Passagens sobre Ilha

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Frases sobre ilha, poemas sobre ilha e outras passagens sobre ilha para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Nada é Suficiente para se Morrer

– Nunca pensou escrever um romance?
– Sou um autor de folhetos, acho que interrogativos, e sobretudo um muito interrogativo leitor de perguntas. Mais nada.
– Basta para uma vida ?
– Nem sei se basta para uma verdadeira morte. Nada √© suficiente para se morrer. Ou √© suficiente cruzar os olhos com os de uma leoa materna. Ou brandir esse pequeno objecto el√©ctrico, embora seja t√£o pequeno e a noite por todos os lados do quarto pare√ßa intermin√°vel. Conheci um homem, um psiquiatra descontente ‚ÄĒ s√£o raros, os psiquiatras descontentes, conhe√ßo-os muito contentes a ganhar para enlouquecer as pessoas, rende tanto como a pol√≠tica, trata-se de pol√≠tica, a sinistra pol√≠tica dos tratamentos ‚ÄĒ, vivia numa ilha, este, descontente, adorava falar de estrelas, constela√ß√Ķes, sabia tudo, mas era, digamos, estelarmente irredut√≠vel: estava contra a ordem celeste. Mandou substituir o tecto do quarto de dormir por uma ab√≥bada com um sistema electr√≥nico de corpos celestes, deslocados, todos, relativamente √† estrutura natural, aut√≥nomos entre si. Ali era a lua nas suas fases e as Ursas e o Cruzeiro do Sul e a estrela Arcturus: um sistema de teclas permitia acender aquilo que se desejasse. O que vigorava era um c√©u dele,

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Viver Com os Contempor√Ęneos Ou Ser Eterno

Se quisermos ganhar a gratidão da nossa própria era, temos de nos manter a par dela. Mas, se o fizermos, nada de grande produziremos. Quem tiver algo importante em vista deverá dirigir-se à posteridade: mas assim, na verdade, ficar-se-á provavelmente desconhecido dos contemporãneos: ser-se-á como alguém forçado a passar a vida numa ilha deserta e aí se esforçando por erguer um monumento, de modo que os futuros navegantes fiquem a saber que ele existiu.

1 universo, 8 planetas, 204 pa√≠ses, 809 ilhas, 7 mares, 7 bilh√Ķes de pessoas. E a √ļnica pessoa que eu s√≥ preciso para ser feliz √© voc√™ !

Elegia Marítima

Nasceu da terra. Seu corpo,
feito do limo das grutas,
surgiu cavalgando um rio
por uma estrada de luas.

Através de ondas agrestes
de um oceano vegetal,
de onde acenavam aos olhos
ilhotas de manac√°s,

alcançou o colo das praias
que a m√£o lasciva do mar
aperta, despe e mergulha
em seu aroma de sal.

Ali viveu junto às vagas
essa esquiva amendoeira,
cabelos soltos à brisa,
pés escondidos na areia.

Um dia o mar a arrastou
através de ilhas sem fim.
Parti com ela. E hoje canta
a morte dentro de mim.

A Idade da Derrota Aceite

Tenho sessenta anos. N√£o te iludas: n√£o estou ainda bastante fraco para ceder √†s imagina√ß√Ķes do medo, quase t√£o absurdas como as da esperan√ßa e seguramente muito mais penosas. Se fosse preciso enganar-me a mim mesmo, preferia que fosse no sentido da confian√ßa; n√£o perderia mais com isso e sofreria menos. Este fim t√£o pr√≥ximo n√£o √© necessariamente imediato; deito-me ainda, todas as noites, com a esperan√ßa de chegar √† manh√£ seguinte. Adentro dos limites intranspon√≠veis de que te falei h√° pouco, posso defender a minha posi√ß√£o passo a passo e recuperar mesmo algumas polegadas do terreno perdido. N√£o deixo por isso de ter chegado √† idade em que a vida se torna, para cada homem, uma derrota aceite. Dizer que os meus dias est√£o contados n√£o significa nada; sempre assim foi; √© assim para todos n√≥s. Mas a incerteza do lugar, do tempo e do modo, que nos impede de distinguir bem o fim para o qual avan√ßamos sem cessar, diminui para mim √† medida que a minha doen√ßa mortal progride. Qualquer pessoa pode morrer de um momento para o outro, mas o doente sabe que passados dez anos j√° n√£o ser√° vivo.
A minha margem de hesitação já não se alonga em anos,

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Definição do Amor

“Amor √© fogo que arde sem se ver
é ferida que doi e não se sente
é um contentamento descontente
√© dor que desatina sem doer”
(Cam√Ķes)

Que o poeta de todos os poetas
me conceda boa estrela
que a estrela de todos os astros
me premeie na lapela
prémios de honor
prefiro os muitos
oferecidos pelas m√£os do amor
coroando o amor e seus heterónimos
nem vão caber nos Jerónimos

Amores anónimos não há
e assim foi pela madrugada
mesmo que seja um “assim fosse”
vou nomear-te namorada
ninguém já soube o que é o amor
se o amor é aquilo que ninguém viu
uma cor que fugiu
de um pano leve
e pairou serena e breve
no ar
(Pousa agora, borboleta
na pena deste poeta:)

√Č uma cor que d√° na vida
o amor
é uma luz que dá na cor
√Č uma cor que d√° na vida
o amor
é uma luz que dá na cor
mas é uma batalha perdida
que se trava com ardor
é uma cor que dá na vida
o amor
dor que desatina sem doer

Se devagar se vai ao longe
devagar te quero perto
mesmo que o que arde nunca cure
vou beijar-te a sol aberto
é já dos livros que o instante
se parece tanto com a eternidade
e que o amor,

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A Arte de Ser Amada

Eu sou líquida mas recolhida
no íntimo estanho de uma jarra
e em tua boca um clavicórdio
quer recordar-me que sou √°ria

aérea vária porém sentada
perfil que os flamingos voaram.
Pelos canteiros eu conto os ger√Ęnios
de uns tantos anos que nos separam.

Teu amor de planta submarina
procura um h√ļmido lugar.
Sabiamente preencho a piscina
que te dê o hábito de afogar.

Do que n√£o viste a minha idade
te inquieta como a ciência
do mundo ser muito velho
três vezes por mim rodeado
sem saber da tua existência.

Pensas-me a ilha e me sitias
de violinos por todos os lados
e em tua pele o que eu respiro
é um ar de frutos sossegados.

Que não Arrefeça em Nós

Que não arrefeça em nós
nem a luz nem o fogo
e que a fome entardecida
pela penumbra da fadiga dos olhos
nunca renuncie ao sabor dos frutos
ou à febre da sede dos lábios.
Assim se faça tudo, amor,
à medida do que se ama,
que o corpo prostrado pelo êxtase
não conhece tréguas nem assombro.
Desenha-me na paz dos azulejos
com o meu perfil de ave anoitecida
e inaugura no meu peito
a festa circular dos dedos
tatuando ilhas em redor do coração.
Esquiva, demoras-te no verso
o instante de lume de uma revelação
e quando voltas é sempre
com uma promessa de partida
e quando partes é sempre
com um an√ļncio de caos, de temor
na clara √°gua do olhar. Deixo-te agora
amar, indefesa, para resgate da alma.

Para a Salvação da Democracia

Ora a democracia cometeu, a meu ver, o erro de se inclinar algum tanto para Maquiavel, de ter apenas pluralizado os pr√≠ncipes e ter constitu√≠do em cada um dos cidad√£os um aspirante a opressor dos que ao mesmo tempo declarava seus iguais. Ser esmagada pelos condottieri que disp√Ķem das lan√ßas mercen√°rias ou pela coaliz√£o dos que manejam o boletim de voto √© para a consci√™ncia o mesmo choque violento e o mesmo intoler√°vel abuso; um tirano das ilhas vale os trinta de Atenas e os milhares de espartanos. Pode ser esta a origem de muita reac√ß√£o que parece incompreens√≠vel; h√° almas que se entregaram a outros campos porque se sentiam feridas pela prepot√™ncia de indiv√≠duos que defendiam atitudes morais s√≥ fundadas na utilidade social, na combina√ß√£o pol√≠tica. E de facto, o que se tem realizado √©, quase sempre, um arremedo de democracia sem verdadeira liberdade e sem verdadeira igualdade, exactamente porque se tomou como base do sistema uma rela√ß√£o do homem com o homem e n√£o uma rela√ß√£o do homem com o esp√≠rito de Deus. Por outras palavras: para que a democracia se salve e regenere √© urgente que se busque assent√°-la em fundamentos metaf√≠sicos e se procure a origem do poder n√£o nos caprichos e disposi√ß√Ķes individuais,

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Ilha

Eis-me completamente só em plena vida,
sem uma amor sequer à vista, sem ninguém:
– a que um dia julguei eterna, a mais querida,
tra√≠-a, e me traiu… j√° n√£o lhe quero bem…

a outra, a que me chegou quase que despercebida
e acabou sendo tudo o que a paixão contém,
tal como me chegou partiu: sem despedida!
e eis-me só, na lembrança, a aguardá-la também.

Completamente só, perdido em plena vida
como desabitada ilha, íngreme penha
fora de rota, a erguer-se entre vagas bravias.

Uma ilha em pleno mar, esperando esquecida
que algum n√°ufrago amor ( algum dia) ainda venha
por milagre encontrar suas praias vazias..

As sensa√ß√Ķes fortes entontecem-me e fazem-me sofrer. A nossa vida neste velho Portugal, vida toda de resigna√ß√£o e sentimentalidade, vida estreita e mesquinha, sem horizontes nem ondas largas, conv√©m mais a uma velhota de 27 anos que vive pela imagina√ß√£o mais do que tu podes imaginar; na minha cadeira da Ilha, com um livro que me encanta sobre o rega√ßo eu viajo, √†s vezes, mais do que os maiores vagabundos, pelo mundo fora.

Tenho uma Saudade t√£o Braba

Tenho uma saudade t√£o braba
Da ilha onde j√° n√£o moro,
Que em velho só bebo a baba
Do pouco pranto que choro.

Os meus parentes, com dó,
Bem que me querem levar,
Mas talvez que nem meu pó
Mereça a Deus lá ficar.

Enfim, só Nosso Senhor
H√°-de decidir se posso
Morrer l√° com esta dor,
A meio de um Padre Nosso.

Quando se diz ¬ęSeja feita¬Ľ
Eu sentirei na garganta
A m√£o da Morte, direita
A este peito, que ainda canta.

Se Fosse Alguma Coisa, N√£o Poderia Imaginar

Monotonizar a exist√™ncia, para que ela n√£o seja mon√≥tona. Tornar an√≥dino o quotidiano, para que a mais pequena coisa seja uma distrac√ß√£o. No meio do meu trabalho de todos os dias, ba√ßo, igual e in√ļtil, surgem-me vis√Ķes de fuga, vest√≠gios sonhados de ilhas long√≠nquas, festas em √°leas de parques de outras eras, outras paisagens, outros sentimentos, outro eu.
Mas reconheço, entre dois lançamentos, que se tivesse tudo isso, nada disso seria meu.

Mais vale, na verdade, o patrão Vasques que os Reis do Sonho; mais vale, na verdade, o escritório da Rua dos Douradores do que as grandes áleas dos parques impossíveis. Tendo o patrão Vasques, posso gozar a visão interior das paisagens que não existem. Mas se tivesse os Reis do Sonho, que me ficaria para sonhar? Se tivesse as paisagens impossíveis, que me restaria de possível ?
(…) Posso imaginar-me tudo, porque n√£o sou nada. Se fosse alguma coisa, n√£o poderia imaginar. O ajudante de guarda-livros pode sonhar-se imperador romano; o Rei de Inglaterra n√£o o pode fazer, porque o Rei de Inglaterra est√° privado de o ser, em sonhos, outro rei que n√£o o rei que √©. A sua realidade n√£o o deixa sentir.

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Depois Da Luta E Depois Da Conquista

Depois da luta e depois da conquista
Fiquei só! Fora um ato antipático!
Deserta a Ilha, e no lençol aquático
Tudo verde, verde, – a perder de vista.

Porque vos fostes, minhas caravelas,
Carregadas de todo o meu tesoiro?
– Longas teias de luar de lhama de oiro,
Legendas a diamantes das estrelas!

Quem vos desfez, formas inconsistentes,
Por cujo amor escalei a muralha,
– Le√£o armado, uma espada nos dentes?

Felizes vós, ó mortos da batalha!
Sonhais, de costas, nos olhos abertos
Refletindo as estrelas, boquiabertos…

Nas Praças

Nas pra√ßas vindouras ‚ÄĒ talvez as mesmas que as nossas ‚ÄĒ
Que elixires ser√£o apregoados?
Com rótulos diferentes, os mesmos do Egito dos Faraós;
Com outros processos de os fazer comprar, os que j√° s√£o nossos.

E as metafísicas perdidas nos cantos dos cafés de toda a parte,
As filosofias solit√°rias de tanta trapeira de falhado,
As id√©ias casuais de tanto casual, as intui√ß√Ķes de tanto ningu√©m ‚ÄĒ
Um dia talvez, em fluido abstrato, e subst√Ęncia implaus√≠vel,
Formem um Deus, e ocupem o mundo.
Mas a mim, hoje, a mim
N√£o h√° sossego de pensar nas propriedades das coisas,
Nos destinos que n√£o desvendo,
Na minha própria metafisica, que tenho porque penso e sinto.

N√£o h√° sossego,
E os grandes montes ao sol têm-no tão nitidamente!

Têm-no? Os montes ao sol não têm coisa nenhuma do espírito.
N√£o seriam montes, n√£o estariam ao sol, se o tivessem.

O cansaço de pensar, indo até ao fundo de existir,
Faz-me velho desde antes de ontem com um frio até no corpo.

E por que é que há propósitos mortos e sonhos sem razão?

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A Noite na Ilha

Dormi contigo toda a noite
junto ao mar, na ilha.
Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a √°gua.

Os nossos sonos uniram-se
talvez muito tarde
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento agita,
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.

0 teu sono separou-se
talvez do meu
e andava à minha procura
pelo mar escuro
como dantes,
quando ainda n√£o existias,
quando sem te avistar
naveguei a teu lado
e os teus olhos buscavam
o que agora
‚ÄĒ p√£o, vinho, amor e c√≥lera ‚ÄĒ
te dou às mãos cheias,
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.

Dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra escura gira
com os vivos e os mortos,
e ao acordar de repente
no meio da sombra
o meu braço cingia a tua cintura.
Nem a noite nem o sono
puderam separar-nos.

Dormi contigo
e, ao acordar, tua boca,

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As Ilhas e as Flores

Percorreu um trilho ao longo da manh√£ e sentou-se a comer entre as az√°leas. Quando um dia voltasse a partir, talvez nada lhe fizesse tanta falta como as flores. As hort√™nsias e as √°rvores-de-fogo, as beladonas e as cam√©lias, as magn√≥lias e as olaias: encantava-o a cad√™ncia a que floriam naquela ilha ‚ÄĒ e depois ainda havia os hibiscos, os jarros e os mantos infinitos de erva azeda, sempre prontos a acorrer a algum sobressalto da meteorologia, para que nunca faltasse a cor.
Podia dizer-se o que se quisesse sobre as ilhas, menos que fossem claustrofóbicas. Não as ilhas onde houvesse flores.

O homem cortês está certo de que o seu coração não será jamais uma ilha solitária.