Passagens sobre √Āgua

843 resultados
Frases sobre √°gua, poemas sobre √°gua e outras passagens sobre √°gua para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Como a água, quanto mais elevado o bem, mais benefícios espalha

Como a água, quanto mais elevado o bem, mais benefícios espalha, e contudo penetra em lugares escuros que os homens desprezam.

Prazer Convicto ou sem Domínio

Quem age em vista do prazer e o persegue, por convic√ß√£o e decis√£o, parece ser melhor do que quem n√£o age por c√°lculo, mas por falta de dom√≠nio. Ou seja, o primeiro parece poder ser mais facilmente corrigido, porque pode ser convencido a alterar as suas convic√ß√Ķes. Na verdade, o prov√©rbio: ¬ęSe a √°gua √© capaz de sufocar, porque a bebemos?¬Ľ parece poder aplicar-se a quem n√£o se domina.
Se alguém age por ter sido convencido a fazer o que faz, deixará de o fazer se for convencido de outro modo. Contudo, estando ele agora convencido de que deve fazer uma coisa, ainda assim fará uma coisa diferente. Ainda, se perda de domínio e o autodomínio podem ser ditos a respeito de tudo na existência, quem é que existe com uma absoluta falta de domínio? Porque ninguém perde o domínio a respeito de tudo. Contudo, dizemos de alguns que têm uma falta de domínio absoluta.

Recém-Casado

√Č pelos corpos que nos perderemos
de nós mesmos, para nos ganharmos
√Č pelos beijos que nos despedimos
para nos encontrarmos pelos olhos.
√Č pela pele que escaldamos
o que em nós havia de secreto:
e é o nosso corpo entregue um corpo estranho
pois pertence só a quem amamos
por quem morosamente devassamos
o alheamento da carne ‚ÄĒ
o barqueiro, o pastor que a atravessa
num profundo arremesso vagaroso
levantando ondas, ondas, ondas e ervas
a subir e descer vagas e montes
levando-me com ele à raia clara
onde √°gua a quebrar-se eu me constele
na sua barca, conduzida à praia.

Terra – 7

Onde ficava o mundo?
Só pinhais, matos, charnecas e milho
para a fome dos olhos.
Para l√° da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda.
E o mar? E a cidade? E os rios?
Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos,
onde chiam carros de bois e há poças de chuva.
Onde ficava o mundo?
Nem a alma sabia julgar.
Mas vieram engenheiros e m√°quinas estranhas.
Em cada dia o povo abraçava um outro povo.
E hoje a terra é livre e fácil como o céu das aves:
a estrada branca e menina é uma serpente ondulada
e dela nasce a sede da fuga como as √°guas dum rio.

Bolero Das √Āguas

O passo no compasso dois por quatro
acode meu suplício de afogado
afastando de mim sedento c√°lice
em submerso bolero de √°guas tantas.

A sede dança seca na garganta
curtindo signos, fala ressequida
para a l√≠ngua de couro, lixa t√Ęntala,
alisando palavras rebuçadas.

Quanto alfenim no alfanje que se enfeita
para montar as ancas de égua moura.
Lábia flamenca lambe leve as oiças,

é rito muezim ditando a dança:
no dois pra c√° me levo em dois pra l√°,
nas águas do regaço vou-me e lavo-me.

Poema Final

√ď cores virtuais que jazeis subterr√Ęneas,
_ Fulgura√ß√Ķes azuis, vermelhos de hemoptise,
Represados clar√Ķes, crom√°ticas ves√Ęnias,
No limbo onde esperais a luz que vos batize,

As p√°lpebras cerrai, ansiosas n√£o veleis.
Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,
T√£o graves de cismar, nos bocais dos museus,
E escutando o correr da √°gua na clepsidra,

Vagamente sorris, resignados e ateus,
Cessai de cogitar, o abismo n√£o sondeis.
Gemebundo arrulhar dos sonhos n√£o sonhados,

Que toda a noite errais, doces almas penando,
E as asas lacerais na aresta dos telhados,
E no vento expirais em um queixume brando,
Adormecei. N√£o suspireis. N√£o respireis.

A Esperança da Humanidade

A vida política, porém, veio como um trovão desviar-me dos meus trabalhos. Regressei uma vez mais à multidão.
A multidão humana foi a maior lição da minha vida. Posso chegar a ela com a inerente timidez do poeta, com o receio do tímido; mas, uma vez no seu seio, sinto-me transfigurado. Sou parte da essencial maioria, sou mais uma folha da grande árvore humana.

Solid√£o e multid√£o continuar√£o a ser deveres elementares do poeta do nosso tempo. Na solid√£o, a minha vida enriqueceu-se com a batalha da ondula√ß√£o no litoral chileno. Intrigaram-me e apaixonaram-me as √°guas combatentes e os penhascos combatidos, a multiplica√ß√£o da vida oce√Ęnica, a impec√°vel forma√ß√£o dos ¬ęp√°ssaros errantes¬Ľ, o esplendor da espuma mar√≠tima.

Mas aprendi muito mais com a grande maré das vidas, com a ternura vista em milhares de olhos que me viam ao mesmo tempo. Pode esta mensagem não ser possível a todos os poetas, mas quem a tenha sentido guardá-la-á no coração, desenvolvendo-a na sua obra.
√Č memor√°vel e desvanecedor para o poeta ter encarnado para muitos homens, durante um minuto, a esperan√ßa.

Fala do Homem Nascido

(Chega à boca da cena, e diz:)

Venho da terra assombrada,
do ventre de minha m√£e;
n√£o pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
n√£o tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
N√£o h√° ventos que n√£o prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença!

Continue lendo…

Do mesmo modo que o metal enferruja com a ociosidade e a água parada perde sua pureza, assim a inércia esgota a energia da mente.

As L√°grimas e os Homens

Vede que misteriosamente puseram as l√°grimas nos olhos a Natureza, a Justi√ßa, a Raz√£o, a Gra√ßa. A Natureza para rem√©dio; a Justi√ßa para castigo; a Raz√£o para arrependimento; a Gra√ßa para triunfo. Como pelos olhos se contrai a m√°cula do pecado, p√īs a Natureza nos olhos as l√°grimas, para que com aquela √°gua se lavassem as manchas: como pelos olhos se admite a culpa, p√īs a Justi√ßa nos olhos as l√°grimas para que estivesse o supl√≠cio no mesmo lugar do delito: como pelos olhos se concebe a ofensa, p√īs a Raz√£o nos olhos as l√°grimas, para que onde se fundiu a ingratid√£o, a desfizesse o arrependimento: e como pelos olhos entram os inimigos √† alma, p√īs a Gra√ßa nos olhos as l√°grimas, para que pelas mesmas brechas onde entraram vencedores, os fizesse sair correndo. Entrou Jonas pela boca da baleia pecador; sa√≠a Jonas pela boca da baleia arrependido. Raz√£o √© logo e Justi√ßa, e n√£o s√≥ Gra√ßa, sen√£o Natureza, que pois os olhos s√£o a fonte universal de todos os pecados, sejam os rios de suas l√°grimas a satisfa√ß√£o tamb√©m universal de todos; e que paguem os olhos por todos chorando, j√° que pecaram em todos vendo: Quo fonte manavit nefas,

Continue lendo…

O Homem Honroso

O homem honroso d√° aten√ß√£o especial a nove coisas. Dedica-se a ver bem o que olha, a ouvir bem o que escuta; cuida para ter uma apar√™ncia af√°vel, para ter uma atitude deferente, para ser sincero nas suas palavras, para ser diligente nas suas ac√ß√Ķes; no meio das suas d√ļvidas, tem o cuidado de interrogar; quando est√° descontente, pensa nas consequ√™ncias desastrosas da c√≥lera; frente a um bem a obter, lembra-se da justi√ßa.
(…) Buscar o bem, como se tem√™ssemos n√£o conseguir alcan√ß√°-lo; evitar o mal, como se tiv√©ssemos enfiado a m√£o na √°gua fervente; √© um princ√≠pio que eu vi ser posto em pr√°tica e que aprendi. Viver isolado na busca do seu ideal, praticar a justi√ßa, a fim de realizar a sua Via, √© um princ√≠pio que aprendi, mas ainda n√£o vi ningu√©m segui-lo.

Os crimes da rep√ļblica, tornados poss√≠veis pela desgra√ßada incapacidade mon√°rquica e pela indiferen√ßa da maioria dos portugueses, est√£o agora dando o seu fruto, que, quando absolutamente maduro, ser√° a derrocada de tudo! (…) √Č uma profunda tristeza e por ora n√£o vejo o rem√©dio ao mal profundo que est√° matando o pa√≠s, pois, com m√°goa o digo, os portugueses est√£o-se parecendo com os macacos do Brasil quando caem num rio, p√Ķem as m√£os na cabe√ßa, v√£o para o fundo da √°gua e morrem afogados.

Soneto à Rendeira

O linho é uma oração remota, nesse
fluir fabril de fio para a flor.
Move-se o coração da moça, e esquece
o tempo prisioneiro, em derredor

da sombra esguia que à almofada tece.
Move-se, em seu af√£ modelador
de paz, o mito imemorial da prece
que do limbo da morte inventa o amor.

Movem-se dentro dela o sol e o vento.
Move-se o mar, e os pórticos se movem
das √°guas em perp√©tuo movimento…

Move-se a gênese em seu corpo jovem.
E, enquanto o olhar medita, os dedos tecem
gestos de amor que os l√°bios n√£o conhecem.

Como Provar a Vida

Com a idade, como castigo dos excessos da juventude mas tamb√©m como consola√ß√£o, come√ßa-se a provar as coisas que dantes se consumiam sem pensar. At√© quase morrer de uma hepatite alc√≥olica eu bebia ¬ęwhiskey¬Ľ como se fosse √°gua: o ¬ęuisce beatha¬Ľ ga√©lico; a √°gua da vida. Agora, com o f√≠gado restaurado por anos de abstin√™ncia, apenas provo.
Suspeito que seja assim com todos os prazeres – at√© o de acordar bem disposto ou passar um dia sem dores ou respirar como se quer ou n√£o precisar de mais ningu√©m para funcionar. Parecem prazeres pequenos quando ainda temos prazeres maiores com os quais podemos compar√°-los. Mas tornam-se prazeres enormes quando s√£o os √ļnicos de que somos capazes.
Sei que a √ļltima felicidade de todos n√≥s ser√° repararmos no √ļltimo momento em que conseguimos provar a vida que vivemos e ach√°-la – n√£o tanto apesar como por causa de tudo – boa.

A tirania da humanidade era como o gotejamento obstinado da água que cai em cima de uma pedra e a desgasta a pouco a pouco; e este gotejamento continua, caindo obstinadamente, caindo sem parar sobre as almas das crianças.

Um homem pode muito bem levar um cavalo até a água, mas ele não pode obrigá-lo a bebê-la.