Cita√ß√Ķes de Mia Couto

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Mia Couto para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

A vida, para ele, era um rio comportado. A felicidade era o pren√ļncio da inunda√ß√£o.

A melhor maneira de fugir √© ficar parado… deixar de ter dimens√£o, converter-se em areia no deserto. Desaparecer para fazer o outro se extinguir.

Porque a Vida é feita contra o Tempo. Sem medida, tecida de ínfimos infinitos.

Tenho escrito repetidamente que o nosso maior inimigo somos nós mesmos. O adversário do nosso progresso está dentro de cada um de nós, mora na nossa atitude, vive no nosso pensamento. A tentação de culpar os outros em nada nos ajuda. Só avançamos se formos capazes de olhar para dentro e de encontrar em nós as causas dos nossos próprios desaires.

N√£o podemos mendigar ao mundo uma outra imagem. N√£o podemos insistir numa atitude apelativa. A nossa √ļnica sa√≠da √© continuar o dif√≠cil e longo caminho de conquistar um lugar digno para n√≥s e para a nossa p√°tria. E esse lugar s√≥ pode resultar da nossa pr√≥pria cria√ß√£o.

Muitos dos debates que atravessam hoje o nosso espa√ßo p√ļblico s√£o curiosos. Por vezes eles resvalam para a agress√£o. Deixamos de discutir ideias para atacar pessoas. A necessidade de ter raz√£o, de ganhar a todo o custo, atropela os deveres do civismo que √© uma das raz√Ķes de estarmos aqui. Os debates deveriam servir para criarmos colectivamente conceitos produtivos, criarmos ideias que sejam construtoras.

Existem v√°rias formas de pobreza. E h√°, entre todas, uma que escapa √†s estat√≠sticas e aos indicadores num√©ricos: √© a pen√ļria da nossa reflex√£o sobre n√≥s mesmos. Falo da dificuldade de nos pensarmos como sujeitos hist√≥ricos, como lugar de partida e como destino de um sonho.

Um dos problemas do nosso tempo é que perdemos a capacidade de fazermos as perguntas que são importantes. A escola nos ensinou a dar respostas: a vida nos aconselha a que fiquemos quietos e calados.

Olhei o poente e vi as aves carregando o sol, empurrando o dia para outros aléns.

O dever do escritor para com a língua é recriá-la, salvando-a dos processos de banalização que o uso comum vai estabelecendo.

O voar não vem da asa. O beija-flor tão abreviadinho de asa, não é o que voa mais perfeito?

N√≥s cri√°mos um sistema que gera dificuldades para os mais pequenos assuntos. A dificuldade cria uma oportunidade para expedientes, para oportunismos diversos. Este sistema n√£o √© exclusivo de Mo√ßambique. √Č comum em todo o mundo. Mas este sistema nos faz sentir estranhos, pequenos e deslocados.

Não será que deveríamos cuidar melhor da vida das massas? Porque a verdade é que o caracol nunca deita fora a sua concha. O povo é a concha que nos abriga. Mas pode, repentemente, tornar-se no fogo que nos vai queimar.

√Āfrica vive numa situa√ß√£o quase √ļnica: as gera√ß√Ķes vivas s√£o contempor√Ęneas da constru√ß√£o dos alicerces das na√ß√Ķes. O que √© o mesmo que dizer os alicerces das suas pr√≥prias identidades. √Č como se tudo se passasse no presente, como se todas as na√ß√Ķes se entrecruzassem no mesmo texto. Cada na√ß√£o √© assunto de todos, uma inadi√°vel urg√™ncia a que ningu√©m se pode alhear. Todos s√£o c√ļmplices dessa inf√Ęncia, todos deixam marcas num retrato que est√° em gesta√ß√£o.

Se temos voz é para vazar sentimento. Contudo, sentimento demasiado nos rouba a voz.

Só se escreve com intensidade se vivemos intensamente. Não se trata apenas de viver sentimentos mas de ser vivido por sentimentos.

O serviço dos dias é apenas este: trazer dias, levar dias. O Tempo existe para apagar o Tempo.