Passagens de Mia Couto

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As minas antipessoais s√£o produzidas por pa√≠ses que se reclamam da civiliza√ß√£o e dos direitos humanos. Algumas destas na√ß√Ķes proclamam-se mesmo campe√£s na luta contra o terrorismo e as armas de destrui√ß√£o em massa. Mas recusaram-se sempre a assinar o acordo para o fornecimento desta insidiosa forma de terrorismo que todos os dias mutila e mata mulheres, crian√ßas e homens inocentes nos pa√≠ses pobres.

As ideias, todos sabemos, não nascem na cabeça das pessoas. Começam num qualquer lado, são fumos soltos, tresvairados, rodando à procura de uma devida mente.

Muita cautela: quem não vê os seus sonhos é porque está sonhando aquilo que está vendo.

Sou um cego que vê muitas portas. Abro aquela que está mais perto. Não escolho, tropeço a mão no fecho.

Quem congemina vingan√ßas acredita antecipar-se ao futuro. √Č um logro: o vingador vive apenas num tempo que j√° foi. O vingador n√£o age apenas em nome de quem j√° morreu. Ele pr√≥prio j√° morreu. Foi morto pelo passado.

A guerra √© uma parteira: das entranhas do mundo faz emergir um outro mundo. N√£o o faz por c√≥lera nem por qualquer sentimento. √Č a sua profiss√£o: mergulha as m√£os no Tempo, com a altivez de um peixe que pensa que ele √© que faz despontar o mar.

Quem escreve quer dizer coisas que estão para além da vida quotidiana. Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitámos tão pouco.

A morte √© uma brev√≠ssima varanda. Dali se espreita o tempo como a √°guia se debru√ßa no penhasco ‚Äď em volta todo o espa√ßo se pode converter em espl√™ndida voa√ß√£o.

Não é segurando nas asas que se ajuda um pássaro a voar. O pássaro voa simplesmente porque o deixam ser pássaro.

A minha m√£e costuma dizer que a √°gua arredonda as pedras como a mulher molda a alma dos homens.

Por que nos ensinaram essa merda de sermos humanos? Sena melhor sermos bichos, tudo instinto. Podermos violar, morder, matar. Sem culpa, sem juízo, sem perdão. A desgraça é esta: só uns poucos aprenderam a lição da humanidade.

Não inventaram ainda uma pólvora suave, maneirosa, capaz de explodir os homens sem lhes matar. Uma pólvora que, em avessos serviços, gerasse mais vida. E do homem explodido nascessem os infinitos homens que lhes estão por dentro.

Neste lugar, n√£o h√° pedacitos. Todo o tempo, a partir daqui, s√£o eternidades.