Cita√ß√Ķes de Herberto Helder

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Herberto Helder para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

O Mundo Transformado em Poder da Palavra

O poema √© um objecto carregado de poderes magn√≠ficos, terr√≠ficos: posto no s√≠tio certo, no instante certo, segundo a regra certa, promove uma desordem e uma ordem que situam o mundo num ponto extremo: o mundo acaba e come√ßa. Ali√°s n√£o √© exactamente um objecto, o poema, mas um utens√≠lio: de fora parece um objecto, tem as suas qualidades tang√≠veis, n√£o √© por√©m nada para ser visto mas para manejar. Manejamo-lo. Ac√ß√£o, temos aquela ferramenta. A ac√ß√£o √© a nossa pergunta √† realidade: e a resposta, encontramo-la a√≠: na repentina desordem luminosa em volta, na ordem da ac√ß√£o respondida por uma esp√©cie de motim, um deslocamento de tudo: o mundo torna-se um facto novo no poema, por virtude do poema ‚ÄĒ uma realidade nova. Quando apenas se diz que o poema √© um objecto, confunde-se, simplifica-se; parece realmente um objecto, sim, mas porque o mundo, pela ac√ß√£o dessa forma cheia de poderes, se encontra nela inscrito: √© registo e resultado dos poderes. E temos essa forma: a forma que vemos, ei-la: respira pulsa move-se ‚ÄĒ √© o mundo transformado em poder da palavra, em palavra objectiva inventada em irrealidade objectiva. Se dizemos simplesmente: √© um objecto ‚ÄĒ inserimos no elenco de emblemas que nos rodeia um equ√≠voco melindroso,

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A paixão é a moral da poesia: arrisquem a cabeça se querem entender; arrisquem o corpo, a sua medida, se pretendem descobrir o centro do corpo; e sim, arrisquem sobretudo o nome pessoal para ouvirem o nome de baptismo como o coroado nome da terra.

A cr√≠tica? Bem v√™: nas circunst√Ęncias em que me encontro, a cr√≠tica n√£o me poderia ajudar. Ela de resto nunca ajuda um autor. Tende afazer de mediadora entre uma linguagem e um entendimento. Ajudar√° o leitor.

A formação da linguagem é um paciente, extenso, doloroso e, muitas vezes, desesperante caminho. O erro aparece como uma constante, mas existe a possibilidade de ser sempre menor. Entre um grau máximo e um grau mínimo de erro, situa-se a evolução.

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confus√£o da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as ra√≠zes min√ļsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustent√°vel, √ļnico,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

O Nascimento de um Poema

Escreve-se um poema devido √† suspeita de que enquanto o escrevemos algo vai acontecer, uma coisa formid√°vel, algo que nos transformar√°, que transformar√° tudo. Como na inf√Ęncia, quando se fica √† porta de um quarto obscuro e vazio. Fica-se durante um minuto uma brisa levanta-se nos confins da obscuridade: um redemoinho no ar, uma luz, uma ilumina√ß√£o talvez? Estamos prontos para o assentimento. Outro minuto, cinco, dez, ali, diante do an√ļncio suspenso e amea√ßador: n√£o acontece nada. Poder-se-ia esperar um dia inteiro, dias seguidos. As vezes p√°ra-se no meio de um jardim ou de um parque ou de uma avenida deserta. S√£o variantes do quarto. Acontece o mesmo, quero dizer: n√£o acontece na¬¨da. A suspeita apenas de que nos aguarda uma esp√©cie de gra√ßa reticente, um dom reticente. Ou contempla-se um rosto, algu√©m que se ama, um ser imediato; ou ent√£o um rosto desconhecido, defendido. Pensamos: √© uma vida nova, uma for√ßa nova e profunda, √© uma paisagem misteriosa, profunda e nova que se relaciona intimamente connosco: vai revelar-se. E a outra pessoa olha para n√≥s perdida nas perspectivas inquietas da nossa contempla√ß√£o. E recome√ßa-se. O mesmo, sempre. Nada. Por isso surpreendeu-me a, diga¬¨mos, coer√™ncia vertical do volume, e o seu comprimento de onda,

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Fonte – I

Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo –
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.

Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.

Minhas irm√£s faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
Sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
Era a fonte.

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maçã tomava um princípio
de esplendor.

Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.

O √ļnico movimento po√©tico que me parece moderno √© o Experimentalismo. E estou a referir-me tanto ao nosso pa√≠s como √† poesia em geral. Os meus interesses est√£o de tal modo virados para ela que me √© quase imposs√≠vel dar aten√ß√£o √† poesia convencional, por mais not√°vel que seja, dentro dos seus recursos e prop√≥sitos.

Quanto ao mundo, o poema espera tudo dele menos o equívoco, embora seja o equívoco aquilo que se encontra mais à mão deste mundo.

A inocência é um estado clandestino na ditadura do mundo; tem se dar astuta, tem de recorrer a todas as torpezas para lutar e escapar.

O Prestígio de um Poeta

O prestígio que possa ter alcançado (prestígio equivoco no qual se integra a malquerença de alguma gente, que aceito com satisfação) não poderia constituir uma poltrona. O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós. De que ela se fará à margem da confiança alheia.

O Ofuscante Poder da Escrita

O sentido da literatura, no meio dos muitos que tenha ou n√£o tenha, √© que ela mant√©m, purificadas das amea√ßas da confus√£o, as linhas de for√ßa que configuram a equa√ß√£o da consci√™ncia e do acto, com suas tens√Ķes e fracturas, suas ambival√™ncias e ambiguidades, suas rudes traject√≥rias de choque e fuga. O autor √© o criador de um s√≠mbolo her√≥ico: a sua pr√≥pria vida.

Mas, quando cria esse s√≠mbolo, est√° a elaborar um sistema sens√≠vel e sensibilizador, convicto e convincente, de sinais e apelos destinados a colocar o s√≠mbolo √† altura de uma presen√ßa ainda mais viva que aquela mat√©ria desordenada onde teve origem. O valor da escrita reside no facto de, em si mesma, tecer-se ela como s√≠mbolo, urdir ela pr√≥pria a sua dignidade de s√≠mbolo. A escrita representa-se a si, e a sua raz√£o est√° em que d√° raz√£o √†s inspira√ß√Ķes reais que evoca.

E produz uma tens√£o muito mais fundamental do que a realidade. √Č nessa tens√£o real criada em escrita que a realidade se faz. O ofuscante poder da escrita √© que ela possui uma capacidade de persuas√£o e violenta√ß√£o de que a coisa real se encontra subtra√≠da.
O talento de saber tornar verdadeira a verdade.

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√Č obrigat√≥rio diz√™-lo: pouca gente tem ouvidos puros. Ou m√£os limpas. Ler um poema √© poder faz√™-lo, refaz√™-lo: eis o espelho, o m√°gico objecto do reconhecimento, o objecto activo de cria√ß√£o do rosto. O eco visual se quanto a rostos fosse apenas t√™-los fora e ver.

A Evolução da Criatividade

A experi√™ncia humana √© apenas ponto de partida, n√ļcleo s√≥lido e permanente onde assenta a experi√™ncia posterior da cria√ß√£o. Considero a cria√ß√£o o encaminhamento, at√© √†s consequ√™ncias extremas, de uma experi√™ncia em si mesma n√£o organizada. A descoberta do mundo n√£o possui, por ela pr√≥pria, finalidade ou coer√™ncia, nem constitui a salva√ß√£o desse mundo. Desde que seja poss√≠vel criar um corpo org√Ęnico em que a experi√™ncia, devidamente articulada, se baste, surge uma harmonia entre o sujeito e a sua experi√™ncia, quero dizer, o sujeito participa do cosmos. Este esfor√ßo da supera√ß√£o do caos exprime-se pela busca de uma linguagem. √ą ali√°s na linguagem que a experi√™ncia se vai tornando real. Se nela n√£o h√°, em sentido rigoroso, experi√™ncia do mundo. A esta conclus√£o vem chegando uma moderna filosofia da arte. A forma√ß√£o da linguagem √© um paciente, extenso, doloroso e, muitas vezes, desesperante caminho. O erro aparece como uma constante, mas existe a possibilidade de ser sempre menor. Entre um grau m√°ximo e um grau m√≠nimo de erro, situa-se a evolu√ß√£o. Progresso de linguagem, de adequa√ß√£o √†s finalidades, supera√ß√£o da experi√™ncia, purifica√ß√£o do tema ‚Äď eis onde se pode situar o sentido da evolu√ß√£o.

O Extremo Poder dos Símbolos

O extremo poder dos s√≠mbolos reside em que eles, al√©m de concentrarem maior energia que o espect√°culo difuso do acontecimento real, possuem a for√ßa expansiva suficiente para captar t√£o vasto espa√ßo da realidade que a significa√ß√£o a extrair deles ganha a riqueza m√ļltipla e multiplicadora da ambiguidade. Mover-se nos terrenos dos s√≠mbolos, com a devida aten√ß√£o √† subtileza e a certo rigor que pertence √† imagina√ß√£o de qualidade alta, √© o que distingue o grande int√©rprete do pequeno movimentador de correntes de ar.

No Sorriso Louco das M√£es

No sorriso louco das m√£es batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as m√£es
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tend√Ķes
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as m√£es s√£o cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas p√°lpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. S√£o
silenciosas.
E a sua cara est√° no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As m√£es s√£o as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combust√£o dos filhos, porque
os filhos est√£o como invasores dentes-de-le√£o
no terreno das m√£es.

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O prest√≠gio da poesia √© menos ela n√£o acabar nunca do que propriamente come√ßar. √Č um in√≠cio perene, nunca uma chegada seja ao que for.

Todos os poemas s√£o can√ß√Ķes de eco, procuram ser confirmados. De que s√≠tio se lan√ßa a voz, que g√©nero de confirma√ß√£o se pretende? A confirma√ß√£o, sempre, do poema a si mesmo e em si mesmo.

O Único Movimento Poético Moderno

O √ļnico movimento po√©tico que me parece moderno √© o Experimentalismo. E estou a referir-me tanto ao nosso pa√≠s como √† poesia em geral. Os meus interesses est√£o de tal modo virados para ela que me √© quase imposs√≠vel dar aten√ß√£o √† poesia convencional, por mais not√°vel que seja, dentro dos seus recursos e prop√≥sitos. Quanto √°s express√Ķes ¬ęformal¬Ľ, ¬ęconceptual¬Ľ, ¬ęest√©tico¬Ľ e ¬ęhumano¬Ľ, (…) nada tenho a dizer. Representam conceitos n√£o integr√°veis, desse modo, no meu processo de pensamento. Em poesia, formal, conceptual, est√©tico e humano significam, conjuntamente, ¬ęlinguagem¬Ľ. E poesia, como diria certo cr√≠tico norte-americano, √© linguagem. Isolar o impl√≠cito, explicitando-o, servir√° apenas para estabelecer um sistema insol√ļvel de situa√ß√Ķes.

N√£o me parece necess√°rio referir a crise das classifica√ß√Ķes liter√°rias. Caminha-se, sabemo-lo todos, para uma vis√£o total da obra liter√°ria que se n√£o podem adoptar distin√ß√Ķes afinal nunca rigorosas, sen√£o de um ponto de vista did√°ctico.