Citação de

Como te Tens Lembrado Hoje de Mim?

O que tens tu feito, amor? Andar√°s, como segunda-feira, cavaleiro andante a flirtar √†s janelas das ruas do Alto do Pina, com damas de cem anos?… Cem anos, pelo menos… Eu creio mesmo que tu disseste mais alguns… Sempre est√°s uma prenda, um espertalh√£o… Tenho que te educar convenientemente e ensinar-te que damas de cem anos e mulheres que fazem queijadas, n√£o servem, ou pelo menos n√£o devem servir, a quem tem a suprema felicidade de possuir uma mulher como eu, que sou uma p√©rola, ou por outra: um colar de p√©rolas, como ontem gentilmente me chamaste… Est√°s de acordo, n√£o √© verdade?

A tua pequenina fera est√° h√° imenso tempo ansiosa que a chuva acabe, para deitar o focinhito fora do covil, ao menos por cinco minutos; mas n√£o h√° meio, o diabo da chuva continua a cair sem piedade e daqui a pouco a ferazinha sai mesmo com chuva e tudo. H√° tanto tempo que n√£o saio! Em horas de concentra√ß√£o de consci√™ncia, eu ponho-me a pensar que nunca julguei capaz que um homem pudesse fazer da Miss Am√©rica, como muita gente me chamava dantes, esta burguezinha pacata, que, detr√°s dos vidros duma janela, passa a vida a fazer rendas, tal qual como uma po√©tica e sentimental hero√≠na de Gr√©ville…

Como os homens nos transformam! Nós, pobres mulheres, apesar do nosso imenso e frágil orgulho, não somos, afinal, mais do que argila que as mãos deles moldam a seu belo capricho. Feliz da argila que, no seu caminho, encontra, como eu, o estatuário que a vai moldando a acariciá-la! Gosto tanto de ti que me não revolto, eu, a eterna revoltada, aquela que teve sempre por coração um oceano imenso a que ninguém jamais descobrira o fundo. Como te tens lembrado hoje de mim? Com saudades? Com desejos de me beijar? Com tristeza? Como? Gostava tanto, tanto de saber a cor dos teus pensamentos quando são meus! Queria que eles fossem roxos, como os lilases, ou cor-de-rosa como os beijos que eu te dou. Tenho saudades, saudades, saudades.

Reparei agora para uma coisa: é curioso como eu não sou capaz de vestir um vestido alegre quando tu não vens. Já segunda-feira vesti o vestido preto e hoje sem pensar fui vesti-lo outra vez. E é verdade que eu ando de luto, de luto por uns beijos que trago e que se não dão e que morrem de frio longe da tua boca; queres luto mais triste? Meu amigo, tu és muito mau que me não quiseste hoje ao pé de ti. Urso, urso, urso. Vou finalmente, agora que não chove, à livraria escolher um livro que tenha o poder de me adormecer para sonhar contigo e para esquecer as horas que tenho de passar longe de ti.

E a nossa casa? N√£o te esque√ßas de falar com o homem maravilhoso que p√Ķe as paredes limpas sem as limpar. N√£o mandes fazer nada sem me dizer, sen√£o enforco-te! Quem me dera j√° na nossa casinha, no nosso pequenino ninho, meu amor querido! No pesadelo de rel√≥gio ainda nem s√£o 3 horas! Tantas horas t√™m ainda que passar, tantas! Sabes? Os noivos feios j√° c√° n√£o est√£o e hoje almocei ao p√© de tr√™s horrorosos japoneses que falaram sempre ingl√™s e que me tiraram todo o apetite, porque eram muito feios, eram feios demais. Porque ser√° que para este hotel s√≥ vem gente feia? Ser√° por ser recomendado pela Propaganda de Portugal? Somos n√≥s os √ļnicos bonitos, pelo menos, √© esta a minha opini√£o…

Ainda hoje vou escrever a meu pai para que se n√£o lembre de me p√īr o retrato no Di√°rio de Not√≠cias como uma criada gatuna ou um menino perdido. Felizmente todas as trag√©dias t√™m o seu lado c√≥mico, e felizes dos feitios que as v√™em s√≥ desse lado. Naturalmente s√≥ recebes domingo esta carta, em todo o caso pode ser que a recebas amanh√£ e sempre te vou dizendo que te n√£o esque√ßas dos livros (Ai, livros, livros!…) e da encomenda c√©lebre da Figueira da Foz!! Sempre me acontecem coisas! Agora, at√© querem que eu receba encomendas duma terra onde n√£o conhe√ßo ningu√©m! Adeus, amor. Vou comprar o livro. Beijos muito grandes da tua Bela.