Citações de Isabel de Sá

3 resultados
Frases, pensamentos e outras citações de Isabel de Sá para ler e compartilhar. Os melhores escritores estão em Poetris.

Realidade

Por causa de um livro
vieste ao meu encontro.
Era VerĂŁo, nĂŁo sabias de nada
nem isso interessava. Palavras
amavam-se fora de ti,
no atropelo das emoções.
Lá chegaria a primeira vez,
o encontro apressado num lugar
pĂşblico. Desfeito o erro
ao toque da pele, nĂŁo sei
se havia medo, a paixĂŁo queria-me
no lugar exacto do teu coração.
Palavras enrolam-se na sombra
da vida a dor do sentimento.

Atingido o espĂ­rito, o tempo
da infância, a realidade. Em ti
a solidĂŁo que o prazer
nĂŁo mata. Quero a beleza
dos versos revelada.
Alguns anos passaram sobre
a nossa histĂłria que nĂŁo acabou.
A tarde envelhece e escrevo isto
sem saber porquĂŞ.

ConclusĂŁo

Fui amante da morte
e da beleza. Vi a loucura,
acreditei na vida.
Da infância falei
como lugar de abismo.
O prazer
foi também a grande fonte
de perturbação e alegria.
Lembrei as mulheres
que recusaram submeter-se,
escrevi palavras fĂşnebres.

NĂŁo poupei a adolescĂŞncia,
o coração magoado
e nĂŁo soube que fazer
de mim fora das palavras.
Escrevi para desistir
e depender
e ter identidade.

Eu Ela e a Escrita

Eu ela e a escrita existimos desde o princípio. A escrita forma-se em mim, passa por ela e volta à minha pele num jogo sensual e íntimo. É um ser maleável aos gestos que executamos, vive e morre com os nossos impulsos. Quando se ausenta deixa sinais. Faz-nos confidências da sua vida errante, elabora sentimentos que não esperávamos que tivesse quando junta ao nosso, o seu instinto criativo. Assim, utilizo agora palavras que nunca pensei vir a escrever. Aceito-as porque as sei da espécie da personagem que habita connosco, conivente com os erros que cometemos.

Quando adolescente, passava o tempo a ler o dicionário, apercebendo-me da corrosão de algumas palavras, do seu poder destrutivo. Noutras havia sombra e um peso monstruoso. E as que ao tempo foram luminosas, irradiavam um brilho que se colou aos meus dedos. Eu gastava os dias a limpar-me dessa luz até não haver em mim resíduos de leitura. Descobria o esquecimento, onde o poema veio a ser abismo, outra vida onde o sorriso da morte teve muita importância. Amei a imperfeição do ser humano. Revisitei a infância e aquilo que em nós é real. Não soube prescindir da beleza.