Poemas sobre Loucura

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Poemas de loucura escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Elogio da Dist√Ęncia

Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.

Aqui, coração
que andou entre os homens, arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:

Mais negro no negro, estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.

Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.

Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.

Na fonte dos teus olhos
um enforcado estrangula o baraço.
Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno

Tenho Amor, sem Ter Amores

MOTE E GLOSA

Tenho amor, sem ter amores.

GLOSAS

Este mal que n√£o tem cura,
Este bem que me arrebata,
Este rigor que me mata,
Esta entendida loucura
√Č mal e √© bem que me apura;
Se equivocando os rigores
Da fortuna aos favores,
√Č rem√©dio em caso tal
Dar por resposta ao meu mal:
Tenho amor, sem ter amores.
√Č fogo, √© inc√™ndio, √© raio,
Este, que em penosa calma,
Sendo do meu peito alma,
De minha vida é desmaio:
E pois em moral ensaio
Da dor padeço os rigores,
Pergunta em tristes clamores
A causa da minha aflição,
Respondeu o coração:
Tenho amor, sem ter amores.

Ode ao Destino

Destino: desisti, regresso, aqui me tens.

Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
Рah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.

Em v√£o tentei n√£o conhecer-te, n√£o notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava                               [em bandos,
pura conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magn√Ęnimo,
√ļnico mist√©rio de um mundo cujo mist√©rio eras tu.

Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada,

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Ora Até que Enfim

Ora at√© que enfim…, perfeitamente…
C√° est√° ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça.
Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabe√ßa teve o sobressalto pela espinha acima…

Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a sarapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!

Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solu√ß√£o, e foi preciso o est√īmago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!

Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organiza√ß√£o de poemas relativos √† vastid√£o de cada assunto resolvido em v√°rios ‚ÄĒ
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim…
Tenho uma n√°usea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia,

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Quis Achar Teu Corpo

Quis achar no teu corpo uma loucura nova
alguma coisa viva
que l√° n√£o estava
e que era só minha
e que eu te emprestava.

Ent√£o, deu-me saudade
do tempo em que teu corpo
fruta à prova
já era, por si só, uma loucura nova.

Como se Morre de Velhice

Como se morre de velhice
ou de acidente ou de doença,
morro, Senhor, de indiferença.

Da indiferença deste mundo
onde o que se sente e se pensa
não tem eco, na ausência imensa.

Na ausência, areia movediça
onde se escreve igual sentença
para o que é vencido e o que vença.

Salva-me, Senhor, do horizonte
sem estímulo ou recompensa
onde o amor equivale à ofensa.

De boca amarga e de alma triste
sinto a minha própria presença
num céu de loucura suspensa.

(J√° n√£o se morre de velhice
nem de acidente nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença.)

Loira

Eu descia o Chiado lentamente
Parando junto às montras dos livreiros
Quando passaste ir√īnica e insolente,
Mal pousando no chão os pés ligeiros.

O céu nublado ameaçava chuva,
Saía gente fina de uma igreja;
Destacavam no traje de vi√ļva
Teus cabelos de um louro de cerveja.

E a mim, um desgraçado a quem seduzem
Compara√ß√Ķes estranhas, sem raz√£o,
Lembrou-me este contraste o que produzem
Os gal√Ķes sobre os panos de um caix√£o.

Eu buscava uma rima bem intensa
Para findar uns versos com amor;
Olhaste-me com cega indiferença
Através do lorgnon provocador.

Detinham-se a medir tua eleg√Ęncia
Os dandies com aprumo e galhardia;
Segui-te humildemente e a dist√Ęncia,
N√£o fosses suspeitar que te seguia.

E pensava de longe, triste e pobre,
Desciam pela rua umas varinas
Como podias conservar-te sobre
O salto exagerado das botinas.

E tu, sempre febril, sempre inquieta,
Havia pela rua uns charcos de √°gua
Ergueste um pouco a saia sobre a an√°gua
De um tecido ligeiro e violeta.

Adorável! Na idéia de que agora
A branda an√°gua a levantasse o vento
Descobrindo uma curva sedutora,

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Procuro e n√£o te encontro

Procuro e n√£o te encontro
n√£o paro, nem volto atr√°s
Eu sei, dizem todos que é loucura
Eu andar à tua procura
Sabendo bem onde tu est√°s!
Procuro e n√£o te encontro
Procuro nem sei o quê!
Só sei, que por vezes ficamos frente a frente
E ao ver-te ali finalmente
Procuro, mas n√£o te encontro!

Preferes a outra e queres
Que eu nunca, v√° ter contigo
Por isso, tenho um caminho marcado
E vou procurar-te ao passado
Para lembrar o amor antigo
Procuro e n√£o te encontro,
Procuro, nem sei o quê
Só sei, que por vezes ficamos frente a frente
E ao ver-te ali finalmente
Procuro, mas… n√£o te encontro!

Embirração

(A Machado de Assis)

A balda alexandrina é poço imenso e fundo,
Onde poetas mil, flagelo deste mundo,
Patinham sem parar, chamando l√° por mim.
N√£o morrer√£o, se um verso, estiradinho assim,
Da beira for do poço, extenso como ele é,
Levar-lhes grosso anzol; então eu tenho fé
Que volte um afogado, à luz da mocidade,
A ver no mundo seco a seca realidade.

Por eles, e por mim, receio, caro amigo;
Permite o desabafo aqui, a sós contigo,
Que à moda fazer guerra, eu sei quanto é fatal;
Nem vence o positivo o frívolo ideal;
Despótica em seu mando, é sempre fátua e vã,
E até da vã loucura a moda é prima-irmã:
Mas quando venha o senso erguer-lhe os densos véus,
Do verso alexandrino h√° de livrar-nos Deus.

Deus quando abre ao poeta as portas desta vida,

Não lhe depara o gozo e a glória apetecida;
E o triste, se morreu, deixando mal escritas
Em verso alexandrino histórias infinitas,
Vai ter lá noutra vida insípido desterro,
Se Deus, por compaix√£o, n√£o d√° perd√£o ao erro;

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Vozes da Noite

Vozes na Noite! Quem fala
Com tanto ardor, tanto af√£?
Falou o Grilo primeiro,
Logo depois foi a R√£.

Pobre loucura dos homens
Quando julgam entendê-las…
Só eles pasmam os olhos
Neste encanto das estrelas…

Lá no silêncio dos campos
Ou no mais ermo da serra,
Na voz das rãs dala a àgua,
Na voz dos grilos a Terra.

Só eles cantam a vida
Com amor e singeleza,
Por ser descuidada, alegre;
Por ser simples, com beleza.

Pudesse agora dizer-te,
Sem ser por palavras v√£s,
O que diz a voz dos grilos,
O que diz a voz das r√£s.

O Sentimento dum Ocidental

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
H√° tal soturnidade, h√° tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O g√°s extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposi√ß√Ķes, pa√≠ses:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edifica√ß√Ķes somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquet√£o ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueir√Ķes, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Cam√Ķes no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu n√£o verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

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De Que S√£o Feitos os Dias?

De que s√£o feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre m√°goas sombrias,
moment√Ęneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alian√ßas…

Menina e Moça

Est√° naquela idade inquieta e duvidosa,
Que não é dia claro e é já o alvorecer;
Entreaberto bot√£o, entrefechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher.

Às vezes recatada, outras estouvadinha,
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor;
Tem coisas de criança e modos de mocinha,
Estuda o catecismo e lê versos de amor.

Outras vezes valsando, e* seio lhe palpita,
De cansaço talvez, talvez de comoção.
Quando a boca vermelha os l√°bios abre e agita,
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração.

Outras vezes beijando a boneca enfeitada,
Olha furtivamente o primo que sorri;
E se corre parece, à brisa enamorada,
Abrir asas de um anjo e tranças de uma huri.

Quando a sala atravessa, é raro que não lance
Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar
N√£o leia, um quarto de hora, as folhas de um romance
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.

Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia,
A cama da boneca ao pé do toucador;

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Eu e Ela

Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de m√°rmore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más idéias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distração,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiro,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou apagãos, via à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavaleiro de Faublas…

Partida

Ao ver escoar-se a vida humanamente
Em suas √°guas certas, eu hesito,
E detenho-me às vezes na torrente
Das coisas geniais em que medito.

Afronta-me um desejo de fugir
Ao mistério que é meu e me seduz.
Mas logo me triunfo. A sua luz
N√£o h√° muitos que a saibam reflectir.

A minh’alma nost√°lgica de al√©m,
Cheia de orgulho, ensombra-se entretanto,
Aos meus olhos ungidos sobe um pranto
Que tenho a f√īr√ßa de sumir tamb√©m.

Porque eu reajo. A vida, a natureza,
Que s√£o para o artista? Coisa alguma.
O que devemos é saltar na bruma,
Correr no azul √° busca da beleza.

√Č subir, √© subir √†lem dos c√©us
Que as nossas almas só acumularam,
E prostrados resar, em sonho, ao Deus
Que as nossas mãos de auréola lá douraram.

√Č partir sem temor contra a montanha
Cingidos de quimera e d’irreal;
Brandir a espada fulva e medieval,
A cada hora acastelando em Espanha.

√Č suscitar c√īres endoidecidas,
Ser garra imperial enclavinhada,
E numa extrema-un√ß√£o d’alma ampliada,

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Memórias

Você foi a maior das minhas amarguras
E vive até hoje na minha loucura
E foi a mais cruel de todas as vitórias
E faz parte do livro das minhas memórias
Lembrar de que nada de bom,
Você me deu, só machuca alguém
Que n√£o viveu

Vou recomeçar,
Vou tentar viver
Vou tirar você da minha vida
E p’ra n√£o chorar
Antes de partir
Vou tentar sorrir na despedida

Agora que voltei à minha realidade
Tentando me esquecer,
De que tudo foi verdade
Vou rebuscando,
Fundo nas minhas memórias
P’ra riscar voc√™ da minha hist√≥ria

Demogorgon

Na rua cheia de sol vago h√° casas paradas e gente que anda.
Uma tristeza cheia de pavor esfria-me.
Pressinto um acontecimento do lado de l√° das frontarias e dos movimentos.

N√£o, n√£o, isso n√£o!
Tudo menos saber o que é o Mistério!
Superfície do Universo, ó Pálpebras Descidas,
N√£o vos ergais nunca!
O olhar da Verdade Final n√£o deve poder suportar-se!

Deixai-me viver sem saber nada, e morrer sem ir saber nada!
A raz√£o de haver ser, a raz√£o de haver seres, de haver tudo,
Deve trazer uma loucura maior que os espaços
Entre as almas e entre as estrelas.

N√£o, n√£o, a verdade n√£o! Deixai-me estas casas e esta gente;
Assim mesmo, sem mais nada, estas casas e esta gente…
Que bafo horrível e frio me toca em olhos fechados?
Não os quero abrir de viver! ó Verdade, esquece-te de mim!

D. SEBASTIÃO

Rei de Portugal

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a n√£o d√°.
N√£o coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal est√°
Ficou meu ser que houve, n√£o o que h√°.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cad√°ver adiado que procria?

Abaixo el-rei Sebasti√£o

√Č preciso enterrar el-rei Sebasti√£o
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado j√° n√£o pode vir.
√Č preciso quebrar na ideia e na can√ß√£o
a guitarra fant√°stica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.

Eu digo que est√° morto.
Deixai em paz el-rei Sebasti√£o
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair o porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.

Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.

Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.

Eu e ela

Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de m√°rmore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem m√°s ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distracção,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiros,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou pagãos, vida à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavalheiro de Flaublas…