Passagens sobre √Āgua

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Sentia-se aliviada, como uma pessoa que está se afogando e desiste de tentar lutar contra as águas. Ver um homem agir com autoconfiança era para ela um salva-vidas lançado à sua frente num momento em que ela já se esquecera da existência de salva-vidas.

N√£o haver√°, entre um esp√≠rito que abarrota de inven√ß√Ķes alheias e outro que inventa por si pr√≥prio, a mesma diferen√ßa que vai de um recipiente que se enche de √°gua √† fonte que a fornece ?

Debaixo das Oliveiras

Este foi o mês em que cantei
dentro de minha casa
debaixo
das oliveiras.

O m√™s em que a brisa me p√īs nas m√£os
uma harpa de folhas
e a terra me emprestou
sua flauta e sua lua.
Maré viva. Meu sangue atravessado
por um cometa visível a olho nu
tangido por satélites e aves de arribação
navegado por peixes desconhecidos.

Este foi o mês em que cantei
como quem morre e ressuscita
no terceiro dia
de cada sílaba.

O mês em que subi a uma colina
dentro de minha casa
olhei a terra e o mar
depois cantei
como quem faz com duas pedras
o primeiro lume. Palavras
e pedras. Palavras e lume
de uma vida.

Este foi o mês em que fui a um lugar santo
dentro de minha casa.
O mês em que saí dos campos
e me banhei no rio como quem se baptiza
e cantei debaixo das oliveiras
as m√£os cheias de terra. Palavras
e terra
de uma vida.

Este foi o mês em que cantei
como quem espelha ao vento suas cinzas
e cresce de seu próprio adubo
carregado de folhas.

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O Testamento dos Namorados

Escolhamos as coisas mais in√ļteis
o verde √°gua o rumor das frutas
e partamos como quem sai
ao domingo naturalmente.

Deixemos entretanto o sinal
de ter existido carnalmente:
da tua força um castiçal
da minha fragilidade um pente.

Esse hieróglifo essa lousa
deixemos para que uma criança
a encontre como quem ousa
um novo passo de dança.

O que Poder√° Ver quem j√° da Vista Cegou?

Ante Sintra, a mui prezada,
e serra de Ribatejo
que Arrábeda é chamada,
perto donde o rio Tejo
se mete n’√°gua salgada,
houve um pastor e pastora,
que com tanto amor se amaram
como males lhe causaram
este bem, que nunca fora,
pois foi o que n√£o cuidarom.

A ela chamavam Maria
e ao pastor Crisfal,
ao qual, de dia em dia,
o bem se tornou em mal,
que ele t√£o mal merecia.
Sendo de pouca idade,
n√£o se ver tanto sentiam
que o dia que n√£o se viam,
se via na saudade
o que ambos se queriam.

Algumas horas falavam,
andando o gado pascendo;
e ent√£o se apascentavam
os olhos, que, em se vendo,
mais famintos lhe ficavam.
E com quanto era Maria
pequena e, tinha cuidado
de guardar melhor o gado
o que lhe Crisfal dizia;
mas, em fim, foi mal guardado;

Que, depois de assim viver
nesta vida e neste amor,
depois de alcançado ter
maior bem pera mor dor,
em fim se houve de saber
por Joana,

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As M√£os

Brandamente escrevem dos espasmos do sol.
Envelhecem do pulso ao cérebro, ao calor baço
de um revérbero no eixo dos ventos, usura
das m√°scaras que, sucessivamente, as transformam

de consciência em cal ou metal obscuro.
E já não é por si que a presença existe ou
subsiste o que separa. Destroem as sementes,
apodrecem como um sopro e n√£o s√£o remanso

na areia ou domadoras de chamas. Igualam-se
à água, para serem raiz do que se cala
e insinuam-se, para sempre, no pó da noite.

Um castelo de pele tomba. Deixam de ser
nomeadas ou nome. Escrevem, brandamente,
do termo da m√ļsica o luto do sil√™ncio.

N√£o Sou Digno de um Anjo T√£o Doce como Tu

Bom dia, anjo querido, beijo-te muito. Pensei em ti durante todo o caminho. Acabo de chegar. Sinto-me cansado e instalei-me para te escrever. Acabam de trazer-me ch√°, e √°gua para me lavar, mas no intervalo escrevo-te umas linhas. (…) Na sala de espera da esta√ß√£o andei de l√° para c√° a pensar em ti e dizia comigo: mas porque deixei eu a minha Anuska?
Recordava tudo, at√© ao mais √≠nfimo escaninho da tua alma e do teu cora√ß√£o. Desde que cas√°mos que descobri n√£o ser digno de um anjo t√£o doce, t√£o belo, t√£o puro como tu – e que cr√™ em mim. Como pude eu deixar-te? Para onde vou? Porqu√™? Deus confiou-te a mim para que nenhuma das riquezas da tua alma se perdesse – pelo contr√°rio, para que tudo se desenvolva e flores√ßa rica e esplendorosamente. Deus entregou-te a mim para que, por ti, eu resgate os meus enormes pecados, ao apresentar-te a Ele amadurecida, conservada, salva de tudo o que √© baixo e ofende o esp√≠rito. E eu (…) eu o que fa√ßo √© perturbar-te com coisas t√£o est√ļpidas como a minha viagem a este lugar.

Em uma Tarde de Outono

Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as √°guas miro, absorto.
Outono… Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto…

Por que, belo navio, ao clar√£o das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A √°gua cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos…
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clar√£o nascente do arrebol…

Alma Serena

Alma serena, a consciência pura,
assim eu quero a vida que me resta.
Saudade não é dor nem amargura,
dilui-se ao longe a derradeira festa.

N√£o me tentam as rotas da aventura,
agora sei que a minha estrada é esta:
difícil de subir, áspera e dura,
mas branca a urze, de oiro puro a giesta.

Assim meu canto f√°cil de entender,
como chuva a cair, planta a nascer,
como raiz na terra, √°gua corrente.

Tão fácil o difícil verso obscuro!
Eu não canto, porém, atrás dum muro,
eu canto ao sol e para toda a gente.

Eu Peneiro o Espírito e Crivo o Ritmo

Eu peneiro o espírito e crivo o ritmo
Do sangue no amor, o movimento para fora
O desabrigo completo. Peneiro os m√ļltiplos
Sentidos da palavra que sopra a sua voz
Nos pulsos. Crivo a pulsação do canto
E encontro
O silêncio inigualável de quem escuta

Eis porque as minhas entranhas vibram de modo igual
Ao da cítara

Eu peneiro as entranhas e encontro a dor
De quem toca a cítara. A frágil raiz
De quem criva horas e horas a vida e encontra
A corda mais azul, a veia inesgot√°vel
De quem ama
Encontro o silêncio nas entranhas de quem canta

Eis porque o amor vibra no espírito de quem criva

O m√ļsico incompleto peneira a ideia das formas
Eu sopro a √°gua viva. Crivo
O sofrimento demorado do canto
Encontro o mistério
Da cítara

O Sexo

Neste corpo, a densa neblina, quase um h√°bito,
lentamente descida, sedimento e sede,
subtilmente o acalma. Ancora que se desloca,
movediça e infirme. Só no olhar, além

da luz e da cal, se distinguem os desejos
e a mestria das palavras. E n√£o h√° remos
nem astros. Convido a neblina a esta
mesa de chumbo, onde nada levanta o fogo

solar ou os signos se alteiam. √Č a hora
em que o corpo treme e a sombra lavra as frouxas
manhãs. O que serão as tardes, sob a névoa,

quando o vigor agoniza e o v√£o das √°guas abre
o caos e os ecos? Estaremos em paz,
usando a palavra, √ļltima herdeira das areias.

√Č a mensageira da saudade, √© o relic√°rio da prece, √© a cristaliza√ß√£o da m√°goa. √Č imortal, porque deriva da alma. √Č a √°gua que n√£o seca, a l√°grima, √°gua do cora√ß√£o – salgada porque vem de um oceano sem praias, que √© o desespero, estrela porque demanda o c√©u.

Mais Triste

√Č triste, diz a gente, a vastid√£o
Do mar imenso! E aquela voz fatal
Com que ele fala, agita o nosso mal!
E a Noite é triste como a Extrema-Unção!

√Č triste e dilacera o cora√ß√£o
Um poente do nosso Portugal!
E n√£o v√™em que eu sou…eu…afinal,
A coisa mais magoada das que o s√£o?!…

Poentes de agonia trago-os eu
Dentro de mim e tudo quanto é meu
√Č um triste poente de amargura!

E a vastid√£o do Mar, toda essa √°gua
Trago-a dentro de mim num mar de M√°goa!
E a noite sou eu própria! A Noite escura!!

Voz Que Se Cala

Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as √°guas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.

Amo a hera que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.

Amo todos os sonhos que se calam
De cora√ß√Ķes que sentem e n√£o falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e m√≠sero Destino!…

O mecenas não será aquele que olha com indiferença um homem a debater-se na água, e depois lhe prodigaliza uma ajuda embaraçosa mal ele chega à margem ?

Ao Longo da Escrita deste Livro

No ano passado, em outubro, talvez a 27, sei que foi a uma ter√ßa-feira, a minha m√£e incentivou-me a dar um passeio. H√° muito que desistiu de me dissuadir dos livros, tanto l√™s que tresl√™s, mas mant√©m o h√°bito de, cuidadosa, depois de bater √† porta com pouca for√ßa, entrar no meu quarto e perguntar: n√£o te apetece dar um passeio? Na maioria das vezes, n√£o tenho disposi√ß√£o para lhe responder mas, nessa tarde, estava a meio de um cap√≠tulo altru√≠sta e decidi fazer-lhe a vontade. O volante do carro, as minhas m√£os a sentirem todas as pedras quase como se estivesse a desliz√°-las na estrada. Estacionei no campo, a pouca dist√Ęncia de um grupo de homens e mulheres, botas de borracha, que estavam a apanhar azeitona. Espalhavam uma gritaria animada que n√£o se alterou quando sa√≠ do carro e me aproximei, boa tarde. Uma vantagem do meu nome √© que dispenso alcunha. Olha o Livro, boa tarde. O sol estava a p√īr-se. Troquei gra√ßas, enquanto dois homens recolheram os pan√Ķes carregados debaixo da √ļltima oliveira e os levaram √†s costas.
N√£o esque√ßo o que vi a seguir. As mulheres dobraram os pan√Ķes vazios e dispuseram-nos na terra, em forma de corredor.

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Amor

Tu acendeste-me o lume,
Naquela tarde de frio. E do jardim,
Solit√°rio e sombrio,
Vinha até mim
Um suave perfume
De goivos a morrer.

Sobre a cidade calma,
As nuvens, uma a uma,
Como flocos de espuma,
Passavam a correr.

Era uma tarde, das tardes mais frias!
E as coisas n√£o me sorriam.
Somente,
Doente,
Tu me sorrias.

Na vidraça, como gelo,
Soluçaram gotas de água.
Afaguei o teu cabelo,
Com alegria e com m√°goa.

Era uma tarde sombria,
De luz bem singular.
Tarde t√£o fria,
Até parecia
Que tudo ia gelar.

as meninas

as minhas filhas nadam. a mais nova
leva nos braços bóias pequeninas,
a outra d√° um salto e p√Ķe √† prova
o corpo esguio, as longas pernas finas:

entre risadas como serpentinas,
vai como a formosinha numa trova,
salta a pés juntos, dedos nas narinas,
e emerge ao sol que o seu cabelo escova.

a √°gua tem a pele azul-turquesa
e brilhos e salpicos, e mergulham
feitas pura alegria incandescente.

e ficam, de ternura e de surpresa,
nas toalhas de cor em que se embrulham,
ninfinhas sobre a relva, de repente.

A uma Rosa

Como tens t√£o pouca vida?
Quem t√£o depressa te mata?
Flor do mais ilustre sangue,
Que deu de Vénus a planta?
Uma Aurora só que vives,
Flores te chamam Monarca:
Na mesma terra do império,
Que foi berço, tens a campa.
L√°stima da tarde chamam
A ti doce mimo da alva,
Gentil pérola nascida
Entre concha de esmeralda.
√Āguia nos voos florentes
Estendes ao Sol as asas,
Mas quando os raios lhe logras,
Fénix em raios te abrazas.

Em quanto em verde clausura
Te fecha o bot√£o as galas,
Para os logros, que desejas,
Te dão vida as esperanças.
Mas quando a p√ļrpura bela
Te serve j√° de mortalha,
Sentido o Sol chora raios,
Buscando a morte nas √°guas.
De fermosura t√£o rica
N√£o sei quem foi o pirata
T√£o atrevido, que rouba
A joia da madrugada.