Poemas sobre Silêncio

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Poemas de silêncio escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Solid√£o

Cai chuva, chora.
Chora, chora.
Solid√£o, solid√£o!

J√° n√£o canta o p√°ssaro.
Calou-se a voz, a alegre, a rara.
A que se ouvia solit√°ria.
Cai chuva.

N√£o sou freira e estou num convento.
A paz, o sil√™ncio, a chuva, os claustros…
Ser freira!

O sequestro, cantar, rezar.
Cai chuva, rude e sem dor.
Tu n√£o choras.
Sou eu que choro.

Que é do pássaro, como cantava?
Voltou, voltou. Pia!
Bendito p√°ssaro, onde est√°s?
Acompanha-me, j√° n√£o chove.
Solid√£o, melancolia.

O Céu e o Ninho

√Čs ao mesmo tempo o c√©u e o ninho.

Meu belo amigo, aqui no ninho,
o teu amor prende a alma
com mil cores,
cores e m√ļsicas.

Chega a manh√£,
trazendo na m√£o a cesta de oiro,
com a grinalda da formosura,
para coroar a terra em silêncio!

Chega a noite pelas veredas n√£o andadas
dos prados solit√°rios,
j√° abandonados pelos rebanhos!
Traz, na sua bilha de oiro,
a fresca bebida da paz,
recolhida
no mar ocidental do descanso.

Mas onde o céu infinito se abre,
para que a alma possa voar,
reina a branca claridade imaculada.
Ali n√£o h√° dia nem noite,
nem forma, nem cor,
nem sequer nunca, nunca,
uma palavra!

Tradu√ß√£o de Manuel Sim√Ķes

Liberdade

‚ÄĒ Liberdade, que estais no c√©u…
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

‚ÄĒ Liberdade, que estais na terra…
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O p√£o da minha fome.
‚ÄĒ Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

A Tua Boca Adormeceu

A tua boca adormeceu
parece um cais muito antigo
à volta da minha boca.

Mas as palavras querem voltar à terra
ao fogo do silêncio que sustém as pontes
perdidas na sua própria sombra.

E h√° um c√£o de pedra como um fruto
que nos cobre com o seu uivo
enquanto p√°ssaros de ouro com m√£os de marfim
transplantam as √°rvores transparentes
para o ponto mais fundo do mar.

As l√°grimas que n√£o chorei
arrependidas
fazem transbordar a eterna agonia do mar
como um len√ßol f√ļnebre
com que tivesse alguém coberto o rosto metafórico
dos cinco continentes que em nós existem.

Assim é ao mesmo tempo
que sou eu e n√£o o sou
aquele relógio das horas de ouro
que além flutua.

Trova do Vento que Passa

Para António Portugal

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios n√£o me sossegam
levam sonhos deixam m√°goas.

Levam sonhos deixam m√°goas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no ch√£o.
Silêncio Рé tudo o que tem
quem vive na servid√£o.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento n√£o me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha p√°tria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi meu poema na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

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A Nossa Inteligência as Está Vendo

A nossa inteligência as está vendo
quando, da luz da sua rodeadas,
criam a brisa pelo movimento
com que entram para o espaço das palavras.
Por ora irem mensura ainda o tempo
de aparecerem zonas sombreadas
conforme vinca m√ļsculos o lento
vaivém de luzes que organiza a marcha.
Mas caminham de fora para dentro.
Dentro de brisas di√°fanas
onde, enigmático, se esconde esse silêncio
de que surdem figuras entrando nas palavras.

Poema do Homem Novo

Niels Armstrong p√īs os p√©s na Lua
e a Humanidade saudou nele
o Homem Novo.
No calendário da História sublinhou-se
com espesso traço o memorável feito.

Tudo nele era novo.
Vestia quinze fatos sobrepostos.
Primeiro, sobre a pele, cobrindo-o de alto a baixo,
um colante poroso de rede tricotada
para ventilação e temperatura próprias.
Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,
catorze, no total,
de película de nylon
e borracha sintética.
Envolvendo o conjunto, do tronco até aos pés,
na cabeça e nos braços,
confusíssima trama de canais
para circulação dos fluidos necessários,
da água e do oxigénio.

A cobrir tudo, enfim, como um bal√£o ao vento,
um envólucro soprado de tela de alumínio.
Capacete de rosca, de especial fibra de vidro,
auscultadores e microfones,
e, nas m√£os penduradas, tent√°culos programados,
luvas com luz nos dedos.

Numa cama de rede, pendurada
da parede do módulo,
na majestade augusta do silêncio,
dormia o Homem Novo a caminho da Lua.
C√° de longe, na Terra, num borborinho ansioso,

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Memória

Tudo que sou, no imaginado
silêncio hostil que me rodeia,
é o epitáfio de um pecado
que foi gravado sobre a areia.

O mar levou toda a lembrança.
Agora sei que me detesto:
da minha vida de criança
guardo o prel√ļdio dum incesto.

O resto foi o que eu n√£o quis:
perseguição, procura, enlace,
desse retrato feito a giz
pra que n√£o mais eu me encontrasse.

Tu foste a noiva que n√£o veio,
irm√£ somente prometida!
‚ÄĒ O resto foi a quebra desse enleio.
O resto foi amor, na minha vida.

Personagem

Teu nome é quase indiferente
e nem teu rosto j√° me inquieta.
A arte de amar é exactamente
a de se ser poeta.

Para pensar em ti, me basta
o próprio amor que por ti sinto:
és a ideia, serena e casta,
nutrida do enigma do instinto.

O lugar da tua presença
é um deserto, entre variedades:
mas nesse deserto é que pensa
o olhar de todas as saudades.

Meus sonhos viajam rumos tristes
e, no seu profundo universo,
tu, sem forma e sem nome, existes,
silêncio, obscuro, disperso.

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome,
teu coração, tua existência,
tudo Рo espaço evita e consome:
e eu só conheço a tua ausência.

Eu só conheço o que não vejo.
E, nesse abismo do meu sonho,
alheia a todo outro desejo,
me decomponho e recomponho.

Eu Nunca Guardei Rebanhos

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela m√£o das Esta√ß√Ķes
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um p√īr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando j√° pensa que existe
E as m√£os colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos s√£o contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o n√£o soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

N√£o tenho ambi√ß√Ķes nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
√Č a minha maneira de estar sozinho.

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Três Poemas da Solidão

I

Nem aqui nem ali: em parte alguma.
Não é este ou aquele o meu lugar.
Desço à praia, mergulho as mãos no mar,
mas do mar, nos meus dedos, fica a espuma.

Meu jardim, minha cerca, meu pomar.
Perpassa a Ideia e mói, como verruma.
Falar mas para quê? Só por falar?
J√° nada quer dizer coisa nenhuma.

Os instintos à solta, como feras,
e eu a pensar em velhas primaveras,
no antigo sortilégio das palavras.

Agora é tudo igual, prazer e dor,
e a tua sementeira n√£o d√° flor,
ó triste solidão que as almas lavras.

II

Tão só!
Cada vez s√£o mais longos os caminhos
que me levam à gente.
(E os pensamentos fechados em gaiolas,
as ideias em jaulas.)

Ah, n√£o fujam de mim!
N√£o mordo, n√£o arranho.
Direi:
‚ÄĒ ¬ęPois n√£o! Ora essa! Tem raz√£o¬Ľ.

Entanto, na gaiola,
cantarão em silêncio
os sonhos, as ideias,
como p√°ssaros mudos.

III

Solid√£o.
A multid√£o em volta
e o pensamento à solta
como alado corcel.

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As Profecias

(fragmentos)

I

depois de tudo
minha casa permanecer√° nos fundos

minguantes novos
cidades mortas
ruas desconhecidas

barcos de vento
perdidos sons

foi l√° que brinquei de longe
e perdi-me de mim
foi l√° a primeira tosquia
quando me tiraram tudo

nem o leque
para afugentar a maturação
nem a haste
para defender-me das feras
nem o silêncio
para vestir-me no esquecimento

depois de tudo
minha casa permanecer√° nos fundos

foi l√° que brinquei de longe
e me perdi de mim

II

A flor abre-se em terra
para o forte a ser nosso.

Perto estamos
dos rios coagulados
de mel colhido aos tempos.
Perto estamos
da nocturna fé de ser impuro
benvinda das lonjuras.

Perto estamos dos infantes campos
junto ao longe tranquilo de viver.
Ouvi, solit√°rias meninas, solit√°rios meninos:
o vento ch√£o que varre os prados
onde somos horizontais,
afinal.

III

Trago a palma na m√£o, aqui estou,

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Sem outro Intuito

Atir√°vamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos ent√£o todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

A Mulher Mais Bonita do Mundo

est√°s t√£o bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que est√°s bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o arm√°rio,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde est√° o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

est√°s t√£o bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os l√°bios.

est√°s dentro de algo que est√° dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os l√°bios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

A √Ārvore da Sombra

A √°rvore da sombra
tem as folhas nuas
como a própria árvore ao meio-dia
quando se finca à terra
e espera
como um c√£o espera o regresso do dono.
Nós abrigamo-nos mais tarde ou mesmo agora num lugar
muito distante
onde o tempo recorta
um tapete que esvoaça no papel.
A casa da sombra
é branca e habitada.
Somos nós ainda
sentados ao fogo que o teu sorriso
acende e aconchega
no silêncio que ilumina
a √°rvore da sombra
para que a noite desenhe
o seu nome visível
e a sombra possa contemplar
Os ramos mais belos e o tronco mais esguio
do seu objecto.
Nesta sombra h√° um imenso amor
ao meio-dia.
A hora dos prodígios
é feita de segundos do tempo que há-de vir
e o horizonte
é a proximidade total da tua boca.

indicação do lugar

chegamos a uma p√°gina em branco atravessada por
um s√ļbito sil√™ncio un√≠ssono
o rio é uma dobra do olhar onde sempre estivemos em surdina

é o exacto lugar
indiciador dos m√ļsculos

quem ousa escancarar as portas à cidade

O Livro Fechado

Quebrada a vara, fechei o livro
e n√£o ser√° por inc√ļria ou descuido
que algumas p√°ginas se reabram
e os mesmos fantasmas me visitem.
Fechei o livro, Senhor, fechei-o,

mas os mortos e a sua memória,
os vivos e sua presença podem mais
que o √°lcool de todos os esquecimentos.
Abjurado, recusei-o e cumpro,
na gangrena do corpo que me coube,

em lugar que lhe n√£o compete,
o dia a dia de um destino tolerado.
Na raça de estranhos em que mudei,
é entre estranhos da mesma raça
que, dissimulado e obediente, o sofro.

Aventureiro, ou n√£o, servidor apenas
de qualquer miss√£o remota ao sol poente,
em amanuense me tornei do horizonte
severo e restrito que me n√£o pertence,
lavrador vergado sobre solo alheio

onde n√£o cai, nem vinga, desmobilizada,
a sombra elíptica do guerreiro.
Fechei o livro, calei todas as vozes,
contas de longe cobradas em nada.
Fale, somente, o silêncio que lhes sucede.

l√Ęmpada votiva

1. teve longa agonia a minha m√£e

teve longa agonia a minha m√£e:
seu ser tornou-se um puro sofrimento
e a sua voz apenas um lamento
sombrio e lancinante, mas ninguém

podia fazer nada, era novembro,
levou-a o sol da tarde quando a face
lhe serenou, foi como se acordasse
outra espessura dela em mim. relembro

sombras e risos, coisas pequenas, nadas,
e horas graves da inf√Ęncia e idade adulta
que este silêncio oculta e desoculta
nessas pobres fei√ß√Ķes desfiguradas.

quanta canção perdida se procura,
quanta encontrada em l√°grimas murmura.

2. e n√£o queria ser vista e foi envolta

e n√£o queria ser vista e foi envolta
num lençol branco em suas dobras leves,
pus junto dela algumas rosas breves
e a lembrança represa ficou solta

e foi à desfilada. De repente,
a minha m√£e j√° n√£o estava morta:
era o vulto que à noite se recorta
na luz do corredor, se est√° doente

algum de nós, a mão que pousa e traz
algum sossego à fronte,

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Ci√ļme

V√£o decorrendo as horas, v√£o-se os dias,
Mas como outrora ela n√£o vem. Ci√ļme?
Olho em redor de mim, meu pobre lume,
S√£o tudo cinzas mortas, cinzas frias.

Bateu o relógio as horas do costume,
E tu n√£o vens, j√° n√£o te vejo mais…
Dos nossos dias, vivos, triunfais,
Só restam coisas mortas e sombrias.

N√£o sei que m√°goa e dor meus olhos cobre.
Sinto que alguém morreu dentro de mim.
Bate o relógio as horas, como um dobre,
A dizer, a dizer: tudo tem fim.

Vai a tarde a morrer, e um frio imenso
Cai sobre mim como um Pólo de gelo.
Junto de ti, quem estar√°, eu penso,
A beijar, em silêncio, o teu cabelo?

Nessas tardes, assim, vagas, sensuais,
Eu não quero pensar um só momento.
Se foram minhas, hoje s√£o dos mais…
Deixo-as morrer no frio esquecimento.