental da nossa alma de portugueses, o amor de que fala J√ļlio Dantas, ¬ęuma ternura casta, uma ternura s√£¬Ľ de que ¬ęo peito que o sente √© um sacr√°rio estrela¬≠do¬Ľ, como diz Junqueiro; o amor que √© a raz√£o √ļnica da vida que se vive e da alma que se tem; a paix√£o delicada que d√° beijos ao luar e alma a tudo, desde o olhar ao sorriso, ‚ÄĒ √© ainda uma coisa nobre, bela e digna! Digna de si, do seu sentir, do seu grande cora√ß√£o, ao mesmo tempo violento e calmo. Esse amor que ¬ęem sendo triste, canta, e em sendo alegre, chora¬Ľ, esse amor h√°-de senti-lo um dia,

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A Fronteira Entre a Amizade e o Amor

Há na pura amizade um prazer a que não podem atingir os que nasceram medíocres. A amizade pode subsistir entre pessoas do mesmo sexo a diferentes, isenta mesmo de toda a materialidade. Uma mulher, entretanto, olha sempre um homem como um homem; e reciprocamente, um homem olha uma mulher como uma mulher; essa ligação não é paixão nem pura amizade: constitui uma classe aparte.
O amor nasce bruscamente, sem outra reflexão, por temperamento, ou por fraqueza: um detalhe de beleza nos fixa, nos determina. A amizade, pelo contrário, forma-se pouco a pouco, com o tempo, pela prática, por um longo convívio. Quanta inteligência, bondade, dedicação, serviços e obséquios, nos amigos, para fazer, em anos, muito menos do que faz, às vezes, num minuto, um rosto bonito e uma bela mão!
O tempo, que fortalece as amizades, enfraquece o amor. Enquanto o amor dura, subsiste por si, e √†s vezes pelo que parece dever extingui-lo: caprichos, rigores, aus√™ncia, ci√ļme; a amizade, pelo contr√°rio, precisa de alento: morre por falta de cuidados, de confian√ßa, de aten√ß√£o. √Č mais comum ver um amor extremo que uma amizade perfeita.
O amor e a amizade excluem-se um ao outro. Aquele que teve a experiência de um grande amor descuida a amizade;

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Ser Diferente

A √ļnica salva√ß√£o do que √© diferente √© ser diferente at√© o fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade; tomar as atitudes que ningu√©m toma e usar os meios de que ningu√©m usa; n√£o ceder a press√Ķes, nem aos afagos, nem √†s ternuras, nem aos rancores; ser ele; n√£o quebrar as leis eternas, as n√£o-escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento; no fim de todas as batalhas ‚ÄĒ batalhas para os outros, n√£o para ele, que as percebe ‚ÄĒ h√°-de provocar o respeito e dominar as lembran√ßas; teve a coragem de ser c√£o entre as ovelhas; nunca baliu; e elas um dia h√£o-de reconhecer que foi ele o mais forte e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos.

Desigualdade Natural e Desigualdade Institucional

√Č f√°cil de ver que, entre as diferen√ßas que distinguem os homens, muitas passam por naturais, quando s√£o unicamente a obra do h√°bito e dos diversos g√©neros de vida adoptados pelos homens na sociedade. Assim, num temperamento robusto ou delicado, a for√ßa ou a fraqueza que disso dependem, v√™m muitas vezes mais da maneira dura ou efeminada pela qual foi educado do que da constitui√ß√£o primitiva dos corpos. Acontece o mesmo com as for√ßas do esp√≠rito, e a educa√ß√£o n√£o s√≥ estabelece a diferen√ßa entre os esp√≠ritos cultivados e os que n√£o o s√£o, como aumenta a que se acha entre os primeiros √† propor√ß√£o da cultura; com efeito, quando um gigante e um an√£o marcham na mesma estrada, cada passo representa uma nova vantagem para o gigante. Ora, se se comparar a diversidade prodigiosa do estado civil com a simplicidade e a uniformidade da vida animal e selvagem, em que todos se nutrem dos mesmos alimentos, vivem da mesma maneira e fazem exactamente as mesmas coisas, compreender-se-√° quanto a diferen√ßa de homem para homem deve ser menor no estado de natureza do que no de sociedade; e quanto a desigualdade natural deve aumentar na esp√©cie humana pela desigualdade de institui√ß√£o.

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A Felicidade e as Idades da Vida

O que torna infeliz a primeira metade da vida, que apresenta tantas vantagens em rela√ß√£o √† segunda, √© a busca da felicidade, com base no firme pressuposto de que esta deva ser encontr√°vel na vida: o resultado s√£o esperan√ßas e insatisfa√ß√Ķes continuamente frustradas. Visualizamos imagens enganosas de uma felicidade sonhada e indeterminada, entre figuras escolhidas por capricho, e procuramos em v√£o o seu arqu√©tipo.
Na segunda metade da vida, a preocupa√ß√£o com a infelicidade toma o lugar da aspira√ß√£o sempre insatisfeita √† felicidade; no entanto, encontrar um rem√©dio para tal problema √© objectivamente poss√≠vel. De facto, a essa altura j√° estamos finalmente curados do pressuposto h√° pouco mencionado e buscamos apenas tranquilidade e a maior aus√™ncia de dor poss√≠vel, o que pode ocasionar um estado consideravelmente mais satisfat√≥rio do que o primeiro, visto que ele deseja algo ating√≠vel, e que prevalece sobre as priva√ß√Ķes que caracterizam a segunda metade da vida.

Na Sociedade é a Razão a Primeira a Ser Vencida

Na sociedade √© a raz√£o a primeira a ser vencida. Os mais ajuizados s√£o frequentemente dirigidos pelo mais louco e extravagante: estuda-se o seu ponto fraco, o seu humor, os seus caprichos; acomoda-se a ele; evita-se feri-lo; todo o mundo cede a ele: a menor serenidade que aparece na sua fisionomia basta para lhe atrair elogios; acham-no √≥ptimo por n√£o ser sempre insuport√°vel. √Č temido, considerado, obedecido, e √†s vezes amado. S√≥ aqueles que tiveram velhos parentes colaterais, ou que os t√™m ainda, dos quais se espera herdar, podem dizer o que isso custa.

O Livre-Arbítrio não Existe

Contemplando uma cascata, acreditamos ver nas in√ļmeras ondula√ß√Ķes, serpenteares, quebras de ondas, liberdade da vontade e capricho; mas tudo √© necessidade, cada movimento pode ser calculado matem√°ticamente. O mesmo acontece com as ac√ß√Ķes humanas; poder-se-ia calcular antecipadamente cada ac√ß√£o, caso se fosse omnisciente, e, da mesma maneira, cada progresso do conhecimento, cada erro, cada maldade. O homem, agindo ele pr√≥prio, tem a ilus√£o, √© verdade, do livre-arb√≠trio; se por um instante a roda do mundo parasse e houvesse uma intelig√™ncia calculadora omnisciente para aproveitar essa pausa, ela poderia continuar a calcular o futuro de cada ser at√© aos tempos mais distantes e marcar cada rasto por onde essa roda a partir de ent√£o passaria. A ilus√£o sobre si mesmo do homem actuante, a convic√ß√£o do seu livre-arb√≠trio, pertence igualmente a esse mecanismo, que √© objecto de c√°lculo.

O Desejo é Fruto de um Conhecimento Insuficiente

Não existe nada mais estranho e espinhoso do que a relação entre pessoas que só se conhecem de vista Рque diariamente, mesmo hora a hora, se encontram, se observam e que têm assim de manter, sem cumprimenros e sem palavras, a aparência de desconhecimento indiferente, devido ao rigor dos costumes ou a caprichos pessoais. Entre elas existe inquietação e curiosidade exacerbada, a histeria da necessidade insatisfeita, anormalmente recalcada, de conhecimento e comunicação e sobretudo também uma forma de consideração tensa. Pois o ser humano ama e respeita o outro ser humano enquanto não está em posição de o julgar e o desejo é produto de um conhecimento insuficiente.

Uma Direc√ß√£o, e N√£o Solu√ß√Ķes

A diferen√ßa entre solu√ß√£o e direc√ß√£o √© esta: a solu√ß√£o √© sempre um rem√©dio passageiro para disfar√ßar a desgra√ßa. Ao passo que a direc√ß√£o √© a pr√≥pria dignidade posta nas m√£os do desgra√ßado para que deixe de o ser, e a direc√ß√£o √ļnica √© a garantia perp√©tua dessa dignidade. E foi o que fez Goethe: Descobriu a direc√ß√£o √ļnica. Artista, na verdadeira acep√ß√£o da palavra; Artista √© aquele que precede a pr√≥pria ci√™ncia. Por isso Goethe afastou-se de quantas realidades irrealiz√°veis onde costumam habitar instaladas as gentes. E impass√≠vel, desde cima, assistiu ao desenrolar da trag√©dia. E viu o mundo inteiro por cima de todas as cabe√ßas, e viu a Europa toda e com cada um dos seus peda√ßos, e viu cada indiv√≠duo da Humanidade como um pequenino astro tonto que nem sabe sequer ir na par√°bola da sua pr√≥pria traject√≥ria, e viu que de todos os seres deste mundo o √ļnico que errava o seu fim era o Homem, o dono da Terra! E viu que era na Humanidade que estavam os √ļnicos seres deste mundo que n√£o cumpriam com o seu pr√≥prio destino, e finalmente viu! Viu com os seus pr√≥prios olhos o que ningu√©m tinha visto antes dele.

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A Dependência é a Raiz de Todos os Males

O que deve um c√£o a um c√£o, um cavalo a um cavalo? Nada. Nenhum animal depende do seu semelhante. Tendo por√©m o homem recebido o raio da Divindade a que se chama raz√£o, qual foi o resultado? Ser escravo em quase toda a terra. Se o mundo fosse o que parece dever ser, isto √©, se em toda parte os homens encontrassem subsist√™ncia f√°cil e certa e clima apropriado √† sua natureza, imposs√≠vel teria sido a um homem servir-se de outro. Cobrisse-se o mundo de frutos salutares. N√£o fosse ve√≠culo de doen√ßas e morte o ar que contribui para a exist√™ncia humana. Prescindisse o homem de outra morada e de outro leito al√©m do dos gansos e cabras monteses, n√£o teriam os Gengis C√£s e Tamerl√Ķes vassalos sen√£o os pr√≥prios filhos, os quais seriam bastante virtuosos para auxili√°-los na velhice.
No estado natural de que gozam os quadr√ļpedes, aves e r√©pteis, t√£o feliz como eles seria o homem, e a domina√ß√£o, quimera, absurdo em que ningu√©m pensaria: para qu√™ servidores se n√£o tiv√©sseis necessidade de nenhum servi√ßo? Ainda que passasse pelo esp√≠rito de algum indiv√≠duo de bofes tir√Ęnicos e bra√ßos impacientes por submeter o seu vizinho menos forte que ele,

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A Causa da Vontade

A nossa vida n√£o passaria de uma s√©rie de caprichos, se a nossa vontade se determinasse por si mesma e sem motivos. N√£o temos vontade que n√£o seja produzida por alguma reflex√£o ou por alguma paix√£o. Quando levanto a m√£o, √© para fazer uma experi√™ncia com a minha liberdade ou por alguma outra raz√£o. Quando me prop√Ķem um jogo de escolha entre par ou √≠mpar, durante o tempo em que as ideias de um e de outro se sucedem no meu esp√≠rito com rapidez, mescladas de esperan√ßa e temor, se escolho par, √© porque a necessidade de fazer uma escolha se apresenta ao meu pensamento no momento em que par est√° a√≠ presente. Proponha-se o exemplo que se quiser, demonstrarei a qualquer homem de boa-f√© que n√£o temos nenhuma vontade que n√£o seja precedida por algum sentimento ou por algum arrazoado que a faz nascer. √Č verdade que a vontade tem tamb√©m o poder de excitar as nossas ideias; mas √© necess√°rio que ela pr√≥pria seja antes determinada por alguma causa.
A vontade n√£o √© nunca o primeiro princ√≠pio das nossas ac√ß√Ķes, ela √© o seu √ļltimo m√≥bil; √© o ponteiro que marca as horas num rel√≥gio e que o leva a dar as pancadas sonoras.

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A Liberdade de Escolha

Realmente, se um dia de facto se descobrisse uma fórmula para todos os nossos desejos e caprichos Рisto é, uma explicação do que é que eles dependem, por que leis se regem, como se desenvolvem, a que é que eles ambicionam num caso e noutro e por aí fora, isto é uma fórmula matemática exacta Рentão, muito provavelmente, o homem deixaria imediatamente de sentir desejo.
Pois quem aceitaria escolher por regras? Além disso, o ser humano seria imediatamente transformado numa peça de um orgão ou algo do género; o que é um homem sem desejos, sem liberdade de desejo e de escolha, senão uma peça num orgão?

A Vida Raramente depende da Inciativa dos Homens

Poucas pessoas saber√£o, a meio da vida, como chegaram a ser o que s√£o, aos seus prazeres, √† sua vis√£o do mundo, √† sua mulher, ao seu car√°cter, √† sua profiss√£o e aos seus √™xitos; mas sentem que a partir da√≠ as coisas j√° n√£o ir√£o mudar muito. Poderia mesmo afirmar-se que foram enganadas, porque n√£o se consegue descobrir em lugar nenhum a raz√£o suficiente para que tudo tenha acontecido como aconteceu, quando teria sido perfeitamente poss√≠vel ter acontecido de outra forma. O que acontece, ali√°s, raramente depende da iniciativa dos homens, mas quase sempre das mais variadas circunst√Ęncias, dos caprichos, da vida e da morte de outras pessoas, e, de certo modo, limita-se a vir ter connosco naquele preciso momento. Na juventude, a vida est√° ainda √† nossa frente como uma manh√£ inesgot√°vel, plena de possibilidades e de vazio; mas logo ao meio-dia algo se anuncia que reclama ser a nossa pr√≥pria vida, mas que √© t√£o surpreendente como uma pessoa com quem nos correspondemos durante vinte anos sem a conhecer, e que um belo dia, de repente, temos diante de n√≥s e constatamos que √© completamente diferente do que hav√≠amos imaginado.
Mas o mais estranho é que a maior parte das pessoas nem dêem por isso;

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