Poemas sobre Cidade

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Poemas de cidade escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Podemos Crer-nos Livres

Aqui, Neera, longe
De homens e de cidades,
Por ninguém nos tolher
O passo, nem vedarem
A nossa vista as casas,
Podemos crer-nos livres.

Bem sei, é flava, que inda
Nos tolhe a vida o corpo,
E n√£o temos a m√£o
Onde temos a alma;
Bem sei que mesmo aqui
Se nos gasta esta carne
Que os deuses concederam
Ao estado antes de Averno.

Mas aqui n√£o nos prendem
Mais coisas do que a vida,
M√£os alheias n√£o tomam
Do nosso braço, ou passos
Humanos se atravessam
Pelo nosso caminho.

N√£o nos sentimos presos
Sen√£o com pensarmos nisso,
Por isso n√£o pensemos
E deixemo-nos crer
Na inteira liberdade
Que é a ilusão que agora
Nos torna iguais dos deuses.

As Palavras Interditas

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. N√£o h√° d√ļvida, anoitece.
√Č preciso partir, √© preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te… E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio s√£o interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem j√° reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas m√£os nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Acaso

No acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas não, não é aquela.

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.
Perco-me subitamente da vis√£o imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigentemente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por gênio, se calhar,
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos…
Mas isto era a respeito de uma rapariga,
De uma rapariga loira,
Mas qual delas?
Havia uma que vi h√° muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;
E houve esta que vi h√° muito tempo numa outra cidade
Numa outra espécie de rua;
Por que todas as recorda√ß√Ķes s√£o a mesma recorda√ß√£o,
Tudo que foi é a mesma morte,

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Utopia

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
Afaga a cantaria
Cidade do homem
N√£o do lobo mas irm√£o
Capital da alegria

Braço que dormes
Nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
Lança o teu
Desafio

Homem que olhas nos olhos
Que n√£o negas
O sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
O nada disto custa
Ser√° que existe
L√° para as margens do oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
Na minha rota?

O Camponês Trata das Leiras

1

O camponês trata das leiras
Mantém em forma as vacas, paga impostos
Faz filhos pra poupar criados e
Está dependente do preço do leite.
Os da cidade falam do amor ao torr√£o
Da sadia cepa campesina e
Que o camponês é o fundamento da Nação.

2

Os da cidade falam do amor ao torr√£o
Da sadia cepa campesina e
Que o camponês é o fundamento da Nação.
O camponês trata das leiras
Mantém em forma as vacas, paga impostos
Faz filhos pra poupar criados e
Está dependente do preço do leite.

Tradução de Paulo Quintela

gruas no cais descarregam mercadorias e eu amo-te

gruas no cais descarregam mercadorias e eu amo-te.
homens isolados caminham nas avenidas e eu amo-te.
silêncios eléctricos faíscam dentro das máquinas e eu amo-te.
destruição contra o caos, destruição contra o caos e eu amo-te.
reflexos de corpos desfiguram-se nas montras e eu amo-te.
envelhecem anos no esquecimento dos armazéns e eu amo-te.
toda a cidade se destina à noite e eu amo-te.

Extravio

Onde começo, onde acabo,
se o que est√° fora est√° dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.

Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que j√° n√£o ouvem nem falam.

Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.

Ah, ser somente o presente:
esta manh√£, esta sala.

Poema da malta das naus

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
pelote de vagabundo,
rebotalho de gib√£o.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das prais
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me a gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a m√£o esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no ch√£o, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
N√£o se nasce impunemente
nas praias de Portugal.

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Aqui Louvo os Animais

S√ļbdito s√≥ de quem n√£o reina,
aqui louvo os animais.
H√°, entre mim e eles, uma funda
relação de videntes:
as paisagens que fendem
e a minha, sepulta,
perfazem um mesmo habitat.
Desde que os n√£o sondo,
fez-se luz em nosso convívio.
O ar inicial
que ensaiava, ic√°rico,
nas bolas de sab√£o,
mas n√£o atina com o v√°cuo
da cidade, vem-me
dos seus pulm√Ķes arborescentes.
Alheios à sua pele
na osmose dos textos,
ignoram que nas √°guas
por correr, desta p√°gina,
cruzam, saudando-se,
o ¬ęBeagle¬Ľ e a Arca de No√©.

Morangos

No começo do amor, quando as cidades
nos eram desconhecidas, de que nos serviria
a certeza da morte se podíamos correr
de ponta a ponta a veia eléctrica da noite
e acabar na praia a comer morangos
ao amanhecer? Diziam-nos que tínhamos

a vida inteira pela frente. Mas, amigos,
como pudemos pensar que seria assim
para sempre? Ou que a m√ļsica e o desejo
nos conduziriam de estação em estação
até ao pleno futuro que julgávamos

merecer? Afinal, o futuro era isto.
N√£o estamos mais s√°bios, n√£o temos
melhores raz√Ķes. Na viagem necess√°ria
para o escuro, o amor é um passageiro
ocasional e difícil. E a partir de certa altura
todas as cidades se parecem.

Do Amor e da Morte

Temos l√°bios tenros para o amor
dentes afiados para a morte

Concebemos filhos para o amor
para a guerra os mandamos para a morte

Levantamos casas para o amor
cidades bombardeamos para a morte

Plantamos a seara para o amor
racionamos o trigo para a morte

Florimos atalhos para o amor
rasgamos fronteiras para a morte

Escrevemos poemas para o amor
lavramos escrituras para a morte

O amor e a morte
somos

Poema Quase Apostólico

Est√° sereno o poeta
Desprende-se-lhe dos ombros e cai
depois em pregas por ele abaixo a manh√£
N√£o pertencem ao dia os gestos que ele tem
n√£o morrer√£o na noite seus assombrosos passos
Dizem que ele volta a p√īr em movimento a roda
de crianças de atitudes desmedidas
que o vento varreu e parque algum queria
E abre os braços para deixar cair na cidade
um ano favor√°vel ao senhor
E p√Ķe o rosto do senhor por tr√°s das suas palavras
Elas decerto o h√£o-de dar a quem as demandar

Prel√ļdio de Natal

Tudo principiava
pela c√ļmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas.

Amor

Tu acendeste-me o lume,
Naquela tarde de frio. E do jardim,
Solit√°rio e sombrio,
Vinha até mim
Um suave perfume
De goivos a morrer.

Sobre a cidade calma,
As nuvens, uma a uma,
Como flocos de espuma,
Passavam a correr.

Era uma tarde, das tardes mais frias!
E as coisas n√£o me sorriam.
Somente,
Doente,
Tu me sorrias.

Na vidraça, como gelo,
Soluçaram gotas de água.
Afaguei o teu cabelo,
Com alegria e com m√°goa.

Era uma tarde sombria,
De luz bem singular.
Tarde t√£o fria,
Até parecia
Que tudo ia gelar.

Sombras da Madrugada

Vi uma sombra bem unida
a dela e a tua
e a minha sombra j√° esquecida
surpreendida
parou na rua!
os dois bem juntos, tu e ela
nenhum reparou
que a outra sombra era daquela
que tu n√£o queres
mas j√° te amou!

√Č madrugada n√£o importa
neste silêncio há mais verdade
a noite é triste e tão sózinha
parece minha
toda a cidade!
nem um cigarro me conforta
nem o luar hoje me abraça
eu n√£o te encontrarei jamais
e nestas noites sempre iguais
sou mais uma sombra que passa
sombra que passa e nada mais.

Ao longo desta madrugada
a sombra da vida
mora nas pedras da calçada
j√° n√£o tem nada
anda perdida
quando a manh√£, desce enfeitada
no sol, que a procura
nem sabe quanto a madrugada
chora baixinho
tanta amargura!

Palavra de Homem

Um pouco de amargura n√£o resolve.
Um pouco de amargura
se dissolve,
se nesta cidade
n√£o conheces o outro
que est√° perto e pouco.

A palavra de homem em tua boca
espera a palavra e o nome
de peso e cobre.
Espera a voz do outro
que acusa a palavra pouca
e explode a armadura
dessa amargura rouca.

Falar n√£o salva o homem.
– Est√°s na outra
palavra do outro
perto e solto.
Falar n√£o abre a porta
n√£o abre a cela
n√£o salva o foco
de tuas chagas.
Falar só salva, salvo
se o outro
do outro lado
fale por tua boca:
– a fala pouca
que te dissolve
a arma pura
desta amargura
que n√£o resolve.

Da Violência

A violência que trazemos no sangue
ninguém a sabe e todos (casas
desmoronadas) a exaltam e todos
a descombinamos
gota a gota
em nossos movimentos de cinza
transit√≥ria ‚ÄĒ esta viol√™ncia
residual
tem do corpo a secura a configuração
cavada no sono na fogueira sem cor
de cidades levantadas sobre a doença sobre
a simulação
de fogo suspenso
no arame dos ossos ‚ÄĒ

Varia√ß√Ķes sobre

O POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO
de Alexandre O’Neill

Os ratos invadiram a cidade
povoaram as casas os ratos roeram
o coração das gentes.
Cada homem traz um rato na alma.
Na rua os ratos roeram a vida.
√Č proibido n√£o ser rato.

Canto na toca. E sou um homem.
Os ratos n√£o tiveram tempo de roer-me
os ratos n√£o podem roer um homem
que grita n√£o aos ratos.
Encho a toca de sol.
(C√° fora os ratos roeram o sol).
Encho a toca de luar.
(C√° fora os ratos roeram a lua).
Encho a toca de amor.
(C√° fora os ratos roeram o amor).

Na toca que j√° foi dos ratos cantam
os homens que n√£o chiam. E cantando
a toca enche-se de sol.
(O pouco sol que os ratos n√£o roeram).

O C√Ęmbio do Amor

Amor, qualquer outro diabo que n√£o tu
Daria, por uma alma, algo em troca.
Na Corte, teus colegas, todos os dias,
Dão a arte da rima, da caça, ou do jogo,
Por aquelas que antes a si se pertenciam;
Somente eu, o que mais dei, nada tenho,
Mas ‚ÄĒ infeliz ‚ÄĒ por ser mais vil, sou aviltado.

Não peço agora permissão
Para fingir uma l√°grima, suspiro, jura;
N√£o te solicito para que obtenhas
Um non obstante sobre a lei natural;
Estas s√£o prerrogativas inerentes
A ti e aos teus; ninguém as deverá abjurar
A n√£o ser que fosse servo do Amor.

D√°-me a tua fraqueza, faz-me duplamente cego
Como tu e os teus, de olhos e mente.
Amor, nunca me deixes saber que isto
√Č amor, ou que o amor √© pueril;
N√£o me deixes saber que outros sabem
Que ela sabe de minha dor: que essa terna afronta
Me não torne em minha própria nova dor.

Mesmo se tu nada deres, ainda assim és justo,
Porque n√£o confiei nos teus primeiros sinais;
As vilas que resistem até que forte artilharia
As sujeitem,

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Um Amor

Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na m√£o,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanh√°mos o crep√ļsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.