Cita√ß√Ķes de √Ālvaro de Campos

201 resultados
Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de √Ālvaro de Campos para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Meu Coração é um Enorme Estrado

Conclus√£o a sucata !… Fiz o c√°lculo,
Saiu-me certo, fui elogiado…
Meu coração é um enorme estrado
Onde se exp√Ķe um pequeno anim√°lculo…

A microsc√≥pio de desilus√Ķes
Findei, prolixo nas min√ļcias f√ļteis…
Minhas conclus√Ķes pr√°ticas, in√ļteis…
Minhas conclus√Ķes te√≥ricas, confus√Ķes…

Que teorias h√° para quem sente
O cérebro quebrar-se, como um dente
Dum pente de mendigo que emigrou ?

Fecho o caderno dos apontamentos
E faço riscos moles e cinzentos
Nas costas do envelope do que sou…

L√†-bas, Je Ne Sais O√Ļ…

V√©spera de viagem, campainha…
N√£o me sobreavisem estridentemente!
Quero gozar o repouso da gare da alma que tenho
Antes de ver avançar para mim a chegada de ferro
Do comboio definitivo,
Antes de sentir a partida verdadeira nas goelas do est√īmago,
Antes de p√īr no estribo um p√©
Que nunca aprendeu a não ter emoção sempre que teve que partir.
Quero, neste momento, fumando no apeadeiro de hoje,
Estar ainda um bocado agarrado à velha vida.
Vida in√ļtil, que era melhor deixar, que √© uma cela?
Que importa?
Todo o Universo é uma cela, e o estar preso não tem que ver com o tamanho da cela.

Sabe-me a n√°usea pr√≥xima o cigarro. O comboio j√° partiu da outra esta√ß√£o…
Adeus, adeus, adeus, toda a gente que n√£o veio despedir-se de mim,
Minha fam√≠lia abstrata e imposs√≠vel…
Adeus dia de hoje, adeus apeadeiro de hoje, adeus vida, adeus vida!
Ficar como um volume rotulado esquecido,
Ao canto do resguardo de passageiros do outro lado da linha.
Ser encontrado pelo guarda casual depois da partida ‚ÄĒ
“E esta? Ent√£o n√£o houve um tipo que deixou isto aqui?”

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No Lugar dos Pal√°cios Desertos

No lugar dos palácios desertos e em ruínas
À beira do mar,
Leiamos, sorrindo, os segredos dos sinais
De quem sabe amar.

Qualquer que ele seja, o destino daqueles
Que o amor levou
Para a sombra, ou na luz se fez a sombra deles,
Qualquer fosse o v√īo.

Por certo eles foram mais reais e felizes.

Depois de um quarto de hora de artistas, é uma libertação trocar o privilégio das boas tardes com um carroceiro humano.

O essencial √© sentir directa e simplesmente. Eu sinto directa e simplesmente. Sinto o complexo, o anormal e o artificial? √Č o meu modo de sentir. Logo que eu os sinta espontaneamente, estou no meu lugar, no lugar que a Natureza, criando-me assim, me imp√īs. Cumpro o meu dever.

Gazetilha

Dos LLOYD GEORGES da Babil√īnia
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egito,
Dos Trotskys de qualquer col√īnia
Grega ou romana j√° passada,
O nome é morto, inda que escrito.

Só o parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um ge√īmetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que est√° l√° para tr√°s no escuro
E nem a história já historia.

√ď grandes homens do Momento!
√ď grandes gl√≥rias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!

Nuvens

No dia triste o meu cora√ß√£o mais triste que o dia…
Obriga√ß√Ķes morais e civis?
Complexidade de deveres, de consequências?
N√£o, nada…
O dia triste, a pouca vontade para tudo…
Nada…

Outros viajam (também viajei), outros estão ao sol
(Também estive ao sol, ou supus que estive),
Todos t√™m raz√£o, ou vida, ou ignor√Ęncia sim√©trica,
Vaidade, alegria e sociabilidade,
E emigram para voltar, ou para n√£o voltar,
Em navios que os transportam simplesmente.
N√£o sentem o que h√° de morte em toda a partida,
De mistério em toda a chegada,
De horr√≠vel em todo o novo…

N√£o sentem: por isso s√£o deputados e financeiros,
Dançam e são empregados no comércio,
V√£o a todos os teatros e conhecem gente…
N√£o sentem: para que haveriam de sentir?
Gado vestido dos currais dos Deuses,
Deixá-lo passar engrinaldado para o sacrifício
Sob o sol, alacre, vivo, contente de sentir-se…
Deixai-o passar, mas ai, vou com ele sem grinalda
Para o mesmo destino!
Vou com ele sem o sol que sinto, sem a vida que tenho,
Vou com ele sem desconhecer…

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Ao voltar hoje a p√°gina de um livro de filosofia, tive a revela√ß√£o de que a p√°gina seguinte seria igualmente in√ļtil.

Ter opini√Ķes √© estar vendido a si mesmo. N√£o ter opini√Ķes √© existir. Ter todas as opini√Ķes √© ser poeta.

Estou Tonto

Estou tonto,
Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar,
Ou de ambas as coisas.
O que sei é que estou tonto
E n√£o sei bem se me devo levantar da cadeira
Ou como me levantar dela.
Fiquemos nisto: estou tonto.

Afinal
Que vida fiz eu da vida?
Nada.
Tudo interstícios,
Tudo aproxima√ß√Ķes,
Tudo função do irregular e do absurdo,
Tudo nada.
√Č por isso que estou tonto …

Agora
Todas as manh√£s me levanto
Tonto …

Sim, verdadeiramente tonto…
Sem saber em mim e meu nome,
Sem saber onde estou,
Sem saber o que fui,
Sem saber nada.

Mas se isto é assim, é assim.
Deixo-me estar na cadeira,
Estou tonto.
Bem, estou tonto.
Fico sentado
E tonto,
Sim, tonto,
Tonto…
Tonto.

Mestre

Mestre, meu mestre querido,
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?

N√£o cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada,
Alma abstracta e visual até aos ossos.
Aten√ß√£o maravilhosa ao mundo exterior sempre m√ļltiplo,
Ref√ļgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dil√ļvio da intelig√™ncia subjectiva…

Mestre, meu mestre!
Na ang√ļstia sensacionalista de todos os dias sentidos,
Na m√°goa quotidiana das matem√°ticas de ser,
Eu, escrevo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as m√£os para ti, que est√°s longe, t√£o longe de mim!

Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.

Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.

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Mas Eu

Mas eu, em cuja alma se refletem
As forças todas do universo,
Em cuja reflex√£o emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antag√īnicas e absurdas se sucedem ‚ÄĒ
Eu o foco in√ļtil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensa√ß√Ķes,
Eu o abstrato, eu o projetado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto
Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água.