Poemas sobre Silêncio

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Poemas de silêncio escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Ode ao Destino

Destino: desisti, regresso, aqui me tens.

Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
Рah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.

Em v√£o tentei n√£o conhecer-te, n√£o notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava                               [em bandos,
pura conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magn√Ęnimo,
√ļnico mist√©rio de um mundo cujo mist√©rio eras tu.

Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada,

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Veio Ter Comigo Hoje a Poesia

Veio ter comigo hoje a poesia.
H√° quantos anos? Desde a juventude.
Veio num raio de sol, num murm√ļrio de vento.
E a ilus√£o que me trouxe de uma antiga alegria
reinventou-me a antiga plenitude
que j√° n√£o invento.

Fazia-lhe outrora poemas verdadeiros
em fornica√ß√Ķes r√°pidas de galo.
Hoje n√£o sou eu nunca por inteiro
e há sempre no que faço um intervalo.

Estamos ambos t√£o velhos ‚ÄĒ que vens fazer?
‚ÄĒ a cama entre n√≥s da nossa antiga fun√ß√£o.
Nublado o olhar só de a ver.
E tomo-lhe em silêncio a mão.

Amo-te no Intenso Tr√°fego

Amo-te no intenso tr√°fego
Com toda a poluição no sangue.
Exponho-te a vontade
O lugar que só respira na tua boca
√ď verbo que amo como a pron√ļncia
Da m√£e, do amigo, do poema
Em pensamento.
Com todas as ideias da minha cabeça ponho-me no silêncio
Dos teus l√°bios.
Molda-me a partir do céu da tua boca
Porque pressinto que posso ouvir-te
No firmamento.

Mania da Solid√£o

Como um jantar frugal junto à clara janela,
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o c√©u ‚ÄĒ quem sabe quantas mulheres
est√£o a comer a esta hora ‚ÄĒ o meu corpo est√° tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.

L√° fora, depois do jantar, as estrelas vir√£o tocar
a terra na ancha planura. As estrelas s√£o vivas,
mas n√£o valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tectos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das √°rvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.

Cada coisa est√° isolada ante os meus sentidos,
que a aceita impassível: um cicio de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.

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Conhecimento do Amor

Amor, como o compreendo agora, é mais
ren√ļncia que desejo. Outrora hostil,
agressivo, hoje s√ļplica, murm√ļrio
íntimo, cinzas em silêncio, amor,
à morte assemelhando-se, besouro
em agonia, dor da perda, o sonho
estraçalhado, renunciar, renu-
nciar sempre, e sem espera, ao corpo amado.

A vida me consente essa amargura
e é preciso vivê-la sem demora,
abrir os olhos, aceitar a sombra,
meditar sem rancor a decep√ß√£o ‚ÄĒ
instante em que a mulher se distancia
e a voz ao telefone ri tranquila
anunciando a partida: outros braços,
agora, amor, mesclado de impotência
e irris√£o, l√°grimas que n√£o se mostram.

Toda ren√ļncia comp√Ķe jogo amargo
de desespero e morte. Renunciar,
ainda que de joelhos, deitado, o corpo
ansiando pelo teu amor se fira,
e o coração, tumulto, empalideça
e nada reste enfim que a vida mesma,
percorrida com calma e indiferença.

Assim, amor, te compreendo agora:
‚ÄĒ devo√ß√£o malquerida a toda hora.

Ode Triunfal

√Ä dolorosa luz das grandes l√Ęmpadas el√©ctricas da f√°brica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

√ď rodas, √≥ engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em f√ļria!
Em f√ļria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De express√£o de todas as minhas sensa√ß√Ķes,
Com um excesso contempor√Ęneo de v√≥s, √≥ m√°quinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes tr√≥picos humanos de ferro e fogo e for√ßa –
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,

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Um Poema Que Se Perdeu

Hoje o dia é um dia chuvoso e triste
amortalhado
Naquela monotonia doente dos grandes dias.

Hoje o dia…
(a pena caiu-me das m√£os)

Acabou-se o poema no papel.
C√° por dentro
Continua…

Oh! este marulhar das almas no silêncio!

A Mulher

Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura

e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.

Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso √© a dist√Ęncia fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.

Que por Ti Perdi

O mar dentro da √°rvore, as nuvens
dentro da terra sem fim,
a luz. A luz dentro doutra luz
que limitava as m√£os e as abria
para outras m√£os dentro de um olhar.

Batem na fornalha os ventos.
Um c√°lice de vidro grosso com o licor
de fermentação caseira. Um prato
com avel√£s e nozes e folhas de medronho.
Nas margens as portadas corridas
ganham um halo de candeeiros de rua
que se difunde na fluorescência do televisor,
na palidez rubra das pequenas luzes do r√°dio.

A √ļltima claridade do dia mistura-se
à primeira da noite.
Este vento na auto-estrada onde rebenta a chuva
não me vai forçar o coração; nem estas sebes
ladeadas de cimento suspender√£o o voo
do que sou até ao que não és. Mas será
a carícia que no cinto treme, o calor do pescoço
descoberto, os vimes da cadeira donde te levantas
quando estou quase para me sentar.

Entre veios de relva desigual,
valados por cuidar abrigam
máquinas de desolação.
Forma√ß√Ķes de patos atravessam
o vidro polido do postigo.

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N√£o te Fies do Tempo nem da Eternidade

N√£o te fies do tempo nem da eternidade
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo.
Apressa-te, amor, que amanh√£ eu morro,
que amanh√£ morro e n√£o te vejo!

N√£o demores t√£o longe, em lugar t√£o secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanh√£ eu morro,
que amanh√£ morro e n√£o te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo…
Apressa-te, amor, que amanh√£ eu morro,
que amanh√£ morro e n√£o te digo…

Chove. Há Silêncio

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O c√©u dorme. Quando a alma √© vi√ļva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego…

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece…

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente…

Vertentes

As palavras esperam o sono
e a m√ļsica do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro n√£o a primeira quebra

A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores

H√° um olhar que entra pelas paredes da terra
sem l√Ęmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre ext√°tica que se alarga

A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar

Deslizo no teu dorso sou a m√£o do teu seio
sou o teu l√°bio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge

A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a √°gua cai sem tempo

Adormecer

O barco parte em silêncio
a alma é aventura
navegar
sem cartas          sem rumo
e desta viagem nocturna
que notícias não direi sequer a mim
[mesmo?

O que se é Vem à Flor?

“N√£o, n√£o digas nada” Fernando Pessoa

Melhor seria n√£o dizer-te nada
j√° que as palavras se frustram, Pessoa
– ai! onde as p√°s sutis e as virgens lavras
do ver de terna fala entre as criaturas?
J√° que as palavras nos frustram, pessoas
perdidas no universo das palavras
– ai tempos de durames sem ternuras! –
melhor seria n√£o dizer-te nada.
Calo. Do teu silêncio aflora a fala
desse verde essencial ‚Äď cerne, mensagem,
viva raiz-mistério da linguagem.
Na força de não ter dito o que mais cala.

Namorados do Mirante

Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas s√ļbitas est√°tuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
A Remontavam √†s origens ‚ÄĒ a realidade
Neles se fez, de subst√Ęncia, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da esp√©cie ‚ÄĒ tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas na magma incandescente
Que milénios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas gal√°xias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o sil√™ncio…

Exílio

Dentro de cada rosto vai-se
e perde o passo antes certo
que não se quisera passo, mas silêncio.

Se em v√£o caminha e nada encontra,
um rosto e cada ruga, cada cancro
conferem o périplo e o decretam
desde sempre, nas frias manh√£s do tempo, nulo.

Mármores, fátua memória de um crime,
ou qualquer m√ļsica degredada em pranto,
nada falta, mas fasta, imóvel, sucessiva
uma lua basta e sua lousa, desterro.

Letras, pedras, fomes, por entre grades paisagem
ou rosto informe no fundo de uma p√°gina,
vai a viagem ontem e esquece, urro ou simples erro.

Algumas Coisas

A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.

Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.

A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
√Č o vazio ou o cimo? √Č um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Rela√ß√Ķes, varia√ß√Ķes, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
√Č aqui a ab√≥bada transparente, o vento principia.
No centro do dia h√° uma fonte de √°gua clara.
Se digo √°rvore a √°rvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

Sil√™ncio, Nostalgia…

Sil√™ncio, nostalgia…
Hora morta, desfolhada,
sem dor, sem alegria,
pelo tempo abandonada.

Luz de Outono, fria, fria…
Hora in√ļtil e sombria
de abandono.
Não sei se é tédio, sono,
silêncio ou nostalgia.

Intermin√°vel dia
de indizíveis cansaços,
de funda melancolia.
Sem rumo para os meus passos,
para que servem meus braços,
nesta hora fria, fria?