Passagens sobre √Āgua

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Frases sobre √°gua, poemas sobre √°gua e outras passagens sobre √°gua para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Rio Abaixo

Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga…
Quase noite. Ao sabor do curso lento
Da √°gua, que as margens em redor alaga,
Seguimos. Curva os bambuais o vento.

Vivo, h√° pouco, de p√ļrpura, sangrento,
Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento…
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.

Um silêncio tristíssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fímbria do horizonte mudo:

E o seu reflexo p√°lido, embebido
Como um gl√°dio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido.

A sorte é imprevisível. Que o teu anzol esteja, pois, sempre atirado às águas. Num açude onde menos o esperas, aparecerá um peixe.

Cara Minha Inimiga

Cara minha inimiga, em cuja m√£o
P√īs meus contentamentos a ventura,
Faltou-te a ti na terra sepultura,
Por que me falte a mim consolação.

Eternamente as √°guas lograr√£o
A tua peregrina formosura:
Mas enquanto me a mim a vida dura,
Sempre viva em minha alma te achar√£o.

E, se meus rudos versos podem tanto,
Que possam prometer-te longa história
Daquele amor t√£o puro e verdadeiro,

Celebrada ser√°s sempre em meu canto:
Porque, enquanto no mundo houver memória,
Ser√° a minha escritura o teu letreiro.

Elevação

Por cima dos pa√ļes, das montanhas agrestes,
Dos rudes alcantis, das nuvens e do mar,
Muito acima do sol, muito acima do ar,
Para além do confim dos páramos celestes,

Paira o espírito meu com toda a agilidade,
Como um bom nadador, que na √°gua sente gozo,
As penas a agitar, gazil, voluptuoso,
Atrav√©s das regi√Ķes da et√©rea imensidade.

Eleva o v√īo teu longe das montureiras,
Vai-te purificar no éter superior,
E bebe, como um puro e sagrado licor,
A alvinitente luz das límpidas clareiras!

Neste bisonho dai’ de m√°goas horrorosas,
Em que o fastio e a dor perseguem o mortal,
Feliz de quem puder, numa ascens√£o ideal,
Atingir as mans√Ķes ridentes, luminosas!

De quem, pela manh√£, andorinha veloz,
Aos domínios do céu o pensamento erguer,
‚ÄĒ Que paire sobre a vida, e saiba compreender
A linguagem da flor e das coisas sem voz!

Tradução de Delfim Guimarães

Pequenina

Eu bem sei que te chamam pequenina
E ténue como o véu solto na dança,
Que és no juízo apenas a criança,
Pouco mais, nos vestidos, que a menina…

Que és o regato de água mansa e fina,
A folhinha do til que se balança,
O peito que em correndo logo cansa,
A fronte que ao sofrer logo se inclina…

Mas, filha, l√° nos montes onde andei,
Tanto me enchi de ang√ļstia e de receio
Ouvindo do infinito os fundos ecos,

Que n√£o quero imperar nem j√° ser rei
Sen√£o tendo meus reinos em teu seio
E s√ļbditos, crian√ßa, em teus bonecos!

Carta

Aqui, tudo é bonito e quieto, a gente
vai vivendo uma vida sempre igual…
– H√° um dia que o regato de cristal
de √°guas turvas ficou devido √† enchente…

Os dias têm passado, lentamente,
e um tédio sinto em mim, de um modo tal,
que às vezes, fico até sentimental,
lembrando-me de ti, saudosamente…

Quando estavas aqui, – tudo era lindo…
Como um doce casal de beija-flores,
viv√≠amos os dois sempre sorrindo…

Por que n√£o voltas?… Vem!… – Se tu voltares
o c√©u h√° de cobrir-se de outras cores…
– as flores voltar√£o pelos pomares!..

Correm Turvas As √Āguas Deste Rio

Correm turvas as √°guas deste rio,
que as do Céu e as do monte as enturbaram;
os campos florecidos se secaram,
intrat√°vel se fez o vale, e frio.

Passou o Ver√£o, passou o ardente Estio,
√ľas cousas por outras se trocaram;
os fementidos Fados j√° deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem j√° sabida;
o mundo, n√£o; mas anda t√£o confuso,
que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opini√Ķes, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que n√£o h√° nela mais que o que parece.

Aquele que sempre mantém a mente flexível, consegue agarrar todas as oportunidades que lhe surgem. A água, devido a sua fluidez, se acomoda em qualquer recipiente; assim, os riachos e os rios, justamente por correrem em conformidade com o relevo, acabam vencendo as dificuldades ambientais e alcançam o oceano.

Sábado é a Rosa da Semana

Acho que s√°bado √© a rosa da semana; s√°bado de tarde a casa √© feita de cortinas ao vento, e algu√©m despeja um balde de √°gua no terra√ßo; s√°bado ao vento √© a rosa da semana; s√°bado de manh√£, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilh√£o em mim perdido: outras abelhas farejar√£o e no outro s√°bado de manh√£ vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas. No s√°bado √© que as formigas subiam pela pedra. Foi num s√°bado que vi um homem sentado na sombra da cal√ßada comendo de uma cuia de carne-seca e pir√£o; n√≥s j√° t√≠nhamos tomado banho. De tarde a campainha inaugurava ao vento a matin√™ de cinema: ao vento s√°bado era a rosa de nossa semana. Se chovia s√≥ eu sabia que era s√°bado; uma rosa molhada, n√£o √©? No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esfor√ßo met√°lico a semana se abre em rosa: o carro freia de s√ļbito e, antes do vento espantado poder recome√ßar, vejo que √© s√°bado de tarde. Tem sido s√°bado, mas j√° n√£o me perguntam mais. Mas j√° peguei as minhas coisas e fui para domingo de manh√£.

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Aquela Fé Tão Clara E Verdadeira

Aquela fé tão clara e verdadeira,
A vontade t√£o limpa e t√£o sem m√°goa,
Tantas vezes provada em viva fr√°gua
De fogo, i apurada, e sempre inteira;

Aquela confiança, de maneira
Que encheu de fogo o peito, os olhos de √°gua,
Por que eu ledo passei por tanta m√°goa,
Culpa primeira minha e derradeira,

De que me aproveitou? N√£o de al por certo
Que dum só nome tão leve e tão vão,
Custoso ao rosto, tão custoso à vida.

Dei de mim que falar ao longe e ao perto;
E j√° assi se consola a alma perdida,
Se n√£o achar piedade, ache perd√£o.

o tempo subitamente solto

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de √°gua, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas √°rvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

Flor Do Mar

√Čs da origem do mar, vens do secreto,
Do estranho mar espumaroso e frio
Que p√Ķe rede de sonhos ao navio,
E o deixa balouçar, na vaga, inquieto.

Possuis do mar o deslumbrante afeto,
As dormências nervosas e o sombrio
E torvo aspecto aterrador, bravio
Das ondas no atro e proceloso aspecto.

Num fundo ideal de p√ļrpuras e rosas
Surges das √°guas mucilaginosas
Como a lua entre a n√©voa dos espa√ßos…

Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
Auroras, virgens musicas marinhas,
Acres aromas de algas e sarga√ßos…

Que o Rudo Engenho Meu me Desengana

De t√£o divino acento em voz humana,
De eleg√Ęncias que s√£o t√£o peregrinas,
Sei bem que minhas obras n√£o s√£o dignas,
Que o rudo engenho meu me desengana.

Porém da vossa pena ilustre mana
Licor que vence as √°guas Cabalinas;
E convosco do Tejo as flores finas
Farão inveja à cópia Mantuana.

E pois a vós, de si não sendo avaras,
As filhas de Mnemósine fermosa
Partes dadas vos têm ao mundo claras;

A minha Musa, e a vossa t√£o famosa,
Ambas se podem nele chamar raras,
A vossa de alta, a minha de invejosa.

√Čs como o Ar que Respiro

Qual √© a for√ßa extraordin√°ria que possuis? ‚ÄĒ pergunto muitas vezes a mim mesmo. Dois ou tr√™s princ√≠pios crist√£os inabal√°veis ‚ÄĒ e por tr√°s milhares de seres que desapareceram ignorados, cumprindo a vida ignorada. Nem sequer se debateram. Entregaram-se. Confiaram. A mulher portuguesa comunica ao lar a ternura com que os p√°ssaros aquecem o ninho. Sua vida d√° luz, para alumiar os outros. Foi assim com t√£o pequenos meios, que me ensinaste. Com uma palavra e mais nada, com um simples olhar, com sil√™ncio e mais nada. Uma atitude fazia-me pensar. E mal sabes tu quando Os teus dedos √°geis trabalhavam a meu lado, teciam ao mesmo tempo o pano grosso de casa e a nossa vida espiritual.

E como tu milhares de seres t√™em cumprido a vida em sil√™ncio, aceitando-a sem exageros. Nas m√£os das mulheres at√© as coisas vulgares que se fazem na aldeia, cozer o p√£o, lan√ßar a teia ‚ÄĒ assumem um car√°cter sagrado. Elas passam desconhecidas e disp√Ķem dum poder extraordin√°rio. Mant√™em a vida ordenada com um sorriso t√≠mido. A mulher est√° mais perto que n√≥s da natureza e de Deus.

Cada vez me aproximo mais de ti. O que h√° de puro em mim a ti o devo.

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Choro De Vagas

Não é de águas apenas e de ventos,
No rude som, formada a voz do Oceano.
Em seu clamor Рouço um clamor humano;
Em seu lamento – todos os lamentos.

S√£o de n√°ufragos mil estes acentos,
Estes gemidos, este aiar insano;
Agarrados a um mastro, ou t√°bua, ou pano,
Vejo-os varridos de tuf√Ķes violentos;

Vejo-os na escurid√£o da noite, aflitos,
Bracejando ou já mortos e de bruços,
Largados das mar√©s, em ermas plagas…

Ah! que s√£o deles estes surdos gritos,
Este rumor de preces e soluços
E o choro de saudades destas vagas!

Fartamo-nos Sempre dos Pesadelos dos Outros

Fartamo-nos sempre dos pesadelos dos outros e dos gritos no quarto ao lado pela madrugada, sejam de quem forem. Conseguimos ouvir durante um tempo, segurar na m√£o, esquecer as horas, oferecer um calmante, um copo de √°gua; mas, se queremos realmente continuar a viver de verdade, n√£o temos rem√©dio sen√£o acabar por colocar qualquer tipo de barreira a tudo isso, tapar os ouvidos e, seja como for, alhear-nos. Fugir dali, deixando a s√≥s quem geme. √Č como abandonar um ferido na valeta quando o inimigo se aproxima a passos largos e n√£o faz sentido correr o risco de ficar a contempl√°-lo a esvair-se em sangue.

Este é o Papel Singular da Alegria

Este é o papel singular da alegria
a lei errante do país
é o maior dos silêncios.

Caminhei por entre rios pontos de √°gua
esta√ß√Ķes de novembro
pequena raz√£o dos ventos da manh√£.

N√£o trafiquei n√£o porque seja forte
mas porque falo da alegria do estar sobre vós
nestes pontos de √°gua
na acidez da flor
neste país frequentado

algumas coisas nunca mudar√£o. O rigor
da luz torna invulner√°vel o desejo de perder
esta pressa de ver√£o.

Algumas coisas ser√£o sempre as mesmas: manh√£
encosta o teu ouvido sobre a porta escuta
era a voz os cavaleiros roubados a Ucello
longínquos.

(Profanamos a casa n√£o o corpo
esta forma desenhada ruga a ruga
esta cor amarela sobre a praia.)