Passagens de Mia Couto

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O chão deste mundo é o tecto de um mundo mais por baixo. E sucessivamente, até ao centro, onde mora o primeiro dos mortos.

Cantar, dizem, é um afastamento da morte. A voz suspende o passo da morte e, em volta, tudo se torna pegada da vida.

Carta

(digo dos que se ditam:
a minha defesa
s√£o os vossos punhais)

Quando me disseram ¬ęn√£o se vem √† vida para sonhar¬Ľ passei a odiar-vos. Para vos matar escolhi materiais inacess√≠veis ao meu √≥dio. Em mim fizestes despertar a irrepar√°vel urg√™ncia de ferir.

Descobri a vossa intenção: decepar as minhas raízes mais profundas, obrigar-me à cerimónia das palavras mortas. Preferi reiniciar-me: na solidão me apaguei. Estava só para me encher de gente, para me povoar de ternura. Eu queria simplesmente olhar de frente a verdade das pequenas coisas: esta água vem de onde, quem teceu este linho, que mãos fizeram este pão?

Desloquei-me para tudo ver de um outro lado: levei o meu olhar, o desejo de um princípio infinitamente retomado. Ganhei sonoridade nas vozes que me habitavam silenciosamente. Entre mar e terra eu preferia ser espuma, ter raiz e poente entre oceano e continente.

O tempo, por vezes, morria de o n√£o semear. Terras que golpeava com ternura eram feridas que em mim se abriam para me curar. Eram terras suspeitas, acusadas de futuro. Outras vezes eram m√£os de um corpo que ainda me n√£o nascera. Surgiam da obscuridade para afastar a √°gua e nela me deixar tombar.

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A escola é um meio para querermos o que não temos. A vida, depois, ensina-nos a termos aquilo que não queremos. Entre a escola e a vida resta-nos sermos verdadeiros e confessar aos mais jovens que nós também não sabemos e que, nós, professores e pais, também estamos à procura de respostas.

Esquecer os deveres básicos de solidariedade é uma violência, uma cobardia escondida em nome do bom-senso.

Só se conta uma história que seja bonita se tivermos prazer nesse empreendimento.

Só quando danço me liberto do tempo: esvoaçam as memórias, levantam voo de mim.

Acendemos paix√Ķes no rastilho do pr√≥prio cora√ß√£o. O que amamos √© sempre a chuva, entre o voo da nuvem e a pris√£o do charco. Afinal, somos ca√ßadores que a si mesmo se azagaiam. No arremesso certeiro vai sempre um pouco de quem dispara.

O que um escritor nos dá não são livros. O que ele nos dá, por via da escrita, é um mundo. Esse universo nós o ignorávamos, mas existia em nós uma silenciosa lembrança de um fascínio perdido. A luz e sombra da página existiam já adormecidas dentro de nós. A leitura nos dá uma espécie de re-encantamento.

A escrita n√£o √© um ve√≠culo para se chegar a uma ess√™ncia. A escrita √© a viagem, a descoberta de outras dimens√Ķes e de mist√©rios que est√£o para al√©m das apar√™ncias.

A estrada √© uma espada. A sua l√Ęmina rasga o corpo da terra. N√£o tarda que a nossa na√ß√£o seja um emaranhado de cicatrizes, um mapa feito de tantos golpes que nos orgulharemos mais das feridas que do intacto corpo que ainda conseguimos salvar.

Dizemos que somos tolerantes com as diferen√ßas. Mas ser-se tolerante √© ainda insuficiente. √Č preciso aceitar que a maior parte das diferen√ßas foi inventada e que o Outro (o outro sexo, a outra ra√ßa, a outra etnia) existe sempre dentro de n√≥s.

Temos que ter cautela sobre a facilidade com que invadimos a alma dos outros. Quem nos autoriza a falar com tanta ligeireza dos outros? Nenhuma cidadania me pode dar esse direito de falar em p√ļblico sobre a intimidade de seja quem for. Podemos discutir casos gerais, princ√≠pios, ideias, mas n√£o temos o direito de trazer para o jornal os assuntos da alma e do cora√ß√£o de qualquer cidad√£o.

O discurso de grande parte dos pol√≠ticos √© feito de lugares-comuns, incapazes de entenderem a complexidade da condi√ß√£o dos nossos pa√≠ses e dos nossos povos. A demagogia f√°cil continua a substituir a procura de solu√ß√Ķes.

As minas antipessoais s√£o produzidas por pa√≠ses que se reclamam da civiliza√ß√£o e dos direitos humanos. Algumas destas na√ß√Ķes proclamam-se mesmo campe√£s na luta contra o terrorismo e as armas de destrui√ß√£o em massa. Mas recusaram-se sempre a assinar o acordo para o fornecimento desta insidiosa forma de terrorismo que todos os dias mutila e mata mulheres, crian√ßas e homens inocentes nos pa√≠ses pobres.