Passagens de Mia Couto

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Frases, pensamentos e outras passagens de Mia Couto para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos.

A transgress√£o po√©tica √© o √ļnico modo de escaparmos √† ditadura da realidade. Sabendo que a realidade √© uma esp√©cie de recinto prisional fechado com a chave da raz√£o e a porta do bom-senso.

Há coisas que são resolvidas por governos. Há coisas que nenhum governo é capaz de resolver. Seremos nós, com o tempo que nos for concedido, que resolveremos. Por via da nossa cidadania em construção.

N√£o aspire ser centro de nada. A import√Ęncia aqui √© muito mortal. Veja, por exemplo, essas avezitas que pousam no dorso dos hipop√≥tamos. Sua grandeza √© o seu tamanho m√≠nimo. √Č essa a nossa arte, nossa maneira de nos fazermos maiores: catando nas costas dos poderosos.

N√≥s lemos emo√ß√Ķes nos rostos, lemos os sinais clim√°ticos nas nuvens, lemos o ch√£o, lemos o Mundo, lemos a Vida. Tudo pode ser p√°gina. Depende apenas da inten√ß√£o de descoberta do nosso olhar.

Diz a m√£e: a vida faz-se como uma corda. √Č preciso tran√ß√°-la at√© n√£o distinguirmos os fios dos dedos.

Por um Mundo Escutador

N√£o existe alternativa: a globaliza√ß√£o come√ßou com o primeiro homem. O primeiro homem (se √© que alguma vez existiu ¬ęum primeiro¬Ľ homem) era j√° a humanidade inteira. Essa humanidade produziu infinitas respostas adaptativas. O que podemos fazer, nos dias de hoje, √© responder √† globaliza√ß√£o desumanizante com uma outra globaliza√ß√£o, feita √† nossa maneira e com os nossos prop√≥sitos. N√£o tanto para contrapor. Mas para criar um mundo plural em que todos possam mundializar e ser mundializados. Sem hegemonia, sem domina√ß√£o. Um mundo que escuta as vozes diversas, em que todos s√£o, em simult√Ęneo, centro e periferia.

S√≥ h√° um caminho. Que n√£o √© o da imposi√ß√£o. Mas o da sedu√ß√£o. Os outros necessitam conhecer-nos. Porque at√© aqui ¬ęeles¬Ľ conhecem uma miragem. O nosso retrato – o retrato feito pelos ¬ęoutros¬Ľ – foi produzido pela sedimenta√ß√£o de estere√≥tipos. Pior do que a ignor√Ęncia √© essa presun√ß√£o de saber. O que se globalizou foi, antes de mais, essa ignor√Ęncia disfar√ßada de arrog√Ęncia. N√£o √© o rosto mas a m√°scara que se veicula como retrato.
A questão é, portanto, a de um outro conhecimento. Se os outros nos conhecerem, se escutarem a nossa voz e, sobretudo, se encontrarem nessa descoberta um motivo de prazer,

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O escritor desafia os fundamentos do próprio pensamento. Ele vai mais longe do que desafiar os limites do politicamente correcto. Ele subverte os próprios critérios que definem o que é correcto, ele questiona os limites da razão.

O chão deste mundo é o tecto de um mundo mais por baixo. E sucessivamente, até ao centro, onde mora o primeiro dos mortos.

Cantar, dizem, é um afastamento da morte. A voz suspende o passo da morte e, em volta, tudo se torna pegada da vida.

Carta

(digo dos que se ditam:
a minha defesa
s√£o os vossos punhais)

Quando me disseram ¬ęn√£o se vem √† vida para sonhar¬Ľ passei a odiar-vos. Para vos matar escolhi materiais inacess√≠veis ao meu √≥dio. Em mim fizestes despertar a irrepar√°vel urg√™ncia de ferir.

Descobri a vossa intenção: decepar as minhas raízes mais profundas, obrigar-me à cerimónia das palavras mortas. Preferi reiniciar-me: na solidão me apaguei. Estava só para me encher de gente, para me povoar de ternura. Eu queria simplesmente olhar de frente a verdade das pequenas coisas: esta água vem de onde, quem teceu este linho, que mãos fizeram este pão?

Desloquei-me para tudo ver de um outro lado: levei o meu olhar, o desejo de um princípio infinitamente retomado. Ganhei sonoridade nas vozes que me habitavam silenciosamente. Entre mar e terra eu preferia ser espuma, ter raiz e poente entre oceano e continente.

O tempo, por vezes, morria de o n√£o semear. Terras que golpeava com ternura eram feridas que em mim se abriam para me curar. Eram terras suspeitas, acusadas de futuro. Outras vezes eram m√£os de um corpo que ainda me n√£o nascera. Surgiam da obscuridade para afastar a √°gua e nela me deixar tombar.

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A escola é um meio para querermos o que não temos. A vida, depois, ensina-nos a termos aquilo que não queremos. Entre a escola e a vida resta-nos sermos verdadeiros e confessar aos mais jovens que nós também não sabemos e que, nós, professores e pais, também estamos à procura de respostas.

Esquecer os deveres básicos de solidariedade é uma violência, uma cobardia escondida em nome do bom-senso.

Só se conta uma história que seja bonita se tivermos prazer nesse empreendimento.

Só quando danço me liberto do tempo: esvoaçam as memórias, levantam voo de mim.