Passagens sobre Ontem

181 resultados
Frases sobre ontem, poemas sobre ontem e outras passagens sobre ontem para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Espiritualismo

Ontem, à tarde, alguns trabalhadores,
Habitantes de além, de sobre a serra,
Cavavam, revolviam toda a terra,
Do sol entre os met√°licos fulgores.

Cada um deles ali tinha os ardores
De febre de lutar, a luz que encerra
Toda a nobreza do trabalho e — que erra
Só na cabeça dos conspiradores,

Desses obscuros revolucion√°rios
Do bem fecundo e cultural das leivas
Que s√£o da Vida os maternais sacr√°rios.

E pareceu-me que do ch√£o estuante
Vi porejar um b√°lsamo de seivas
Geradoras de um mundo mais pensante.

Exílio

Dentro de cada rosto vai-se
e perde o passo antes certo
que não se quisera passo, mas silêncio.

Se em v√£o caminha e nada encontra,
um rosto e cada ruga, cada cancro
conferem o périplo e o decretam
desde sempre, nas frias manh√£s do tempo, nulo.

Mármores, fátua memória de um crime,
ou qualquer m√ļsica degredada em pranto,
nada falta, mas fasta, imóvel, sucessiva
uma lua basta e sua lousa, desterro.

Letras, pedras, fomes, por entre grades paisagem
ou rosto informe no fundo de uma p√°gina,
vai a viagem ontem e esquece, urro ou simples erro.

Por Consoantes Que Me Deram Forçadas

Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem m√£o de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa, se inculca por tulipa;
Bengala hoje na m√£o, ontem garlopa:
Mais isento se mostra o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vaso a tripa,
E mais n√£o digo, porque a Musa topa
Em apa, em epa, em ipa, em opa, em upa.

Homens do Presente

Homens do presente, nada no passado,
Antes de serdes as coisas que vemos,
Quem podia ter sabido ou pensado
Que seríeis hoje aquilo que temos?
Ah, passantes pela mesma via,
Quem p√īde pensar-vos antes deste dia?

Homens do presente e pó de amanhã,
Ao passar dos anos aonde ireis ter?
Que rude mudez ou √Ęnsia em pressa v√£
Ir√° registar vossa dor e prazer?
Ondas ou cristas do mar desta vida,
Quem vos pensar√° passado este dia?

Só o génio pode o fogo atiçar
Que na natureza em vós abrigais;
Só o génio pode a lira tocar
E erguer vosso nome aos céus dos mortais;
O génio pode a morte romper
E o nada de ontem num tudo verter.

Mas a virtude, como os choros humanos,
Pelos areais depressa bebida,
Mergulha no pó dos passados anos
E nem sabereis onde est√° escondida.
Que o génio, então, possa ser laureado;
Que o pó de amanhã seja eternizado.

Eu amo tudo que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e err√īnea f√©
O ontem que deixou alegria
Só porque foi,e voou
E hoje é já outro dia

Todo dia √© um novo dia… Todo dia √Č um novo dia. Amanh√£ n√£o √© t√£o importante, ontem n√£o foi t√£o importante.

Vive o Dia de Hoje!

N√£o penses para amanh√£. N√£o lembres o que foi de ontem. A mem√≥ria teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. Mas tudo hoje √© t√£o ef√©mero. Mesmo o que se pensa para amanh√£ √© para j√° ter sido, que √© o que desejamos que seja logo que for. √Č o tempo de Deus que n√£o tem futuro nem passado. Foi o que dele n√≥s escolhemos no sonho do nosso absoluto. N√£o penses para amanh√£ na urg√™ncia de seres agora. Mesmo logo √† tarde √© muito tarde. Tudo o que √©s em ti para seres, v√™ se o √©s neste instante. Porque antes e depois tudo √© morte e insensatez. N√£o esperes, s√™ agora. L√™ os jornais. O futuro √© o embrulho que fizeres com eles ou o papel urgente da retrete quando n√£o houver outro.

Onde Estar√° aquele Velho √Ālbum?

Onde estar√° aquele velho √°lbum? A cena
das fiandeiras sob as trombetas que o fechavam.
Os ancestrais esperam… Seria um mero encontro
não houvesse a consciências das coisas deixadas para trás.
Pompéia desenterrada. O valor menos notado
também assombra a idade. Afinal, para que encontrarmos
humanos petrificados embaixo de um tempo
que só poderia existir dentro daquilo mesmo?
O amor n√£o foi maior ou menor para eles. Ontem
ninguém autorizou essa exibição nem a de uma família
embaixo da ponte. Mas essa parte de pedra
que nunca podemos entender e que teríamos
depois de séculos pode ainda enterrar
todos os nossos sonhos num instante.

√Č Absurdo Falar da Ignor√Ęncia da Juventude

Para recuperar a minha juventude era capaz de fazer tudo no mundo, excepto gin√°stica, levantar-me cedo, ou ser respeit√°vel. A Juventude! N√£o h√° nada que se lhe compare. √Č absurdo falar da ignor√Ęncia da juventude. Hoje em dia s√≥ tenho algum respeito pelas opini√Ķes das pessoas muito mais novas do que eu. Parecem-me estar √† minha frente. A vida revelou-lhes a sua √ļltima maravilha. Quanto aos velhos, contradigo-os sempre. √Č uma quest√£o de princ√≠pio. Se lhe pedirmos opini√£o sobre uma coisa que aconteceu ontem, eles d√£o-nos solenemente as opini√Ķes correntes em 1820, quando as pessoas usavam golas altas, acreditavam em tudo e n√£o sabiam absolutamente nada.

Enfrentar-se a Si Próprio

√ďdio da introspec√ß√£o activa. Explica√ß√Ķes da nossa alma, tais como: ontem eu estava assim e assado, por esta ou por aquela raz√£o; hoje estou assim e assado, por qualquer outra raz√£o. N√£o √© verdade, nem por esta raz√£o nem por aquela raz√£o, e por isso tamb√©m nem assim nem assado.
Enfrentar-se a si pr√≥prio calmamente, sem precipita√ß√Ķes, viver como se tem de viver, n√£o andar √† ca√ßa do pr√≥prio rabo como o c√£o.
Adormeci nos arbustos. Um barulho acordou-me. Encontrei um livro nas minhas m√£os, que tinha estado a ler. Deitei-o fora e levantei-me de um salto. Passava pouco do meio-dia; em frente da colina em que eu estava estendia-se uma grande planura com aldeias e lagos e sebes todas iguais, altas, que pareciam feitas de junco. Pus as m√£os nas ancas, examinei tudo com o olhar, e ao mesmo tempo escutei o barulho.

O Tempo Passa? N√£o Passa

O tempo passa? N√£o passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de m√£os e olhos, na luz.

N√£o h√° tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

S√£o mitos de calend√°rio
tanto o ontem como o agora,
e o teu anivers√°rio
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, n√£o tem idade,
pois só quem ama
escutou o apelo da eternidade.

A recordação é uma traição à natureza, Porque a natureza de ontem não é natureza. O que foi não é nada, e lembrar é não ver.

H√° Mais de Meia Hora

H√° mais de meia hora
Que estou sentado à secretária
Com o √ļnico intuito
De olhar para ela.
(Estes versos est√£o fora do meu ritmo.
Eu também estou fora do meu ritmo.)
Tinteiro grande à frente.
Canetas com aparos novos à frente.
Mais para c√° papel muito limpo.
Ao lado esquerdo um volume da “Enciclop√©dia Brit√Ęnica”.
Ao lado direito ‚ÄĒ
Ah, ao lado direito
A faca de papel com que ontem
Não tive paciência para abrir completamente
O livro que me interessava e n√£o lerei.

Quem pudesse sintonizar tudo isto!

Predisposição de Espírito

A nossa tristeza faz-nos parecer tudo o que vemos triste; a nossa alegria tudo nos mostra alegre; e o nosso contentamtento tudo nos mostra com agrado; os objectos influem menos em n√≥s, do que n√≥s influ√≠mos em n√≥s mesmos. Vemos como de fora as apar√™ncias de que o mundo se comp√Ķe, por isso n√£o conhecemos o seu verdadeiro ser, nem gozamos delas no estado em que as achamos, mas sim naquele em que elas nos acham. A del√≠cia dos olhos, e do gosto, dependem mais da nossa disposi√ß√£o que da sua efic√°cia; o mesmo, que ontem nos atraiu hoje nos aborrece; ontem porque estava sem perturba√ß√£o o nosso √Ęnimo, hoje porque est√° com desassossego; e tudo porque n√£o somos hoje, o que ontem fomos: o mesmo que hoje nos agrada, amanh√£ nos desgosta, e os objectos, por serem os mesmos, n√£o causam sempre em n√≥s as mesmas impress√Ķes; por motivos diferentes recebemos altera√ß√Ķes iguais. O pouco que basta para afligir-nos, ou para contentar-nos, bem mostra o pouco constantes, que s√£o em n√≥s a afli√ß√£o, e o contentamento; por isso uma, e outra coisa nos deixa com a mesma facilidade com que nos penetra.

Eu, e não os acontecimentos, têm o poder de me fazerem sentir feliz ou infeliz hoje. Eu posso escolher como é que quero estar. O ontem está morto, o amanhã ainda não chegou. Eu tenho apenas este dia, o de hoje, e vou ser feliz enquanto este decorrer.

Que belo é ter um amigo! Ontem eram ideias contra ideias. Hoje é este fraterno abraço a afirmar que acima das ideias estão os homens. Um sol tépido a iluminar a paisagem de paz onde esse abraço se deu, forte e repousante. Que belo e que natural é ter um amigo!

A partir desse momento, a sua existência não foi mais do que um amontoado de mentiras, em que ela envolvia o seu amor como que em um véu para o esconder.
Era uma necessidade, uma mania, um prazer, a tal ponto, que se ela dissesse ter passado ontem pelo lado direito da rua, devia-se acreditar que passara pelo esquerdo.

Um homem nunca deve sentir vergonha de admitir que errou, o que é apenas dizer, noutros termos, que hoje ele é mais inteligente do que era ontem.