Passagens de Mia Couto

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A gente ama alguém que desconhece, casa com quem conhece e vive com uma pessoa irreconhecível. Às vezes, temos luas-de-mel, outras vezes, luas melosas. A maior parte do tempo, porém, são noites sem luar nenhum.

Para nós, africanos, o Tempo é todo nosso. O branco tem o relógio, nós temos o Tempo.

No conto (como em qualquer outro g√©nero liter√°rio) o mais importante n√£o √© o seu conte√ļdo liter√°rio mas a forma como ele nos comove e nos ensina a entender n√£o atrav√©s do racioc√≠nio mas do sentimento (ser√° que existem estas categorias, assim separadas?).

Versos para a Patrícia

1. Ilha

Tenho a sede das ilhas
e esquece-me ser terra

Meu amor, aconchega-me
meu amor, mareja-me

Depois, n√£o
me ensines a estrada.

A intenção da água é o mar
a intenção de mim és tu.

2. Véspera

H√° um perfume
que trabalha em mim
e me acende,
antigo,
sobre a poeira

H√° um rosto
que regressa à fonte
√°gua readormecendo

E só hoje reparo
o labor das nuvens
corais solares
arquitectando o céu

P√°ssaros brancos
v√£o pousando
na varanda dos teus olhos

Só hoje enfrento o sol
fogo imóvel,
labareda de √°gua

Andemos, meu amor,
de coração descalço sobre o sol

A arrog√Ęncia da esp√©cie humana coexiste com um sentimento contradit√≥rio de desprotec√ß√£o total. Nos dias de hoje, todas as na√ß√Ķes, mesmo as mais poderosas, estremecem nas m√£os de algo que nos escapa, um destino cego, um horizonte enevoado. De s√ļbito, o Homem redescobre a sua fragilidade, a sua infinita solid√£o.

O √ļnico segredo, a √ļnica sabedoria √© sermos verdadeiros, n√£o termos medo de partilhar publicamente as nossas fragilidades.

O que faz a lágrima? A lágrima nos universa, nela regressamos ao primeiro início.

Os espíritos não vêm de nenhum lugar. São como a água: estão dentro de nós.

A boca é grande e os olhos são pequenos. Ou como se diz aqui: o burro come espinhos com a sua língua suave.

A cidade n√£o √© um lugar. √Č a moldura de uma vida. A moldura √† procura de retrato, √© isso que eu vejo quando revisito o meu lugar de nascimento. N√£o s√£o ruas, n√£o s√£o casas. O que revejo √© um tempo, o que escuto √© a fala desse tempo. Um dialecto chamado mem√≥ria, numa na√ß√£o chamada inf√Ęncia.

Nenhum homem é distante. Todo o homem se torna próximo na luta a favor da humanidade.

Na aldeia, até as plantas tinham garras. Tudo o que é vivo, em Kulumani, está treinado para morder. As aves abocanham o céu, os ramos rasgam as nuvens, a chuva morde a terra, os mortos usam os dentes para se vingarem do destino.

As nossas estradas já tiveram a timidez dos rios e a suavidade das mulheres. E pediam licença antes de nascer. Agora, as estradas tomam posse da paisagem e estendem as suas grandes pernas sobre o Tempo, como fazem os donos do mundo.

Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer.

A escola foi para mim como um barco: me dava acesso a outros mundos. Contudo, aquele ensinamento n√£o me totalizava. Ao contr√°rio: mais eu aprendia, mais eu sufocava.

As culturas sobrevivem enquanto se mantiverem produtivas, enquanto forem sujeito de mudança e elas próprias dialogarem e se mestiçarem com outras culturas.