Citação de

Nada Ă© Suficiente para se Morrer

– Nunca pensou escrever um romance?
– Sou um autor de folhetos, acho que interrogativos, e sobretudo um muito interrogativo leitor de perguntas. Mais nada.
– Basta para uma vida ?
– Nem sei se basta para uma verdadeira morte. Nada Ă© suficiente para se morrer. Ou Ă© suficiente cruzar os olhos com os de uma leoa materna. Ou brandir esse pequeno objecto elĂ©ctrico, embora seja tĂŁo pequeno e a noite por todos os lados do quarto pareça interminável. Conheci um homem, um psiquiatra descontente — sĂŁo raros, os psiquiatras descontentes, conheço-os muito contentes a ganhar para enlouquecer as pessoas, rende tanto como a polĂ­tica, trata-se de polĂ­tica, a sinistra polĂ­tica dos tratamentos —, vivia numa ilha, este, descontente, adorava falar de estrelas, constelações, sabia tudo, mas era, digamos, estelarmente irredutĂ­vel: estava contra a ordem celeste. Mandou substituir o tecto do quarto de dormir por uma abĂłbada com um sistema electrĂłnico de corpos celestes, deslocados, todos, relativamente Ă  estrutura natural, autĂłnomos entre si. Ali era a lua nas suas fases e as Ursas e o Cruzeiro do Sul e a estrela Arcturus: um sistema de teclas permitia acender aquilo que se desejasse. O que vigorava era um cĂ©u dele, era ele. Talvez pudesse morrer. De facto morreu mas nĂŁo sei de que maneira interior morreu. Nunca se sabe aquilo que basta. Talvez baste um poema, uma coisa mĂ­nima, viva, nossa, uma coisa sub-reptĂ­cia para empunhar diante do implacável acordo das formas exteriores. TambĂ©m pode ser que nada baste. E nesse caso tanto faz escrever um romance ou cem poemas ou apenas um poema, ou ler ou emendar o cĂ©u astronĂłmico ou manter-se parado no meio de um jardim hĂşmido e silencioso, Ă  noite. AtĂ© pode suceder que a morte nĂŁo seja bastante. E isto sim Ă© interrogativo.