Passagens sobre √Āgua

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Frases sobre √°gua, poemas sobre √°gua e outras passagens sobre √°gua para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Sinto

Sinto
que em minhas veias arde
sangue,
chama vermelha que vai cozendo
minhas paix√Ķes no cora√ß√£o.

Mulheres, por favor,
derramai √°gua:
quando tudo se queima,
só as fagulhas voam
ao vento.

Tradução de Oscar Mendes

As Palavras Interditas

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. N√£o h√° d√ļvida, anoitece.
√Č preciso partir, √© preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te… E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio s√£o interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem j√° reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas m√£os nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

H√° pessoas que t√™m pequenos problemas emocionais que nunca resolvem. A atitude passiva do ¬ęeu¬Ľ arrasta a solu√ß√£o. N√£o h√° dois vencedores nas √°guas da emo√ß√£o. Ou supera os conflitos emocionais ou eles acabar√£o por control√°-lo. Todos querem o p√≥dio, mas muitos desprezam a fadiga dos treinos. Todos querem a vit√≥ria, mas a grande maioria desiste da labuta. Todos querem ser felizes, mas n√£o treinam as suas emo√ß√Ķes. Ningu√©m pode brilhar em qualquer √°rea da vida se n√£o aprender a percorrer com coragem todas as dist√Ęncias necess√°rias.

Carta à Minha Filha

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na met√°fora dada
pela inf√Ęncia, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de raz√£o nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite t√£o quente rompendo-se
de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo
e que o teu tempo ao meu se seguir√°.

Num estilo que gostava, esse de um homem
que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda às vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas Рé sempre
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida,
de quem a habita para além do ar.

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O Acto de Criação é de Natureza Obscura

O acto de cria√ß√£o √© de natureza obscura; nele √© imposs√≠vel destrin√ßar o que √© da raz√£o e o que √© do instinto, o que √© do mundo e o que √© da terra. Nunca nenhum dualismo serviu bem o poeta. Esse ¬ępastor do Ser¬Ľ, na t√£o bela express√£o de Heidegger, √©, como nenhum outro homem, nost√°lgico de uma antiga unidade. As mil e uma antinomias, t√£o escolarmente elaboradas, quando n√£o pervertem a primordial fonte do desejo, pecam sempre por cindir a inteireza que √© todo um homem. N√£o h√° vit√≥ria definitiva sem a reconcilia√ß√£o dos contr√°rios. √Č no mar crepuscular e materno da mem√≥ria, onde as √°guas ¬ęsuperiores¬Ľ n√£o foram ainda separadas das ¬ęinferiores¬Ľ, que as imagens do poeta sonham pela primeira vez com a prec√°ria e fugidia luz da terra.
Diante do papel, que ¬ęla blancheur d√©fend¬Ľ, o poeta √© uma longa e s√≥ hesita√ß√£o. Que Ifig√©nia ter√° de sacrificar para que o vento prop√≠cio se levante e as suas naves possam avistar os muros de Tr√≥ia? Que aug√ļrios escuta, que enigmas decifra naquele rumor de sangue em que se debru√ßa cheio de afli√ß√£o? Porque ao princ√≠pio √© o ritmo; um ritmo surdo, espesso, do cora√ß√£o ou do cosmos ‚ÄĒ quem sabe onde um come√ßa e o outro acaba?

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A Noite na Ilha

Dormi contigo toda a noite
junto ao mar, na ilha.
Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a √°gua.

Os nossos sonos uniram-se
talvez muito tarde
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento agita,
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.

0 teu sono separou-se
talvez do meu
e andava à minha procura
pelo mar escuro
como dantes,
quando ainda n√£o existias,
quando sem te avistar
naveguei a teu lado
e os teus olhos buscavam
o que agora
‚ÄĒ p√£o, vinho, amor e c√≥lera ‚ÄĒ
te dou às mãos cheias,
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.

Dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra escura gira
com os vivos e os mortos,
e ao acordar de repente
no meio da sombra
o meu braço cingia a tua cintura.
Nem a noite nem o sono
puderam separar-nos.

Dormi contigo
e, ao acordar, tua boca,

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O ‚Äėamor do c√©u‚Äô √© vertical e o ‚Äėamor da terra‚Äô √© horizontal. O vertical ( l ) e o horizontal (-) formam uma cruz (+). Esta simboliza a uni√£o do fogo (ka) e da √°gua (mi). O Fogo √© vertical e a √°gua horizontal. Ka-mi (fogo e √°gua, ou seja, a uni√£o dos princ√≠pios positivo e negativo) √© Kami (Deus em japon√™s), o Criador de todos os seres.

Como Realiza o Corpo este Exercício da Queda

Como realiza o corpo este exercício
da queda no s√ļbito conhecimento
do espanto, quando os olhos est√£o vencidos,
cerrados pela transparência e pela luz
ofuscante da alva? À medida que o corpo
seca e se aplacam os seus, outrora, am√°veis
dons, se ensombram os ossos, míseras as mãos
emagrecidas e se desnuda a carne
no fundo f√īlego das √°guas, aumenta
o assombro da claridade. Só a vida
gerou o tempo, eis que ausente, ao resplendor
inesperado da luz descida. Onde vai
o humilde corpo, se corpo resta ou se outro,
receber a miraculosa mudança
de nada existir a n√£o ser o profundo
bando do grito terrível de todos
os mortos? Ah, que estupor sela os m√ļsculos,
enrijece as unhas e aspira a voz,
resfria o suor e nos conduz, inertes
e cegos, ao n√ļcleo da luz deslumbrante?
√ď mar de que futuro, rumor vol√ļvel,
sopro claro, envolve-nos de compaix√£o!

√Č nas almas simples que o amor √© mais puro e mais forte. O manancial de √°guas claras que na plan√≠cie vai matar sedes e reverdecer os campos, jorra do seio das duras pedras das montanhas em s√≠tios agrestes, longe e alto!

Soneto de Inês

Dos olhos corre a √°gua do Mondego
os cabelos parecem os choupais
Inês! Inês! Rainha sem sossego
dum rei que por amor n√£o pode mais.

Amor imenso que também é cego
amor que torna os homens imortais.
In√™s! In√™s! Dist√Ęncia a que n√£o chego
morta t√£o cedo por viver demais.

Os teus gestos são verdes os teus braços
são gaivotas poisadas no regaço
dum mar azul turquesa intemporal.

As andorinhas seguem os teus passos
e tu morrendo com os olhos baços
Inês! Inês! Inês de Portugal.

As Três Espécies de Portugueses

Há três espécies de Portugal, dentro do mesmo Portugal; ou, se se preferir, há três espécies de português. Um começou com a nacionalidade: é o português típico, que forma o fundo da nação e o da sua expansão numérica, trabalhando obscura e modestamente em Portugal e por toda a parte de todas as partes do Mundo. Este português encontra-se, desde 1578, divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe porque existe, e é por isso que a nação existe também.

Outro √© o portugu√™s que o n√£o √©. Come√ßou com a invas√£o mental estrangeira, que data, com verdade poss√≠vel, do tempo do Marqu√™s de Pombal. Esta invas√£o agravou-se com o Constitucionalismo, e tornou-se completa com a Rep√ļblica. Este portugu√™s (que √© o que forma grande parte das classes m√©dias superiores, certa parte do povo, e quase toda a gente das classes dirigentes) √© o que governa o pa√≠s. Est√° completamente divorciado do pa√≠s que governa. √Č, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, √© est√ļpido.

Há um terceiro português, que começou a existir quando Portugal, por alturas de El-Rei D. Dinis, começou, de Nação, a esboçar-se Império. Esse português fez as Descobertas,

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Névoa

A Albano Nogueira

Abraçada à noite,
a névoa desce sobre a terra.

Imprecisamente,
como se a névoa fosse dos meus olhos,
vejo o casario e as luzes da outra margem do rio.
Mais à direita, ao longe,
são já da névoa a praia, o mar.
Ouve-se apenas o ronco do farol
– um som molhado.
Para o lado dos pinhais,
anda a bruma a fazer medo
e a p√īr mais pressa nos passos de quem foge.

N√£o h√° luar, n√£o h√° estrelas.
De novo, olho para o rio.
N√£o sei se o vejo:
anda a névoa, já, com ele,
e os meus olhos não dizem o que é bruma, o que é rio.
E ela n√£o p√°ra,
avança ao meu encontro.

Cerca-me.
E eu tenho, só,
orvalho nas √°rvores do jardim,
gotas de √°gua que se partem na alameda,
o ar h√ļmido que me trespassa,
o molhado ronco do farol,
os cabelos encharcados
e pensamentos de n√©voa…

Como se te perdesse nos trens, nas esta√ß√Ķes Ou contornando um c√≠rculo de √°guas Removente ave, assim te somo a mim: De redes e de anseios inundada

Obscuro Domínio

Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver o rumor das luzes
entre os teus l√°bios fendidos.

Deslizar pela vertente
da garganta, ser m√ļsica
onde o silêncio aflui
e se concentra.

Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo,
brancura dilacerada

Penetrar na doçura da areia
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul,

no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e naveg√°vel
golfo do desejo,

onde o furor habita
crispado de agulhas,
onde faça sangrar
as tuas √°guas nuas.