Poemas sobre Muro

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Poemas de muro escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Sobra a Construção de Obras Duradouras

Quanto tempo
Duram as obras? Tanto
Quanto o preciso pra ficarem prontas.
Pois enquanto d√£o que fazer
N√£o ruem.

Convidando ao esforço
Compensando a participação
A sua essência é duradoura enquanto
Convidam e compensam.

As √ļteis
Pedem homens
As artísticas
Têm lugar pra a arte
As s√°bias
Pedem sabedoria
As destinadas à perfeição
Mostram lacunas
As que duram muito
Est√£o sempre pra cair
As planeadas verdadeiramente em grande
Est√£o por acabar.

Incompletas ainda
Como o muro à espera da hera
(Esse esteve um dia inacabado
H√° muito tempo, antes de vir a hera, nu!)
Insustent√°vel ainda
Como a m√°quina que se usa
Embora j√° n√£o chegue
Mas promete outra melhor.
Assim ter√° de construir-se
A obra pra durar como
A m√°quina cheia de defeitos.

Tradução de Paulo Quintela

Ruínas

Cobrem plantas sem flor crestados muros;
Range a porta anci√£; o ch√£o de pedra
Gemer parece aos pés do inquieto vate.
Ruína é tudo: a casa, a escada, o horto,
S√≠tios caros da inf√Ęncia.
Austera moça
Junto ao velho port√£o o vate aguarda;
Pendem-lhe as tranças soltas
Por sobre as roxas vestes.
Risos n√£o tem, e em seu magoado gesto
Transluz n√£o sei que dor oculta aos olhos;
‚ÄĒ Dor que √† face n√£o vem, ‚ÄĒ medrosa e casta,
√ćntima e funda; ‚ÄĒ e dos cerrados c√≠lios
Se uma discreta muda
L√°grima cai, n√£o murcha a flor do rosto;
Melancolia t√°cita e serena,
Que os ecos n√£o acorda em seus queixumes,
Respira aquele rosto. A m√£o lhe estende
O abatido poeta. Ei-los percorrem
Com tardo passo os relembrados sítios,
Ermos depois que a m√£o da fria morte
Tantas almas colhera. Desmaiavam,
Nos serros do poente,
As rosas do crep√ļsculo.
“Quem és? pergunta o vate; o sol que foge
No teu l√Ęnguido olhar um raio deixa;
‚ÄĒ Raio quebrado e frio; ‚ÄĒ o vento agita
Tímido e frouxo as tuas longas tranças.

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Toma-me

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua m√£o, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na c√°lida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De p√ļrpura. De prata. De delicadeza.

E H√° Poetas que S√£o Artistas

E h√° poetas que s√£o artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas t√°buas! …
Que triste n√£o saber florir!
Ter que p√īr verso sobre verso, corno quem constr√≥i um
muro
E ver se est√° bem, e tirar se n√£o est√°! …
Quando a √ļnica casa art√≠stica √© a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.
Penso nisto, n√£o como quem pensa, mas como quem
respira,
E olho para as flores e sorrio…
N√£o sei se elas me compreendem
Nem sei eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade est√° nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao solo pelas Esta√ß√Ķes contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos
E n√£o termos sonhos no nosso sono.

Dias In√ļteis

Ficar√£o perdidos os dias
que n√£o tivemos juntos. Dias in√ļteis
encostados a paredes e muros envelhecidos.
Dias sem calend√°rio,
horas evasivas e fugidas, desperdiçadas,
afundadas em rios sem margens nem pontes,

noites, noites e mais noites deitadas fora
como casas desabitadas.

Lisboa

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas
Subidas.
Havia duas pris√Ķes. Uma delas era para os gatunos.
Eles acenavam através das grades.
Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!

“Mas aqui”, dizia o revisor e ria baixinho como um afectado
“aqui sentam-se os pol√≠ticos”. Eu vi a fachada, a fachada, a fachada
e em cima, a uma janela, um homem,
com um binóculo à frente dos olhos, espreitando
para além do mar.

A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos depois, peguntei a uma dama de Lisboa:
Isto é real, ou fui eu que sonhei ?

Tradução por Luís Costa

Aqui Mereço-te

O sabor do p√£o e da terra
e uma luva de orvalho na m√£o ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um p√£o enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visivel entre as árvores.
√Č aqui e agora o dilatado abra√ßo das ra√≠zes claras do sono.
Sob as p√°lpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.

A m√£o flui liberta t√£o livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena l√Ęmpada.
Tudo o que eu disser s√£o os l√°bios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murm√ļrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.

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Desde a Aurora

Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as m√£os:
procuram-te desde o ch√£o,

entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:

vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:

é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.

Sou eu, desde a aurora,
eu ‚ÄĒ a terra ‚ÄĒ que te procuro.

Poema do Silêncio

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de ang√ļstia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carv√£o, a sangue, a giz,
S√°tiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
– Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo…

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. √Ęnsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou t√£o humano!

Senhor meu Deus em que n√£o creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

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Balada do Amor através das Idades

Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas n√£o Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irm√£o.
Matei, brig√°mos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de crist√£os.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o le√£o que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolit√Ęnia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da f√ļria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal…
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortes√£o de Versailles,
espirituoso e devasso.
Voc√™ cismou de ser freira…
Pulei muro de convento
mas complica√ß√Ķes pol√≠ticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.

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A Partir da Ausência

Imaginar a forma
doutro ser Na língua,
proferir o seu desejo
O toque inteiro

N√£o existir

Se o digo acendo os filamentos
desta nocturna l√Ęmpada
A pedra toco do silêncio densa
Os veios de um sangue escuro

Um muro vivo preso a mil raízes

Mas não o vinho límpido
de um corpo
A lucidez da terra
E se respiro a boca n√£o atinge
a nudez una
onde começo

Era com o sol E era
um corpo

Onde agora a m√£o se perde
E era o espaço

Onde não é

O que resta do corpo?
Uma matéria negra e fria?
Um hausto de desejo
retém ainda o calor de uma sílaba?

As palavras soçobram rente ao muro
A terra sopra outros voc√°bulos nus
Entre os ossos e as ervas,
uma outra mão ténue
refaz o rosto escuro
doutro poema

Unidentified Male Figure

Warhol

Olhem, olhem: apruma-se o Amor,
O decote, a cabeleira que nele poisava,
O Amor, como se pavoneia, o Amor.
M√£os na fralda, entreolham-se.
Mostra o sovaco rapado, ossudo, até ao sabugo.
Avan√ßa os m√ļsculos vincados das omoplatas.
Passeava, passeava, e se tudo tarda,
E nada, hora a hora passada, cabeceava.
Encostado ao muro, ali, aí mijava. (Claro, Andy agachou-se,
Tirando-o por debaixo da saia.)

Ama-me

Aos amantes é lícito a voz desvanecida.
Quando acordares, um s√≥ murm√ļrio sobre o teu ouvido:
Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora,
Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês
Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo
Ronda escurecida?

Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento
Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor
Quando tudo anoitece? Antes lamenta
Essa teia de seda que a garganta tece.

Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito
Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome
T√£o intenso meu canto, t√£o flamante meu preclaro tecido
Que o mundo inteiro, amor, h√° de cantar comigo.

Se os Poetas Dessem as M√£os

Se os Poetas dessem as m√£os
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia,
cairiam as grades das pris√Ķes
que nos tolhem os passos,
os arames farpados
que nos rasgam os sonhos,
os muros de silêncio,
as muralhas da cólera e do ódio,
as barreiras do medo,
e o Dia, como um p√°ssaro liberto,
desdobraria enfim as asas
sobre a Noite dos homens.

Se os Poetas dessem as m√£os
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia.

Só

Como se nunca,
terrena e submissa,
recolhesse do amor
o fruto sazonado.

Como se os abraços
n√£o fossem para
o homem e suas dores
acalanto e regaço

Como se n√£o houvesse
riso e pranto
noite escura e dia
a canção e os mortos

Só. Como se o muro
surgisse inexplic√°vel
e eu tivesse nascido
do outro lado.

Mapa

Ao norte, a torre clara, a praça, o eterno encontro,
A confidência muda com teu rosto por jamais.
A leste, o mar, o verde, a onda, a espuma,
Esse fantasma longe, barco e bruma,
O cais para a partida mais definitiva
A urna distancia percorrida em sonho:
Perfume da lonjura, a cidade santa.

O oeste, a casa grande, o corredor, a cama:
Esse carinho intenso de silêncio e banho.
A terra a oeste, essa ternura de pianos e janelas abertas
A rua em que passavas, o abano das sacadas: o morro e o
cemitério e as glicínias.
Ao sul, o amor, toda a esperança, o circo, o papagaio, a
nuvem: esse varal de vento,
No sul iluminado o pensamento no sonho em que te sonho
Ao sul, a praia, o alento, essa atalaia ao teu país

Mapa azul da inf√Ęncia:
O jardim de rosas e mistério: o espelho.
O nunca além do muro, além do sonho o nunca
E as avenidas que percorro aclamado e feliz.

Antes o sol no seu mais novo raio,
O acordar cotidiano para o ensaio do céu,

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Chico

Talvez n√£o fosses forte
para a felicidade,
nem para o medo.

Olha as pessoas felizes:
ocultam-se na felicidade
como em casa, erguem

muros, fecham as janelas,
o medo
é a sua fortaleza.

O que disputam à morte
é maior que elas,
a morte n√£o lhes basta.

Ode Marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manh√£ de Ver√£o,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atr√°s de si a orla v√£ do seu fumo.
Vem entrando, e a manh√£ entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de tr√°s dos navios que est√£o no porto.
H√° uma vaga brisa.
Mas a minh’alma est√° com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele est√° com a Dist√Ęncia, com a Manh√£,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manh√£ na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.

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Largo do Espírito Santo

Nem mais, nem menos: tudo tal e qual
o sonho desmedido que mantinhas.
Só não sonharas estas andorinhas
que temos no beiral.

E moramos num largo… E o nome lindo
que o nosso largo tem!
Com isto não contáramos também.
(√Čramos dois sonhando e exigindo.)

Da nossa casa o Alentejo é verde.
√Č atirar os olhos: S√£o searas,
s√£o olivais, s√£o hortas… E pensaras
que haviam nossos olhos de ter sede!

E o p√£o da nossa mesa!… E o pucarinho
que nos d√° de beber!… E os mil desenhos
da nossa loiça: flores, peixes castanhos,
dois p√°ssaros cantando sobre um ninho…

E o nosso quarto? Agora podes dar-me
teu corpo sem receio ou amargura.
Olha como a Senhora da moldura
sorri à nossa alma e à nossa carne.

Em tudo, ó Companheira,
a nossa casa é bem a nossa casa.
Até nas flores. Até no azinho em brasa
que geme na lareira.

Deus quis. E nós ao sonho erguemos muros,
rasguei janelas eu e tu bordaste
as cortinas.

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Tal a Vida

Em declive trepamos pela nuvem
dos dias ‚ÄĒ em declive circundamos
obscuros cristais
transportados no sangue‚ÄĒ e somos e
levantamos
as cores primitivas da fonte a luz
que resvala corpo a corpo
a semente sazonada de quem roubou
o fogo ‚ÄĒ em declive canto
a ternura diluída a luz reflectida
neste muro onde vejo
a secreção da fala onde ouço
um caminho de met√°foras: tal
a vida ‚ÄĒ