Passagens de António Lobo Antunes

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N√£o me interessa estar a escrever para pessoas importantes, as pessoas que me procuram para se tratar comigo n√£o s√£o pessoas importantes, s√£o pessoas que precisam de mim.

No fundo, escrever é um delírio, assim como algo que produzem os esquizofrénicos, e a que se dá uma determinada ordenação, uma sistematização.

Não há sentimentos puros, nem na amizade nem no amor; e o amor vem sempre misturado com outras coisas, o ódio e a inveja e a gente quase quer mal à outra pessoa por gostar dela.

Idealmente, a miss√£o da cr√≠tica seria ajudar a ler. Em teoria, o cr√≠tico ser√° um leitor mais atento do que os outros. N√£o tem necessariamente que emitir ju√≠zos de valor. Temos tend√™ncia a gostar s√≥ dos que s√£o da nossa fam√≠lia, as ideias confundem-se com as nossas paix√Ķes.

A Idealização do Amor

Eu estava a pensar na forma como se poderá entender o amor, à luz da minha formação. Da minha perspectiva, depende daquilo que o outro representa, se o outro é um prolongamento nosso, é uma parte nossa, como acontece muitas vezes, ou é uma idealização do eu de que falaria o Freud. No sentido psicanalítico poder-se-ia dizer que o amor corresponde ao eu ideal e, portanto, à procura de qualquer coisa de ideal que nós colocamos através de um mecanismo de identificação projectiva no outro.

Portanto, √† luz de uma perspectiva cient√≠fica, como √© apesar de tudo a psicanal√≠tica, o problema come√ßa a p√īr-se de uma forma um bocado diferente. Nesse sentido e na medida em que o objecto amado √© sempre idealizado e nunca √© um objectivo real, a gente, de facto, nunca se est√° a relacionar com pessoas reais, estamos sempre a relacionarmo-nos com pessoas ideias e com fantasmas. A gente vive, de facto, num mundo de fantasmas: os amigos s√£o fantasmas que t√™m para n√≥s determinada configura√ß√£o, ou os pais, ou os filhos, etc.

(…) O amor √© uma coisa que tem que tem que ver de tal forma com todo um mundo de fantasmas,

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Os homens nuca dizem: ¬ęJ√° n√£o gosto.¬Ľ Dizem: ¬ęO problema n√£o est√° em ti, est√° em mim. Preciso de pensar, preciso de espa√ßo…¬Ľ. As mulheres s√£o muito mais directas: ¬ęDeixei de gostar de ti.¬Ľ E pronto. Os homens nunca o dizem porque querem que a mulher fique de reserva.

Um livro tem de ser suficientemente poroso para o leitor poder escrever o seu pr√≥prio livro dentro dele. √Č nesse sentido que um livro muito compacto √©, for√ßosamente, um livro mau.

Quando uma pessoa tem talento, percebe-se logo. Às vezes até na cara se percebe. As pessoas com talento têm uma certa aura. Marlon Brando pode estar metido num cantinho da tela, mas nós só reparamos nele quando olhamos para lá. Uma vez, vi Chagall a pintar os tetos da ópera de Nova Iorque. Era um homem de 80 e tal anos, pequenino, feiíssimo, estava sentado no chão a trabalhar e, no entanto, eu não consegui tirar os olhos dele.

Eu não sei o que é que é light, sei o que é light em relação a cigarros. Há literatura, e não há literatura. Pois a literatura não é isso, é uma coisa nobre, a literatura é o que faz o Dostoievski.

Antes da ¬ęMem√≥ria de Elefante¬Ľ escrevi muitos livros, tive foi o bom senso de os deixar na gaveta. √Č um livro de principiante. O primeiro de que n√£o me envergonho √© a ¬ęExplica√ß√£o dos P√°ssaros¬Ľ.

Sinto uma consideração quase nula pelo que, em Portugal, se publica. Desgosta-me a infinidade de romances desonestos, entendendo por desonestidade não a falta de valor intrínseco óbvio (isso existe em toda a parte) mas a rede de lucro rápido através da banalização da vida. Livros reles de autores reles.

A Vaidade e a Inveja Desaparecem com a Idade

Com o passar do tempo, h√° dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja √© um sentimento horr√≠vel. Ningu√©m sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milion√°rio Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: ¬ęQuanto √© que ele deixou?¬Ľ O advogado respondeu: ¬ęDeixou tudo.¬Ľ Ningu√©m √© mais pobre do que os mortos.

Isto √†s vezes √© tremendo porque a gente quer exprimir sentimentos em rela√ß√£o a pessoas e as palavras s√£o gastas e poucas. E depois aquilo que a gente sente √© t√£o mais forte que as palavras…

O ser humano n√£o √© assim t√£o v√°rio; t√£o v√°rio como se pretende. Nota que os livros s√£o sempre os mesmos, infelizmente. Pintores, cineastas, m√ļsicos, escritores, poetas tratam sempre os mesmos assuntos, tentam analisar, sempre, as mesmas obsess√Ķes.

Toda a inven√ß√£o √© mem√≥ria. (…) Quem nos arranja os materiais √© a mem√≥ria. As tais coisas de que a gente n√£o fala e aparecem nos livros, de maneiras desviadas.