Cita√ß√Ķes de Jo√£o Miguel Fernandes Jorge

13 resultados
Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Jo√£o Miguel Fernandes Jorge para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Vimos do Tempo da Falta Mínima

Vimos do tempo da falta mínima
da casa construindo as folhas de quadrícula
(quando um traço mais que expressivo preenche
o vazio de uma folha)
nem beleza nem fim
nem n√ļmero ordenador como fantasma.

Todas as memórias partilhámos
a ruína compreende tudo.
Compreender quer dizer abraçar
(linhas e cruzamentos na procura da folha)
o mundo inteiro nos é dado.

Mais tarde (mais além
dois furos a passagem para o √ļtil)
as dunas dar√£o lugar a campos cultivados?
Quero dizer
não rejeito do movimento toda a impaciência
toda a dissolução.
(pouco a pouco) Até onde podemos ir?

A Quest√£o deste Corpo

A quest√£o deste corpo est√° hoje no esquecimento
dogma sobre ele erguido há muito tempo: é
um corpo flutuante confuso próximo de
um conhecimento verbal
quest√£o em si mesmo questionando teoria
opini√£o tradicional.

Contamos histórias
renunciamos a determinar-lhe origem
recurso a outro corpo perguntando reclamando
a perder de vista.

Se interrogo retenho a quest√£o quotidiana
o defeito do corpo disponível
ante toda a constatação todo o exame.

(Esta a coragem das m√£os ao pensamento
lenta e solit√°ria
no silêncio da pedra disparada
do alto do tempo.)

No Dia que para Sempre Separ√°mos do Corpo

No dia que para sempre separ√°mos do corpo,
havia nesse dia sobre o livro de gravuras
um insecto com os breves sinais de uma aranha.

Esper√°vamos um recado que se fez esperar e
tinha as m√£os no rosto e fora meu.
A medo a dor para onde n√£o sei bem levava a dor
o rosto.

Havia tudo um pouco misturado. Antigas cartas
velhos poemas.
Até do outro lado da janela víamos tristes
tristes rapazes jogando a bola,

corpo jogado sob o vento de abril e o de
março.

Dentro do quadro via a camisola de l√£ branca
e o que de loiro havia do recente sol
via a dor o recado desejado no negro azul
das aves.

Sobre o céu, o mar, esse tinha-lo agora nos novos
olhos.

O que me Faz Escrever este Poema

O que me faz escrever este poema
não são as coisas: terra céu astros.
A saber: estendo a m√£o: e
o mundo reconhece-a encontra a

memória onde repousa e se transforma.
Pequena questão de valor cósmico. Insisto:
elo que liga bruma e fumo
felicidade de imagens nome inamistoso.

N√£o sonho palavra sonho barco.
Imóvel aprendo a não esquecer:
aspecto mineral do corpo
um destino de mica qualquer coisa
que n√£o cessa de bater.

Acto ou qualquer outra Coisa

Acto ou qualquer outra coisa. Eu sei, aquela mulher
t√£o tranquila
vendo da janela do quarto o porto
vendo dos barcos o fumo rente aos mastros
eu sei

essa mulher bem podia ter o nome quando
por detr√°s da janela observa
outras coisas que n√£o s√£o barcos e mastros.

Talvez os homenzinhos de azul despertem seus desejos
ou só o azul desbotado, mas não
n√£o nessa janela nesse porto de cidade que n√£o sei
e ela sabe

envolta no vestido, ruivo o cabelo,
envolta nas madeiras da portada.
O chão deve ranger sob os seus pés.

Se Fal√°ssemos de Amor Fal√°vamos de Outra Maneira

Se fal√°ssemos de amor fal√°vamos de outra maneira.

A imagem de qualquer pedra servia bem a desordem
que vai sobre esta mesa
o copo de cerveja
admir√°veis modos de viver

o mais mortal amigo é sempre qualquer coisa.

Assim explicava os grandes reinados rituais
o produto da terra
a arte da guerra
a ilus√£o vindo de muito longe
a √ļnica √°rvore o √ļnico po√ßo por fortuna. H√°bil
guerreiro e de palavra.
Contra ele os que foram foram inutilmente.

N√£o Trago Recorda√ß√Ķes

N√£o trago recorda√ß√Ķes.
Escolheria as que não interessam a ninguém.
Como se erguesse contra mim o tiro de uma arma
ou acabasse de ler as disposi√ß√Ķes da comuna
sobre as mulheres.
Precisamos um do outro
esta noite

ferido por uma bala.

Os dois os três dias que se vão seguir.
Os envelopes foram destruídos.
As coisas
as cartas

o tempo é sempre magnífico.
Terra povoada de gente
mil e uma coisas que fazem uma arma
soltar o corpo
para o corpo de outro corpo.

As frases começadas
hei-de um dia os mundos desta vida.

Há Momentos que Resulta tão Difícil Chegarmos a um Sentimento

H√° momentos em que do fogo sobe para a noite
há momentos que resulta tão difícil chegarmos a um
sentimento.
Descubro uma figura que j√° n√£o
sei seguir. H√° momentos
eu vejo o que se senta à minha frente o amável corte
de cabelo o severo intento tomado como correcto
rosto onde a plenitude era possível. Rosto onde o
passado é a tarde de verão a pequena cidade onde o
sol pode dizer-se cai no campo rosto de passados ou
uma tarde de ver√£o para ter tempo.

Este é o Papel Singular da Alegria

Este é o papel singular da alegria
a lei errante do país
é o maior dos silêncios.

Caminhei por entre rios pontos de √°gua
esta√ß√Ķes de novembro
pequena raz√£o dos ventos da manh√£.

N√£o trafiquei n√£o porque seja forte
mas porque falo da alegria do estar sobre vós
nestes pontos de √°gua
na acidez da flor
neste país frequentado

algumas coisas nunca mudar√£o. O rigor
da luz torna invulner√°vel o desejo de perder
esta pressa de ver√£o.

Algumas coisas ser√£o sempre as mesmas: manh√£
encosta o teu ouvido sobre a porta escuta
era a voz os cavaleiros roubados a Ucello
longínquos.

(Profanamos a casa n√£o o corpo
esta forma desenhada ruga a ruga
esta cor amarela sobre a praia.)

Trago-te ao Espaço da Janela

Trago-te ao espaço da janela.
De novo surgiram deste lado da rua.
Em voz baixa disse ¬ęuma alucina√ß√£o¬Ľ. A
√ļnica resposta foi entrar em casa
subir ao quarto mudar de roupa
ser jovem com quem soube bem ser jovem
s√°bio com quem quiseste ser s√°bio
velho com os velhos.
Trago-te para perto da janela
o rio vê-se daqui.
A cor da terra circula.

¬ęTalvez seja a morte¬Ľ ¬ęn√£o¬Ľ
¬ęse for a morte o cora√ß√£o bater√° mais ou menos forte¬Ľ.
O corpo
n√£o tem grande lugar.

Como Podemos Esperar

Como podemos esperar.
Aguardar o que nossas m√£os possam reter.
Uma palavra. O olhar c√ļmplice. Se as coisas
têm já o estado do vento
o que nas ruas fica das vozes ao fim do dia.

Aguardar mais aguardar nada
quanto mais se repete uma palavra
¬ęestou sentado virado para a parede desta casa¬Ľ
baixo, mais baixo ainda,
¬ęestou sentado virado para a parede desta casa¬Ľ.

Fazer que n√£o haja sucedido o sucedido.
O prazer de sentir chegar as coisas
o riso sob a chuva
o frio que faz. Aqui

como podemos esperar uma noite de lua e vento?

O Natal de Minha M√£e

A abstracção não precisa de mãe nem pai
nem t√£o pouco de t√£o tolo infante

mas o natal de minha mãe é ainda o meu natal
com restos de Beira Alta

ano após ano via surgir figura nova nesse
pres√©pio de vaca burro banda de m√ļsica

ribeiro com patos farrapos de algod√£o muito
musgo percorrido por ovelhas e pastores

multid√£o de gente judaizante estremenha pela
m√£o de meu pai descendo de montes contando

moedas azenhas movendo √°gua levada pela estrela
de Belém

um galo bate as asas um frade est√° de acordo
com a nossa circuncis√£o galinhas debicam milho

de mistura com um porco a que minha avó juntava
sempre um gato para dar sorte era preto

assim íamos todos naquela figuração animada
até ao dia de Reis aí estão

um de joelhos outro em pé
e o rei preto vinha sentado no

camelo. Era o mais bonito.
depois eram filhoses o acordar de prenda no

sapato tudo t√£o real como o abrir das lojas no dia
de feira

e eu ia ao Sanguinhal visitar a minha prima que
tinha um cavalo debaixo do quarto

subindo de vales descendo de montes
acompanhando a banda do carvalhal com ferrinhos

e roucas trompas o meu Natal é ainda o Natal de
minha m√£e com uns restos de canela e Beira Alta.

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Reduzir a Dependência das Coisas

Tudo consiste em reduzir a dependência das coisas.
Partes amanh√£. N√£o mais nos veremos. Um pouco o
desertor a cada passagem da nossa alma ou
quem espera para morrer.

A aquisição de todos estes bens
as espécies de tristeza são o que
acompanha quem espera ‚ÄĒ quais as pretendidas
vantagens? a juventude ou o mar?

Que te importa o que posso ou n√£o fazer? Se
estamos t√£o perto quando nas ruas cruzamos e dizemos
o her√≥i de toda a circunst√Ęncia ‚ÄĒ a tua vida
precede a minha a tua morte ao abrigo das paix√Ķes
mas nada disto é dito
animal que repousa sob o erro.

Pela √ļltima vez
p√Ķe os teus sapatos novos
tão contrários à fonte dos actos e à moral
e vem, mesmo que tenhas andado para l√° do som,
lavadinho, para que eu possa passar a minha m√£o
pelo pêlo
pelo pêlo lugar também do saber e de toda a possessão.